Revista Statto

Você não irá arrepender-se de conhecê-los

31/10/2018 às 10h07

A cena musical brasileira é ampla e, com o advento da internet, surgem novos artistas aos borbulhões…. Mesmo os mais antenados, não conseguem acompanhar essa efervescência de novos talentos surgindo um atrás do outro…. São centenas de novos nomes sendo lançados no mercado fonográfico. Enfim, duvido que alguém saiba exatamente quantas “estrelas estão surgindo no céu! da música no país. E olha que não estou falando dos DJs da música eletrônica e tampouco dos cantores de raps e de funks…

Para quem não gosta de música sertaneja, felizmente há várias luzes no fim do túnel e, muitas delas, estão apenas agora acendendo (e ascendendo) para o grande público. Quando estava desanimada pela sofrência do cenário musical, eis que, neste ano, conheço em shows, e me torno fã, de três músicos excepcionais, que me deixaram literalmente em êxtase. Claro que virei fã de carteirinha, comprei o CD (sim, ainda há quem compre) e sempre que voltarem a Porto Alegre estarei lá no gargarejo. É preciso deixar claro que quando falo dos músicos que passo a admirar, devem ser completos, ou seja, devem ser compositores e cantores. Não sou muito de valorizar os que apenas interpretam canções…

Bem, o primeiro deles, o pianista e organista de blues, Luciano Leães, conheci durante a Noite dos Museus, em maio deste ano, no Museu Júlio de Castilhos. Geralmente se apresenta com sua banda, os The Big Chiefs, mas já integrou três outras famosas de Porto Alegre, como Acústicos e Valvulados. O moço bonito de 21 anos já está na estrada há duas décadas. Já fez turnês pela Europa, EUA e Canadá e foi premiado em vários festivais de blues no país e mundo afora. Assim que virei sua fã, fui procurar saber sobre sua carreira e fiquei impressionada. Como só agora tive o contentamento de saber que ele existe, se é um dos melhores blueseiros que já ouvi? Tocou e gravou com grandes nomes nacionais e internacionais, estudou com os mestres e se apaixonou pela tradição de New Orleans. Soube que o Elton John o escolheu para abrir seu show aqui na Capital em 2013. Como as músicas que compõe, canta e toca são em inglês, não vou citar nenhuma, porque não domino o idioma. O músico está entre os quatro melhores tecladistas de blues do Brasil eleitos pela revista Teclado e Áudio. Seu álbum de estreia “The Power of Love” está sendo elogiadíssimo.

Filipe Catto, um gaúcho de Lajeado, de 31 anos, há muito tempo faz sucesso no eixo Rio-São Paulo. Ganhou fama muito jovem, quando cantava em bares e festas com seu pai, e mais tarde MPB, sambas e boleros na noite de Porto Alegre. Logo conseguiu um milhão de admiradores e seguidores, e hoje suas apresentações são disputadíssimas. Tem três álbuns lançados e o último foi a atração especial do 25º Festival Porto Alegre em Cena deste ano, com o espetáculo “O Nascimento de Vênus”, no palco do bar eclético Agulha. Entre o público que se aglomerou para escutá-lo, a maioria sabia as letras de suas músicas e as cantavam juntos.

Catto tem uma presença de palco impressionante. É bonito, sensual, sedutor e tem muito carisma. Dizem que lembra a figura andrógina de Nei Matogrosso no seu início dos Secos e Molhados, porém discordo, o acho bem melhor, com letras mais ricas, poéticas, que falam de sentimentos inconfessáveis. Sua voz é de um timbre raro e seu canto afinadíssimo. Suas composições são unissex, geralmente falando de casais homossexuais. Felipe domina muito bem o microfone, a banda e deixa seu público extasiado quando solta a voz e dança, com naturalidade impressionante. Após seu show, voltei para casa diferente. Contente por ver esse talento moderno nascido no meu estado. Vocês ainda vão ouvir falar muito de Felipe Catto. Guardem esse nome.

O talentoso pernambucano Johnny Hooker, também de 31 anos, eu já conhecia das trilhas sonoras de filmes e séries, e tenho seus dois discos, mas pela primeira vez tive o privilégio de vê-lo ao vivo no palco do Opinião agora em outubro. A minha casa ele já frequentava dia e noite, tocando sem parar no aparelho de som, mas chegar perto dele e ver toda a sua performance andrógina foi sensacional. Acaba de voltar de uma turnê aplaudidíssima na Europa, onde fez muito sucesso, principalmente, junto ao público LGBTS. Já ganhou vários prêmios em festivais. As músicas mais conhecidas são do tipo pop-brega, as gostosas de ouvir “Vou fazer macumba para te amarrar, maldito”, “Flutua”, “Volta”, “Amor Marginal”, “Alma Sebosa”, entre outras. São canções bem brasileiras, modernas e se você ainda não o conhece, corre para escutá-lo no YouTube, onde tem milhões de visualizações.

Enfim, sonoras luzes no fim do poço.

Lhes escutem, garanto que não irão se decepcionar.

Claudia Moritz

Por

Jornalista. Porto Alegre/RS

A idade mais feliz

13/09/2018 às 11h59

Qual a vantagem de se chegar à velhice? Essa pergunta, feita por uma mulher que devia ter por volta de 60 anos, me pegou desprevenida e sem resposta, algo raro para mim que sempre encontro argumentos para revidar. Fiquei surpresa e ao mesmo tempo chocada com o seu questionamento porque sou rodeada por pessoas que amam viver, que fazem de tudo para prolongar a vida, enfim, que se alegram em estar ainda “por aqui” e envelhecendo. Entre elas, meu pai: “há um concurso entre os idosos para ver qual vai mais longe e quero ganhar”, diz ele, que tem um projeto organizado – e com muita disciplina – para chegar até aos 120 anos. Bem, tudo isso para dizer que após pensar muito, cheguei a uma simples conclusão: a velhice com certeza será melhor para quem é intelectual, e explico. Provavelmente alguém que não tenha amor à arte e todos os seus tipos de manifestações, ansiará por viver tanto e aproveitar todas as chances fantásticas que a medicina e a avançada indústria de medicamentos nos dão hoje.

Quando as festas, as confraternizações em bares e restaurantes, as viagens a turismo, as longas caminhadas, e outras formas de lazer que exigem muita disposição física acabarem ou ficarem difíceis de serem feitas, o que sobrará? Os livros, as sessões de cinema, as peças de teatro, os concertos de música, as exposições em museus e galerias de arte, enfim, tudo o que nos exige apenas sensibilidade, visão e audição.

Sim, porque chegará uma hora em que as pernas não serão mais tão ágeis. Há, mas isso é óbvio…Nem tanto assim… Dificilmente uma pessoa que não teve durante a sua existência uma vida cultural cotidiana, que não soube admirar a arte e todas as suas possibilidades de se emocionar, surpreender e aprender, vai passar a gostar de visitar museus, entrar na fila do cinema ou percorrer shows musicais depois da maturidade. Quando converso com os conhecidos que encontro no cinema, percebo que assim como eu elas têm uma longa trajetória de sessões da sétima arte no currículo. São cinéfilas de carteirinha e acompanham os lançamentos. E, a maioria, lê muito, uma média de quatro livros por mês.

Claro que ter uma velhice assim, rica intelectualmente, geralmente é privilégio de quem vive em uma Capital como Porto Alegre, onde existem dezenas de opções culturais por semana, muitas delas gratuitas. Há projetos fixos que apresentam música de excelente qualidade gratuitamente na terça-feira, na Biblioteca Pública, e nas quartas e quintas-feiras no Teatro São Pedro. Salas de cinema onde passam filmes “para adultos” são 11, com destaque para as três do Guion, o reduto desses cinéfilos de cabelos brancos. E olhe que nem estou mencionando as que ficam em shoppings, onde passam filmes que geralmente não atraem esse público de que estou falando, o “vivido e sabido”, que gostam mais de filmes alternativos, geralmente europeus. O cine do Santander, que fica dentro de um “antigo cofre”, exibe ciclos de filmes clássicos, o Itaú, lançamentos italianos, e sempre há o Festival Varilux, de filmes franceses recentes. Há ainda o cinema da Ufrgs, com duas exibições diárias gratuitas. A Casa de Cultura Mário Quintana com preços subsidiados, e o cine Bancários, que exibe filmes que geralmente não são populares, mas que encantam porque nos mostram culturas de outros continentes para que saibamos como vivem as pessoas de outros lugares do mundo.

Porto Alegre hoje é uma das capitais com maior oferta de atrações culturais do país, perdendo, talvez, apenas para Rio e São Paulo. Todos os dias há algo para assistir por aqui, e olha que não estou falando somente dos shows de grandes estrelas da música, como acontecem semanalmente, como neste mês, do Chico Buarque e dos Tribalistas, para citar apenas dois, ou peças de teatro com celebridades globais.

 

Estou me referindo às atrações com preços mais acessíveis aos bolsos dos aposentados. E, com certeza, o que torna a cidade interessante é essa diversidade de coisas para assistir, para conhecer, para se emocionar. Programações culturais que requerem apenas sensibilidade, ouvidos e olhos atentos, mente e coração abertos. Enfim, quando cruzar novamente com àquela mulher, vou lhe responder: a vantagem da velhice é ter mais tempo para ler, ir ao cinema, ouvir música…

Claudia Moritz

Por

Jornalista. Porto Alegre/RS