Revista Statto

A TEMPORALIDADE DA VIDA

28/12/2020 às 10h43

Carl era meu melhor amigo. Ele era alto, magro, tinha olhos castanhos claros e cabelos cacheados, as suas características o diferenciavam de toda a multidão, ainda mais pelo seu jeito de andar, rápido e espaçado. Passávamos muito tempo conversando sobre absolutamente tudo, passando de rotina e cadarços de sapato até o funcionamento do universo e o sentido da vida. Ele sempre morou em São Paulo, mas seus pais decidiram há alguns anos que mudariam para o Rio de Janeiro, porque seu pai havia recebido uma proposta de emprego em uma multinacional que tinha sede em Duque de Caxias. Nem preciso dizer que isso acabou comigo. Tentamos manter nosso contato, mas com o passar do tempo e o surgimento de novas obrigações foi inevitável a perda de constância das nossas conversas. Eu já não o via há 10 anos.

Semana passada, eu estava andando por um mercado na Avenida Paulista. Fazia um calor aconchegante em São Paulo, quente e úmido, inerente ao verão e do tipo que clama pela chuva no meio da tarde. Era meu tempo favorito e me fazia (quase) esquecer o tédio que era selecionar cenouras e batatas para uma sopa. Quando olho para um dos lados, me deparo com um carrinho que veio de encontro a mim – Era Carl. Apesar de agora mais velho, com barba e meia dúzia de verrugas por debaixo do seu rosto grande e magro, seus olhos, cintilantes sob a iluminação do mercado fizeram com que eu o reconhecesse, e ele também me reconheceu, lançando um sorriso para mim.

  • Rogério! Não acredito que é você, há quanto tempo! Que saudade, envelhecemos pelo visto.
  • Disse Carl, largando o carrinho de mão para o lado para se aproximar de mim e me dar um abraço.

Conversamos por um tempo e ele me contou do Rio, da sua namorada, dos seus amigos novos e que voltou para São Paulo para começar uma nova faculdade. Estava tudo tão diferente nas nossas vidas. Nossa antiga intimidade deu lugar a conversas mais fugazes e à uma timidez brusca, daquelas que a gente tem quando conhece alguém novo – que é exatamente o que aconteceu, estávamos conhecendo um ao outro de novo. Nosso caminho foi traçado por novas rotas e já não tínhamos quase nada em comum.

No caminho de casa refleti muito sobre aquilo. Sobre o tempo e suas implicações. Era como olhar um álbum de fotos antigas e compará-lo com fotos mais atuais. Tínhamos mudado tanto e nessa metamorfose que o tempo nos conduziu me senti enganado. Quero dizer: somos temporais demais. Em um dia somos algo, e noutro, não mais. Definitivamente o tempo me intriga. Pensei em convidar o Carl para tomar um chá ou café, mas vou deixar para o acaso decidir. Talvez nos encontremos de novo daqui alguns meses e com isso, quem sabe, eu encontre as respostas que tanto procuro, ou mais provavelmente, descubra novas perguntas.