Revista Statto

A FELICIDADE SEMPRE BRILHA QUANDO CONSEGUIMOS RELAXAR

18/11/2020 às 10h53

Estar ao léu, num misto de expectativa e desacreditação prova algumas reviravoltas dentro de nós. Porque é tranquilo saber que a vida vem com seus discursos variados quando ainda se preserva um monólogo conhecido e confiável. Esse ano foi – e assim continua – especialmente diferente.

É como se nossas poções mágicas tivessem sido esgotadas, como se todas as caricaturas que fizemos durante toda a vida tivessem sido manchadas e que somente algo novo e desconhecido faria parte agora da nossa realidade. É como não ter mais as rédeas ou talvez a constatação mais sincera de que nunca as tivemos. É receber algumas chacoalhadas e deixar a vida acontecer sem muito pensar ou fazer.

Mais ou menos como caminhar, mas sem pressa de chegar, se acalmar enquanto a poeira hesita em baixar e seguir acreditando no valor dos momentos compartilhados, que não avisam quanto chegam e nem se têm hora para acabar. É como não poder se programar, mas não deixar de acreditar.

É como não ver o sol mas apreciar a claridade lá fora, como não enxergar a lua mas aproveitar o brilho prateado ondulando nas águas. É como não saber, não ter maneiras de verbalizar mas tendo a certeza que sempre o melhor resplandecerá. Num momento totalmente imprevisível que une obstinação e entrega o que nos cabe é respirar, acolher nossas imperfeições e reconhecer o que de fato nos faz mais inteiros e verdadeiros conosco.

É como se sentir descortinado abruptamente, revirado e fragmentado pelas situações, mas ao mesmo tempo, nunca antes tão cheio de supremacia e acolhimento. Muito próximo das alegrias arquitetadas, pelo simples fato de deixar rolar, de se despreocupar. Porque existem muitas cenas fora do roteiro e que são as responsáveis pelo sucesso da história.

Acalme-se, releve, esqueça. Atenue, acredite, amoleça. As melhores coisas aparecem quando a gente sabe parar, quando esquecemos do que ainda não veio e nos perdoamos pelo que não irá mudar. Não importa o caminho, se for luz o que você carrega, inevitavelmente irá te iluminar, pois a felicidade sempre brilha quando conseguimos relaxar…

É EM DEUS QUE ENCONTRO MEU DESCANSO

22/10/2020 às 11h58

Em alguns momentos de nossas vidas nos perdemos na tentativa de agradar o âmago, na busca constante de satisfação, no desejo incansável de sentir alegria com situações ou coisas. Faz parte da vida o desejo, certa dose de ambição e alguns bons pares de olhares em nossa direção.

Fazem parte da natureza humana certas inclinações; gostos e contragostos, adorar e odiar, insistir e desistir. Todos nós somos movidos o tempo todo por nossas vontades: tanto do que queremos e que nos agrada quanto do que não queremos pois nos desagrada.

Passamos anos estudando porque desejamos um trabalho, conhecemos gente porque necessitamos amigos, companhias; buscamos vínculos, pois apostamos na estabilidade. Compramos coisas porque precisamos comer, vestir, morar, viajar…. Acessamos, postamos, editamos, divulgamos – pois precisamos de visualizações, de nos sentir queridos, admirados, amados…

Todas essas atitudes dão os caminhos de nossas vidas, é assim que tudo acontece, que tudo muda, que tudo se transforma. Ninguém abre os olhos na cama sem um objetivo que seja, talvez o mais simples pelo menos: “Acordei, preciso respirar!”

Porém, ainda que se resolva grande parte dos anseios com as concretizações e que também se aprenda a conviver com todos os “nãos” numa boa, existe sempre alguma coisa que nos apetece.

Há algo que transborda de nós o tempo todo e que sempre está presente, mas que esse nosso “ir e vir” impede que a gente perceba. Como disse o famoso escritor russo, Dostoievski: “existe um vazio no coração humano do tamanho de Deus”. E não é preciso tanto estardalhaço nem tampouco uma parcela de contramãos para compreender o que isso significa.

Por mais que a gente passe a vida fazendo, realizando e conseguindo ou fugindo, desviando e impedindo – nada disso nos completa totalmente, nada suporta nossa lacuna. Não raro são os milionários infelizes, famosos enlouquecidos e beldades deprimidas, porque o que acalenta a alma jamais pode vir de fora. Apesar de serem coisas agradáveis e que promovam certo apreço, são passar, vão quebrar, vão deixar de existir.

Que eu saiba viver a vida sem tantas oscilações, que ande em passos firmes tanto em chão batido como na areia movediça, que não me esforce tanto para reconhecer a felicidade e que tenha a clara convicção de que fazer e ter, nunca serão maiores do que ser. Que eu não perca a fé na vida, mas que não me afobe tanto pelos dias vindouros, e que eu tenha fortemente dentro de mim que nada preciso, pois sou muito além daquilo que alcanço. Que a calma e a paciência me ocupem e que eu nunca me esqueça que é em Deus que encontro meu descanso!

A GENTE PRECISA DESCOBRIR O QUE NOS ROUBA A AGONIA E QUE TRANSBORDA NOSSA ALEGRIA

28/09/2020 às 20h52

A gente precisa descobrir o que realmente nos faz feliz, aquilo que abranda as dificuldades, que foge dos tratados e nos conecta com o que gostamos de verdade. É preciso muita coragem para assumirmos o que faz o olho brilhar com todas as suas consequências. Num dia está tudo conforme o combinado e no outro você se vê um estranho, tentando apagar os próprios incêndios, recuando de onde nunca quis ir e se metendo aonde jamais imaginou estar.

Um dia você se vê descobridor dos próprios mares, no comando do barco, remando sem medo de atracar, aproveitando o passeio – no rumo que escolheu, a partir de agora – sem entraves ou receio. É como se a vida tivesse tomado as rédeas por você e passasse a escancarar as paisagens que você deve apreciar, as coisas que deve apagar e os passos que inevitavelmente agora irá dar.

Talvez seja a existência exigindo que você reaja, que descubra o que te faz esquecer a parte tediosa da rotina, a cura para sua vontade de estar sempre ocupado, mostrando que muito mais que se manter sempre na linha, é importante descobrir onde permanecer, quais vínculos deve ter e quais histórias deve escrever.

A gente precisa descobrir o que nos rouba a agonia e que transborda nossa alegria. O que faz a gente seguir em frente, mesmo quando enfrentamos nossas pausas, tristezas e incompletude. Precisamos descobrir não a cura para nossa pouca sorte ou doença mas sim a nossa melhor parte, aquela que sobrevive além da falta, da dor, da ruptura.

Que a gente saiba o que nos coloca firmes no chão, que nos lança da cama para o mundo e faz de nós: fortes, completos, autênticos, nossa mais pura reconciliação. E que a gente possa caminhar sempre em paz mesmo quando nos reconhecemos completamente desprotegidos, fazendo as pazes com nossa melhor versão, aquela que jamais deixará na mão, pois é nossa alma brilhando – apesar da incerteza, da insegurança, da ausência de explicação…

NUNCA DESISTA DE SER MELHOR A CADA DIA

25/07/2020 às 08h59

A vida tem sempre suas artimanhas para que mudemos de atitude, de pensamentos, de vibração. Por mais que a gente decida ser assim ou assado, uma hora ou outra aparece aquela situação que muda tudo. Aquela circunstância que mostra que a gente pode ser e fazer qualquer coisa quando realmente precisa ou quer mudar.

Pensei que morreria sem doses generosas de café, achei que não suportaria mais esforço físico que o habitual, acreditei que não mudaria de gosto, muito menos o cardápio costumeiro até o o fim da vida. Mas – e surpreendentemente – mudei todas essas coisas e me sinto muito bem, desacreditando em tudo que jurei para mim mesma como sendo imprescindível.

Somos sempre capazes de diversificar por decisão, sofrimento ou imposição. Somos moldáveis a todo momento, basta não resistirmos aos reveses e rupturas, acreditando que tudo dança conforme a música que precisamos seguir, pois somos dançarinos que não escolhem as coreografias, mas que insistem em desenrolar os melhores passos, respeitando o ritmo que toca o corpo delicadamente e a alma profundamente.

Mudanças são sempre resultado de horas de indecisão, de questionamentos internos, de observação e silêncio. São acompanhadas de disposição e coragem. Ninguém muda qualquer coisa sem reflexão, até para mudar de roupa a gente pensa (e como!). Porque mudanças envolvem uma parte nossa que precisamos deixar para trás e que, na maioria das vezes, carregamos por muito tempo.

Portas são abertas por novos caminhos, ao deixarmos de lado o que já não serve mais, ao reformularmos nosso script – outras histórias, momentos e oportunidades aparecem. O mais difícil é a decisão, porque é ela que acabará com uma porção de experiências que não voltam mais, ao passo que também somente nossa conduta nos familiariza com o futuro, usando para isso uma transformação que é capaz de tocar a vida de um jeito que sempre será lembrança. Pois, inevitavelmente, lembraremos do divisor de águas que possibilitou nossa travessia.

Mudar não é chamar de velho o que passou, mas é encontrar agora a possibilidade de fazer diferente, atendendo o nosso desejo de viver melhor e quem sabe até, de lambuja conseguir ser mais feliz.

Mude, transforme-se, ouse! Mude sempre que algo enfadar, paralisar ou chatear. Nunca desista de ser melhor a cada dia. Reformule, recomece, e acima de tudo, mude porque você pode, mude porque você merece…

POSSO AMAR E CUIDAR, MAS NÃO PRECISO SER GUERREIRA, INSANA, TESTA DE FERRO

20/06/2020 às 10h12

Não precisamos desbravar o mundo com unhas e dentes, levando um distintivo no peito e por trás dele, muitas renúncias e batalhas perdidas dentro de si. Já acreditei que precisaria dar conta de tudo – mesmo que na maioria das vezes isso acontecia – hoje não enxergo que se desdobrar em mil seja gratificante e necessário ou que é um fardo que recebemos sabe-se lá de onde.

O mundo devolve o que emitimos. Enquanto nos anulamos e nos desgastamos para ver todos os outros felizes, ficamos em último plano. Isso não tem a ver com egoísmo; amor-próprio tem a ver com evolução, com sintonia com a própria essência, com tornar-se melhor para ser melhor para todos que convivemos como consequência. Cuidar-se, é saber que o não tem seu valor como o sim, que ensinar os outros pode tomar tempo, bagunçar nossa rotina, mas depois nos deixa livres por períodos maiores de paz.

Com os anos, percebi que não preciso ser forte o tempo todo, que tenho um lado frágil e vulnerável que me revela mais autêntica, que posso amar e cuidar, mas não preciso ser uma guerreira, insana, testa de ferro. Minha delicadeza também faz parte de ser uma mulher corajosa, mesmo com todas as minhas desistências e pedidos de colo. Pois agir com coragem é agir com o coração e, algumas vezes, o que ele quer é apenas afeto e compreensão.

Aprendi que quando peço por ajuda não deixo de ter minha independência ferida e que ser autossuficiente em tudo é loucura. Anular-se desrespeitando a própria saúde para se considerar capaz, é sinônimo de falta de confiança. Quando me reconheci falível e receosa me tornei ainda mais perseverante, quando olhei minhas vulnerabilidades, me vi muito mais destemida, quando me senti desprotegida, fui abolida, ao me permitir ser amparada, me senti muito mais amada.

Às vezes queremos dar um passo maior que a perna, erramos na dose e nos machucamos. Reconhecer o que me fortalece e faz feliz é muito mais importante que aguentar tudo calada. Ser aprovada é dispensável e quando luto por reconhecimento ou gratidão, me desgasto sem motivo e me sinto sugada. Quando entendi que preciso ser compreendida ao invés de útil, que não devo me atropelar para ser de verdade, que as lágrimas aliviam e que os abraços curam – entendi aquela parte da música: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho…

SER HUMANO

26/05/2020 às 16h31

A partir de agora nos aproximará cada vez mais do amor, da paz e de Deus

As piores tempestades são aquelas que podem realmente lavar nossas almas, uma mudança no tempo e na velocidade dos ventos é capaz de remexer tudo dentro de nós. Uma doença impactante é capaz de nos recolocar em nossos devidos lugares.

Mais que os efeitos de uma pandemia, estamos sentindo as alterações de condutas, as reformulações da rotina, a criatividade aliada ao bom senso, indicando novos rumos.

Estamos aprendendo a olhar para quem não vive a mesma história que a nossa, há em todos os lugares, em menor ou maior escala, uma preocupação e cuidado com o outro que não é um parente, amigo próximo ou alguém que vive presente em nossos dias. Mas se trata de alguém que está em situação diferente da nossa, mas que desejamos veementemente que fique bem.

Estamos aprendendo e sentindo na pele que toda ação se trata de uma demonstração de amor e quando vem em forma de intolerância ou até incompreensão, é um pedido de amor. A vida nos foi dada para aprendermos a amar. E essa tarefa pode ser simples e confortável quando o outro nos atende em nossas solicitações, quando o outro responde positivamente às nossas expectativas. Difícil é amar as crises, as lamentações, o desespero. Difícil é ser amante de todos e em qualquer situação, difícil é amar quando o mundo grita.

Talvez, ainda precisaremos depositar toda nossa vontade e fé nas águas e em sua rota, a favor da correnteza, flutuando em seus desníveis, desviando dos arbustos e confiando que seguir no rio da vida, consiste em se deixar levar. Rendição, devoção, permitir que a grande força que nos move, nos mostre a direção.

Talvez, sairemos dessa – e eu acredito nisso – muito mais humanos que antes, mesmo se precisarmos deixar de lado as nossas humanas e corriqueiras aflições, nossas constantes resoluções e saídas, pois “Ser humano” a partir de agora, nos aproximará cada vez mais do amor, da paz e de Deus.

 

ÀS VEZES UM IMPEDIMENTO É BÊNÇÃO E UM FRACASSO É CORRIMÃO, VIDA É ENCONTRO

12/05/2020 às 09h23

Muita gente irá procurar as mais variadas formas de vencer na vida, de perfeiçoar o intelecto, de encaixar as peças do quebra-cabeças das ideologias. Muitos de nós, irão aos extremos por um lugar melhor ao sol, por um passe livre à janelinha, por um minutinho de pompa ou reconhecimento. Não é vergonha ou errado procurar o progresso, vida é empenho, é dedicação ao que se acredita ou traz conforto ao nosso ser.

Grande parte de nós, tentará de tudo para ser feliz, e não há mal nenhum nisso. O que acontece é que algumas vezes em nossas buscas, além do almejado, seja sonho ou crescimento, o caminho nos coloca a par – e das maneiras mais inusitadas – de que a procura é em vão. E há a constatação de que a vida é muito mais do que o que se ganha ou se aprimora. Porque vida é encontro, vem disfarçada de esbarrão, de acaso, de sorte ou predestinação.

Acreditamos poder agir sobre as entrelinhas com nossa atitude e proposição, porém, somos surpreendidos pelos desígnios do caminho que em alguns casos, nos levam a lugares muito melhores que os imaginados – a momentos muito mais gratificantes que os esperados.

Quando retiramos aquele olhar sobre o outro e sobre o mundo, que na verdade é uma lente criada por nós mesmos, a neblina vai embora, o desejo de ser melhorado, procurado e sempre sair vencedor, desaparece. Quando rompemos com a ideia de que o mundo e as pessoas precisam se adequar às nossas vontades, aprendemos a viver.

A gente entende e aceita a vida com tudo que ela carrega quando aprendemos passos novos de uma dança antiga, quanto trocamos nossas rebeliões internas por silêncio e agradecimento. Quando agimos de modo natural – sem expectativa ou idealização, confiando na maestria de tudo que se move em nossa direção.

É preciso aprender a ouvir, aquietar os pensamentos, deixar que a maré venha ao nosso encontro. Respeitando o sim e o não como caminhos para o êxito, às vezes um impedimento é bênção e um fracasso é corrimão. A vida anda lado a lado com o imprevisível, é mestra em apaziguar ou aplicar lição.

Sabedoria é não lutar contra o inevitável e por outro lado, permitir ser surpreendido e continuar imperturbável. Vida é processo, busca e realização, mas só é de verdade quando aprendemos a viver sem medo de lavar as mãos. Quando deixamos partir o que tanto desejamos e aprendemos a sorrir para o que chega sem aviso e sem preparação. É quando a gente segue sem pressa e descansa todo peso dos ombros ao som de uma voz insistente e companheira, que surge vez ou outra sussurrando: Para você, receba em seu coração…

VIVER NÃO DÓI

24/04/2020 às 09h16

Nosso maior desafio é confiar no percurso e nos manter em movimento, ao mesmo tempo em que vivemos, que cruzamos os dias, que amanhecemos e entardecemos. Quem fica de corpo e alma em todos momentos não se lamenta ou se amedronta. Pergunte a uma mulher no que ela pensou durante o exato momento em que dava à luz, questione um socorrista se ficou planejando seus movimentos, se alguém que precisou ser corajoso além da conta, ousou ficar em dúvida.

A resposta será não, porque existem circunstancias que não nos liberam os planejamentos e análises, não nos deixam espaços para pensar, divagar e tantas vezes recuar. E ao mesmo tempo que não pensamos a respeito, também nos livramos de infelizes sofrimentos. Por mais que algumas linhas sejam tortas, que muitos becos pareçam sem saída, naquele instante em que traçamos ou percorremos, podemos estar tão envolvidos em seus caminhos tortuosos, a ponto de anestesiarmos o choque.

Viver não dói, o que machuca é relembrar o que já passou, o que se perdeu, o que não se concretizou. Viver não arranca pedaços, o que fere é supor que mais a frente, faltará algum bocado que agora ainda se tem. As dores são resultado de visitas ao passado, de muitos reencontros insistentes com certas saudades e amarguras. As angústias são nós que atamos por receio de enfrentar nossos percalços e ranhuras e de adiarmos também as vitórias e alegrias.

Viver é agora, é já! É a LIVE de cada um, sem muito preparo, com muita presença; sem condicionamento, mas com prontidão, decisão e envolvimento. Viver não dói, não abre brechas nem é orientado por suposições, é ininterrupto e persistente. É constante e eficiente. Viver impede que o passado assombre e sugere que o futuro surpreenda. Não se amarre, solte. Não subtraia nem acumule, não calcule, viva!

MUITAS VEZES SERÁ APENAS VOCÊ E DEUS, E ACREDITE, NADA FALTARÁ

16/04/2020 às 19h29

Nem sempre é simples suportar vazios, ouvir o barulho do silêncio de dentro ecoar, revistar nossas gavetas internas abarrotadas de tudo. Durante a vida juntamos muitos trajes, vestimos diferentes figurinos, trocamos muitas peças para estar sempre na moda, sempre nos conformes para o momento a seguir.

Passamos muito tempo projetando o futuro, tirando medidas, arquitetando com elegância o dia de amanhã e acabamos por esquecer o que de fato precisamos no momento presente. É importante fazer planos, mas desde que não nos tirem o sossego de uma bela noite de sono. É quase impossível não sonhar e imaginar o que ainda não chegou, mas desde que não nos roube a plenitude em estar com o corpo e a mente descansados.

Nem sempre precisaremos buscar muito ou nos conectar com tantos para estar em paz. Às vezes encontraremos felicidade deitados no sofá sem pensar em nada, ouvindo o tintilar dos últimos pingos da chuva que já foi embora, respirando lentamente enquanto o café está sendo coado. Permanecer inalterado apesar do silêncio do outro, do mundo e principalmente do nosso, é tarefa que aprendemos a destrinchar com o tempo, com as circunstâncias.

Nossas inconstâncias acontecem porque necessitamos estar sempre fazendo, indo de encontro, buscando, realizando e não nos atemos ao que é imprescindível agora, neste instante. E muitas vezes, tudo de que precisamos é apreciar o nada que diz tudo dentro de nós, é ouvir a voz que nos tranquiliza e nos faz acreditar que cada coisa tem a sua vez.

Os dias podem ser traiçoeiros em suas longas horas, podem ser intermináveis quando não conseguimos viver com sabedoria todos os seus minutos. Inúmeras vezes, valerão mais as anotações num caderno do que o dia da formatura, sorriremos mais com as conversas descontraídas numa roda de amigos, que numa ocasião solene e marcada por comemorações.

O que é capaz de nos abraçar com verdade e nos acomodar trazendo para o centro, é tudo de que precisamos. Nunca haverá solidão se estivermos envolvidos pela paz de nossa boa companhia. Muitas vezes, será apenas você e Deus, e acredite, nada faltará!

A CASA É GRANDE, MAS O TETO É DE VIDRO E, QUANDO ARREBENTA, TODO MUNDO FICA DESCOBERTO

05/04/2020 às 17h07

Nosso maior desafio pode ser a solução de muitos de nossos problemas. Tentamos pular etapas, dar um jeitinho de sermos beneficiados de alguma forma ou até de nos sentirmos mais evoluídos, “abençoados” ou manjados que os demais. Vamos vivendo dia após dia, mais convictos de nossas afirmações, das nossas interpretações, mais donos da razão que boa parte “dos outros”.

De repente isso é inerente ao “ser humano” e precisamos nos sentir assim algumas vezes durante a vida para que a fila ande, para trocarmos os passos e irmos em direção ao que somos verdadeiramente. Tantas vezes arrastados por nossos egos inflamados, duvidamos do óbvio, relutamos a enxergar nossos espelhos distribuídos um a um, lado a lado durante nossas andanças. Tememos o fim, mas nunca sabemos nada a respeito do começo – ameaçados da insignificância, optamos por marcar, demarcar, reafirmar para nossa própria credibilidade, para uma licença ao autoengano.

Não nos sentimos responsáveis por nada que fere o outro, não! Na maioria dos casos fomos incompreendidos, deixados de lado ou vítimas de uma vida que outrora nos dava orgulho, mas agora faz sofrer. Mudamos de repertório, de status, de discurso mas a razão e a nossa verdade são sempre as que queremos ver como realidade.

Uma hora as coisas mudam, a experiência traz esse enfrentamento. Por vezes arranha, fere, queima por dentro, mas é com certeza capaz de nos fazer enxergar tudo de um modo mais maduro e menos manipulador, de um modo mais coerente e menos petulante. Tentamos muitas vezes excluir o que passou e revelou de nossas memórias, principalmente o que não aprovamos em nós mesmos. Pois esquecemos que necessitamos de algumas faltas de entendimento ou confusões para então mudarmos nossas ações.

É preciso sim parar – o mundo, as ideias, as intolerâncias. É preciso sim de mais respeito e compreensão – o que eu penso sobre algo é apenas a minha opinião e não uma verdade acima de todas as outras. É preciso sim reconhecer que não existe sofrimento que não acabe, que não existe irritação que não possa ser contornada e que podemos sim suportar mais do que imaginávamos quando conhecemos a compaixão.

É tempo de nos dominar, de revisitarmos nossos cômodos, de levantarmos algumas poeiras, de nos concentrarmos em nossa correção. Não é o momento de apontar e sim de nos olharmos como protagonistas e responsáveis por tudo que acontece no mundo. A casa é grande, a família nem sempre entra em acordo, mas ainda assim vale a pena um fazer pelo outro, pois o teto é de vidro e, quando arrebenta, todo mundo fica descoberto.

Depois, vemos o céu…

“FIQUEM EM CASA” AGORA É UM MANTRA, HINO E GRITO DE SOCORRO

22/03/2020 às 16h57

A iminência de catástrofes, crises ou colapsos causam um rebuscamento geral, uma comoção sem distinção e muitas incertezas. Isso acontece porque por mais que se saiba que dá vida somos passageiros e que nunca estamos na direção, ainda guardamos talvez inconscientemente, algum resquício de controle. Ainda acreditamos que podemos prever acontecimentos ou evitar situações. A verdade é que podemos contribuir em algumas ocasiões com nossas ações, mas não somos capazes de controlar o desfecho final.

Estamos vivendo tempos difíceis, trocamos nossas saídas por isolamento e reflexão. Tivemos que aprender a administrar o tempo que consideramos sempre escasso; resolvemos limpar gavetas, faxinar os cantos, tivemos que lidar com tudo que sempre esteve presente mas passava despercebido. Estamos cheios de informações, porém vazios de respostas e nos demos conta de que todas as nossas certezas até aqui sempre foram incertas.

Estamos ligados mais do que nunca pelas redes sociais: em nossos grupos, nos celulares, nas mensagens e correntes de orações e de conforto. Estamos procurando dar as mãos sem nos tocar, dar o colo sem nos encontrar. De um dia para outras mais notícias sobre mortes, sobre falta de leitos, sobre tristeza. Também na mesma velocidade a solidariedade demostrando que é tudo que podemos fazer como humanos que somos…. Então surgem postagens com atividades para serem realizadas em casa – para prevenção, para nos exercitar, para nos acalmar, para estar em paz.

“Fiquem em casa” agora é um mantra, hino ou um grito de socorro – deixamos de valorizar tanto nosso dinheiro; tudo está fechado, não importa sua carteira, seu carrão, tudo fica estacionado, é “lar doce lar” sendo este açucarado ou não. Os filhos em casa, os pais atarefados mais próximos deles, os avós mais assistidos do que nunca. É o mundo dando as coordenadas, é a existência mostrando a impermanência de tudo e o quanto somos pequenos diante da magnitude universal.

Estamos tendo a oportunidade de nos conectar com o que realmente importa, estamos sendo obrigados a concordar que não é possível ter o mundo ao redor do umbigo e que é preciso soltar algumas mãos para salvar muitas. Estamos passando a enxergar por uma nova perspectiva, essa que não nos difere pelo que possuímos – uma vez que o vírus não seleciona por posses ou atributos. Alguns adoecerão, outros cuidarão; uns passarão, outros não!

Ficar em casa talvez seja o que deveríamos fazer sempre, voltar para dentro, observando nossas condutas assim como hábitos; limpar nossas mentes assim como nossos armários e nos ocupar do que é verdadeiro e não do que é superficial e temporário. Nossa casa é solitária mas tem tudo de que precisamos, nela nada amedronta, nada adoece, nada corrompe, nada perece. É só em casa que a união pode fazer a força e que o “juntos venceremos” ganha vida mesmo que estejamos distantes do lado de fora.

Desejo com toda a força que tenho muito amor, fé e saúde para cada ser. Que saibamos tirar da vida o proveito que ela deve ter, que possamos usufruí-la a serviço da humanidade e não desgovernada ao nosso bel-prazer. Que possamos percorrer momento a momento, aqui e agora e que “ficar em casa” não seja conflituoso e sim necessário e libertador. É assim que deve ser.

E agora, mais do que sempre, fiquem em casa!

ESTAR VULNERÁVEL NOS TORNA MAIS TOLERANTES E HUMANOS

12/03/2020 às 07h42

Não é preciso ir muito longe para atravessar a barreira que liga nosso mundo ao universo do outro. Às vezes nos deparamos com situações bem inusitadas que nem conseguimos mensurar a angústia alheia, pois não temos como compreender o que abriga cada coração envolvido, cada vida atingida. Isso acontece porque a realidade das pessoas é sempre diferente: as histórias, os laços, a família, tudo! E nem sempre é simples adquirir um olhar de empatia quando não conhecemos nada a respeito.

Vivo um processo de autoconhecimento há alguns anos e com isso percebi a necessidade de sair da tão comentada zona de conforto para me observar em outras situações e também ao lado dos mais variados tipos de pessoas. Deixar nosso mundinho confortável e partilhar do que diz respeito ao outro, nos aproxima muito mais de nós mesmos. Deixar de lado algumas convivências que sempre foram primordiais, também.

Não é nada tranquilo largar o que sempre fez parte e deu segurança para experimentar outras vivências. Estar vulnerável assusta, revela nossas lacunas, mas também nos torna mais tolerantes e humanos. Porque é longe do porto seguro que nos misturamos aos demais, é fora de tudo que sempre realizamos, que nos envolvemos com nosso lado mais desperto, é distante de algumas proteções que nos aproximamos de Deus.

Viver a serviço é não procurar mais respostas pois não existem mais perguntas. É sentir uma conexão sem explicação e ao mesmo tempo que esclarece tudo, deixando sempre as claras o caminho a percorrer. Talvez passemos a vida tentando nos encontrar, procurando algum sentido, porém, creio eu – que paz seja algo fácil de se perceber. Porque a plenitude que saímos tantas vezes desenfreados para encontrar – está na entrega, na intenção de deixar de desejar tanto e ir nos acomodando nos espaços que se abrem, nas esquinas que se fundem.

Pode ser que a gente passe a vida tentando ser feliz. Mas pode ser que a gente acorde num dia e se convença que a real felicidade não acontece só de um lado. Talvez ainda descobriremos que a paz que tanto procuramos está no silêncio que a gente não faz, na ajuda que não ofertamos, na partilha que não permitimos.

Pode ser que nos encontremos na dor do outro, no pranto ao lado, na mazela que surge. E quem sabe estaremos livres quando deixarmos de querer entender tudo, aprendendo a gostar do “não sei” seguido do “tudo bem”. E só assim então, nos sentiremos enfim despidos, porém sustentados pela luz que habita, guia e fortalece todos os nossos passos.

É A VONTADE E A CONFIANÇA EM TEMPOS MELHORES QUE NOS FAZEM ACREDITAR QUE: AGORA VAI!

31/01/2020 às 08h39

O curso dos acontecimentos na vida dos seres humanos, precisa sempre de um marco, de um divisor de águas, de um ponto em que declara-se o término de um ciclo para a chegada de um novo período. Os momentos são um amontoado sequencial que muitas vezes definem vidas como plenas, felizes ou prósperas. O contrário disso também. Somos movidos por estopins, aberturas e fechamentos, sentimo-nos num “entra e sai” que renova as esperanças, que liberta-nos das descrenças e que nos lança para o “daqui para frente”.

Desejar um novo caminho, novas histórias, avançar em novos desafios, alimentam o que há de mais profundo em nós. É o ponto em que resumem-se as lutas e que o sonho com a vitória se intensifica. É onde apostamos numa porção de vida algumas vezes iniciada mas mal-acabada, quando restaurados de nossas lascas, redecoramos nossos dias, pensando que de agora em diante, teremos mais prudência com nossas trincas, mais amor em nossas quedas.

Recomeço é o renascimento de todas as infinitas possibilidades, momento de lapidação de nosso diamante bruto. Quando focados num maior contentamento e satisfação, optamos por enxergar um lado mais inventivo, mais ousado, menos acomodado e mais sonhador. É dizer aquele “agora vai” para o trabalho que tanto desejou, para o propósito que ainda não despertou, para o estilo de vida que tanto adiou. Para o amor que nunca chegou.

Dizer que a partir de agora tudo será diferente, abre as cortinas para a linda dança que conduzimos durante nossas vidas. É se perdoar por tudo que não vingou, pelo que não durou e pelo que ficou e não prosperou. Mas acreditando que de alguma maneira, foram rascunhos para encontrarmos agora, a possibilidade de passar tudo a limpo, de iniciar novos parágrafos caligrafados por outras rotas e concluídos com outros rumos.

“A vida muda quando você muda.” Às vezes é preciso lançar rede ao mar, mesmo que ainda não saibamos pescar, chutar em direção ao gol, quando ainda não sabemos driblar e até mexer o corpo com passos desajeitados, se ainda não sabemos dançar – pois é a vontade e a confiança em tempos melhores que nos fazem acreditar que “agora vai”!