Revista Statto

2021: COMO DESEJAMOS INGRESSAR?

26/12/2020 às 11h47

Com o encerramento de um árduo ano que foi 2020, nos perguntamos inevitavelmente como será o ano seguinte e que reverberações pandêmicas ele trará consigo. Transformações não apenas de ordem social e econômica, mas também relativas aos desafios e reformulações pessoais.

A pandemia nos fez descortinar dores ocultas, relacionamentos que estavam na corda bamba caíram e os que estavam em modo espera, se assumiram.

Globalmente, começamos a jogar luz, debater e questionar com merecida seriedade tópicos de imensa relevância: de que maneira temos vivido os papéis de gênero e parentalidade, consumo e desperdício, família e isolamento, poluição e meio ambiente, home office e homeschooling, moradia, deslocamento e qualidade de vida?

Aliás, fomos literalmente obrigados a parar – num silêncio ensurdecedor para uns e reconfortante para outros – a fim de repensar a vida e o que o viver representa para cada um de nós. Tudo o que conhecíamos como terreno sólido, tremeu e ruiu.

Como já dizia incansavelmente em seus livros e palestras, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “a mudança é a única coisa permanente, e a incerteza, a única certeza“. O conceito de modernidade líquida cunhado por Bauman nunca foi tão real e palpável quanto neste momento.

Nada veio para ficar, tudo é líquido. Qual é a lição que o navegar nesse mar turbulento de 2020 nos deixará? Para cada indivíduo, essa árida travessia tomou formas e assumiu significados diferentes, para uns significou perdas, solidão, desamparo, pânico e para outros significou desafios, recriação e descobertas.

Nunca foi tão consumido material de autoajuda como agora, livros e lives de filosofia e saúde mental, assim como espaços de diálogo sobre temas da psique humana, cresceram exponencialmente.

Este ano ficou evidente como tudo e todos em nosso entorno nos impacta subjetivamente, e a maneira como nos colocamos em relação também pode afetar o outro diretamente, contaminando-o ou o protegendo.

De que forma desejamos seguir desenhando nossa própria jornada pessoal, visto que fazemos parte de um mundo em constante transformação, é ainda um enigma para muitos de nós, justamente por isso a necessidade de olhar para dentro se tornou inadiável, a procura por psicoterapias cresceu a olhos vistos numa tentativa de encontrar um farol no meio da tempestade de 2020.

Dar voz àquilo que sufoca é a maior prova de coragem de enfrentar o que desconhecemos de nós mesmos, mas que está lá, esperando para ser decifrado.

O que de nossas subjetividades estava sendo abafado e que a pandemia desvelou?

O processo psicoterapêutico proporciona esse lugar de voz e escuta, mergulho em seu próprio universo subjetivo e sobretudo proporciona o diálogo interior com novas possibilidades de viver e de ser. Oferece a oportunidade para trabalhar algo dentro de nós de forma que a nossa união com o outro seja mais harmônica e menos desafinada.

A psicoterapia possibilita questionamentos e uma chance de formular respostas sinceras e autênticas para consigo mesmo e sobre si mesmo; bem como oferece àquele que se dispõe, uma chance de dar um basta naquilo que dói.

Na virada do ano, que representa simbolicamente um marco entre o que ficou no passado e o que ansiamos para o futuro; até mesmo os mais céticos fazem promessas e guardam suas esperanças em segredo, e os mais supersticiosos divertidamente anunciam suas famosas resoluções de fim de ano agregadas aos rituais que tragam boa sorte para o próximo.

Independentemente da crença, ritual ou época no calendário, podemos e devemos continuar sonhando.

Pois o sonho é o que formata o desejo, o desejo de construir novas realidades, seguir em frente se recriando e sobretudo a nossa própria maneira de ser feliz.

Artigo publicado no www.projetosakura.com.br – Atendimento psicológico online para brasileiros residentes no Japão.

Instagram: @projetosakurapsicologia

ABUSO PSICOLÓGICO

26/11/2020 às 10h17

Dia 25 de novembro: dia internacional do combate à violência contra a mulher.

Ao contrário do que se imagina, a violência contra mulher não se manifesta apenas na forma de violência física mas pode se manifestar também com insultos, cerceamento da liberdade e recorrentes humilhações.

A violência psicológica é silenciosa e se dá na intimidade da vida do casal ou até mesmo entre parentes.

O abuso psicológico é também conhecido como Gaslighting”, o termo vem de 1938, da peça Gas Light que inspirou o filme À Meia Luz”, em que o marido tenta enlouquecer sua mulher manipulando as luzes de casa (que funcionavam a gás) e então negando que a luz tenha sido alterada quando a sua esposa o contradiz.

Quando falamos de violência psicológica é normal que cause surpresa ao elucidarmos que ela pode causar tanto ou mais traumas e danos ao emocional da vítima quanto a violência física e até tortura, como já se mostraram evidentes em muitas pesquisas.

Sim, pessoas vítimas de abuso psicológico podem ser mais suscetíveis a depressão, drogadição, alcoolismo, suicídio, distúrbios no sono e na alimentação, além da somatização de doenças.

À medida que a autoestima é minada a vítima se fecha, acaba perdendo vínculos sociais e torna-se cada vez mais isolada, o que torna tudo isso mais perigoso pois além da vítima se enfraquecer e não conseguir verbalizar um pedido de ajuda, ela perde aos poucos as referências externas de como é estar num relacionamento saudável.

Como identifico que estou sofrendo abuso psicológico?

  • Seu parceiro te humilha constantemente usando insultos chulos, ironias e ofensas com o propósito de lhe diminuir?
  • Ele pede desculpas mas torna a fazer tudo novamente, parece não ter nenhuma autocrítica?
  • Não demonstra empatia com os sentimentos alheios e nem ele mesmo expressa emoções genuínas para com as pessoas.
  • É uma pessoa extremamente controladora e calculista, só vale a lei que ele mesmo estabelece e seus “princípios” são frágeis e questionáveis.
  • Ele é manipulador, no início do relacionamento se mostrou um companheiro aparentemente atencioso, mas depois de um tempo começou a impor suas vontades em detrimento de sua liberdade.
  • Quando você se magoa com algo que ele fez, ele te acusa de ser “hipersensível, fresca ou mimada” e sua afirmação mais frequente é “isso é coisa da sua cabeça, você é louca, descontrolada, eu não fiz nada disso, é você que imagina coisas”.
  • Tem temperamento explosivo e instável e te culpa por ter ficado nervoso ou tê-lo tirado do sério.

O objetivo do agressor é sempre deixar a vítima insegura e acuada; muitas vezes a violência psicológica precede a violência física, se a vítima sempre acua, o agressor sempre irá repetir o comportamento, virando desta maneira um círculo sem fim de humilhações e agressões verbais que penetram mais fundo como uma flecha na presa já fragilizada.

O agressor faz com que a vítima comece a duvidar de sua sanidade e questionar seu valor como pessoa. Vale lembrar que a violência psicológica pode se manifestar em todas as classes sociais e culturas, mas que infelizmente ainda é muito crônica e presente em culturas machistas, que possuem uma herança histórica patriarcal.

Essas são apenas algumas das inúmeras características que um relacionamento abusivo pode ter, caso você as tenha identificado em sua rotina, procure ajuda, converse com alguém de sua confiança, procure saídas e formas de se fortalecer e pôr um fim, pois um relacionamento que possui essas características é tóxico.

O amor é um ingrediente vital sim, mas sem respeito e confiança mútuas as bases de um relacionamento não se sustentam.

O amor não pode e não deve ser usado como justificativa para praticar ou aceitar comportamentos abusivos e degradantes.

Quem verdadeiramente deseja estar bem com sua cara-metade, se preocupa em não ferir, sabe pedir perdão e trocar afeto.

Tentar mudar o comportamento do agressor é um equívoco frequente da vítima imersa em uma ficção esperançosa que um dia – como uma prova de amor – ele irá se transformar.

Imperfeições e tropeços no relacionamento fazem parte dos desafios de se viver a dois, violência não.

A realidade de muitas famílias só vai mudar através do esclarecimento; quanto mais pessoas tiverem consciência desse tema, mais aumentará a possibilidade das vítimas reconhecerem que são de fato vítimas e assim buscarem uma saída.

Caso você tenha lido esse texto e lembrou de alguém próximo que talvez esteja passando por isso, converse com essa pessoa, ofereça apoio.

A CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA – LIGUE 180