Revista Statto

A VELHA LOJA DE AVIAMENTOS E A NOSSA CAIXINHA DE BOTÕES

23/11/2020 às 09h10

Meu pai teve um armarinho, durante a minha infância, onde se vendia todo tipo de aviamento: etiquetas com desenhos de pontos turísticos americanos, fitilhos, vieses, elásticos e botões, que eram centenas, de todos os tamanhos e cores. A lojinha não durou muito porque meu pai, como um bom virginiano, precisa se sentir no controle de tudo e, naquela época, ele já tinha um outro comércio que lhe tomava boa parte do tempo. Por isso, a loja fechou e sobraram, entre outras coisas, os botões. Minha mãe que, vez ou outra, ainda costurava, os levou para casa. Fizemos toda sorte de coisas com eles: nós os colávamos em papéis, usávamos para consertar camisas e doava-os, vez ou outra, para um parente que aparecia em casa. Eram tantos que, hoje, quase trinta anos depois, não acabaram por completo. Atualmente, tenho comigo uma pequena caixinha de madeira com algumas dezenas deles: estão intactos, tal como eu os via criança. Metalizados com riscos paralelos, quadrados e com listras pretas e brancas, de plástico nas cores rosa, azul, bege, branca e cinza. Verdade seja dita, raramente preciso deles, mas cada vez que os vejo, volto no tempo e na vida, que ao contrário dos botões, não há mais.

Naqueles idos, minha avó paterna era viva e, tal como a escola que eu frequentava, estava na próxima esquina da minha casa. Meus irmãos e eu éramos crianças e a vida não parecia tão complicada. Por isso, tenho uma fixação pelos objetos antigos, pois eles, ao contrário de nós, parecem incólumes ao tempo, sobrevivem, às vezes manchados, encardidos, mas continuam. Tal como esses botões que sussurram, ao pé do meu ouvido, memórias de algumas pessoas que partiram, mas que, ao mesmo tempo, ajudam a alimentar o afeto pelas novas pessoas que chegaram. Minha sobrinha, no último mês de outubro, fez sete anos de idade e está na fase de costurar vestidinhos para as bonecas. Por isso, para presenteá-la, montei uma caixa de costura com pequenos pedaços de tecidos coloridos, agulhas, tesoura, cola e os botões: os mesmos da minha infância, agora para as mãos dela. Lá estão eles, colorindo a imaginação da Maria Clara, como um dia coloriram a minha, abotoando assim, as nossas histórias.

Conforme amadurecemos, acumulamos objetos porque também acumulamos lembranças. Obviamente, alguns são descartados, esquecidos ou consumidos pelo tempo. Outros, no entanto, ficam conosco. São como fotografias invisíveis, espelhos do que éramos. Costuram nosso passado ao nosso presente.

Copyright © 2019 I Cris Mendonça. A velha loja de aviamentos e a nossa caixinha de botões. Todos os direitos reservados.

SOBRE UNHAS PINTADAS, MEMÓRIA E AFETO

18/08/2020 às 10h36

Minha mãe, aos sábados, depois de fazer uma boa faxina na casa, arrumava as unhas. Um ritual de beleza que eu adorava acompanhar…

Uma mulher charmosa, tem unhas pintadas. E, antes que você faça algum juízo de valor sobre essa fala, acrescento: essa é a minha mais pura (e particular) opinião! E, opiniões, não são verdades.

Dito isso, preciso dizer que minha paixão por unhas feitas vem da infância. Lembro de aos sábados, ver a minha mãe, depois de ter feito uma caprichada faxina na casa, sentar-se no nosso velho sofá de couro mostarda, para se dedicar à tarefa de pintar as 20 unhas. Acomodava-se sempre no meio – já que, de cada lado, ela sabia que teria como companhia dois pequenos curiosos: meu irmão e eu, com cinco e seis anos de idade.

Naquele ritual de embelezamento particular, ela amolecia as cutículas em uma bacia d’água e ia, aos poucos, retirando-as com o alicate. Em seguida, lixava as unhas para que ficassem no formato arredondado, muito usado na década de 1980. Enquanto Chacrinha falava na TV, eu esperava ansiosa a minha vez. Claro, eu não teria as cutículas arrancadas, mas seria agraciada com a melhor parte: dedinhos coloridos.

Aos poucos, o pequeno pincel avermelhava as mãos maternas. Na minha memória, agora um pouco confusa e apagada pelo tempo, lembro que toda cor era cintilante e brilhava aos meus olhos! Minha mãe, tão moça e com longos cabelos pretos, parecia sempre ficar mais bonita com as unhas pintadas! Talvez, por isso, eu goste tanto do cheiro de esmalte e ame unhas feitas, pois elas sempre me levam aos sábados da minha infância, em que o meu universo era uma pequena casa limpa e três pessoas no sofá.

Um hábito que, neste ano estranho de 2020, deixei um pouco de lado. Minhas unhas, desde março, andam mais sem cor do que pintadas, tal como tem parecido a vida: pouco colorida e meio desbotada. Vez ou outra, ligo para a manicure do bairro que, com todos os cuidados, as colore para mim. Entre máscaras e lixas, ela me conta que aprendeu a fazer Ho’oponopono, uma prática havaiana antiga, que incentiva o perdão e o amor. Confidencia, com dignidade, que o dinheiro tem faltado neste ano de pandemia e, para dar conta da dura realidade, descobriu, com alegria, a meditação. Com os olhos marejados, me conta uma das coisas mais bonitas que ouvi, nos últimos meses:

Na minha religião, se diz que essas coisas são do demônio. Porém, esse coronavírus abriu os meus olhos e me fez ver que Deus está em tantos lugares e de diferentes formas. Uma coisa tão bonita como o Ho’oponopono não pode ser ruim! Antes parecia que havia um muro entre mim e certas coisas e, na pandemia, esse muro caiu.

A sinceridade em sua confissão, me emocionou. E, novamente, entre unhas pintadas, colori o meu coração. Havia afeto nos anos 80, como também há afeto em 2020.

Copyright © 2020 I Cris Mendonça. Sobre unhas pintadas, memória e afeto. Todos os direitos reservados.

O DIA QUE MEU PAI VOLTOU DO IRAQUE PARA FICAR

14/08/2020 às 10h59

Na noite de um ano em que não me lembro, meu pai bateu na nossa janela e voltou para ficar de vez.

Na noite de um ano em que não me lembro, meu pai bateu na nossa janela e voltou para ficar de vez. Trazia na mala, brinquedos, seu sorriso de dever cumprido e um coração cheio de esperança. Voltava do Iraque – país onde trabalhou por dois anos, entre idas e vindas – para começar no Brasil, a sua vida de fato.

Filho de uma casa com 12 irmãos onde tudo era dividido e a palavra “não” era servida, diariamente, com um pouco de arroz e feijão, meu pai aprendeu desde cedo o valor do trabalho. No Oriente Médio, entre tempestades de areia e saudades, juntou o suficiente para investir no próprio negócio no Brasil, garantindo assim, o sustento da família que, com seus vinte e poucos anos, ele já tinha.

Quando voltou ainda eram anos difíceis, mas tudo exalava o perfume dos bons começos: meus irmãos e eu ainda pequeninos, minha mãe e ele tão jovens, o portão de ferro que rangia ao nosso passar e as verduras, do seu novo estabelecimento, tão frescas quanto a nossa vida. As bancas de madeira pintadas de azul, as cebolas e as batatas amarelas e a balança Filizola vermelha – alugada por falta de condições para comprá-la – decoravam o mercado do meu pai, que a exemplo da minha avó, tinha o comércio nas veias.

Ele que, até os quatro anos da minha vida era uma figura efêmera, indo e vindo em nossa casa, agora trabalhava no cômodo ao lado e nos acompanhava 24 horas. Diante dos olhos do homem que vivia entre a doçura da abóbora e a acidez do limão, crescíamos nem sempre sabendo combinar os diferentes sabores. Éramos verdes como as couves colhidas em um pequeno quintal.

Hoje compreendo, porém, que graças à miscelânea de cores, gentes e sabores daquele comércio, aprendi a conviver com as nuances. Descobri, através dos gestos, o amor que meu pai sempre me ofereceu: a comida na mesa, a disciplina na palavra e o afeto no sorriso cerrado. Um amor que nem sempre parecia doce, mas me fez resiliente. Entendi cedo que na velha Filizola, meu pai pesava não somente as batatas, mas também o nosso amor, sabendo exatamente o valor que cada coisa tinha.

Os sentimentos nem sempre estavam expostos nas bancas de madeira porque pessoas, assim como algumas frutas, não amadurecem à força: carecem da estação certa para estarem prontas para a colheita. Os defensivos que aceleram o metabolismo, prejudicam o sabor… E a natureza sábia nos ensina que é prudente esperar a hora certa da colheita.

O tempo passou. Meu pai e eu, não somos mais verdes e ácidos, tampouco maduros e passados, mas estamos plenos do que somos nós dois: sementes da nossa ancestralidade, porém sempre capazes de novos frutos.

Copyright © 2020 I Cris Mendonça. O dia que meu pai voltou do Iraque para ficar. Todos os direitos reservados.

O AMOR É PÁSSARO DE ASAS GRANDES: VOA LONGE, MAS SEMPRE POUSA PERTO

01/08/2020 às 17h41

Houve um tempo em que eu acreditava que amor era casar e ter filhos. Essa ideia de conto de fadas, me seguiu, de forma inconsciente, até meus vinte e poucos anos. Um belo dia, eu pensava, um bom rapaz surgirá, haverá um casamento, um vestido de noiva e crianças. Porém, conforme vivi as minhas experiências, delineadas por alegrias e tristezas, eu descobri: o amor não é um padrão de comportamento. O amor é atitude de quem experimenta a vida correndo os dedos pelos entalhes.

E foi pelo tato, que eu descobri como realmente era o amor. Eu consegui senti-lo nas nuances, nos relevos, nas curvas, nas profundidades, nas superfícies: lá estava o sentimento universal, aclamado pelos poetas, reverenciado pelos religiosos e sorvido até o último gole pelas mães.

Ao tocá-lo, eu compreendi o amor. Não de forma protocolar, não como um simples estado civil, não como uma princesa da Disney, mas no dia a dia, nas minúcias e nas grandiosidades.

O amor de quem gesta e pare seus próprios sonhos, o amor de quem faz com esmero, o amor de quem ilumina o caminho do outro, o amor de quem dá a mão, de quem diz não, de quem diz sim. O amor de quem se aninha por vontade, de quem perdoa, de quem constrói, de quem começa do zero mais uma vez. O amor de quem se permite iluminar pela alegria do outro. O amor de quem se olha no espelho e se ama, por dentro e por fora, não por ser perfeito, mas por ser como é.

E quanto mais eu experiencio o amor, mais eu o reconheço em gestos e pessoas. É simples: o amor faz biscoito frito e macarronada, oferece café, chama de tia, pede conselho, perdoa, pergunta como estamos, se emociona, se embravece, sabe latir e miar. O amor te cobre nos dias frios, te deseja sorte, reza por você, te abraça quando não sabe o que dizer. O amor sabe calar, mas grita, se preciso for! O amor é sábio: consegue ser pequenino e ser gigante; sabe se apagar, para fazer o outro brilhar.

Um grande amor existe no rostinho do filho que acaba de nascer; entre dois amigos de infância; no livro publicado; na casa de janelas azuis; no quarto de um hospital; tomando chá de camomila quando todas as palavras já se esgotaram.

Se esse sentimento pode ser tão amplo e mutável, tão sublime e tão simples, ele não deve ser colocado em caixas, tampouco emoldurado. Não carece de regras, pois amor é pássaro de asas grandes: por mais que voe longe, ele volta e pousa perto.

E, se alguém um dia lhe perguntar: já viveu um grande amor? Qual resposta você será capaz de dar? A história oficial? A contada nos livros ou aquela que é, exclusivamente, sua?

Copyright © 2020 I Cris Mendonça. Para todos aqueles que sonham em viver um grande amor. Todos os direitos reservados.