Revista Statto

IVONE, UMA MULHER

13/03/2020 às 14h21

Ivone arrastava o chinelo de solas gastas pelo cascalho da ladeira, em ritmo dado com a melancolia. Vinha sempre com um sorriso tão gasto quanto a borracha das sandálias: prestes a rebentar em machucados. A gente, na época, não sabia o que; preferia a antipatia, a implicância.

 

Éramos eu e uns dois primos, ainda guris mal-chegados aos dez anos. Lembro que ela ficava mais faceira quando passava por nós, contagiada de brinquedos; troçava, convidava a piazada pra tomar café na casa velha. Por vezes fomos lá, de dia: um pátio escuro já antes do sol morrer, cercado de um taquaral fechado, com um poço de águas fundas no limiar com o que desconhecíamos. A casa era simples como todas as nossas, porém mais triste, mais quieta. Eram, a casa e a dona da casa, assim muito afinadas, íntimas de um mesmo sentimento que apodrecia as janelas. O único vestido que Ivone vestia tinha uma cor aparentada à da casa, um rosa roto, e também estragos brutos, feios.

 

Quando Ivone se botava a lavar a roupa pesada na areazinha de chão batido sob um teto de lona, a casa toda virava um lago grande, espesso, turvo de inadequado. Não digo que chovesse sempre que a Ivone machucava as mãos no sabão de pedra; mas era como se chovesse. O pátio, que de costume já tinha sempre poças de água parada escondidas nos cantos, daí que virava mesmo um charco. Hoje eu penso, sem grandes pretensões de adivinhar os mistérios alheios, que aquele lugar inteiro chorava com a Ivone, com os lamentos que ela soltava na sina de cansar pelos outros.

 

Se bem que nem tudo são mistérios nessa vida.

 

Acontece que a Ivone tinha também um marido. E três filhas moças: a mais nova que se deixava ficar de passagem com a gente, vez em quando; as mais velhas que mal mexiam a boca pra cumprimentar a vizinhança. O marido era a desgraça explícita da família. Trabalhava numa oficina ali mesmo no beco cheio de cortiços em que a gente viveu a farra e a miséria da infância. Nunca, que eu me recorde, ouvimos a voz dele durante o dia; mas depois da diária cumprida, com as ideias endiabradas pela cachaça no bar do Polaco, o homem vinha todo bambo, o bafo de gambá sensível aos longes, xingando de nomes feios a gurizada que lhe acertava boladas nas canelas.

 

A gritaria que ele fazia em casa era o pior. Ouvíamos as ofensas, as desconfianças, os impropérios destinados à mulher e às meninas. Choros de raiva e cansaço. Desistências. O homem perseguindo as filhas, errando até os nomes da prole, querendo vingança por ser um imbecil. Davam voltas e voltas na casa, a gente via da janela – até que ele caía, podre, imprestável, a cara desfazendo nas poças. Elas vinham vindo devagarinho, por detrás das taquareiras. Juntavam o traste do chão. Depois, madrugada alta, seguíamos ouvindo o choro dele, emoldurado dos curtos gemidos femininos.

 

Um dia, que parecia ia ser igual aos outros, o marido da Ivone morreu. Ninguém fez nada: ele não foi envenenado; nossas famílias, sempre corretas no cuidar a vida dos outros, nunca violaram o direito do falecido infernizar a vida de quem com ele vivia. Também não houve lamentos; os adultos foram ganhar o pão, as crianças foram jogar a bola. A vida mudava e não mudava.

 

Mas pra Ivone, mudava, e muito. E tudo.

 

Foi trabalhar fora, encaminhou as filhas nos estudos, quis a vida acumulada. Comprou mais de um vestido, pintou a boca com o vermelho mais exuberante que a vendedora da Avon trazia no catálogo. Arranjou amantes, piscava o olho para os guris que engrossavam a voz, mandou botar um espelho grande na sala –  pra nunca, nunca mais sair de casa sem se reconhecer as vaidades. Aprendeu a ler cartas. Baixou a Pomba-Gira. Incrementou de misticismos atrevidos o pátio da casa, provocadora dos costumes católicos. Dançou e tomou cachaça ao redor do fogo.

 

Nunca mais se proibiu de nada, a Ivone.

 

As famílias não viam com bons olhos isso tudo. Gente pobre, mas direita; pelo certo. Mulher viúva, três filhas pra criar. Quisesse casar, casasse. Arranjasse outro homem – o mesmo raio não cai duas ocasiões. Recuperasse a boa crença, os modos, a humildade de lavar toda noite o mesmo vestido da manhã seguinte. Queria comunidade? Queria futuro? Queria o respeito das velhas? Tudo ao alcance; com preços.

 

Ivone não ouviu ninguém. Ninguém também ouviu mais homem nenhum levantando a voz para ela. A cachaça, que ela servia em casos de merecimento, era para delírios próprios. Quando foram entregar a santinha na porta da casa (a Ivone mandou pintar toda a madeira velha, agora era festiva; que durasse mais um ano, mas durasse bonita), ela recusou. Não fazia questão de receber santidades que nunca a protegeram dos trágicos.

 

Na minha lembrança, Ivone nunca morreu, apesar dos anos. Periga, se volto lá, ouvir sua gaitada exagerada, a festa no dia de semana, os afetos que distribui aos moços e velhos, faceira.

 

Periga eu ouvir seus gritos de liberdade.

 

 

 

Atílio Alencar de Moura Corrêa

Produtor cultural / Escritor independente / Mestre em História (UFSM)

Fone/Whatsapp: (55) 99702 4262

 

NO LIMITE

14/02/2020 às 11h29

Vivemos num limiar, embora não saibamos exatamente o que nos espera além do próximo passo. Não há, por suposto, nenhuma intenção de fazer desta frase algum manifesto de profundidades. Mas me parece um fenômeno mais ou menos consensual que nossa época é dada a dicotomias, mesmo que gastemos muito tempo afirmando exatamente o contrário; que somos filhos de um tempo em que a multiplicidade, a diferença e a diversidade são as características essenciais.

 

Houve um tempo – e se não me falha a memória isso foi há poucos anos – em que era perfeitamente possível conduzir conflitos ideológicos sem recair na alternativa fácil da negação do outro. Claro que não me refiro ao choque entre extremos nem aos discursos que se travestem em retórica de ódio. Claro que falo também de meios sociais onde a urgência pela sobrevivência não desautoriza, a princípio, a arte do argumento e do contraponto. Não podemos afinal fingir que a paz foi algo um dia universal – pelo contrário, o mais comum é que a tranquilidade de uns esteja alicerçada no pesadelo de outros. Isso se chama História, que é o nome que damos à vida em movimento.

 

Mas quando foi mesmo que se tornou impraticável a coexistência das diferenças dentro de um espectro mais ou menos comum de referências? Quando o liberal instruído e socialmente engajado passou a salivar de cólera ao lado de apologetas de ditaduras? Desde quando a social-democracia, por insuficiente que seja, passou a flertar com o desrespeito ao Estado laico e às liberdades de expressão? Qual foi o caminho torto que fez com que ativistas da democracia se aliassem, em nome de um suposto risco de “golpe comunista” (sic), ao que há de mais abjeto na cena política brasileira? Quando foi mesmo que os partidos com projetos de emancipação popular cavaram abismos entre uns e outros, impedindo por questão de minúcias as composições que poderiam atenuar os vícios governistas?

 

Não que eu seja um entusiasta do caminho do meio; acredito que eventuais atitudes radicais fazem o mundo se mover, que a desobediência às convenções tensiona os limites e condicionam o necessário progresso social. Mas quando, cotidianamente, perdemos a capacidade de extrair conhecimento dos conflitos, quando abrimos mão de encarar nossas próprias contradições em nome da insistência dogmática de auto-preservação, é sinal que o mundo não está andando: está é girando às tontas sobre as velhas formas de viver, por medo, insegurança, ódio.

 

Disso resulta que nos acostumamos com gente jovem aderindo a ideias de repressão, com o cinismo substituindo a franqueza, com o preconceito vingando as insatisfações coletivas ou pessoais. O limiar é no aqui-agora, mas a escuridão do outro lado só se ilumina com a coragem de saber combater com práticas e ideias, e não com ignorância e ensimesmamento.

 

Talvez há que se voltar o espelho para nossa própria face em algum momento – porque a estupidez, esse demônio ressentido, se esconde nos medos íntimos.

 

 

 

Atílio Alencar de Moura Corrêa

Produtor cultural / Escritor independente / Mestre em História (UFSM)

Fone/Whatsapp: (55) 99702 4262

 

http://amargemavessa.wordpress.com/

QUILOMBO, UM OUTRO NOME PARA RESISTÊNCIA

27/12/2019 às 16h35

A primeira vez em que pisei no chão de um quilombo eu era muito ignorante para saber onde estava pisando. Deve ter acontecido quando eu tinha pouco menos ou mais de dez anos, num passeio em que meu avô me levou para rever as fundações da antiga casa onde viveu no campo, à sombra dos eucaliptos. Fomos na velha fubica do pai, um decavê fabricado no início dos 60 e que mais parecia um cascudo tastaveando na estrada poeirenta. Que eu me lembre a viagem durou horas; mas esta impressão eu atribuo ao costume da memória de falsear as coisas. Entre o centro de Cachoeira do Sul, lugar onde minha família ainda vive, e o distrito da Cordilheira, no sul do município, não creio que um carro demoraria mais de uma hora. Mesmo levando em conta o temperamento instável do decavê.

 

Quando voltávamos pela mesma estrada, comendo a mesma poeira que a janela enguiçada do carro não podia evitar, meu avô apontou para uma tapera e disse um nome que, talvez absorto pela visão daquela aldeia improvável, não guardei. Meu pai parou o carro, o vô apeou e bateu palmas. Sem demora um senhor que aparentava a mesma idade dele despontou na porta da casa. Forçou a vista primeiro, depois sorriu e veio andando na direção do decavê. Logo apareceu mais gente atrás do velho: primeiro uma senhora, em seguida umas moças e moços, enfim as crianças. A primeira coisa que notei foi que eram todos negros e negras; quando baixei os olhos, vi também que todos traziam os pés descalços. Permaneceram ao fundo, enquanto os dois velhos se aproximavam para a prosa. Durante a breve conversa que travaram, de caráter memorioso, falaram em causos de gente que já havia morrido, das lidas no campo e de um ou outro episódio sobrenatural que ouvi meu avô evocar ao longo dos anos.

Apesar da risada farta do velho senhor negro, minha imaturidade não me impediu de perceber que entre as duas pobrezas, a do meu avô branco e a daquele preto velho, havia diferenças. Diferenças que não estavam só na cor da pele; estavam muito mais na ausência de calçados e na casa quase em ruínas que o outro compartilhava com sua linhagem. Eu que sempre ouvi minha família contar que abandonou o campo para fugir da pobreza, não sabia que a fuga não era uma alternativa para tantos outros.

 

Pouco tempo depois, meu avô já não estava vivo para ouvir minhas indagações sobre a palavra nova que aprendi na escola. Tampouco acredito que ele saberia associá-la ao velho conhecido que deixou pra trás quando rompeu os laços com a estância onde trabalhou metade da vida. Apontando para a ilustração que representava um homem negro sendo açoitado a golpes de chicote por um homem branco, minha professora de História, não por acaso branca, soletrou ligeiramente a palavra quilombo para falar na rebelião dos negros. Para falar que Zumbi viveu num quilombo, o mais famoso, o que lhe rendeu a glória exclusiva de figurar nos livros didáticos. Mas os livros mal falavam do passado dessa gente; e nada falavam do presente dos que sobreviveram ao açoite. Assim, segui sendo um ignorante do significado de quilombo, para mim então um vocábulo extravagante que precisava ser guardado em caso de constar na sabatina.

Foi só depois do fim da adolescência que veio a revelação tardia. Estava na faculdade, cursando justamente a História que uns anos antes me deixara ignorante sobre quilombos, quando um colega, não por acaso negro, comentou em aula que no estado do Rio Grande do Sul ainda havia muitos quilombos. De pronto, a figura de Zumbi, as costas sangrentas do escravo castigado e uma vaga impressão de familiaridade com aquela informação me tomaram de assalto. Quis saber mais sobre aquilo: afinal os quilombos não tinham desaparecido, submetidos pelas sucessivas expedições dos mercenários da Coroa? Não, não tinham. Quilombo é palavra-presente, um outro nome para resistência, me contou o colega. As comunidades que sobreviveram à escravidão, à negligência e à criminalização estão lutando agora pelo reconhecimento do seu passado em comum, do seu terrítório, da sua cultura. Lutando para que nos livros didáticos o capítulo sobre a presença negra no Brasil não seja um mero apêndice exótico; para que a História reconheça a contribuição negra na formação do Brasil em todos nos sucessivos capítulos da vida real.

 

Alguns anos atrás, do modo mais inusitado, pude pisar no chão de vários quilombos – desta vez sabendo muito bem onde pisava -, todos cravados no extremo sul e na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Desta vez, não foi por acidente que me deparei com as comunidades quilombolas. Foi para registrar as narrativas que se tornariam um documentário que reencontrei, mais viva do que nunca, a palavra quilombo. Conversei com as pessoas, ouvi as histórias antigas contadas pelos quilombolas mais velhos aos mais novos; e também a História sendo reinventada pelos mais novos, que por sua vez a contam para os pais e avós.

 

Fomos ao Passo do Lourenço, ao Rincão Faxina, ao Ibicuí da Armada, ao Torrão, ao Rincão Quilombo, à Vila Progresso, ao Rincão das Almas, ao Rincão do Couro. Em todos estes lugares, vi homens e mulheres que sabem de onde vem e por que estão ali – e principalmente sabem por que querem continuar vivendo onde estão. Sabem dos seus direitos, mesmo tendo crescido ouvindo que não tinham direito nenhum.

 

Nos quilombos ouvi sobre as benzedeiras que, num passado recente, amenizavam com seu conhecimento das ervas curativas a ausência de postos de saúde e atendimento médico; sobre o sacrifício dos soldados negros na Revolução Farroupilha, ignorados nas fábulas de exaltação narradas pela mitologia gauchesca; sobre as receitas improvisadas com farinha que garantiram a sobrevivência em tempos de carestia; e sobre as práticas mais abjetas de que um homem pode se valer para tomar a terra de outro, sob o pretexto de que o branco pode tudo, e o negro não pode nada. Para os negros, só os frutos caídos do pé ao acaso; para os brancos, a propriedade das árvores, como relembrou com crueza um senhor quilombola.

 

Vi as cabeças erguidas mesmo onde os pés ainda estavam descalços; e vi as mulheres negras se organizando, erguendo a voz, dizendo um rotundo não às práticas de silenciamento que querem eternizar senzalas e quartos de empregada. São professoras, líderes comunitárias, estudantes. São empregadas domésticas também, mas estão conscientes de onde termina o emprego e começa a servidão. As mais velhas falavam abertamente sobre as circunstâncias mais ingratas em que se pode viver numa sociedade racista e conservadora: ser mulher, negra e pobre. E ainda assim arranjar um jeito de ensinar os filhos e filhas que ninguém é menos que ninguém.

 

Demorei para entender, mesmo depois de tudo que vi e ouvi, que o processo de reconhecimento territorial, inegavelmente legítimo e necessário, chega com atraso irrecuperável para gerações e gerações. Demorei para lembrar que eu mesmo vi quando menino um quilombo, sem nome nem perspectiva de reconhecimento ou amparo, povoado por gente ainda mais pobre que os pobres do campo, cuja miséria foi determinada pela ideia dominante do que significava ser branco e ser negro. Nunca li na escola livro algum que dissesse que os bandeirantes fracassaram, que Zumbi era muitos e muitas, que Palmares é irredutível. Mas agora eu sei, porque os quilombolas me ensinaram, que a História do povo negro no Brasil ainda está recém começando a ser reescrita.

 

Quilombo, um outro nome para resistência, pelo viés de Atílio Alencar.

MESMO QUE NENHUM LUGAR SE CHAME MACONDO

04/12/2019 às 11h11

Dizem que 2014 foi o ano da morte de García-Márquez. Dizem também – e não teríamos motivos para duvidar, caso não gostássemos de atribuir ao escritor colombiano uma perícia igual a do cigano Melquíades para tapear a morte – que o velho já não atinava bem das ideias antes de desencantar-se: esquecia nomes, confundia as feições de amigos e parentes, andava mais desbocado que o habitual, como que emboscado por uma das tantas febres a que submetera suas personagens, para debochar da ordem corriqueira das coisas.

 

Teria pago assim com a perda da já inútil razão por ter feito pouco caso da sanidade do mundo – e pelo disparate de haver mostrado que este mundo cabe, com todas as suas dores e delícias, numa aldeiazinha de nome aborígene, bem distante do mar.

 

Inventar um rincão que sabe guardar o mundaréu não foi, por certo, o gesto mais original de García-Márquez. Outros tantos antes dele o fizeram, e alguns vizinhos seus de século e continente lhe ensinaram muito bem a lição, quando o carimbo do Realismo Fantástico ainda não havia sido incorporado pelos europeus como a senha invariável para a ‘exótica’ (segundo eles, não nós) literatura sul-americana.

 

Acontece que Macondo foi além, e sem sair do lugar, veio dar o ar da graça nos dias de hoje: seu excesso e sua escassez de realidade, a releitura em versão pirata dos mitos bíblicos, a teimosa repetição de nomes e humores ao longo de uma linhagem incestuosa, a epopeia de ponta-cabeça dos retirantes que deram nome à comunazinha; tudo que teve lugar ali impregnou muito mais do que um estilo literário, mas sim o próprio imaginário de quem – e somos muitos! – não acredita que a História da América Latina se possa contar com amparo na lógica do dois mais dois igual a etcétera.

 

Avista-se Macondo desde qualquer janela aberta no continente, embora nenhum cartógrafo a faça constar nos mapas oficiais. Basta aspirar o cheiro do zorrilho numa estrada de província, ou cruzar com as tábuas descascadas que menos indicam caminhos do que os confundem – ou em dias de aguaceiro, ao atolar os pés na nata escura do lodo das estradinhas que levam ali, onde os Zés Buendías recostados ao balcão da bodega afogam a centenária solidão das estirpes condenadas.

 

Em cada quilombo, uma Macondo.

 

Claro que Macondo pode muito bem cheirar a asfalto, nos dias de hoje: o lodo se transmuta em piche para urbanizar os desacatos que o povo da aldeia comete contra as linhas retas, os sonhos mofos, o progresso sem tato das máquinas de carne ou metal. Macondo sobrevive então no alvoroço de uma praça em hora imprópria, no atrevimento com que as crianças guarany fazem da calçada seu quinhão retomado de floresta, na desobediência teimosa dos artistas de rua, na mágica improvisada de fazer brotar poesia bruta dos muros.

 

A antropofagia em estado puro dos que comem a sabedoria do outro para matar a fome de alteridade, e não para matar alguém, é também um atalho para Macondo.

 

A aldeia resiste. A Macondo sem cabresto se atualiza nas marchas por direitos, nas ocupações, nos gestos clandestinos que recusam a prata miserável com a qual nos querem comprar a ternura; também nas cidades que duram a fagulha de uma paixão. Assim que a aldeia resiste em todas as línguas do mundo. Seu nome pode ser eventualmente esquecido durante um longo período de insônia, amassado por golpes de cinismo, soprado pelos ventos da infâmia. Mas não pode morrer: está ali, pronto para renascer no céu da boca como uma estrela intermitente.

 

Disseram que García-Márquez, o homem que nos ensinou o caminho até Macondo, morreu no ano de 2014. Não acreditem nisso. Um homem que se deixa conduzir de mãos dadas com a própria poesia, só pode estar vivo em todo lugar. Mesmo que nenhum lugar se chame Macondo.

UMA ROSA DO SERTÃO

22/10/2019 às 14h50

Rosa deixou o grande sertão mineiro para viver um amor impossível no sul. “Não pensava em mais nada, só queria ficar perto dele. Daí vim embora pra cá.”

Depois o amor acabou, mas Rosa tinha se afeiçoado ao sul. Fez amizades, constituiu família, criou laços com a terra. Por gostar de ajudar as pessoas, resolveu lutar ao lado dos que precisam. “A gente tem que se ajudar, só assim a coisa anda”.

Quando a conheci, ela estava reforçando a estrutura de um barracão de lona no acampamento sem-terra Gladiadores sem Fronteiras, em Livramento, fronteira com o Uruguai. Ofereci ajuda; ela sorriu e agradeceu, mas disse que dava conta. E seguiu conversando enquanto lidava com a taquara e a corda.

Na noite anterior, o vento infinito da Campanha havia levantado muitos barracões do chão. As crianças, assustadas, não conseguiram dormir. Rosa era uma das pessoas com a tarefa de dar manutenção ao acampamento. Enquanto trabalhava na restauração da barraca, uma mulher um pouco mais jovem lhe dava assistência e cuidava de três crianças, todas filhas de outras famílias de acampados.

“Gosto da luta, gosto do movimento. Acho que às vezes é muita reunião pra discutir tudo, tem coisa que podia ser mais simples. Mas a gente entende, é muita gente, muita necessidade, muita coisa pra organizar.” Rosa reflete enquanto trabalha, sorridente – um sorriso que nem sempre sugere alegria, mas compreensão dos percalços da vida.

Quando termina o serviço, Rosa esfrega as mãos para devolver o pó ao chão. Ela me conta dos rapazes que mudam de vida ao entrar para o movimento, deixando de brigar e roubar para empregar o vigor nas tarefas elementares do acampamento: erguer barracas, cavar fossas, puxar a luz e fazer a vigília.

Quando a companheira de Rosa diz que sonha em conhecer o sertão, Rosa silencia, mas a imagino dizer – como o outro Rosa em seu Grande Sertão: “o sertão é dentro da gente.”

No silêncio laborioso daquela mulher, uma reminiscência do êxodo sem fim, das agruras que molestam o corpo e a alma dos deserdados da terra. Memórias que nem sempre ganham a forma da palavra, mas que se deixam adivinhar nos espaços em branco da conversa.

Depois nos despedimos, Rosa serena ao vento como uma flor, uma lua de colheita.

UMA TARDE NO VÊNETO

24/09/2019 às 14h46
Foto disponível em: http://morotin.com.br/lugares-para-conhecer-em-santa-maria-vale-veneto/

 

Todos os anos, repito o ritual de percorrer a estradinha sinuosa que leva de Silveira Martins até o Vale Vêneto, distrito bucólico do município de São João do Polêsine. Faço isso pelo prazer libertador da caminhada e pela certeza da satisfação que nos aguarda no Vêneto: poucas experiências são tão agradáveis quanto sentar no Bar da Dona Romilda, depois da travessia entre vales e montes, para comer a famosa torrada colonial acompanhada de um cálice de vinho, feito também ali, na colônia. Se tem algo do qual não se deve duvidar é do talento dos descendentes italianos para a arte de comer e beber bem.

Uma vez por ano, quando acontece em Vale Vêneto o Festival de Inverno e a Semana Cultural Italiana, o panorama do pequeno povoado é alterado de modo significativo – são milhares de turistas que chegam dos mais diversos lugares, em busca dos atrativos culturais e gastronômicos promovidos pelos dois eventos conjugados.

A música, carro-chefe do Festival de Inverno, ajuda a criar uma atmosfera quase onírica no vale. Nas janelas das casas, na igreja, nos pátios das escolas, nas mesas do bar – em todos os cantos, em cada esquina, vibram as notas que desenham a paisagem sonora do Vêneto.

E haja apetite para tanta fartura sobre a mesa. Os banquetes de queijos, salames, massas e pães são compartilhados em grandes mesas coletivas, em rituais que remetem ao gosto ancestral dos migrantes, tão calejados em seu êxodo, por festejar a vida com a comilança que os maus tempos não permitiam. Temos a impressão que comer se torna, então, um rito propiciatório, uma espécie de orgia sagrada: comer com prazer e gratidão, para que a terra nunca deixe de ser fértil e generosa com as lavouras e vinhedos.

Mas divago, provavelmente sob o efeito do vinho rústico da colônia.

Eu daria uma dica, talvez modesta e até previsível, tanto para quem vai ao Vale Vêneto durante o Festival de Inverno, quanto para quem prefere desfrutar da calmaria de um dia comum no povoado: não deixe de subir o Calvário, a colina que, apesar do suplício sugerido pelo nome, não é tão íngreme que não se possa vencê-la. Lá do alto, a vista é larga e a brisa traz as conversas de longe, dando a impressão de que somos observadores apartados do mundo, da vida que segue seu rumo em ritmo lento naquele vilarejo à deriva no mar dos tempos. Basta disposição para uma boa caminhada e –  para quem aprecia – o estímulo de um cálice de vinho para dar vigor às pernas e distração ao pensamento.

Mais do que um passeio, um exercício dos sentidos. Talvez seja isso, afinal, o mais atraente destas experiências: pôr-se a olhar, e também ouvir, o que a vida nos diz nas linhas e entrelinhas de cada paisagem.

O VENTO NORTE

06/08/2019 às 09h47
Fresh sunny meadow with dandelions

Mais de uma vez, quando viajava por outras regiões do Brasil, vivi a angústia de querer explicar para alguém que não conhece Santa Maria o que é o vento norte. Mais do que narrar o sentido transitivo do vento – já que em muitos lugares da Terra o vento deve conhecer o caminho do norte -, eu desejava falar dos seus efeitos perturbatórios.

Daquela inquietação das coisas e das pessoas que o vento norte causa, quando sopra.

Sei que nunca consegui traduzir em palavras a influência da ventania selvagem, me faltou vento no linguajar; ninguém haveria de entender o que passa sem senti-lo erguer a vida dois palmos acima da realidade. Quem não viveu a experiência de vagar ladeira abaixo, ladeira acima, nesses vales em que a alguém calhou de sonhar uma cidade, não pode imaginar o que é ser fustigado, na pele e no mais fundo de si, pela corrente de ar infernal que vem do norte.

É um vento quente, enviesado. Parece que agita até o pensamento da gente.

Quase sempre é prenúncio de chuva; mas uma chuva engasgada, que chega a demorar dias pra cair. E não há quem não se reconheça um pouco louco quando respira os rumores do norte, qual bebesse com os pulmões bem abertos um gole farto da demência do mundo.

Quando ele vem, é assim como se a gente estivesse com os nervos florescendo na pele, vivendo de espasmos entre a nostalgia, a insônia e a euforia.

Se o amor e a morte são um pouco irmãos, é que o vento norte os iguala no desatino.

Em Santa Maria, esse vento sopra como em nenhum outro lugar. Quem anda pelas ruas da Boca do Monte nos dias e noites do veranico (o calor fora de época que surta em maio ou junho, e outra vez no início de julho), sabe o quanto é perturbadora a ventania que faz a curva dos morros e desliza pelas coxilhas a brincar como um diabo-menino.

Sem trégua, o vento arranca música de tudo e impede o sono do povo: o mundo se torna uma sinfonia de janelas gemendo na noite, para penúria dos supersticiosos e êxtase dos noctâmbulos. É comum ver rodamoinhos de folhas e papeis pelas ruas nessa época – uma visão lúdica, perigosa: carrega assombros.

Existem até estudos que – dizem – comprovam a influência desse vento peculiar sobre o temperamento dos viventes. Mas não creio que a ciência possa explicar o que se passa com toda a gente quando sopra o vento norte.

Para Ana Terra, a personagem de O Tempo e o Vento, as noites de vento eram as noites dos mortos. Lembro que minha avó costumava benzer a casa quando ele começava a soprar do norte, aflita, com o terço apertado entre as mãos.

Para mim, o vento norte é a vida sem rédeas, dona de si.

Embriaguez.

E não há benzedura que possa nos proteger da vida.

MEU MESTRE IGNORANTE

11/06/2019 às 17h36

Meu primeiro contato com aquilo que, mais tarde, seria uma espécie de vício insuperável, foi ainda guri pequeno, bem antes da idade escolar. Morava ao lado da casa dos meus avós paternos, e por conta da afinidade guardada com os velhos pais do meu pai, passava horas a fio seguindo os passos dos dois pela casa, ou simplesmente ouvindo junto a eles a voz solene que brotava do rádio de madeira.

A casa de madeira rosada era atraente não só pelo afeto que me unia ao vô e à vó. É que o pátio dos fundos, igual em tamanho ao da casa dos meus pais, continha em suas modestas dimensões um universo cheio de hipnóticos mistérios para mim e os outros netos que brincávamos ali: o forno de pedra onde minha vó assava seus pães da cor do ouro queimado; o galinheiro soturno, onde colhíamos os ovos ainda mornos do calor uterino das poedeiras; as raposas que assaltavam, na calada da noite, o cercado das aves, quase sem deixar rastro que não o pânico amanhecido das galinhas sobreviventes; a variedade de árvores frutíferas que cobriam o chão de grossas raízes e o céu com infinitas folhas (que eu me lembre: pés de café, laranja-de-umbigo, laranja-do-céu; limoeiro, bergamoteira, goiabeira, figueira, butiazeiro, pitangueira, bananeira, e uma pereira da vizinha que assaltávamos nas tardes de calor).

Mas o principal motivo da minha vontade de passar os dias naquela casa não eram os encantos e terrores do pátio, nem a variedade do arvoredo.

Meu vô Alcides, um velho marceneiro que migrara do campo para a cidade na cauda do êxodo, um senhor semianalfabeto e de austeridade asmática, era também um fascinante contador de histórias. Se minha mãe me ensinou as letras, o velho me deslumbrou com o sabor da prosa e da fantasia, e me iniciou na arte de aumentar um ponto a cada conto.

Quando ele sentava sob o pé das laranjas celestes, no respiro entre as lides com as toras de madeira por cortar, costumava desfiar longas narrativas, amiúde aludindo aos mesmos episódios, mas sem jamais desperdiçar o ponto de arrebatamento de uma história.

Tinha um jeito raro de moldar o barro das palavras, até dar a elas a forma final do pavor, da malícia ou do mistério. Era um engenheiro paciente de arapucas perfeitas como a teia da aranha: nas estruturas sutis dos seus causos, a criança que eu era se aninhava, cativa e abstraída, atraída pela intriga que cada palavra cintilante ia desenhando no teatro do meu imaginário.

Foi através da lábia do vô que eu li o realismo fantástico pela primeira vez. E também a figura do bandoleiro, do gaúcho originário da solidão dos campos, foi ele quem me ilustrou com palavras. A vingança, o amor, a morte, a imprudência e os nomes de todos os cães do campo cabiam num simples causo de estância que o meu memorioso vô relatava.

O velho Alcides me contou da criatura metade-cachorro, metade-homem que rondava os atalhos e pinguelas; das bruxas que trançavam as crinas dos cavalos nas noites de lua cheia, ornando-as com as flores colhidas em rituais obscenos; da geada que sabia matar os vícios telúricos, mitigando a sede de chuva com um beijo salivoso ao amanhecer; e dos assassinos fugidos, os filhos bastardos de Caim, que pernoitavam sob o protesto dos cães antes de seguirem sua sina agourenta temporal adentro.

Era como ler um livro sem folhear página sequer. Bastava esperar o vô arrancar o machado das achas de lenha e o chiado da asma pacificar no peito, que o velho se entregava ao transe narrativo, resgatando o imemorial da vida no campo com a calma e a consistência de uma miragem.

A literatura nasceu assim para mim, prefigurada nas imagens que um velho de mãos trêmulas e olhar nostálgico contrabandeava nas tardes da minha infância; só depois vieram Érico Veríssimo, García-Márquez, Borges, Guimarães Rosa.

Ainda hoje penso que meu vô Alcides, dada a pouca instrução e o frio que instigava sua asma naquele pátio sombrio, era um contador de histórias digno de ser lembrado junto aos grandes mestres dessa arte.

FLANANDO PELA RIO BRANCO

23/04/2019 às 09h07

Flanar pelas oito quadras da Avenida Rio Branco, entre os extremos da Praça Saldanha e da antiga Estação Férrea, propicia um certo desplazamiento, uma leve sensação de ruptura com a ordem previsível que impera no miolo comercial de Santa Maria. Embora suscetível aos mesmos problemas de trânsito que constrangem qualquer rua central, a velha Rio Branco, com seu comércio decadente, sobrados abandonados, modestas casas de tolerância, bares e hotéis, estampa um cartão postal mágico e realista, um tanto nostálgico e essencialmente coloquial.

Há algum tempo, a avenida passou por um processo de “revitalização” – termo de aplicação e intenções duvidosas, se pensarmos que a região nunca deixou de estar vitalizada por aqueles que nela vivem e trabalham -, mas mesmo com a implementação das reformas e a restauração discutível de seus canteiros, com a remoção de árvores e camelôs e com o estabelecimento de um grande mercado a certa altura de sua extensão, a Rio Branco permanece como uma testemunha insistente de um tempo em que as placas de anúncio comercial ainda não haviam soterrado totalmente a paisagem histórica da cidade.

É quase como se, ao transpormos o limite imaginário que separa o sistema nervoso central da cidade do declive que desemboca no Largo da Estação, com sua via dupla apinhada de gente nas primeiras quadras, mas com um tráfego humano mais ameno na medida em que avançamos rumo aos trilhos que a pontuam com um fim melancólico, estivéssemos pisando um território mais próximo ao fictício do que à realidade pragmática do centro comercial.

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, cuja importância para a literatura latino-americana é consenso entre os grandes mestres desta arte, inventou uma cidade também chamada Santa Maria. Com o olhar um tanto sugestionado pelas páginas que me levaram a percorrer essa outra Santa Maria, penso sempre que é ali, ao longo das poucas quadras que acolhem trabalhadores apressados, garçonetes morosas, messalinas cansadas e motoboys sonâmbulos, que as duas cidades, a da Boca do Monte e a de Onetti, encontram-se no sonho e no concreto.

A Rio Branco do grande edifício em ruínas, das casas de cachorro improvisadas na calçada, das lojas de importados precários, dos sobrados em art déco e do Mauá, um residencial ao estilo Copacabana anos 30, é tanto mais real – ainda que magicamente literária – por sua resistência à frigidez da especulação imobiliária; mais intensa que o resto do centro porque em suas calçadas, bancos e sacadas ainda há um coração pleno de folclore e mistérios noturnos a pulsar.

Claro, logo ali despontam um e outro sinal de que a especulação predatória está chegando, implacável, ávida por engolir o que resta de história com sua boca de letreiros luminosos e portarias assépticas. Mas ainda é uma avenida dona de si, com seus humores ora sombrios, ora solares.

Não admira que a Rio Branco inspire também medos e receios. É que as pessoas, e penso tanto nas velhas como nas jovens, andam muito habituadas a acreditar na maquiagem padronizada que o comércio voraz imprimiu às ruas. Confundem os outdoors com a legenda segura de seus itinerários.

Mas há ainda quem ache graça em paredes e ruas que transpiram dramas e alegrias cotidianas, e não apenas ofertas e gritos de liquidação.