Revista Statto

MANUEL BANDEIRA – O POETA DA CRIANÇA QUE EU NUNCA DEIXEI DE SER

26/08/2020 às 17h31

A poesia de Manuel Bandeira agrada a todos. Lembra cantigas de ninar e enche de água os olhos dos adultos, pois há nos versos uma profundidade só percebida na maturidade. Impossível não gostar da escrita magistral desse grande poeta.

Uma vez fui criança, isso é fato. O problema, nem sei se isso é problema, ainda me sinto criança quando releio os versos de Manuel Bandeira. Com seu dizer simples e sonoro, o poema sai cantado como uma cantiga de ninar. A fluidez do texto é latente. Nenhuma palavra é desnecessária, não há arestas, floreios ou palavras decorativas. O texto respira, pergunta, responde, e mesmo atendo-se à forma, consegue libertar-se.

O poeta escrevia sonetos formalistas e se soltava no verso livre. Tinha pleno domínio da técnica da escrita sem, contudo, prender-se a ela. O primeiro verso de Bandeira me causou grande deslumbramento, e por que não dizer estranhamento? Nos meus onze anos, li “Trem de Ferro”.

Achei graça quando redescobri esse poema no livro “meus poemas preferidos”. Mais uma vez, tive contato com o poema. Tenho por mim, na minha memória afetiva de criança, que as palavras parecem soltar-se dos trilhos imaginados pelo poeta. No ritmo enlouquecedor, hoje interpreto o poema de forma diversa. Na época, não imaginava o maquinista em fuga, preso no canavial de sua terra, pois me atinha à sonoridade e o achava engraçado. Não por acaso, Manuel Bandeira é considerado como o mestre dos mestres. Ele brincava com o subtexto, aquilo que os escritores buscam o tempo inteiro. Para o poeta isso era fácil.

Permita-me, caro leitor, exibir o poema da minha infância:

TREM DE FERRO

Café com pão

Café com pão

Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim

Café com pão

Agora sim

Voa, fumaça

Corre, cerca

Aí seu foguista

Bota fogo

Na fornalha

Que eu preciso

Muita força

Muita força

Muita força

Foge, bicho

Foge, povo

Passa ponte

Passa poste

Passa pasto

Passa boi

Passa boiada

Passa galho

De ingazeira

Debruçada

No riacho

Que vontade

De Cantar!

Quando me prendero

No canaviá

Cada pé de cana

Era um oficiá

Menina bonita

Do vestido verde

Me dá tua boca

Pra matá minha sede

Oô…

Vou mimbora

Não gosto daqui

Nasci no sertão

Sou de Ouricuri

Oô…

Vou depressa

Vou correndo

Vou na toda

Que só levo

Pouca gente

Pouca gente

Pouca gente…

 

Cresci um bocado e, já na universidade, coincidentemente numa noite de natal, me deparei com o poema Natal de 64.

NATAL DE 64

Ao deitar-me para a dormida,

Desejara maior repouso

Do que adormecer, e não ouso

Desejar o jazer sem vida.

Vida é possibilidade

De sofrimento; quando menos,

Do sofrimento da saudade,

Com os seus vãs apelos e acenos.

Mas a não haver outra vida,

Aos que morrem pode a saudade

Dar-lhes, senão a eternidade,

Um prolongamento de vida.

Então, por que neste momento

Me sinto tão amargo assim?

E a saudade me é um tal tormento,

Se está viva dentro de mim?

Na época, eu tinha meus questionamentos, já tinha vivido situações amargas e o poema me acalentou, como um colo de mãe. Na época, estava estrangeira numa casa enorme inabitada por gente. O poder da poesia de Manuel Bandeira é uma constatação. Os motivos para amar seus poemas estão na própria brevidade da vida. Pensar que um homem, em média, vive por oito gerações. E se em cada uma delas esse mesmo homem se identificar com um texto, como sua própria imagem no espelho? Os poetas já estariam satisfeitos e cônscios de sua missão.

As razões para se escrever poesia são diversas. Talvez, para Bandeira, tenha sido o motivo para manter-se vivo. Pronto para morrer desde novo, em 1904 contraiu Tuberculose. Tinha lesões consideradas incompatíveis com a vida, apesar de não ter “ bacilos”. Logo, a morte sempre estava à sua espera. Ele a esperava desde os dezoito anos. Sua poesia talvez fosse o bálsamo que o manteve vivo e presente.

Poesia não seria o lirismo que se enformou, que tomou uma certa expressão e consistência e se fixou numa realização objetiva? Tem a poesia uma concepção de universalidade do sentimento – apesar do poeta escrever em seu mundo, ele escreve para o outro e bane, para sempre, sua própria solidão. Na poesia, escreve o poeta poucas linhas e diz muito. Ao enxugar a palavra, traz na mesma o peso, a leveza e a complexidade da vida. E, mais uma vez, se constata que em Bandeira os versos saem livres, feitos com a maestria de um ourives.

Com o domínio da técnica, ele brinca de parnasiano e solta-se ao universo dos mortais. Traz a imortalidade e nos diz o tempo inteiro que vale a pena uma pitada de sofrimento para termos consciência do que somos. A humanidade tem jeito quando consegue se nutrir de lirismo, e isso tem de sobra nos versos desse imortal. Há ritmo, paixão, maestria, loucura e perplexidade- ingredientes necessários à poesia.

GAIVOTA É GENTE

10/07/2020 às 09h01

Quatro gaivotas banham-se ao sol. De olhos fechados parecem sentir a brisa. Não é verão apesar da época do ano. É primavera mesmo sendo janeiro. Elas parecem felizes. Em grupo de duas em duas treinam seus voos. A primeira me faz lembrar Esmeralda, a filha da vizinha que nunca mais foi vista. Mudou de gênero e não quis contar para ninguém. Sumiu de todos, mora no estrangeiro, e sequer liga para a mãe e o pai. A de trás não me parece feliz. Tem a cara do Raimundo, o cachaceiro irmão do porteiro mais conversador do bairro. Bem, ela tem a cara de pancreatite. Se pudesse decifrar um pâncreas em estado degenerativo, sua cara seria bem ilustrativa. Ela franze os olhos e não parece sorrir afinal há uma acidez terrível corroendo seu interior. A primeira da segunda e última fileira é a cópia fiel de Margarida. A nora que eu queria ter, amante de fotografia, sorri o dia inteiro e gosta de chocolate. Por enquanto está solteira, sonha casar e ter uma penca de filhos. A última é a cara do Batista, o coroinha da paróquia daqui de frente. O Batista não tem vida, segue os conselhos do padre e sempre está com o olhar atento, como um soldado a cumprir ordens.

Quanto a mim continuo andando na areia dessa extensa praia. Já passa das dez da manhã, o sol parece acanhado e no horizonte há um lindo arco íris. Assusto-me quando as quatro gaivotas sobrevoam a minha cabeça e o Raimundo dá uma cagada bem no meio do meu pé. Vou às pressas para a água, lavo o pé, a catinga sobe minhas entranhas, vomito a alma e sem qualquer chance de me recuperar sou socorrida pela gaivota feliz, alcunhada de Margarida. Ela me lambe até que eu acordo de vez. Estou na minha cama, não são seis horas da manhã, o céu está negrume – certamente o dia será de chuva. Volto a dormir. E como mágico torno a vê-los pegando sol. Agora Esmeralda vem para o meu lado, vem me contar um segredo. Diz algo como diga a minha mãe que eu sinto saudades. Diga que eu estou bem. Não esqueça de dizer a meu pai. Como um soldado, bato na casa da amiga quiçá vizinha de porta. E dou a boa notícia, digo que sonhei com Esmeralda e que ela está bem. Toca o telefone, estranhamos.

Na linha, Esmeralda diz que vai ser mãe e que pensou muito em mim. Não vou contar o sonho porque só o leitor poderá imaginar. Mas que é uma delícia ser avisada antes e por uma gaivota, ah isso é. Daqui conto os dias para pegar o voo para o estrangeiro. Vamos eu e os pais de Esmeralda. Antes vou passar na praia. E quem sabe de lá avisto alguma gaivota e

ALLAN POE NA VIDA DE UMA MULHER COMUM

21/06/2020 às 22h26

Os pratos mudam de cor, mas os livros, os livros trazem cor à minha vida.

Não se sabe se de fato essa assertiva procede. Mulheres são feitas de retalhos. São fortes. Ora gostam do cheiro das especiarias, para isso procuram dar o melhor de si, e como uma alquimista produzem um jantar à luz de velas. Antes passam no supermercado, compram os ingredientes. Sonham sim em dar contentamento a quem chamam para o jantar. Se sentem plenas, quando a pessoa amada gosta e elogia. Quando agem desse jeito, lembram das tias ou da mãe- ambas cozinhavam, mas não se sabe ao certo se gostavam da tarefa.

Mas há o dia seguinte, e no dia seguinte não desejam cozinhar, muito pelo contrário- Não há tempo para isso. Precisam trabalhar fora, mas há muita tarefa- precisam ir ao supermercado, lavar a roupa, a louça e administrar o tempo.  Não dá tempo de tudo. Deixam algo no caminho, normalmente a louça por lava. Mais fácil alguém se mancar e lavar antes. Quem sabe funciona? Pouco provável, por que mulher é um ser perfeito.

Até falta um pouco de ar. Há uma voz que escuto, de como se deve ser, como se o ser dependesse sempre da aceitação do outro.  Comigo foi desse jeito. Não sei se devia encarar a pilha de pratos sujos. Não teria sido fácil dar meia volta e me posicionar defronte a uma estante abalroada de livros. De súbito finquei meus dedos num livro de capa negra, com umas letras azuis –  Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe. Os pratos sujos adormeciam empilhados exalando um forte odor de carniça. Dei de ombros.

Mal começara a leitura, no primeiro conto, fui assombrada por uma sombra. Passei o olhar no recinto, eu, o livro, meus óculos presos à cara e o sofá.  Não é ninguém. Aos poucos, passei a não ter medo da sombra. Fui me acostumando ao lado sombrio dos cenários.

Ele chega sem aviso, me tasca um beijo, e facilmente me deixo levar. Suas mãos macias me tiram do liame da narrativa.

Sinto-me por que não dizer poderosa. Sonho com a louça toda lavada no dia seguinte. A mesa está pronta, ele me traz tapioca e suco de caju. Saio sem pressa. Eu e ele de mãos dadas. Ele vira à direita e eu sigo reto.

Passo pelo cinema, há um filme que acabou de estrear. Penso logo- vou assistir amanhã, último dia útil da semana. Pode ser depois do expediente.

Mas hoje ainda é quinta, tenho que desobstruir minha mesa. Tenho que chegar em casa e caso a pilha de pratos esteja no mesmo lugar, vou ter que dar um jeito no caos. Eu nem me dei ao trabalho de conferir se ele lavou como no sonho.

Vou até o banheiro da repartição. Esqueci de colocar batom. Estou me sentindo meio gordinha. Nossa, quantos pensamentos estão em mim? Ando cansada deles. Começo a me perguntar, do que adianta tanta perfeição?  E sabe do que mais vou me assumir assim mesmo, sem batom, gordinha, amante da obra de Edgar Allan Poe. Vou mesmo curtir o filme amanhã, se ele quiser ir comigo, caso não queira, também será bom.

Produzo o dia inteiro. Torno a sonhar com a pilha de pratos lavados. Nada feito. Continua um caos. Lavo um copo, tomo para mim a pureza da água. Largo meus sapatos ali mesmo na cozinha e feito uma noiva cadáver toco meus pés na grama, sinto um tiquinho do sol se despedindo.

Vou terminar o livro de Poe. Lancho. Não vou preparar jantar, a preguiça me invade. Antes mesmo que eu termine a última página, sou surpreendida por ele, com uma bandeja de frutas. E ali mesmo os sumos nos alimentam. Antes de dormir eu escuto, meu bem amanhã de manhã eu lavo a louça. Embaixo dos lençóis, faço uma cabana- a louça não me incomoda mais, muito menos se ele fala a verdade. As sombras estão perambulando no avançar da noite. A escuridão não me apavora mais. O sono é profundo. Esqueci do cinema. Há sons, diversos, gatos derrubam telhas, seus corpos frisantes afugentam ratos. Passo a mão no meu rosto, a mão encardida de vermelho, adocicada e macia, traz aconchego. A noite passa. Passa a chuva. Passa o sol. As folhas se renovam. Caem. Renascem. As pilhas de pratos mudam de cor. Novos pratos. Os de outrora se quebram.

Já li toda a obra de Poe. Meus cabelos esbranquiçaram. Não ouço mais a voz impessoal mandando que eu faça isso ou aquilo. Por vezes fraquejo, mas nada que me faça perder o liame das narrativas.