Revista Statto

O COMPLEXO DE VIRA-LATA DE SANTA MARIA

16/05/2019 às 11h38

Sem pretender desfazer de outras cidades, Santa Maria é uma das mais belas da região.

Tem problemas (qual cidade não tem?), mas tem um comércio pujante, uma rede extraordinária de prestação de serviços, notadamente na área de educação e medicina, está ligada ao resto do Estado por rodovias razoáveis, tem um aeroporto com voos regionais, acumula diversas unidades militares e milhares de soldados, tem uma polícia, civil e militar, que funciona, o Poder Judiciário, o Poder Legislativo e o Poder Executivo funcionando normalmente.

Conta com dezenas de restaurantes, desde espaços sofisticados até lancherias de rua, alguns cinemas, pelo menos um teatro.

É um bom lugar para viver e trabalhar.

Por isso, me impressiona que, volta e meia, alguém diz que “não tem nada para fazer em Santa Maria, que em Porto Alegre isso, mais aquilo”.

Ora, Santa Maria conta com menos de 280 mil habitantes e Porto Alegre é a Capital do Estado, com mais de um milhão e quatrocentos mil habitantes. É absolutamente natural que lá exista maior número de restaurantes, teatros, cinemas, hospitais, etc., etc., etc.

Já imaginou se Santa Maria tivesse tantos restaurantes como Porto Alegre? Quebrava oitenta por cento em trinta dias!

Cada cidade tem suas necessidades e assim os serviços vão sendo criados ou mantidos. Ou seja, poderia haver maior variedade de serviços em Santa Maria? Provavelmente sim, mas é um complexo de vira-latas ficar falando mal de Santa Maria só porque ela é diferente de Porto Alegre.

Na região existem cidades lindas de se visitar, mas sempre falta alguma coisa. Cada cidadão tem um conjunto de necessidades e vai, na medida do possível, escolhendo o lugar onde elas possam ser atendidas, mas sempre faltará alguma coisa.

Não estou propondo de que nos conformemos com nossas deficiências, mas que procuremos olhar mais para o que temos.

Vamos valorizar nossas universidades, nosso patrimônio histórico, nossos poucos, mas bons restaurantes, nosso teatro (onde 95% da população nunca entrou, por puro desinteresse!), nossas praças (algumas combalidas, é verdade), nossos jovens e idosos, nossas montanhas, sol e clima.

Viver em uma cidade é uma escolha ou uma imposição de trabalho. Cabe-nos nos adaptar a ela e tentar melhorá-la.

Ficar desfazendo de Santa Maria é próprio de ingratos, e isso eu não sou.

Fonte da Imagem: Arquivo da Secretaria Municipal de Turismo de Santa Maria/RS

O HOSPÍCIO DA REGULAÇÃO ABUSIVA

14/05/2019 às 11h51

Não tenho mais idade para ser ingênuo e, pretensiosamente, já vi tanta coisa na área de Direito que me sinto habilitado a fazer fortes críticas ao excesso regulador do Estado, aí compreendido a União, os Estados e os Municípios.

Se Estados Federados e Municípios estão obrigados a cumprir as normas da Constituição Federal, ninguém me convence da real necessidade de dezenas de Constituições Estaduais e milhares de Leis Orgânicas Municipais em que noventa por cento das disposições repetem a primeira, o que é evidente.

Nem mesmo os profissionais do Direito mais antenados conseguem ter acesso, conhecimento e compreensão das milhões de leis federais, estaduais e municipais, decretos, normas regulamentadoras, portarias, ordens de serviços, instruções normativas, etc. etc. etc.!

É uma verdadeira floresta, um “cipoal” incompreensível de normas e regulamentos, sendo que em alguns casos uma confronta a outra, uma estabelece uma norma num sentido e outra noutro sentido. Uma casa de loucos, com o devido respeito àqueles que sofrem das faculdades mentais.

Só no que se refere às Normas Regulamentadoras de Segurança e Medicina do Trabalho temos hoje 37, com milhares de disposições que ocupam, facilmente, mais de mil páginas de um livro em papel bíblia.

Tenho certeza que os “legisladores”, que são “grupos e comissões compostas por representantes do governo, de empregadores e de empregados”, estão bem-intencionados, mas é lei demais. Nem mesmo uma empresa gigante, com conte com departamento específico, com dezenas de técnicos, consegue controlar tanta norma.

Sei que são milhares os acidentes de trabalho e são necessárias normas regulamentadoras, mas será que não é possível reduzir um pouco o número de NR’s para descomplicar minimamente a vida das empresas?

O hospício da regulamentação desenfreada está jogando contra a regulamentação racional e proporcional, abrindo campo para os corruptos e corruptores.

Quem atira para todos os lados não acerta ninguém.

Foco, racionalidade e proporcionalidade regulamentadora são muito mais eficientes do que uma metralhadora giratória, loucamente disparada para todos os lados, burramente convencida de que vai salvar o mundo.

Sei que estou pregando no deserto, mas, de repente, alguém me escuta e toma alguma providência minimamente racional.

EU TENHO TEMPO

13/05/2019 às 14h51

Claro que alguns (muitos, para ser mais honesto) dirão que sou pretensioso, no que não estarão muito errados, mas acho o fim do mundo quando o discurso é de que “não tenho tempo” o tempo todo.

Ou seja, alguns perdem tanto tempo achando razões para nada fazer ou fazer pouco, que pouco tempo sobra para fazer aquilo que, com um mínimo de organização, poderiam ter feito.

Os antigos diziam que “quem quer acha um jeito, quem não quer acha uma desculpa”. No caso, “quem quer acha tempo, quem não quer acha mais fácil perder tempo dizendo que não tem tempo”.

Vejam que, segundo meus filhos, em vista da bagunça de minha mesa de trabalho, sou muito desorganizado. Na verdade, sou um desorganizado organizado. Não mecham em minha desorganização senão não acho nada depois!

Quantos dias você leva para ler um livro com mil páginas? Dá para ler em 50 dias, basta ler 20 páginas por dia! Quando? No banheiro, durante os intervalos da novela ou do futebol, depois do almoço e em muitos outros momentos de “nada fazer”.

Que tempo você leva para escrever um texto como esse? Quinze minutos para escrever e outros quinze para corrigir e deu! Mas, é muito arriscado. Claro, viver é arriscado.

Prefiro ser acusado de ter cometido erros por ter agido do que ter cometido os mesmos erros por ter me omitido.

Devemos ser como uma bicicleta: sempre pedalando, senão cai para os lados.

O ócio, o nada fazer pode ser produtivo. Já escrevi crônica no celular enquanto minha esposa comprava no mercado. Claro que ela queria me matar por não a estar ajudando, mas certos riscos são aceitáveis.

Quando a gente está fazendo o que gosta, tudo fica mais fácil, mas, que diabo, a vida não é só o “bem bom”. É fácil crescer nas facilidades, só os fortes crescem na batalha sangrenta da vida.

Pare se se justificar por não saber aproveitar o tempo. Pare de dizer que não tempo. Parece, só parece, que você está acusando os outros de serem vagabundos. E isso você não quer, certo?

Onze minutos do início ao fim da escrita dessa crônica.

Sei que ficou muito ruim, mas é minha filha, não precisa fazer exame de DNA.

DESTRUIÇÃO DE MÁQUINAS EM DANOS AMBIENTAIS

26/04/2019 às 11h58

Meus amigos sabem que trabalhei décadas com inquéritos e processos para punição e reparação de danos ambientais, e alguns dizem que eu era bem chato. Bobagem.

Vendo cenas de destruição de máquinas, caminhões e instalações mediante fogo, ateado por autoridades ambientais, sob a alegação de que a legislação permite, resolvi dizer o que penso.

Não há dúvida que a Lei 9.605/98, em seu artigo 25, determina que “verificada a infração, serão apreendidos seus produtos e instrumentos, lavrando-se os respectivos autos”.

Na sequência, refere em seu parágrafo 5º, que os “instrumentos utilizados na prática da infração serão vendidos, garantida a sua descaracterização por meio da reciclagem”, ou seja, não refere a destruição pelo fogo ou outro meio.

O Decreto 6.514/08, que regulamenta a Lei 9.605/98, traz basicamente as mesmas determinações e garante ao autuado o direito ao contraditório e da ampla defesa, em atendimento à dispositivos constitucionais, o que deveria implicar que os bens não sejam destruídos nem antes nem depois do fim do inquérito administrativo ou do processo judicial.

Entendo que, tendo o autuado buscado o Poder Judiciário para discutir o ato administrativo, deve ficar suspensa qualquer iniciativa no sentido de destruição ou venda dos instrumentos do crime ambiental.

Além disso, não parece razoável colocar fogo em máquinas e caminhões que poderiam ser utilizados pelo Poder Público em suas atividades públicas, até o fim do processo administrativo ou judicial.

Dizer que se o autuado for absolvido poderá buscar indenização de seu prejuízo é brincar com nossa inteligência, pois todos sabem quantos anos demora um processo e quantas décadas o cidadão leva para receber qualquer valor do Poder Público.

Enquanto o cidadão não recebe o que lhe é de direito, sua empresa quebra e sua família passa fome.

Mas, quem está preocupado com isso se está brincando de vingador do meio ambiente?

Vamos punir, sim, os degradadores ambientais, mas vamos respeitar os direitos do cidadão, sob pena de instaurarmos um Estado ditatorial.

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

24/04/2019 às 09h23

Vamos trocar um livro por um pedaço de carne?

Antes que alguém conclua, acertadamente, que sou um chato, quero dizer que gosto de carne, mas gosto mais ainda de livros.

Mas, é impressionante a fila no açougue e o desamparo das livrarias!

Os centros de compra estão lotados, o que não é ruim, mas as bibliotecas estão às moscas, vivendo de meia dúzia de constrangidos frequentadores que não desistem de ler, de conhecer e de sonhar com uma sociedade mais informada.

Sou frequentador das redes sociais, utilizando-as como eficiente ferramenta de divulgação de ideias e de provocação de discussões, mas, segundo meus filhos, ninguém lê mais que três linhas. Uau, será verdade?

Sei que as redes sociais são o paraíso da urgência, mas eu faço de conta que não sei e mando ver em textões de trinta linhas, que uns cinco leem.

Não me importo, por isso comprei um livro com mais de mil páginas sobre Hitler, que um amigo propôs trocar por uns dois quilos de carne logo que passamos em frente a um açougue.

Abracei-me ao livro e liberei grana para comprar a carne do churrasco.

No meu livro ninguém tasca, vou ficar o próximo mês lendo-o e depois vou depositá-lo com carinho num local de destaque da minha biblioteca, como um sobrevivente valoroso da fome do corpo de alguns.

Vou fazer um testamento em que meus sucessores podem fazer o que acharem mais conveniente com meus bens imóveis, mas aos livros deverá ser dado uma destinação nobre: uma biblioteca, onde possam ser lidos pelo maior número possível de de pessoas intelectualmente interessadas, que os vejam como uma riqueza cultural a ser preservado e não como um bem de natureza patrimonial.

Não desprezo alimentar o corpo, mas não esqueço do meu espírito!

Ele merece.

DEUS É BOM E AMOROSO

08/03/2019 às 15h09

Aqui no Calçadão tem um cantor que passa os dias a gritar, a todo pulmão, que “se você não fizer isso vai para o inferno”, que se “você não acreditar naquilo Deus vai te castigar” e outras ameaças terríveis!

Além do cantor ser bem fraquinho, suas ameaças são absurdas, pois quem leu qualquer coisa da Bíblia sabe que Deus é bom e amoroso, generoso e não vingativo.

Quando alguém reclama de seus berros, fica injuriado e só falta remeter o atrevido direto para o inferno. Afinal, ela é gerente do local!

Sei que as religiões, ao longo dos séculos, usaram dessas ameaças de inferno e castigos como forma de convencer tortamente as pessoas a agirem corretamente, de serem honestas. Mas, por Deus, isso já passou!

Deus nos deu livre arbítrio, ou seja, capacidade para decidir entre o bem e o mal, e nos indicou o caminho do bem e do mal, cabendo a cada um de nós assumir as responsabilidades pelas escolhas que fazemos.

Quem fizer o bem terá boas possibilidades de receber o bem, quem fizer o mal terá boas possibilidades de receber o mal, mas não há certeza nenhuma nesse sentido. Quanta gente boa sofre mais do que merece e quanta gente ruim se delicia com o que não merece!

Tem gente que adora ser ameaçado com fogo do inferno (nem sei se isso existe de fato ou é mera alegoria para assustar os trouxas!), como argumento para acreditar em Deus e fazer o bem, mas eu odeio isso e quem usa dessa técnica.

Existem tantas verdades, tantas histórias de amor, tantos exemplos de generosidade, tantas recompensas aos justos, porque diabos o cantor do Calçadão tem de passar vociferando e ameaçando com o demônio e o inferno?

Fale de amor, de generosidade, de respeito, de perdão, de solidariedade.

Tenho certeza que as pessoas te achariam menos chato e mais positivo.

Alguém vai dizer: Coitado, está ganhando a vida! Ok, mas não poderia ganhar a vida sem o demônio como argumento?

Meu pai já dizia: Quem muito chama o Demônio para os outros, acaba recebendo-o para si.

Pronto, falei!

Augusto, sinônimo de restaurante

26/02/2019 às 14h51

Existem certos lugares, como praças, cidades, bares ou restaurantes que superam em muito sua função de atender certas necessidades, como passeio, diversão ou alimentação, em razão de suas peculiaridades, das pessoas que os habitam, do ambiente criado e do atendimento dispensado.

Quando esses lugares especiais desaparecem, fica um vazio difícil de ser preenchido, mesmo por outros que aparentemente são melhores, mais bem aparelhados e modernos.

Um desses lugares únicos foi o Restaurante Augusto, que tive a oportunidade de conhecer ainda na década de 1970, quando passei a morar e estudar em Santa Maria, sempre com aqueles móveis antigos, aquelas toalhas brancas e aquelas cadeiras confortáveis.

Claro que à época minha frequência por lá era mais rara, não porque fosse caro, mas porque qualquer restaurante mais caro que o Universitário era um luxo para mim, que morava na Casa do Estudante e ganhava meio salário mínimo como monitor de Direito Civil.

Mas, quando algum colega mais aquinhoado e muito generoso fazia a gentileza de me convidar e, naturalmente pagar a despesas, sempre fui bem recebido pelo Senhor Augusto, um português bonachão, cheio de histórias para contar e sempre atento à todas as mesas, pouco importando se nelas estavam abancados deputados, senadores, prefeitos, plantadores ou criadores ou “pés-de-chinelo” como eu, estudante cheio de fome e absolutamente desprovido de condições econômicas de frequentar outras mesas que não as do Seu Manuel, do RU.

Era um dos poucos restaurantes da cidade que ficava aberto no dia 11 de agosto, o odiado Dia do Pendura, em que estudantes de Direito se achavam no direito de comer e sair sem pagar. Como sempre fui um chato, nunca participei dessas brincadeiras, mas tomava conhecimento que o Senhor Augusto separava algumas mesas e as reservava para os abusados que comiam, bebiam, não pagavam e ainda eram homenageados!

Não é à toa que depois de formados os “penduradores” voltavam, agora com grana no bolso, acompanhados de namoradas, esposas, filhos e amigos, renovando a mística de lugar de boa comida, bebida e muito respeito pelo cliente.
E, somando-se à diversas oportunidades que tive de frequentar o Augusto, já como Promotor de Justiça e advogado, jantei inúmeras vezes lá como membro ou Presidente da Academia Santa-Mariense de Letras, sendo sempre muito bem recebido e servido, por um preço justo.

Por isso que a notícia do encerramento (temporário ou definitivo, ainda não está bem claro) do Restaurante Augusto desperta tanta comoção e saudosismo.

Nunca participei, mas sei que ali se costuraram inúmeras alianças políticas, muitas candidaturas nasceram e muitas lideranças se consolidaram, em jantares e almoços que ficaram na história.

Muitas reuniões culturais e econômicas foram realizadas nos salões do Augusto, determinando a história de Santa Maria, o que se pode facilmente constatar nas atas dos trabalhos.

Naturalmente que aqueles que participaram desses jantares e almoços devem ter histórias saborosas e esclarecedoras da política local e estadual e devem ser provocados a contá-las!

A mim cabe lamentar o encerramento das atividades do Restaurante Augusto, como cidadão. Certamente que muitos e qualificados restaurantes existem e continuam funcionando em Santa Maria, mas mesmos esses tinham o Augusto como uma referência cultural e gastronômica.

Quantos encontros com amigos, com colegas de trabalho, quanta saudade!

Agora, quando viajo, muitas pessoas que um dia degustaram e aprovaram o galeto do Augusto, ao saber que sou de Santa Maria, dizem, pesarosas: É verdade que o Augusto fechou? Puxa, que pena!

Santa Maria está mais pobre, mais triste e menos hospitaleira. Mas, são os ciclos da vida e da economia.

Cabe aos demais restaurantes trabalharem para preencher essa triste lacuna e caprichar ainda mais para tentar substituir o Augusto, o que, sinto dizer, é quase impossível.

Espero que a notícia de que seria apenas um período de adaptação e modernização seja verdadeira.

Santa Maria já perdeu demais.

Uma lástima!

NEGOCIAR ATÉ QUE POSSÍVEL!

25/02/2019 às 17h49

Já começo dizendo que não apoio Maduro, pois ele é um idiota irresponsável e um criminoso, podendo ser acusado de genocídio do próprio povo.

Mas, surpresa, também não apoio, ao menos por ora, qualquer medida de caráter militar para invadir a Venezuela.

Existem limites, há muito ultrapassados, de respeito à soberania de um país, quando flagrantemente o povo está morrendo de fome, quem tem dinheiro não consegue comprar nada pois nada existe nas prateleiras dos mercados.

Alguns reclamam que o governo brasileiro acolhe venezuelanos que estão fugindo de seu país, outros que o governo brasileiro não invade a Venezuela para salvar o povo de lá. Ora, devemos salvar os venezuelanos ou não?

O exército venezuelano tem lançado bombas que atingem o território brasileiro, visando atingir seus cidadãos e alguns brasileiros que os apoiam e que pretendem ingressar naquele país.

Ao lançar bombas que atingem o território brasileiro, não estaria o exército venezuelano agredindo o Brasil e dando-lhe legitimidade para atacar? Mas, o governo brasileiro ao permitir que cidadãos venezuelanos postados em território brasileiro atirem pedras e bombas caseiras contra os soldados venezuelanos postados do outro lado da fronteira, não estaria apoiando agressões ao país vizinho?

Ou seja, a coisa é muito mais complexa do que parece, sendo uma solução simplista e irresponsável defender que os soldados brasileiros invadam a Venezuela!

Por isso acho que, por ora, agem bem as autoridades brasileiras em investir no diálogo, por maior que seja a vontade pessoal de atirar uma bomba na cara do ditador.

O governo tem que agir, como tem agido até agora, com visão de país, e não de vingador.

Recém iniciamos lenta e dolorosa saída de uma das mais sérias crises econômicas de nossa história, que deprimiu fortemente a atividade de empresas e gerou milhões de desempregos.

Tudo o que não precisamos, nessa hora, é uma guerra suicida, cara e socialmente insustentável com um país vizinho. Não se enganem, no momento em que houver invasão militar da Venezuela, China e Rússia vão mandar tropas. E, daí a lambança será enorme.

Todo mundo sabe a hora de entrar em uma guerra. Ninguém sabe a hora de sair.

Muita calma, pressão política e negociação diplomática que o ditador cai de maduro, mais cedo ou mais tarde.

APROVEITADORES DA TRAGÉDIA DE BRUMADINHO

30/01/2019 às 22h03

Pensei em deixar passar alguns dias da tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, para me manifestar sobre ela, até para ter uma visão mais ampla do assunto.Por evidente que sabemos da tragédia através dos meios de comunicação que, por mais sérios e honestos que sejam, sempre podem trazer embutidas opiniões pessoais distorcidas por visão parcial e interesses vários, entre eles, o político.

   Não sou daqueles que demonizam a atividade política, pois, essa é extremamente necessária para a aprovação de leis, fiscalização e direção das atividades de governo, mas, infelizmente, já temos notícias de pessoas que tentam tirar proveitos partidários da desgraça alheia.

   Alguém errou, e errou feio, porque atestou em dezembro de 2018 que a barragem de rejeitos estava estável e sem riscos de rompimento, e pouco mais de um mês depois ela rompe, sem que tenha havido nenhum terremoto, chuvas exageradas, atentados, etc.

   Mas, no momento, o mais importante é tentar salvar as vítimas e recolher os corpos, deixando às autoridades investigativas a função de fazer os levantamentos necessários para, em seguida, responsabilizar civil e criminalmente os eventuais culpados, que esses existem, sem dúvida.

   Não é momento para ataques a esse ou aquele governo, de reclamar de auxílios internacionais, tentar colocar forças de segurança em luta por “ibope”, destacar pequenas e insignificantes diferenças, ou seja, colocar fogo no circo.

   Pensem nas famílias destroçadas pela tragédia.

   Não estou advogando irresponsabilidades, apenas propondo uma trégua no ódio que grassou e grassa nas redes sociais entre direita e esquerda, entre eles e nós, entre ricos e pobres.

   Nesse momento somos todos Brumadinho!

   Passado o choque e concluídos os trabalhos mais urgentes de resgate de vítimas e de corpos, fica liberada a guerra de egos, as acusações mútuas com e sem provas, a carnificina político-partidária que, infelizmente, tem caracterizado nossas relações nos últimos três anos.

   Parem de tentar faturar política e partidariamente com a tragédia.

   Deus está vendo.

   Coisa mais feia e desumana!

FAKE NEWS

16/01/2019 às 20h58

Na sociedade dita séria e consciente e, ultimamente, na classe política e nos órgãos de controle eleitoral, cresce a preocupação com as notícias falsas, as conhecidas “fake news”, melhor traduzidas como “notícias fabricadas”, que causam enormes prejuízos às pessoas, empresas e instituições.

Na verdade, notícias falsas ou fabricadas com o objetivo de prejudicar alguém sempre existiram, através de “bocas de Matilde”, cartas anônimas e boatos que correm “como rastilho de pólvora” sem que se possa identificar de onde vieram.

Muitas reputações ilibadas, e outras nem tanto, foram destruídas por fofocas e notícias falsas, enquanto outras foram construídas com base em qualidades não verdadeiras.

Claro que, modernamente, os meios de comunicação de massa, notadamente internet, e aí as redes sociais (muitas vezes mais parecidas com redes antissociais!), facilitam enormemente o alcance, a rapidez e, por consequência, os danos muito mais relevantes.

O controle sobre as “fake news” será extremamente difícil, talvez impossível, porque podem esbarrar no direito constitucional de livre manifestação (sem olvidar que liberdade de manifestação não implica em irresponsabilidade civil e penal pelo que se diz).

Vejam que não estamos falando de conceito desfavorável sobre arte, música, teatro, beleza física ou outro de caráter subjetivo, mas de fatos não verdadeiros que prejudiquem pessoas, como acusação de corrupção, cometimento de crime, etc., que não tenham base na realidade e que muitos de nós, por ingenuidade ou maldade, acabamos por criar ou divulgar.

Não desprezo a possibilidade de construção de algum instrumento legal que, a despeito de respeitar a liberdade de expressão, consiga minimamente limitar a criação e a divulgação de notícias fabricadas.

Mas, sem sombra de dúvida, apenas a responsabilidade, a honestidade e a consciência social de cada um poderá, de forma sustentável, reconstruir uma sociedade menos fofoqueira e mais solidária.
Sou um sonhador, fazer o quê?

 

 

Canalha, ingrato, eu?

18/12/2018 às 06h00

Diz a história que os cabos eleitorais de Ademar de Barros, político paulista da década de 1950, afirmavam, antes a acusação de que ele era ladrão: “Rouba, mas faz! ” Eita, que falta de vergonha na cara!

Mas, por mais absurdo que seja, tem muita gente que defende o direito de roubar dos cofres públicos desde que o sujeito reparta, um “tiquinho”, com os pobres. Ou seja, seja uma espécie de Robin Hood. Só que quem mais perde nestes roubos são exatamente os mais pobres, quando deixam de receber saúde, educação, segurança e outros direitos básicos.

Eu não estaria autorizado a reclamar dos ladrões de dinheiro público se eles têm uma história, verdadeira ou falsa, de ter trabalhado pelo bem da Nação. Sou ingrato, canalha.

Por Deus, quando o sujeito se elege, é nomeado ou faz um concurso público, passa a ter inúmeras vantagens, justas e não justas, para exatamente administrar o dinheiro público com honestidade. Se fez alguma coisa, e normalmente faz, não fica imune à punição por delitos praticados, durante ou fora do cargo público.

Não advogo, tratar honestos da mesma forma que os desonestos, mas os ladrões de dinheiros públicos causam mais dano à sociedade do que os ladrões de rua, os assaltantes, os estupradores e traficantes. Todos são maus, mas os que receberam cargo público prometeram agir dentro da lei, de serem exemplos para o povo em geral. Destes é que esperamos os maiores gestos de honestidade e respeito, eles deveriam ser nossos espelhos de retidão de caráter.

Quando quem devia dar exemplo, está sendo processado diversas vezes e condenado outras tantas, exatamente porque meteu a mão nos recursos do povo, não é adequado exigir desse mesmo povo, que o desculpe, somente porque ele realizou obras para os quais foi eleito. Ou seja, apenas porque cumpriu sua obrigação.

Não me sinto devedor dos ladrões de dinheiro público. Ao contrário, eu, tu, nós, vós, eles, somos credores desses safados.
Não reconheço aos canalhas que roubaram e aos seus defensores, alguns beneficiados pelos roubos, o direito de me impingir a pecha de ingrato e canalha.

O que eu fiz pela sociedade? Nada, mas o fiz honestamente.

Calem-se!

Feminicídio

30/10/2018 às 12h42

Tenho insistido, em tudo que escrevo, sobre a necessidade de se estabelecer uma relação de respeito pessoal, sexual, moral e físico entre homens e mulheres, correndo o risco, inclusive, de ser interpretado como contrário aos direitos das mulheres, o que absolutamente não é verdade.

Minha história de vida pessoal me permite dizer que amo as mulheres, pois tenho três filhas e uma netinha querida, e todos sabem o carinho que devoto a elas, apesar de algumas “reinações” próprias da condição humana.

Em vista disso, posso dizer que abomino qualquer tipo de violência contra as mulheres, seja praticada por estranhos e, pior ainda, por parceiros, maridos, namorados, ficantes ou qualquer que seja a condição, pois tal demonstra que o mundo ainda é muito injusto e desigual para com as representantes do sexo feminino.

Segundo notícia publicada no site do Tribunal de Justiça, no Estado do Rio Grande do Sul, mais de 150 processos por feminicídio, que é uma qualificadora do delito de homicídio, foram iniciados em 2016, sendo que no Brasil a taxa desse crime é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Isso significa que, estatisticamente, a cada três dias, uma mulher é morta no Rio Grande do Sul por agressões perpetradas por homens, quase três por semana, mais de 12 por mês.

Ocorre que uma morte é muito mais que um número nas estatísticas, pois representa sofrimento, dor e descrença na espécie humana, que não evolui para respeitar-se mutuamente. Representa ainda crianças sem mãe, companheiros sem companheiras, solidão, desilusão na capacidade do amor, ódio e incompreensão.

A esse número absurdo de mortes de mulheres pela violência humana, devem se somar milhares que morrem sem atendimento médico e por falta de alimentação, por deficiências de vestimentas e descaso.

Dizem que é chato falar disso, mas não falar disso é criminoso, pois é no silêncio e na omissão que os agressores se criam, se agigantam e se escondem.

Um dia, espero que próximo, possamos parar de escrever sobre isso, e aí teremos um mundo bom, justo e igualitário para as mulheres.

Imigração: um drama mundial

13/09/2018 às 12h05

Daniel Torres diz, na música Fruto do Suor, “tenho um filho desta terra, foi o amor sem passaporte”, e que “a baioneta desenhou fronteiras, a estupidez nos separou em bandeiras”.

No início dos tempos, o homem perambulava livremente pelas terras mais próximas e algumas bem distantes, na luta pela sobrevivência, até que fixaram, pela força, fronteiras geográficas, cidades, países e, com isso, limitações ao acesso.

Não sou ingênuo a ponto de defender total liberdade de ir e vir entre países, pois, certo ou errado, não existem políticas públicas de atendimento das necessidades sociais que resistam ao ingresso massivo de imigrantes, sem uma previsão de recursos adequada e suficiente.

Seria o mesmo que abrigar, em nossas casas, para moradia, alimentação, vestuário e tratamento médico, de todas as pessoas desprovidas de recursos. Temos determinado orçamento adaptado às nossas necessidades, e a chegada de visitantes permanentes “bagunça nosso coreto”.

Assim, não podemos olhar os imigrantes ou refugiados como inimigos, mas também não podemos fechar nossas portas e nossos corações para esse drama mundial que, em alguns países dito civilizados, implica em recolher à presídios e jaulas crianças com dois ou três anos, separados dos pais.

Claro está que qualquer prisão de pais implica em separá-los dos filhos, aqui ou no Japão, na África ou na China, mas é muito triste ver crianças jogadas como animais em jaulas, cobertas com folhas de alumínio e, dizem, em alguns casos, vítimas de abusos físicos e sexuais.

Não existe situação de crise que não possa suportar algum sentimento de solidariedade. Os antigos já diziam que “onde come um, come dois”, de maneira que um país como o nosso, com mais de 200 milhões de habitantes, certamente que não vai ficar mais quebrado do que já está se acolher, com carinho e solidariedade, alguns milhares de imigrantes.

Afinal, basta olhar para o lado e veremos, admirados, que somos um país de imigrantes!

Mais uma vez, Daniel Torres, nos ensina que “cada pedra, cada rua, tem um toque de imigrante, levantaram com seus sonhos, um país que não tem donos”.

Abra seu coração.