Revista Statto

FLANANDO PELA RIO BRANCO

23/04/2019 às 09h07

Flanar pelas oito quadras da Avenida Rio Branco, entre os extremos da Praça Saldanha e da antiga Estação Férrea, propicia um certo desplazamiento, uma leve sensação de ruptura com a ordem previsível que impera no miolo comercial de Santa Maria. Embora suscetível aos mesmos problemas de trânsito que constrangem qualquer rua central, a velha Rio Branco, com seu comércio decadente, sobrados abandonados, modestas casas de tolerância, bares e hotéis, estampa um cartão postal mágico e realista, um tanto nostálgico e essencialmente coloquial.

Há algum tempo, a avenida passou por um processo de “revitalização” – termo de aplicação e intenções duvidosas, se pensarmos que a região nunca deixou de estar vitalizada por aqueles que nela vivem e trabalham -, mas mesmo com a implementação das reformas e a restauração discutível de seus canteiros, com a remoção de árvores e camelôs e com o estabelecimento de um grande mercado a certa altura de sua extensão, a Rio Branco permanece como uma testemunha insistente de um tempo em que as placas de anúncio comercial ainda não haviam soterrado totalmente a paisagem histórica da cidade.

É quase como se, ao transpormos o limite imaginário que separa o sistema nervoso central da cidade do declive que desemboca no Largo da Estação, com sua via dupla apinhada de gente nas primeiras quadras, mas com um tráfego humano mais ameno na medida em que avançamos rumo aos trilhos que a pontuam com um fim melancólico, estivéssemos pisando um território mais próximo ao fictício do que à realidade pragmática do centro comercial.

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, cuja importância para a literatura latino-americana é consenso entre os grandes mestres desta arte, inventou uma cidade também chamada Santa Maria. Com o olhar um tanto sugestionado pelas páginas que me levaram a percorrer essa outra Santa Maria, penso sempre que é ali, ao longo das poucas quadras que acolhem trabalhadores apressados, garçonetes morosas, messalinas cansadas e motoboys sonâmbulos, que as duas cidades, a da Boca do Monte e a de Onetti, encontram-se no sonho e no concreto.

A Rio Branco do grande edifício em ruínas, das casas de cachorro improvisadas na calçada, das lojas de importados precários, dos sobrados em art déco e do Mauá, um residencial ao estilo Copacabana anos 30, é tanto mais real – ainda que magicamente literária – por sua resistência à frigidez da especulação imobiliária; mais intensa que o resto do centro porque em suas calçadas, bancos e sacadas ainda há um coração pleno de folclore e mistérios noturnos a pulsar.

Claro, logo ali despontam um e outro sinal de que a especulação predatória está chegando, implacável, ávida por engolir o que resta de história com sua boca de letreiros luminosos e portarias assépticas. Mas ainda é uma avenida dona de si, com seus humores ora sombrios, ora solares.

Não admira que a Rio Branco inspire também medos e receios. É que as pessoas, e penso tanto nas velhas como nas jovens, andam muito habituadas a acreditar na maquiagem padronizada que o comércio voraz imprimiu às ruas. Confundem os outdoors com a legenda segura de seus itinerários.

Mas há ainda quem ache graça em paredes e ruas que transpiram dramas e alegrias cotidianas, e não apenas ofertas e gritos de liquidação.