Revista Statto

UMA ORAÇÃO PARA RAFAEL

24/11/2020 às 19h47

É noite. Estou em casa para tomar banho e pegar algumas roupas. Muitos dias. Estou cansada. Esgotada física e mentalmente. Sem conseguir perceber ao certo quanto tempo se passou.

Hoje pela manhã fui até o jardim em frente ao hospital. Aproveitei para contemplar o sol que estava nascendo. Tomava um café e observava as janelas dos quartos pensando em quantas histórias estavam mudando seus rumos.

Percebi várias pessoas se movimentando; uma família saindo da recepção. Uma mulher aparentando uns 50 anos chorava muito e sendo amparada por outra mulher mais jovem perguntava como poderia voltar para casa sabendo que “ele” não estaria lá.

Observei a cena e não pude evitar o pensamento: questionei nosso tempo e o tempo que temos com as pessoas. Eu ainda aguardava o resultado da cirurgia, mas existia a possibilidade de que em alguns momentos poderia estar dizendo exatamente a mesma frase daquela mulher: Como voltar para casa?

Estes últimos dias representaram uma grande pausa para que pudesse observar o drama da vida, aceitação e fragilidade. Não recordo de ter sentindo tanto pavor diante da constatação da inexistência de controle.

Não sei explicar exatamente, mas percebi uma fortaleza na vulnerabilidade das pessoas nos leitos. Mesmo com muitas dores, existe compaixão e fraternidade. Observei também cenas de desespero, pessoas brigando com médicos e enfermeiros exigindo atendimentos para além do possível.

Há uma senhora de 90 anos com o fêmur fraturado. No quarto ao lado outra senhora teve uma complicação pós-cirúrgica e chora. Quem cuida dela é a nora. Chama-se Ana e veio à cidade especialmente para acompanha-la. Conversamos na madrugada e nos revezamos para buscar café.

Ontem uma enfermeira nos falou: O Rafael saiu da cirurgia e não está bem. Foi transferido para a UTI. Rezem por ele.

Olhamo-nos – e em nosso olhar nos perguntamos: Quem é Rafael?

Não sabemos. Rezamos.

JORNADAS DA VIDA – O MENINO, A TARTARUGA E O MAR

14/09/2020 às 15h06

Era uma noite quente do mês de março do ano de 2016.

Estava em São Paulo na casa de minha amiga Renata Quintella analisando as demandas das jornadas recebidas naquela semana.

Uma delas em especial nos chamou atenção: uma família de Cabreúva pedia auxílio com transporte para realizar o sonho de um menino: ele queria conhecer o mar. Ele queria conhecer o mar e ganhar uma tartaruga de pelúcia.

Parece simples de realizar né?

Mas este pedido era especial porque a criança tem uma doença genética rara caracterizada pela hipersensibilidade da pele aos raios UV do sol. E a tartaruga… Bom…. Não era qualquer tartaruga…

Partimos para a parte um desta jornada especial! Logística em ação: planejar e administrar o transporte da família considerando que o menino precisaria aproveitar o início do dia devido à questão da exposição solar.

Com a ajuda de muitos voluntários conseguimos uma van, traçamos o melhor trajeto – conseguindo percorrer o trecho com segurança e rapidez!

Conseguimos proporcionar uma boa viagem da família até a praia de Boiçucanga!

Sonho realizado!!! Não… Ainda não!

Faltava a tartaruga de pelúcia e conforme comentei não era qualquer tartaruga… Ele queria uma tartaruga de pelúcia gigante!!

Onde conseguir uma tartaruga de pelúcia gigante?

Nem precisamos pesquisar muito! A mágica simplesmente aconteceu!

Não é que uma voluntária do Instituto a Nossa Jornada que mora no interior de São Paulo tinha uma!! Ela tinha ganhado do namorado muitos anos atrás e sempre se perguntava onde estava com a cabeça por ter pedido uma pelúcia tão grande… A tartaruga de pelúcia ocupava a cama toda!!

Mas ela descobriu o motivo…. Porque em algum lugar, num futuro não tão distante, um menino sonhava em conhecer o mar e sonhava ganhar uma tartaruga de pelúcia gigante!

E porque talvez toda dor possa ser suportada se sobre ela uma história puder ser contada!