Revista Statto

SURPRESAS QUE ENGRANDECEM

24/10/2020 às 10h07

Era sábado de manhã, quando saí para caminhar. Como um exercício habitual, esperava encontrar apenas pessoas se exercitando ao ar livre em um dia primaveril. Mas algo chamou a atenção dos que estavam presentes. Havia um homem com a filha e um pato de estimação. Sim, um pato. Os olhares curiosos paravam para ver a cena inusitada: o pato andando, o homem o seguindo, conversando e perguntando se ele queria água. Eu era uma das pessoas que parou para contemplar a surpresa. Em tempos de grandes destruições da natureza, encontrar homens que tenham compaixão e amor com espécies não humanas, tornou-se incomum.

Mas além disso, o pato representava a quebra da monotonia. Muitas vezes a rotina nos cega para outras tantas possibilidades e uma vez com os olhares encobertos ou viciados por uma só perspectiva, não enxergamos a beleza da não expectativa.

No livro Água Viva (1998), editora Rocco, da escritora Clarice Lispector (1920-1977), há um trecho em que diz: “Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado”. (p.51). Tenta-se muitas vezes colocar a vida em uma planilha, em uma caixa de pensamentos recorrentes, mas ela de fato pulsa e acontece quando desviamos o olhar da reta. Foi preciso um pato para relembrar isso a mim.

Quando fui embora, deixei meu olhar solto para que o caminho, mesmo que conhecido, pudesse me surpreender. Então vi uma criança parando a bicicleta para contemplar uma palmeira imperial e disse: “Que gigante”! E percebi que as surpresas nos engrandecem – não em relação à superioridade – mas porque elas conseguem nos tornar sensíveis ao que está além de nós mesmos.

MATURAÇÃO DOS PENSAMENTOS

16/10/2020 às 11h00

Fim de tarde de uma sexta feira. Durante uma semana não havia conseguido cumprir com todo o meu planejamento. Cobrança, ansiedade, comparação. Muitas vezes, alguma ideia vêm à mente e logo a interrompo querendo mostrá-la antes mesmo que tenha a chance de se formar. A necessidade de expor antes de aguardar a formação, é um reflexo do contexto em que estamos inseridos. Vivemos tempos de pensamentos não maturados. As palavras mal sugerem uma ideia e quando menos se espera, já estão sendo postadas e discutidas.

O mal-uso da linguagem têm sido camuflado de livre comunicação. As palavras requerem tempo. Antes, alguns escritores levavam anos para escreverem um livro. Hoje, se assim for, será confundido com falta de produtividade.

Muitos de nós, estamos sendo engolfados pela cultura da rapidez. E não temos culpa, porque ela nos tragou antes mesmo que pudéssemos perceber ou questionar. E se não nos comunicamos, o que quer que seja, corremos o risco de sermos isolados, cancelados ou esquecidos. E eis uma grande crueldade dessa cultura. Consegue nos aglutinar através de um dos maiores medos do ser humano: a rejeição.

Mas falando tanto e dizendo de fato o mínimo, somos nós que nos esquecemos e rejeitamos o direito de exercer a lentidão e o respeito ao tempo de espera.

No livro, Canto de mim mesmo (1855), o poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892) escreveu os seguintes versos: “Estão todas as verdades/ à espera em todas as coisas:/ não apressam o próprio nascimento”.

Não apressar o nascimento das ideias, dos encontros, dos fracassos, das conquistas, das palavras, talvez seja um dos maiores desafios que podemos nos comprometer a enfrentar. Sem a espera, deixamos de aproveitar os momentos, aprendizados e embarcamos em uma jornada que já foi traçada, mas que não é de fato própria. É preciso deixar os pensamentos serem maturados, pois o ato de pensar é o primeiro passo para que possamos exercer o nosso poder de escolher e quem sabe assim, viver sem correntes.

AS PRÓPRIAS MIOPIAS

07/09/2020 às 09h40

Os meus pais são míopes e eu por consequência, também. Isso sempre foi um incômodo para mim. Quando criança, sentia-me diferente por ter que usar óculos, ao contrário dos meus colegas. Infelizmente a cultura da comparação atinge até a infância. Enquanto míope aprendi a me aproximar, já que o distante era turvo.

Comecei a enxergar o não visto. Mínimas flores, formigas, pedras pequenas, brilhantes e então, um novo mundo começava a se descortinar para mim, porque eu o presenciava.

Ao longo do tempo e com um pouco mais de autoconhecimento, percebi que a miopia foi e é um grande canal de aprendizado. Sem ela, não chegaria perto do essencial.

De tanto buscar a aproximação por não enxergar bem o que está distante, encontrei a maior proximidade que poderia: dentro mim. Talvez se eu enxergasse sem necessitar de lentes corretivas, acreditaria que a única realidade era a vista através dos olhos externos e não teria a chance de aprender que o real é o que vivencio com sensibilidade, independente da visão. Quando tiro os óculos, vejo tudo embaçado. Então, os fecho e adentro no mundo intrínseco. O interior.

Todos nós temos alguma espécie de miopia, algum tipo de distorção da visão, algo que nos incomoda, que não aceitamos com facilidade e é onde se encontra a oportunidade para o despertar, o encontro com o que é primordial na própria jornada.

Mas só é possível ouvir e compreender as nossas miopias através do acolhimento, da não busca pela perfeição, da vulnerabilidade e da não comparação com a ilusão chamada de “os outros”.

Em algum ponto da vida e de alguma maneira, não conseguimos enxergar com nitidez e clareza necessárias e isso acontece como um alerta da vida para que não nos tornemos cegos e indiferentes ao que verdadeiramente somos.