Revista Statto

A BORBOLETA E OS BRASILEIROS

13/11/2020 às 12h03

Eis uma borboleta amarela que vai e vem em voos ousados que só ela domina. Aquieta-se planando rasante às folhagens que se balançam ao ritmo do vento. O que há em meu quintal que motiva a permanência da borboleta? Serão as mágicas figuras desenhadas pelas sombras que as escondem do sol?

As cores infiltradas nas vidraças que roubam a policromia da vida? Os cheiros variados que emanam do solo? Flores, não! Murcham pelo egoísmo das chuvas ensaiadas e, há tanto tempo, ausentes.

O que será que mantém a borboleta num incessante ir e vir? Risos de crianças não são. Há muito as minhas alçaram voo. Resto de comida não poderá ser. Borboleta é muito seletiva nos manjares.

Essa figurinha paradoxal e frágil é um doce hino de exaltação à vida, testemunha viva da inexorabilidade e da presença da morte.

Estendo a mão da amizade. O inseto aceita o oferecimento e pousa entre dedos que não são ameaças. Paradoxais são as vontades: a da borboleta que tem asas para voar para onde quiser e a minha cujas pernas me retêm no caminho.

Sinto inveja da borboleta amarela que pode voar por outros quintais, mas voa num espaço limitado de casa com número, em rua com nome, em cidade perdida num país sem rumo enquanto estou aprisionada pela decepção, estarrecida com os escândalos que assolam o Brasil e por sentir o desencanto do povo que assiste a tudo e se cala, como se tivesse deixado de acreditar em sonhos e lhe houvessem arrancado, das entranhas, a esperança de ver florir um país ético, vigoroso e rico.

OS INVISÍVEIS FIOS DA VIDA

11/10/2020 às 17h31

Havia, na tarde, um certo ranço, um jeito descomprometido do sol se infiltrar por entre as folhagens. Até os escassos trinados dos passarinhos soavam preguiçosos. Passeou os olhos pela luz que incidia no muro descascado e ia lamber as flores que eclodiam no jardim. O encontro entre as réstias de sol e o balanço das árvores, impulsionadas pelo vento, explodia em exuberantes desenhos na calçada recém-refeita. Etéreas bailarinas, fantasmas camuflados de pássaros, retângulos distorcidos e um rosto. Desviou o olhar. O dia, enamorado, se deixou sucumbir nos braços da noite, que já se envolvia de estrelas e escureceu, levando consigo as angústias dela. Apesar da aparência mansa, Isabela alimentava fúrias inconfessadas, feras ansiosas para romperem amarras. Onde escondi a ternura? – Questionava-se. Deslizou até o campo que se apresentava verdejante e convidativo para brincadeiras ou meditação.

Procurava, em algum lugar escondido, coisas que desejou ter realizado, verdades afogadas na espera de espaço porque não lhe deram tempo para a revelação. Deu-se conta de que havia desprezado uma fase mais branda, mais plena de detalhamentos e se infiltrara em nebulosidades inconsequentes, que, no final, não resultariam em nada. Não poderia mais retroceder. Soltara, com sofreguidão exagerada, o fio que mantinha no ar segura a pandorga que bem poderia simbolizar a vida dela. Encantavam-na os rodopios do frágil serzinho no ar. Esticava o barbante. Reduzia-o para ver a pipa correr como um pássaro pelo céu. Depois a puxava bruscamente para certificar-se de que ainda estava no comando. Sentia que, por meio do brinquedo tão inocente, serpenteando nos ares, buscava a libertação. Desafiava-o e se desafiava, enviando-lhe, através do fio esticado, palavras cifradas, escritas de véspera e com cuidado, em quadrículas de papel-cartão.

O brinquedo, se escapulisse do barbante e voasse sem controle, cairia em algum lugar. Se tivesse sorte, alguém leria as palavras dela. Algum menino, radiante pelo achado, talvez, nem se desse conta do recado que almejava por decifração. Um adulto bem-intencionado, que soubesse capturar o que tentara imprimir nos escritos, esperava, seria o seu salvador ou seu carcereiro. Deu-se conta de que estava tomada de um sentimento que não conseguia decifrar o sentido. De que lugar emaranhado dela surgiu? Onde se aconchegou e por que a torturava sem compaixão? Num rodopio da pandorga, se decifrou. (Não covid-19! Covid 20). A piadinha nem tinha muita graça. Estava mais para humor negro, mesmo assim gargalhou. Riu tanto que, distraidamente, soltou o fio que a mantinha presa à pandorga. Olhando-a fugir rasgando o azul do céu, confundindo-se com os pássaros que lhes imitava o voo, percebeu que o medo era irrefutável: o vírus surgido na China, com o intrigante formato de coroa, se não aniquilasse todos os humanos, talvez pudesse aprimorá-los, para o bem ou para o mal. Quem já era bom, se tornaria muito melhor. Os maus aprimorariam a maldade. Procurou a pandorga no ar. Viu apenas um balão de gás que se afundava nas nuvens. Sorriu. Lembrou-se dos filhos e dos netos e se sentiu Clarice, porque, quando tudo se diluísse, na memória deles, poderia ter deixado algum vestígio.

A VIDA SERÁ COMO UM JOGO DE CARTAS?

13/09/2020 às 13h11

Nascer no Brasil é quase um ato de tira-sorte ou busca-azar. Quando as pessoas nascem, cada uma delas recebe cinco cartas para se iniciar no jogo da vida tal como acontece numa partida de pôquer. A primeira carta determina o lugar, (continente, país, estado, cidade), onde nascerá. O segundo naipe é o fator que será o determinante da cor. Nele estará escrito se pertencerá à raça negra, branca, vermelha ou amarela. A terceira carta estipulará se a sua será uma família pobre, classe média ou rica. Na quarta, haverá a indicação se a pessoa nasce com pouca ou muita inteligência. A quinta carta? Ah! Essa é a carta que a vida dá de presente para cada criança que nasce, tenha a nacionalidade, a cor, a condição social, o quociente intelectual altíssimo ou quase zerando, seja bem ou mal herdado. O naipe cinco é a carta da sorte ou do azar. É a mais importante porque pode contrabalançar todas as outras cartas ruins. Pode ser decisiva para a pessoa vencer na vida. Ou não!

Agora, já imaginaram se o bebezinho nasce brasileiro, negro e pouco dotado de inteligência? Um país de tantas disparidades sociais, apesar de ser um verdadeiro caldeirão de raças, notabilizou-se por ter um dos povos mais preconceituosos do mundo. E discrimina, sem vergonha ou piedade, todos aqueles que não se regem por uma pré-determinada cartilha especificadora de cor, sexo, condição social, nível de inteligência. (Há brasileiros de caráter irrepreensível, no entanto). Apesar do nascimento já acontecer com as cartas marcadas, resta o consolo individual nominado como livre arbítrio. Nele cada um pode construir ou destruir a própria vida desde que as condições sociais e a estrutura familiar lhe proporcionem vencer ou sucumbir. Por não se ter condições de saber como será o amanhã, a última esperança repousará em um ser humano muito especial: o bom professor, esse ser tão pouco valorizado, mas que lhe poderá ampliar horizontes. Basta não desperdiçar oportunidades…

DIZER E NÃO DIZER…

12/08/2020 às 18h24

 

Não me deixem falar dos sonhos porque a vida me consome em pesadelos e me mantém de olhos bem apertados. Não me deixem falar das flores porque a chuva, iniciada fininha, foi se travestindo de fúrias e de temporais, tomada de extremada violência, varreu os canteiros das praças, engravidou de águas os rios para darem luz à desgraça e, com um véu bem caudaloso, invadiram as casas para nelas implantar a morte ou a desdita. Não me deixem falar do vento porque, lá fora, só a brisa, fraquinha, sem traquejo, meio sem jeito, deu uma assopradinha, bem micha, na cara emburrada da tarde. Não me deixem falar de vozes porque, surda a lamentos, a quietude do dia tapou-me os ouvidos para não ouvir os sons irritantes de marteladas em telhado mais novo. Não me deixem falar do dia porque o sol inclemente sugou o limo da terra, bebeu a água do mar, fugiu para longe e, cheio de graça, foi se fantasiar com as cores do arco-íris. Não me deixem falar das crianças porque os adultos serraram as chaves das casas, encarceram-nas nas redomas mais enredadas de seus quereres e as aprisionaram na lábia das promessas de felicidade e de incontroverso sucesso futuro. Ah! Não me deixem falar da noite porque as estrelas a esconderam no ponto mais negro do céu e a disfarçaram de fada e madrinha, só pelo terno encantamento de brincarem de esconde-esconde com as nuvens. Depois, de mãos dadas com os anjos, vão cirandar com as luzes da aurora. Não me deixem falar das maldades porque as guerras, espalhadas por toda parte, exauriram os combatentes e os generais para banharem os continentes com seu sangue e estratégias. Não me deixem falar da dor porque se acomodou nos leitos dos hospitais, abafou o choro dos desesperados e a cura prometeu a eles um pouco da seiva saudável da vida. Proíbam-me de falar que a violência grassa nos campos e nas cidades, nos palácios e nas palhoças, fere tanto os desvalidos corroídos pela indiferença. Cerrem-me os olhos para não ver o flagelo com o flagelo com que se transformaram homens e mulheres bestializados por todo tipo de drogas e vedem-me a boca para não denunciar os traficantes que alimentam as guerras familiares e alastram a desgraça por toda parte, abatendo os criminosos e os inocentes.

Proíbam-me de falar dos políticos e dos governantes que se apossam de verbas, surrupiando-as da saúde, da educação, da segurança, que enriquecem sem fiscalização e se corrompem para dar guarida à inconsequente ganância criminosa. Não me deixem dizer dos funcionários públicos coniventes com a roubalheira aos cofres pátrios, que se alimentam de propinas, por acreditarem que jamais haverá represálias.

Deixem-me falar do amor, das amizades, dos abraços mais apertados, das eternas promessas de gozo mais pleno, do bailado constante e irrefreável entre o nascer e o morrer, dos questionamentos que torturam os crentes e os incrédulos, gestores do mistério angustiante do onde viemos e para onde vamos, perseguidos pela indefectível dúvida de como será o amanhã.

Deixem-me falar da esperança porque o verde que irradia mesmo em faces bem pálidas, o brilho que empresta aos olhos ternura, o calor que aquece as quimeras que rondam as portas dos lares.

Deixem-me falar da espera e da partida porque nisso sou mestra e aprendiz, torcedora e torcida, inquietação e paciência, silêncio e denúncia e o cultivo com dedicação e carinho porque, um dia, certamente, me encontrarei com a chegada.

Então, não mais lerei, em jornal algum e não verei em nenhuma tela de TV, que a corrupção, a violência, o descaso com a educação, o descomprometimento com a saúde, a irresponsabilidade das famílias em bem educar os filhos, a falta de cobrança da sociedade contra os desmandos e a impunidade dos maus gestores proliferam sem que lhes alcance a punição. Nesse dia sem ano, regido por um relógio sem ponteiros, talvez numa tarde sem graça ou numa noite sem lua, haverá um tempo, camuflado de variegadas cores, em que acreditar num mundo melhor.

SÓ UMA COR

15/07/2020 às 11h39

Quando, entre os povos, há fome, fome de justiça, fome de crença, fome de afeto e a pior de todas, a fome que dilacera as entranhas e embota o raciocínio, resta pouco em que se acreditar. Quando o medo tolhe a caminhada, faz dos estranhos o inimigo ou os valores éticos e morais são relegados a preceitos sem importância, tudo parece perdido.

Em quem acreditar se a justiça só é cega para os desassistidos, se a riqueza pode não ser produto de trabalho honesto, se a educação deixou de ser prioridade, se ler um livro é perda de tempo, se obra de arte é luxo descartável? Onde reside a generosidade, se o diálogo em roda de amigos ou em reuniões familiares, a palavra oral emudeceu e o som que denuncia a vida é inaudível porque substituído pelo teclado de um celular, imagens de vídeo, conversas cifradas e impessoais no WhatsApp?

Em quem confiar se os mais altos escalões do poder, tanto político quanto judiciário não se revestem da lisura e da confiabilidade que deveriam nortear a grandeza e a seriedade de uma nação? Se o tamanho da pena imposta ao crime depende da competência do defensor e da capacidade financeira do criminoso para ser defendido?

Uma nova realidade poderá surgir se a mudança comportamental partir de cada um. Só os bons exemplos educam, a gentileza contagia, a amorosidade desarma belicosos, o desapego do que não é utilizado, daquilo que se tem em demasia pode vestir o maltrapilho, saciar a fome de quem lhe falta o pão. Ao modificar a maneira de agir e de pensar, cada pessoa pode estar abrindo as portas de uma realidade melhor, que deve ser monitorada pela sedutora senhora chamada Esperança.

SONHAR PARA NÃO ENVELHECER

13/03/2020 às 11h24

Hoje acordei com alma de brisa, sedenta por perfume de flores, desejo de comer bergamota para deixar o sumo de meus erros evaporarem ao sol. Acordei com o corpo cheio de infância para correr na chuva, andar pelas sarjetas, tecer cascatas nas águas acumuladas e, envolta pela inocência dos infantes, acreditar que o mundo ainda pode mudar. Acordei com fome de justiça para tornar menos díspares as diferenças sociais e menos injusto o fardo que muitos têm para carregar. Acordei sequiosa de abraços bem apertados, saudosa dos beijos que não dei, das carícias sonegadas, dos segredos que não compartilhei, da gargalhada que retive. Acordei com desejo de tornar bem reais os sonhos que deixei de sonhar, de esquecer os dias inúteis, as palavras ferinas, os dedos em riste, as acusações sem sentido. Acordei porque os pesadelos, grávidos de arrependimento, mostraram-me que, se deixar a maldade eclipsar o bem, a vida se transformará num grilhão difícil de romper e impossível de carregar. Acordei com muita pressa porque preciso pedir perdão por coisas que nem fiz, não por falta de vontade, mas, comedida e em tempo, abortei a intenção. Então, com a borracha rechonchuda e poderosa, quero apagar o tempo perdido com coisas inúteis, reuniões sem sentido, tardes desperdiçadas em busca do nada, tarefas malfeitas, ofensas praticadas e outras tantas recebidas.

Com olhos bem abertos, quero avolumar as asas dos devaneios porque percebi que envelhece mais rápido, quem deixa de sonhar ou, desanimada, torna bem diminutos os sonhos. Bem acordada, aprendi que um dos jeitos mais aceitáveis de viver (e de envelhecer) é reconhecer os errar para jamais repeti-los. Aprendi também que deverei me dedicar menos às redes sociais, volver mais o olhar para as borboletas e os beija-flores se alimentando com o néctar das flores para dançarem ao ritmo do vento. Assim terei mais tempo de ouvir as serenatas que os pássaros fazem ao alvorecer. Embriagada com a sede de viver e alimentada pelo desejo de ser feliz, plantarei mais flores, dedilharei mais poemas, recitarei versos à lua para fortalecer a alegria e certificar-me de que ainda detenho o poder sobre o que penso, ainda articulo com perfeição as palavras e escuto até as lamúrias do vento. Assim, encantada com a vida, em paz com meus fantasmas, ciente de que ainda tenho coisas a realizar, poderei dormir o sono dos justos e acordarei mais conformada por envelhecer.

NATAL PARA SEMPRE

31/01/2020 às 08h39

Para viver o Natal todos os dias, ignorem-se as injúrias, as palavras insensatas, as incontidas revoltas interiores. Afugente-se o que nada de bom se tem a dizer sobre o outro. Ressalte-se o que cada um possui de melhor. Divulgue-se o que de mais perfeito se sabe fazer: a receita de um bolo, um risco de bordado, um bom texto, uma música, o enredo de um filme. Não se aprisionem as palavras bonitas e encarcerem-se os vocábulos ofensivos. A isso se chama viver. E coisa boa é viver, voltar no tempo, caminhar para frente, corrigir desvios e se perdoar porque os erros sempre vão acontecer e, talvez, com maior gradação da intensidade. Maravilhoso é o poder que a palavra tem quando se diz te amo, perdoa-me, desculpa-me, com licença, estou aqui! O esplendoroso da existência é saber que cada pessoa, em cada minuto, pode refazer a trajetória de sua vida como a fênix que renasce das cinzas ou como os otimistas que sabem olhar a vida com o mais perspicaz olhar, iluminado pelo coração.

A arte de saber viver implica sacudir a poeira do ranço que empesta almas, bradar ao vento a magia de as pessoas estarem vivas e serem dotadas da capacidade de agradecerem às ilimitadas possibilidades de se reconstruírem sempre. Viver possibilita agirem como se fossem os únicos donos do tempo, condutores exclusivos do destino, prontos para reiniciar qualquer caminhada. A isso, ao som mental e ao registro dele, chama-se esperança, esse lume invisível que deve ser o condão mágico a iluminar o existir individual. Viver, somatório de muitas possibilidades, pode ser a prática do impalpável ou do imperceptível, transformando-a em âncora para dar impulso a qualquer ideia acalentada.

Para que o encanto de viver se multiplique, não se pode perder de vista o porto seguro que é a certeza de se ter amigos e com eles poder valsar na melodia do afeto sem que haja qualquer melodia. Dividir o viver é estender as mãos para amparar os caídos, sorrir para reascender a alegria dos tristes, acreditar que palavras e pensamentos positivos são capazes de operar milagres. Saber viver é equacionar as coisas boas, frutos da afetividade, juntando perdas e ganhos, subtraindo malqueres, potencializando-os em bons desejos, porque eles retornarão multiplicados para quem os desejou, se foram plasmados com a real intenção do voto.

Viver é jamais fazer parcimônia da alegria, é escamotear as tristezas e olvidar os sofrimentos, dando ênfase a tudo aquilo que se está disposto a vivenciar. Saber viver é poder barganhar com a sorte e afugentar os maus pensares. É transformar um simples amanhecer numa enorme loteria. É distribuir o que se tem de mais belo entre os afetos para que a felicidade, essa dama tão sonhada, se potencialize junto àqueles que sabem da importância do que é o bem viver e o ser feliz. Portanto, viva-se como se sempre fosse Natal para que o amor, a alegria, a paz, a amizade, a esperança e a fraternidade se façam presentes junto a todos os que ainda acreditam que milagres existem e são capazes de fazer frutificar qualquer sonho insistentemente acalentado.

LER É UMA VIAGEM

27/12/2019 às 16h21

Ler é emplumar as asas da imaginação para viajar por distantes espaços sem precisar sair do lugar. Para isso, basta se deslocar para uma estação chamada livro, adquirir a passagem e embarcar em páginas que conduzirão o leitor para mundos fantásticos que atendem pelo nome de romances, contos, novelas, fábulas, crônicas, comédias, anedotas, artigos, poemas e sonetos. Nesses gêneros literários, o passageiro dessa magnífica viagem, concretizada por letras, percorrerá contextos diferenciados, aprenderá termos novos, capturará diversificadas percepções de vida e poderá escolher o estilo de escrita que melhor se ajustará ao gosto e à sensibilidade individual.

Nos romances, nos contos, nas novelas, até nas crônicas, conforme a vontade de quem os escreve, o leitor-passageiro transitará pelas mais doces ou tétricas fantasias. Verterá as lágrimas dos incautos apaixonados, sorrirá o sorriso dos felizes, truncará os dentes dos rancorosos e padecerá o inferno dantesco dos traídos, dos rejeitados, dos desalmados e de todos os ados que rondam por aí. A cada capítulo ou parágrafo, esgrimirá com os mal-intencionados, renegará os preconceituosos, aplaudirá os abnegados, se identificará com os generosos, os derrotados e os vencedores.

Nas fábulas, animais, árvores, flores, seres inanimados ganham a dimensão humana. Através de metáforas e tantos outros recursos literários, o autor falseia a realidade para tornar mais amena e muito mais aceitável essa espetacular aventura, que atende pelo nome de vida. E ouve vozes, e confere energias férreas a seres frágeis, e fragiliza monstros e feras, e se faz herói entre bandidos e malfeitores.

Nas comédias ou nas anedotas, o leitor gargalhará ou apenas sorrirá. Se identificar o sarcasmo da ironia e sobre quem ou para quem a piada e a anedota foram criadas, a que tipo de pessoa se insinua, celebrará a descoberta através de ruidosa gargalhada. Nos artigos, cada passageiro poderá se indignar, discordar ou anuir com a ideia exposta. Ao se envolver com as críticas, refletirá sobre os encaminhamentos contidos nas ações levantadas pelo articulista e, uma vez envolvido, jamais ficará indiferente.

Já os poemas e os sonetos são o deleite dos leitores sensíveis. Podem ter rimas, sejam elas muito ricas ou pobres, raras ou preciosas, perfeitas ou imperfeitas. Nem precisam ser rimados. Se a temática envolve o amor, a fraternidade, a natureza, especialmente as flores ou quaisquer outras manifestações dos sentimentos, sempre comoverá quem os lê. Se, dos versos, aflora muita dor, desfilam grandes tragédias, rolam copiosamente as lágrimas. Podem ser bem ou mal escritos. No entanto, neles não deve faltar o ritmo, o maior trunfo da poética.

Nessa viagem sem grandes compromissos, dela o passageiro pode desembarcar quando quiser e retornar a ela à medida que vai tomando gosto pelo hábito de ler. Depois de ter sido cativado, a paixão vai se intensificando. Então, o encantamento pela descoberta de novas realidades, a incorporação de diversificadas culturas, a reflexão a partir de outros ângulos, a necessidade de novos vocábulos a decifrar, tudo serve como motivo para conduzir o leitor a novas viagens. No término de cada leitura, o autor do livro, se pudesse ouvir do leitor que amou o lido, certamente teria motivações renovadas para jamais desistir de escrever.