Revista Statto

MEU MESTRE IGNORANTE

11/06/2019 às 17h36

Meu primeiro contato com aquilo que, mais tarde, seria uma espécie de vício insuperável, foi ainda guri pequeno, bem antes da idade escolar. Morava ao lado da casa dos meus avós paternos, e por conta da afinidade guardada com os velhos pais do meu pai, passava horas a fio seguindo os passos dos dois pela casa, ou simplesmente ouvindo junto a eles a voz solene que brotava do rádio de madeira.

A casa de madeira rosada era atraente não só pelo afeto que me unia ao vô e à vó. É que o pátio dos fundos, igual em tamanho ao da casa dos meus pais, continha em suas modestas dimensões um universo cheio de hipnóticos mistérios para mim e os outros netos que brincávamos ali: o forno de pedra onde minha vó assava seus pães da cor do ouro queimado; o galinheiro soturno, onde colhíamos os ovos ainda mornos do calor uterino das poedeiras; as raposas que assaltavam, na calada da noite, o cercado das aves, quase sem deixar rastro que não o pânico amanhecido das galinhas sobreviventes; a variedade de árvores frutíferas que cobriam o chão de grossas raízes e o céu com infinitas folhas (que eu me lembre: pés de café, laranja-de-umbigo, laranja-do-céu; limoeiro, bergamoteira, goiabeira, figueira, butiazeiro, pitangueira, bananeira, e uma pereira da vizinha que assaltávamos nas tardes de calor).

Mas o principal motivo da minha vontade de passar os dias naquela casa não eram os encantos e terrores do pátio, nem a variedade do arvoredo.

Meu vô Alcides, um velho marceneiro que migrara do campo para a cidade na cauda do êxodo, um senhor semianalfabeto e de austeridade asmática, era também um fascinante contador de histórias. Se minha mãe me ensinou as letras, o velho me deslumbrou com o sabor da prosa e da fantasia, e me iniciou na arte de aumentar um ponto a cada conto.

Quando ele sentava sob o pé das laranjas celestes, no respiro entre as lides com as toras de madeira por cortar, costumava desfiar longas narrativas, amiúde aludindo aos mesmos episódios, mas sem jamais desperdiçar o ponto de arrebatamento de uma história.

Tinha um jeito raro de moldar o barro das palavras, até dar a elas a forma final do pavor, da malícia ou do mistério. Era um engenheiro paciente de arapucas perfeitas como a teia da aranha: nas estruturas sutis dos seus causos, a criança que eu era se aninhava, cativa e abstraída, atraída pela intriga que cada palavra cintilante ia desenhando no teatro do meu imaginário.

Foi através da lábia do vô que eu li o realismo fantástico pela primeira vez. E também a figura do bandoleiro, do gaúcho originário da solidão dos campos, foi ele quem me ilustrou com palavras. A vingança, o amor, a morte, a imprudência e os nomes de todos os cães do campo cabiam num simples causo de estância que o meu memorioso vô relatava.

O velho Alcides me contou da criatura metade-cachorro, metade-homem que rondava os atalhos e pinguelas; das bruxas que trançavam as crinas dos cavalos nas noites de lua cheia, ornando-as com as flores colhidas em rituais obscenos; da geada que sabia matar os vícios telúricos, mitigando a sede de chuva com um beijo salivoso ao amanhecer; e dos assassinos fugidos, os filhos bastardos de Caim, que pernoitavam sob o protesto dos cães antes de seguirem sua sina agourenta temporal adentro.

Era como ler um livro sem folhear página sequer. Bastava esperar o vô arrancar o machado das achas de lenha e o chiado da asma pacificar no peito, que o velho se entregava ao transe narrativo, resgatando o imemorial da vida no campo com a calma e a consistência de uma miragem.

A literatura nasceu assim para mim, prefigurada nas imagens que um velho de mãos trêmulas e olhar nostálgico contrabandeava nas tardes da minha infância; só depois vieram Érico Veríssimo, García-Márquez, Borges, Guimarães Rosa.

Ainda hoje penso que meu vô Alcides, dada a pouca instrução e o frio que instigava sua asma naquele pátio sombrio, era um contador de histórias digno de ser lembrado junto aos grandes mestres dessa arte.

FLANANDO PELA RIO BRANCO

23/04/2019 às 09h07

Flanar pelas oito quadras da Avenida Rio Branco, entre os extremos da Praça Saldanha e da antiga Estação Férrea, propicia um certo desplazamiento, uma leve sensação de ruptura com a ordem previsível que impera no miolo comercial de Santa Maria. Embora suscetível aos mesmos problemas de trânsito que constrangem qualquer rua central, a velha Rio Branco, com seu comércio decadente, sobrados abandonados, modestas casas de tolerância, bares e hotéis, estampa um cartão postal mágico e realista, um tanto nostálgico e essencialmente coloquial.

Há algum tempo, a avenida passou por um processo de “revitalização” – termo de aplicação e intenções duvidosas, se pensarmos que a região nunca deixou de estar vitalizada por aqueles que nela vivem e trabalham -, mas mesmo com a implementação das reformas e a restauração discutível de seus canteiros, com a remoção de árvores e camelôs e com o estabelecimento de um grande mercado a certa altura de sua extensão, a Rio Branco permanece como uma testemunha insistente de um tempo em que as placas de anúncio comercial ainda não haviam soterrado totalmente a paisagem histórica da cidade.

É quase como se, ao transpormos o limite imaginário que separa o sistema nervoso central da cidade do declive que desemboca no Largo da Estação, com sua via dupla apinhada de gente nas primeiras quadras, mas com um tráfego humano mais ameno na medida em que avançamos rumo aos trilhos que a pontuam com um fim melancólico, estivéssemos pisando um território mais próximo ao fictício do que à realidade pragmática do centro comercial.

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, cuja importância para a literatura latino-americana é consenso entre os grandes mestres desta arte, inventou uma cidade também chamada Santa Maria. Com o olhar um tanto sugestionado pelas páginas que me levaram a percorrer essa outra Santa Maria, penso sempre que é ali, ao longo das poucas quadras que acolhem trabalhadores apressados, garçonetes morosas, messalinas cansadas e motoboys sonâmbulos, que as duas cidades, a da Boca do Monte e a de Onetti, encontram-se no sonho e no concreto.

A Rio Branco do grande edifício em ruínas, das casas de cachorro improvisadas na calçada, das lojas de importados precários, dos sobrados em art déco e do Mauá, um residencial ao estilo Copacabana anos 30, é tanto mais real – ainda que magicamente literária – por sua resistência à frigidez da especulação imobiliária; mais intensa que o resto do centro porque em suas calçadas, bancos e sacadas ainda há um coração pleno de folclore e mistérios noturnos a pulsar.

Claro, logo ali despontam um e outro sinal de que a especulação predatória está chegando, implacável, ávida por engolir o que resta de história com sua boca de letreiros luminosos e portarias assépticas. Mas ainda é uma avenida dona de si, com seus humores ora sombrios, ora solares.

Não admira que a Rio Branco inspire também medos e receios. É que as pessoas, e penso tanto nas velhas como nas jovens, andam muito habituadas a acreditar na maquiagem padronizada que o comércio voraz imprimiu às ruas. Confundem os outdoors com a legenda segura de seus itinerários.

Mas há ainda quem ache graça em paredes e ruas que transpiram dramas e alegrias cotidianas, e não apenas ofertas e gritos de liquidação.