Revista Statto

UMA BOA AMIZADE SUBSTITUI UM TRABALHO PSICOTERÁPICO?

25/07/2020 às 08h52

Olá!

Aproveitando o frescor da data em que comemoramos este sentimento nobre, venho trazer esta questão capciosa: pode a boa amizade substituir um trabalho psicoterápico?

Eu poderia aqui já trazer taxativamente a resposta, mas quero levar o leitor a chegar às suas próprias conclusões. Para este trabalho, é necessário assinalar as diferenças entre amizade e psicoterapia.

Amizade é, resumidamente, uma simpatia e afeição recíprocas, um vínculo cerrado tão intimamente que as almas acabam por se condensar em uma só, união está feita a partir de uma experiência, objetivo de vida ou de valores em comum.

Um dos maiores desafios do ser humano é manter estas amizades até o fim dos dias. Os seus interesses e visão de mundo vão mudando conforme as experiências, forçando-o a assumir outras posições, a fazer escolhas decisivas. Tenho a sorte de manter amizades desde a infância, e talvez eu atribua isto a uma dádiva da vida: o próprio fluxo da existência acaba por deslocar a energia investida num contrato de lealdade inicial, onde a lei maior pode padecer de falta de escrúpulos, e de um momento para outro, transmutar de amor para ódio eterno.

Não raro, verificamos nas amizades o que é chamado de confluência, ou seja, uma intensa identificação com o outro ou com o ambiente que cerca o indivíduo, provocando a tal fusão que eu citei anteriormente. Até certo ponto, podemos classificá-la de sadia se os vínculos entre as pessoas as alimentam e as fazem desenvolver, sem nenhum rastro de qualquer dependência psicológica incapacitante.

O inconveniente desta natureza simbiótica reside no fato de que o sujeito fica impedido de perceber-se em seu mundo interno, uma vez que dois amigos partilham de um mesmo sentir, ou citando Aristóteles, “amigo é uma alma habitando dois corpos”. O juízo a respeito de uma determinada questão existencial fica seriamente comprometido, por mais que a amizade tenha a melhor das intenções.

Indo aos extremos desta total identificação afetiva com alguma figura humana em especial, testemunhamos todos os dias, mesmo nas mínimas ações, intolerância das mais diversas ordens à singularidade do outro, com o despertar de ódio, perseguições e violências. Independentemente do modo e intensidade como esta fusão aconteceu, fato é que o próprio indivíduo não pode vivenciar-se a si mesmo, uma vez que ele perdeu todo o sentido de si: não sabe quem é, nem para onde vai, tampouco o que o faz ser um ser singular e com necessidades só suas.

É neste ponto em que se faz crucial e distintiva a presença de um terapeuta – para trazer este sujeito de volta à vivência do real.

O psicólogo é o profissional habilitado para lidar com as questões humanas dos mais diversos tipos. Através de muito estudo e técnica, conseguimos, em parceria com a disponibilidade do próprio paciente, dar-lhe a autonomia necessária para que possa fazer as escolhas mais acertadas e possíveis diante do que se lhe impõe.

Somos seres humanos sujeitos a emoções e impulsos como qualquer mortal, porém amparados pelo peso da ciência, que elegantemente nos garante limites seguros para intervenção dentro da relação terapêutica e ferramentas para que conduzamos o cuidar da maneira mais isenta que nos é possível. Supervisão de um profissional com mais estrada de clínica psicológica mais a terapia pessoal nos respalda diante dos desafios de lidar com o humano que ressoa não só no outro, mas em nós mesmos.

Fui sucinta ao descrever a minha responsabilidade como profissional, mas fato é que o psicólogo não vai, de modo algum, por mais acolhedor que seja o seu trabalho, fazer as vezes de amigos: não vai consolá-lo apressadamente, ser serviçal com alguém ou dirigir-lhe palavras jocosas com o intuito de evitar sentimentos dolorosos. Além de improdutivo, impede que o sujeito entre em contato com experiências de tristeza, raiva ou solidão, por exemplo. Ser sujeito é abraçar a sua própria completude, é amar a sua luz, mas sem deixar de abraçar as suas sombras.

A psicoterapia tem por objetivo revisitar e reeditar não só eventos traumatizantes, mas qualquer outra questão inacabada ou que desperta no sujeito interrogações ou inquietações.

Não quero de algum modo minimizar a importância afetiva do amigo em nossas vidas; vários estudos vindos de grandes universidades nos atestam a importância da amizade em nosso bem-estar.

Para um bom chope no barzinho, chame o amigo. Caso queira encontrar-se consigo mesmo (a), procure um psicólogo. Até a próxima!

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Fernanda Relva é psicóloga clínica, graduada pela Universidade Federal Fluminense, pós-graduanda em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional pela Universidade Veiga de Almeida. Atende seus pacientes somente online, por questões de segurança em virtude da pandemia do novo coronavírus.

Nicho de atendimento: mundo feminino, maternidade, abuso sexual, sexualidade feminina, violência contra a mulher, relacionamentos, transtornos de ansiedade, compulsões.

 

FAZER TERAPIA: O PROCESSO DE ACENDER A LUZ EM MEIO À ESCURIDÃO

09/07/2020 às 19h17

Oi! Na minha jornada de exercício profissional, o que mais presencio é a resistência de começar ou continuar um processo psicoterapêutico. Há várias razões para isto, mas vou falar a seguir de uma delas.

Chama-se setting terapêutico o lugar onde o paciente em potencial vai entrar em contato com as suas dores e sentimentos mais íntimos. Fazer isto evoca muitas das vezes a lembrança de traumas que o impossibilitaram de ter uma vida mais plena.

Quando se vai ao médico e há uma dor em alguma parte do corpo, o que se faz para tratar o incômodo? Investiga-se com exames médicos e locais, além de tocar onde supostamente está ferido ou inflamado. Se dói, é necessário ser cuidado, não é mesmo?

No seu caso, você deixa de tratar o que te incomoda?

Se você tem consciência de que o seu bem-estar está acima de tudo, não vai economizar energia para alcançar esta meta. Se não, é provável que o sofrimento chegue a níveis absurdos até que mude de posicionamento.

Medo de viver coisas ruins todo mundo tem. Pior ainda é o medo de confrontar as próprias questões, a própria escuridão. Dessa maneira, porém, as pessoas acabam se fechando para o processo da vida como um todo, com o intuito de se protegerem. E deixam de viver dignamente a vida que tanto anseiam e merecem.

Sigmund Freud, em seu texto “Sobre o início do tratamento (1913) ” afirma assertivamente que “ nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez”. O que ele quis dizer é que embora haja um investimento financeiro contínuo para a eficácia do tratamento, em virtude da natureza da duração do processo terapêutico, os benefícios são de se perder de vista, em todas as dimensões da vida.

O pai da Psicanálise chega a dizer que, quem investe em um tratamento psicológico, faz um bom negócio, pois nem há como comparar o dispêndio financeiro e os resultados de uma saúde mental restaurada.

Não viva como se já tivesse morrido, não viva tateando na escuridão. Em momentos de crise, o melhor investimento é em si mesmo. Pense nisso!

Fernanda Relva é psicóloga clínica, graduada pela Universidade Federal Fluminense, pós-graduanda em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional pela Universidade Veiga de Almeida e atualmente voluntária do projeto Mapa do Acolhimento, que atende mulheres vítimas de violência. Atende seus pacientes somente online, por questões de segurança em virtude da pandemia do novo coronavírus.

Nicho de atendimento: mundo feminino, maternidade, abuso sexual, sexualidade feminina, violência contra a mulher, relacionamentos, transtornos de ansiedade, compulsões.

O QUE TE FAZ MAIS FORTE (STRONGER, 2017)

03/02/2020 às 15h03

Título: O que te faz mais forte é o marco zero de toda uma vida

Fazer resumo de um filme tão rico em detalhes e lições, um grande desafio! O que te faz mais forte é um drama instigante e que prende o espectador até o fim. Vou expor aqui os pontos que mais me chamaram a atenção.

O enredo estrelado pelo brilhante Jake Gyllenhaal fala sobre a história verídica extraída de livro homônimo de um jovem norte-americano que perde as duas pernas durante o atentado a bomba ocorrido durante a maratona de Boston, em 2013. Nesta ocasião, Jeff Bauman lutava por não perder em definitivo o amor de sua namorada Erin, que reclamava constantemente de suas atitudes inconsistentes e imaturas (incluindo o fato de sempre marcar eventos com o namorado e ele não ir). Em meio a idas e vindas do relacionamento, Jeff propõe estar presente na maratona como incentivo para a namorada voltar a acreditar nele.

O que parecia ser o início de um final feliz, na verdade é o surgimento de uma nova ordem, na vida de Jeff e de todos os que o circundam. Aquela máxima que diz que sempre há um propósito a ser cumprido em todas as coisas é uma afirmação presente em todo o decorrer do filme.

O centro da trama adaptada para o cinema é a vivência do luto pelo protagonista a partir da perda de suas duas pernas. Ele não vê outra alternativa a não ser conviver com as vicissitudes da mutilação e reconduzir uma vida a partir disto. Coisa esta que ele não sabia fazer muito bem sozinho e com as duas pernas por inteiro…

Luto é o período compreendido entre a (iminente) perda de algo (emprego, posição social) ou alguém (parente, cônjuge, amigo) até a adaptação/ressignificação deste mesmo evento na vida da(s) pessoa(s) que sofre(m) tal coisa. As crises durante este tempo são presentes e necessárias para que se todo o propósito, como disse anteriormente, seja concluído. Como uma lagarta preparada para ser uma borboleta dentro da crisálida, Jeff começa a ser habilitado para ser um homem em sua totalidade, apesar do aleijamento.

Neste processo, questões delicadas vêm à tona de modo a “arrumar a casa”, no que diz respeito aos relacionamentos humanos. Há cenas que mostram como as fragilidades e caráter da família são afetados quando precisam lidar com a realidade de um dos membros que precisa de cuidados especiais, como é o caso de Jeff.

Não raro, o rapaz encontrava-se imerso em ataques de pânico, por se se sentir no dever de dar conta da fama de herói nacional que a mídia e a sociedade americanas lhe imputaram, ao mesmo tempo que se sentia inútil e impotente diante do novo estado de coisas. Nestas cenas, vemos Jeff sendo visitado por relampejos de lembranças traumáticas relacionadas ao momento da explosão das bombas, juntamente com crises de ansiedade. Sintomas estes típicos do transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), uma manifestação psiquiátrica atrelada a eventos extremamente traumáticos, que ofereçam perigo iminente de morte ou ameaça à integridade física, como por exemplo: sequestros, catástrofes naturais, estupros, acidentes.

Jeff é espelho de nossa humanidade, que se mostra muitas das vezes infantil e medrosa, portanto teimosamente estagnada num conformismo indolor. Mas a vida manifesta encontra o seu lugar exatamente no que nos dói, no que nos toca, e no que sentimos. O que te faz mais forte  nos faz olhar para as perdas não como um tabu, mas como parte de um processo útil e necessário para a nossa própria evolução.

 Jake Gyllenhaal e o verdadeiro Jeff Bauman