Revista Statto

A BABÁ MODERNA E A CRIAÇÃO DE NOSSOS FILHOS

07/01/2021 às 10h34

Há um ano e sete meses entreguei-me a um turbilhão de emoções que somente a paternidade pode proporcionar. Como pai atuante e prestativo, não queria perder um só detalhe daquela nova criatura que chegava a um ambiente preparado especialmente para sua chegada. Era como o Natal… como esperar uma encomenda por nove meses a fio… como esperar a chuva após tempos de seca – mas agora era real, estava em minhas mãos, respirava, chorava e acordava a noite. Estava vivendo a pleno vapor as várias das boas maresias que somente uma paternidade participativa pode proporcionar a um ser humano.

Ser pais, seja de primeira, segunda ou de muitas viagens nada mais é do que reviver o grande momento de sua extensão humana elevada ao nível máximo. É uma dádiva, uma, um presente dado a você, com a missão de cuidar e proteger dos arranhões e problemas que possam vir a rodear aquele frágil indivíduo que antes somente habitara o imaginário de dois pais, cuja ansiedade somente não era maior que o amor que emoldurava o contexto da espera e de cada detalhe minunciosamente organizado durante nove meses de antecipação.

O tempo voou a passos largos. Sempre diziam que filhos crescem rápido… acreditava ser exagero, mas de fato algo nessa afirmação era surpreendentemente verídico. Meu pequeno bebê de poucos centímetros cresceu, se tornando um “pequeno garoto esperto e brilhante” com o mundo inteiro ao seu redor para descobrir e desvendar, dissecá-lo de cima a baixo sem medo algum.

Paralelamente a todos esses magníficos processos da natureza da evolução de uma criança, outro bem menos afável acontecia no plano de fundo, o da rotina massacrante de uma população de pais e mães que se desdobram, enfrentam jornadas triplas e batalhas diárias, vivendo com seus conflitos ocultos na tentativa de manter balizado o tácito equilíbrio de suas necessidades, objetivos, casamentos e família e carreiras.

O cansaço nesse processo é inevitável. O esgotamento físico é fato, o que nos leva muitas vezes a lançar mãos de recursos não tão adequados para a criação de nossos pequenos de olhos cativantes e ávidos por mais brincadeiras, mais diversão e mais alegria, quando ao final de um dia já não temos muito em criatividade e energia para oferece-los.

Muitas vezes, diante das corridas interessas, tarefas, agendas apertadas nos deixamos ceder – e veja que não estou defendendo a ideia, mas relatando o fato comum a todas as famílias – precocemente o acesso à mídia, que costumo apelidar de “a baba moderna” de nossos filhos. Blocos de montar, livros de colorir, peças de encaixe perdem seu encanto, quando o Fast-food midiático é imediatamente oferecido elas – é instantâneo. Mas o ponto que quero trazer à tona, não é promover debate se é correto ou errado, isso já sabemos a resposta no nosso íntimo e com certa muitos de nós sentimos o peso dessa decisão; mas o que quero propor a reflexão é de fato estamos dando atenção suficiente ao que está sendo consumido pelos nossos filhos.

Apesar de toda a correria e dos cansaço de um dia inteiro e de uma agenda de compromissos apertados e afazeres domésticos intermináveis, minha esposa e eu  sempre procuramos manter uma rotina estável para meu filho de 1 ano e 7 meses, o que funciona positivamente, incluindo momentos de consumo de mídia –  assistir programas de TV, (e não no celular)  a desenhos animados coloridos previamente selecionados conforme seu interesse e seu valor formativo e educativo – e momentos para brincar com irmão, com as peças de montar e brincar com sua tartaruga de estimação.

Apesar da comodidade e da praticidade, até da mágica de acabarmos com um choro ou birra com um ligar de um botão ou tela, ou apresentar um mundo de personagem coloridos e músicas viciantes, temos que tomar muito cuidado com as pistas ocultas e deseducativas por trás das boas intenções destes “programas feitos para crianças“.

Alguns prestam um desserviço a uma educação pautada no respeito, obediência e regras de segurança domésticas, levando os pequenos a acreditarem que certos comportamentos estão corretos porque seu personagem preferido o faz, e por nosso descuido não os corrigimos ou não temos a sensibilidade perceber as como tal imagem será interiorizada por nossos pequenos e será refletida em atitudes.

A idade e as adequações são fatores importantes a serem consideradas, assim como a presença dos pais, que não deixem seus filhos sozinhos com a “baba moderna”, ela pode estar deseducando seus filhos, enquanto se dá um respiro de alivio. De fato, pode ser um paliativo, eficiente e rápido, mas no futuro pode-se ter problemas sérios com comportamentos e hábitos internalizados pelos pequenos ensinados por esta eficiente baba.