Revista Statto

ESPORTE UNIVERSITÁRIO

16/03/2020 às 16h47

Em fevereiro deste ano foi divulgado que Santa Maria irá sediar a Conferência Sul dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs). O anúncio feito pela Confederação Brasileira de Esportes Universitários (CBDU) coloca a cidade em holofotes nacionais. A competição ocorre em agosto e irá reunir cerca de 600 estudantes, na faixa etária de 18 a 25 anos, nas modalidades de basquetebol, futsal, handebol e voleibol. Os estados que participam da Conferência são o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

A importância deste evento, assim como destacou o superintendente de esporte da Secretaria de Cultura Esporte e Lazer de Santa Maria, Givago Ribeiro (que por coincidência é meu irmão), se resume em benefícios que ultrapassam o aspecto esportivo, atingindo positivamente também a economia da cidade. Particularmente eu não pude deixar de me orgulhar com esta notícia, ao mesmo tempo em que me vejo provocado a refletir sobre alguns aspectos.

Muito se fala sobre a tradição de países como os Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e China no desenvolvimento do esporte em universidades. Mas afinal, por que esses países fazem questão de unir ao ambiente acadêmico as práticas esportivas?

Ao procurar por repostas para esta questão, considerei elencar ao menos três razões principais. A primeira reside no âmbito da ciência, principalmente na área da Saúde. Enquanto o esporte de alto rendimento exige que atletas testem seus limites físicos e psicológicos, acaba se tornando um campo fértil para investigações em cursos como medicina, ed. física, psicologia, nutrição e fisioterapia. Outro fator que integra nossa reflexão e que para muitos pode ser visto como o mais importante, está relacionado a questões econômicas. Uma nação que investe em ciência está diretamente fomentando o mercado de trabalho e oferecendo mão de obra qualificada, isso faz gerar capital, como é fácil constatar em países desenvolvidos. Neste percurso elaborativo chegamos ao terceiro motivo, que na intenção de não parecer conveniência própria, optei em citar por último. No caso, me refiro aos benefícios que os atletas podem colher quando estão vinculados às universidades. O que a experiência me provou, é que as chances dos atletas se desenvolverem de forma integral no ambiente acadêmico, se multiplicam. Em 2004, quando eu deixei Santa Maria para treinar na serra gaúcha, foi por conta do Projeto ‘’UCS Olímpiadas’’, desenvolvido na Universidade de Caxias do sul. Com apenas 14 anos de idade, eu tive acesso a uma equipe multidisciplinar na UCS, podendo assim qualificar-me nos treinamentos. Quando cheguei na idade acadêmica, recebi apoio também para estudar. O resultado daquela oportunidade se resume na minha participação olímpica, que certamente foi impulsionada pelo Projeto.

Se o meu exemplo pessoal ainda não é suficiente para sustentar a última hipótese levantada, vou compartilhar um dado que não deixa dúvidas sobre a forte relação entre o esporte olímpico e universitário. Na olímpiada do Rio de Janeiro em 2016, dos 555 convocados para a delegação norte-americana, 440 praticam ou praticaram esportes universitários, ou seja, nada menos do que 79% dos atletas. Nos EUA, o campeonato universitário é o mais forte e competitivo do mundo, lá, o esporte funciona como passaporte para as melhores universidades do país. Desta forma, diferente do Brasil, é absolutamente comum encontrar grandes atletas olímpicos que alcançaram além de medalhas, uma destacada formação acadêmica.

Espero que a realização da Conferência Sul do JUBs em Santa Maria possa trazer ressonâncias positivas. E quem sabe, num futuro próximo, ninguém mais precise deixar a ‘’cidade universitária’’ por falta de apoio para treinar e estudar.

Jogos Olímpico Universitários

No começo de 2013, já morando em São Paulo, recebei a notícia vinda do meu treinador de que teríamos uma competição especial naquele ano. Se tratava dos Jogos Olímpicos Universitários, que ocorreria na cidade de Kazan, na Rússia. Lembro-me de questionar sobre a importância de participar dessa competição, pelo simples motivo de nunca ter escutado sobre ela. O meu treinador, que naquela ocasião era o húngaro Ákos Angial afirmou que seria uma experiência muito válida para a equipe.

Os meses se passaram e ao chegar na Rússia eu pude entender do que o Ákos se referia. A fim de resumir essa experiência, posso assegurar que este evento não perde em nada para as Olímpiadas ‘’tradicionais’’. Uma vila olímpica para 10 mil atletas, cerca de 4 mil voluntários, estádios e instalações de primeira qualidade e recém-inauguradas. Esta competição gigantesca estava preparada para receber apenas atletas universitários. Assim, eu pude constatar que existe um movimento mundial do esporte universitário que no Brasil, sequer imaginamos.

Os Jogos Universitários ocorrem a cada quatro anos, porém, a qualidade de modalidades esportivas é menor que a olimpíada convencional. São 25 modalidades fixas, da qual a canoagem não faz parte. Porém, o país sede pode incluir pelo menos mais 3 esportes, e nesta ocasião o nosso foi um desses.

Na prova em que participei ((k2-200m) alcancei a final, terminando na 5° colocação, fazendo dupla com o meu irmão.

SONHO DE MUITOS, PRIVILÉGIO DE POUCOS

19/02/2020 às 11h18

Um ano novo chegou e com ele um ciclo de novos planos que se inicia para todos nós. No mundo esportivo profissional, 2020 se apresenta como um ano decisivo, que poderá marcar para sempre a carreira de muitos atletas.

Após a grande festa no Rio de Janeiro em 2016, novamente chega o momento do maior evento esportivo do planeta acontecer, os Jogos Olímpicos de Verão. Com sede em Tóquio, na capital do Japão, a 32ª edição dos Jogos prevê a participação de cerca de 11 mil atletas, os quais representarão mais de 200 países, em 33 modalidades esportivas, são elas:

Atletismo (100m, 200m, 400m, 800m, 1.500m, 5.000m, 10.000m, maratona, 100m com barreiras feminino, 110m com barreiras masculino, 400m com barreiras, 3000m com obstáculos, 4x100m, 4x400m, 20km de marcha atlética, 50km de marcha atlética masculino, salto em distância, salto triplo, salto em altura, salto com vara, lançamento de peso, lançamento de disco, lançamento de martelo, lançamento de dardo, heptatlo feminino e decatlo masculino), Aquáticos (Natação Artística, Natação, Saltos ornamentais), Badminton, Basquete (Basquetebol, Basquete 3×3), Boxe, Canoagem (Slalom, Velocidade), Ciclismo (Estrada, Pista, BMX, Mountain bike, Freestyle), Esgrima, Escalada, Futebol, Ginástica (Artística, Rítmica, Trampolim), Golfe, Halterofilismo, Handebol, Hipismo, Hóquei sobre a grama, Judô,  Karatê, Lutas (Livre, Greco-romana), Pentatlo moderno, Remo, Rugby Sevens, Skate (Street, Park), Surfe, Taekwondo, Tênis, Tênis de mesa, Tiro, Tiro com arco, Triatlo, Vela, Vôlei (Quadra, Praia). Como modalidades estreantes nas disputas olímpicas, somam-se as acima citadas o Beisebol (Basebol, Softbol), Escalada, Skate, Surf.

É coerente afirmar que qualquer atleta que dedique sua vida a uma dessas modalidades, carrega consigo o sonho de representar seu país numa olímpiada. Se o esforço, a dedicação e o desejo é compartilhado por muitos, a realização desse sonho está reservado a poucos.

Estima-se que menos de 3% da população de competidores de todo o mundo, consegue chegar numa olímpiada. A razão por esta parcela ser tão pequena está no processo de classificação que é estabelecido para que um atleta garanta sua vaga. Os critérios de seleção e o número de cotas em cada modalidade é diferente. Na canoagem, por exemplo, primeiro são realizadas seletivas internas (em cada país) para definir os times nacionais. Depois, os atletas partem em busca das vagas no mundial ou na seletiva continental, que ocorrem no ano que antecede os Jogos.

No mundial, a depender de cada prova, são selecionados do primeiro até o oitavo colocado. Trata-se de um ‘’funil’’ muito apertado, tendo em vista que a quantidade de embarcações por país em uma prova, pode chegar a 50. Não tendo alcançado a vaga nesta oportunidade, resta a repescagem continental, quando uma vaga por prova é distribuída para cada continente. A segunda chance é quase tão inacessível quanto a primeira, sendo que apenas o campeão do continente, em cada distância, garante uma vaga. No meu caso, em 2015 não obtive a vaga no mundial, sendo conquistada junto ao meu companheiro de dupla Edson Silva, com o ouro no Pan, realizado em maio de 2016, nos Estados Unidos.

Com critérios tão apertados, não há dúvidas que os atletas que chegam nos Jogos já estão entre os melhores do mundo. É fato também que grandes competidores acabam ficando de fora.

Não é raro ocorrer casos como do brasileiro César Cielo, que um ciclo após ser medalhista olímpico em Londres, não conseguiu garantir vaga para os Jogos do Rio. Se este sistema é justo ou não, ainda é uma discussão aberta. De qualquer maneira é inegável que a participação numa olímpiada se torna tão especial, justamente pela dificuldade inerente a chegar até lá.

Aos atletas brasileiros que ainda buscam sua vaga para Tóquio, eu desejo toda competência e disposição. E quando lá estiverem, que possam honrar o privilégio de disputar a maior competição esportiva do planeta, representando o nosso país.

JOGO SUJO

31/01/2020 às 09h01

No esporte profissional, especialmente em algumas modalidades, o tempo de um segundo pode ser definitivo e separar o campeão do último colocado em uma disputa. É por isso que qualquer atitude que torne o atleta minimamente mais rápido, forte ou resistente, se apresenta como algo valioso.

Ao longo de tantos anos treinando para competir a nível mundial, eu me via implicado em manter uma rotina perfeita de treinos, alimentação e descanso. Sair para tomar uma ‘’gelada’’ à noite com os amigos era algo que acontecia poucas vezes no ano, por exemplo. Eu acreditava que agindo desta maneira, estaria mais próximo de baixar aqueles milésimos de segundo que outrora me deixaram fora das olimpíadas de Londres, fato ocorrido na classificatória em 2011.

O meu pensamento de levar uma vida regrada estava correto e mesmo quando não alcançava o resultado esperado, pelo menos carregava a certeza de ter feito o esforço possível antes e durante a competição.

Mesmo assim, tinha algo que sempre me deixava curioso. Nas primeiras oportunidades que tive de treinar fora do país comecei a perceber algo estranho. Era nada incomum ter o contato com grandes atletas, medalhistas mundiais e olímpicos. Eu pude aprender muito nesses ambientes, mas o curioso é alguns deles mantinham hábitos de vida não condizentes com o que eu considerava necessário, para chegar ao topo nas competições. Conheci casos, por exemplo, de atletas que eventualmente fumavam e que mesmo assim mantinham-se entre os melhores do mundo. Obviamente que isso estava longe de ser uma regra, mas de qualquer forma, os poucos exemplos que vi de atitudes assim, me parecia algo incompatível.

 

Certa vez, em contato com um treinador húngaro, descobri que alguns desses atletas com ‘’hábitos irregulares’’, faziam uso de substâncias ilícitas para se manterem competitivos. Ressalto que, mais uma vez, não se tratava de uma regra, mas era comum neste meio segundo esta fonte.

Ao avançar mais na conversa e buscando entender como esses atletas não eram pegos nos exames antidopagem, duas hipóteses foram lançadas sobre o tema. Ele explicou que existe, atualmente, uma ‘’competição’’ tecnológica entre o doping e o antidoping. Ou seja, mesmo que os recursos das associações nacionais e internacionais de combate ao doping sejam muito avançados, existe uma indústria implicada em manter as substâncias ‘’à frente’’ dos mecanismos de testagem. Outro fator que corrobora para que os atletas não sejam apanhados nos exames, é que muitos ‘’se dopam’’ fora do período de competições, quando a frequência de testes antidoping é menor. Isso faz com eles se tornem ‘’super potentes’’ nos treinos, conseguindo suportar uma carga por vezes 50% maior do que fariam, caso não estivessem sob o efeito das substâncias.

Estes relatos não passam de mera especulação e fez parte de uma conversa informal que tive. Porém, um fato noticiado no mundo todo em dezembro do ano passado, retomou as discussões sobre outra maneira de burlar o sistema de controle antidoping. Aqui falo sobre a determinação da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), de banir a Rússia de competições oficiais por quatro anos.

 

O motivo desta decisão tem ligação direta com os escândalos de doping envolvendo atletas do país. Isso implica que o país não poderá disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio neste ano, a Copa do Mundo de Futebol em 2022, no Qatar, e ficará fora também das Olímpiadas de inverno em Pequim, no mesmo ano.

Ainda em 2019, no período entre o fechamento e publicação do nosso artigo, a Rússia teve a chance de recorrer para tentar reverter o veredito. Se não conseguir contornar o caso, apenas os atletas que comprovarem não tem ligação com este esquema de doping poderão competir, utilizando uma bandeira neutra (representando o Comitê Olímpico Internacional).

Este fato despertou uma indignação na comunidade esportiva mundial. Certamente que existem muitos atletas que ‘’jogam limpo’’ e representam com grandiosidade a bandeira russa. Mesmo assim, ficou comprovado de que, o uso de substâncias ilícitas para um melhor desempenho esportivo é algo mais comum do que se pensa. Neste caso, se trata de um mecanismo complexo e organizado que alcançava centenas de atletas.

Se por um lado eles eram ‘’beneficiados’’ por conseguirem treinar e competir utilizando tal ‘’ajuda’’, resta outra parcela de atletas que, como brincávamos na seleção, utilizam apenas do ‘’feijão e arroz’’ para se desenvolverem no esporte. Se por um lado existem atletas determinados em fazer o seu melhor jogando limpo, por outro existem os que jogam sujo e no final das contas, já nem sei mais o que é justo nesse meio.

Nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, a dupla favorita ao ouro na prova que disputei – que tinha sido campeã dos Jogos de Londres em 2012 – era da Rússia. Poucos meses antes de começar a nossa Olímpiada, eles foram pegos no doping e, portanto, ficaram de fora da Rio 16. Meu companheiro de dupla e eu já havíamos competido contra eles em mundiais, e por vezes ficávamos distantes poucos milésimos de segundo de alcançá-los. Hoje eu me pergunto se os resultados de tantas competições teriam sido diferentes se todos, de fato, jogassem limpo.

O meu tempo passou e como já afirmei muitas vezes, encerrei a minha carreira me sentido plenamente realizado por tudo que conquistei. Se não conquistei algo a mais por não ter utilizado de métodos ilícitos pra isso, carrego a certeza de que nunca trocaria uma medalha pela minha dignidade.

MUDAR NÃO É DESISTIR

03/01/2020 às 10h00

Uma das perguntas que sem dúvidas eu mais escutei nos últimos dois anos, desde que decidi encerrar minha carreira de atleta profissional foi, por que você desistiu? De todas pessoas que me perguntaram isso, poucas conseguiram se dar conta da intensidade desta pergunta, assim colocada.

Ainda em 2017, quando era recente a minha decisão de deixar a seleção e as competições internacionais, as respostas para este questionamento eram imprecisas, ou até mesmo inseguras da minha parte. Eu ainda estava buscando elaborar respostas para mim mesmo. Afinal de contas, me vi diante de uma mudança abrupta na minha rotina de vida, encerrando um ciclo de quase duas décadas de dedicação ao esporte.

Logicamente que eu tinha motivos claros para tomar esta decisão, como por exemplo a vontade de ficar próximo da minha filha e também, o desejo de me dedicar mais à vida acadêmica. Mas algo ainda me deixava desconfortável quando eu era indagado sobre a decisão de parar. Mesmo apresentando estes motivos, as pessoas não se conformavam com a minha ‘’desistência’’. Era comum me deparar com uma expressão de pena de muitos, mesmo eu afirmando estar bem e feliz.

Ao perceber todo este movimento eu fui me dando conta de um fenômeno muito interessante, que está ligado ao modo como nos relacionamos com a vida profissional nos dias de hoje.

Primeiro eu passei a notar que ninguém nunca se interessou pela minha ‘’mudança de objetivos na vida’’. Ao contrário disso, a utilização da palavra ‘’desistir’’ foi constante nos que buscavam explicação para o meu ato aparentemente transgressor. Em segundo plano e paralelo a isso, o olhar de lástima das pessoas parecia um luto compartilhado comigo, acerca da minha própria morte.

O estranho é que realmente, a cada dia, eu fui tendo certeza de que a participação olímpica deveria ser a minha última apresentação na Seleção. Mesmo estando no auge da minha forma física e mesmo tendo condições seguras de seguir treinando por, pelo menos, mais dois ciclos olímpicos. Mesmo assim, nem a minha certeza e muito menos um sorriso no meu rosto parecia ser suficiente para tranquilizar as pessoas.

O fato de eu não querer mais dedicar o meu tempo e energia a uma atividade que, até aquele momento, me dava ‘’sucesso’’ e visibilidade, parece que ofende uma força social invisível que opera sobre os nossos desejos. Eu me considero privilegiado por ter conseguido trabalhar, desde os 13 anos, com algo que eu amava muito. Não é todo mundo que a sorte de fazer o que gosta e pagar as contas disso. Porém, entendi que a vida é feita de ciclos e que nada se apresenta como estático e permanente para sempre. Que triste seria se as coisas fossem sempre do mesmo jeito.

A grande armadilha disso tudo é que, na vontade de estabilizar tudo ou de encontrar algo que nos dê satisfação eterna, vamos nos tornando inseguros para empreender mudanças na vida. É por isso que para muitos, mudar implica em ‘’desistir’’. Movidos pelo medo de enfrentar novos mares e de encarar o desconhecido, tornamos o ato de arriscar o novo, um grande pecado.

Além disso existe algo que eu chamo de ‘’ditadura do sucesso’’. Funciona assim, se você está realizando uma atividade que traz reconhecimento social, é bom que fique para o resto da vida fazendo isso, pois ‘’aparecer’’ se tornou sinônimo de sucesso e realização. Isso explica muito da necessidade que temos de utilizar as redes sociais para a manutenção da nossa autoimagem.

Não acredito que exista algo de errado com a demasiada visibilidade que algumas pessoas ganham, por conta de suas atividades profissionais. O perigo reside no fato de acreditarmos que isso precisa estar diretamente ligado a felicidade, sucesso e realização pessoal.

A grande lição que eu tenho tirado deste ciclo de mudanças é que a vida se torna bela justamente por seu movimento contínuo. Me vi por anos realizando a mesma atividade e foi incrível enquanto durou, ou melhor, enquanto eu sentia um grande desejo em realizar aquilo.

Por fim, entendo que, se você estiver conectado com o seu desejo, vai perceber que mudar não é desistir. Permitir-se novas aventuras na vida pode ser a chave para realmente se sentir vivo.

A SAÚDE FÍSICA E MENTAL, DEVEM REMAR NO MESMO BARCO.

05/11/2019 às 10h41

Na edição de agosto de Statto eu preparei um artigo especial sobre a Psicologia do Esporte. Para cumprir a promessa deixada naquela ocasião, convido nossos leitores a expandirmos as reflexões neste campo.

No primeiro artigo eu busquei elucidar a ligação que a Psicologia tem, mais estritamente, com o esporte de alto rendimento. Relacionando a minha experiência como atleta e trazendo argumentações de profissionais da Psico, ficou entendido que no que diz respeito ao esporte de competição, ainda existem largos passos a serem dados para que a ciência da mente seja aceita com o devido reconhecimento no meio esportivo.

Até pouco tempo atrás, a minha opinião sobre esta temática ficava restrita a uma visão de quem apenas ‘’consumia’’ a Psicologia enquanto atleta/cliente. Mas como a vida é craque em nos surpreender, hoje percebo que foi justamente por meio da minha vivência no esporte, que descobri o desejo de estudar a mente humana.

A minha nova ‘’jornada olímpica’’ se iniciou este ano na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na graduação em Psicologia Clínica.

Ao elevar o meu corpo ao limite físico quase que diariamente por quinze anos, acabei descobrindo que a mente é muito mais importante do que pensamos. Aliás, percebi que de nada adianta ter um corpo saudável, forte e resistente, se a sua saúde mental está frágil e debilitada. A mente manda no corpo e aceitar isso não desvaloriza toda ciência que se destina na manutenção da nossa saúde orgânica. Pelo contrário, ambas são dependentes e por isso carregam cada qual a sua importância.

Ao ingressar nessa nova jornada, muitas pessoas passaram a me perguntar se eu pretendo me especializar na Psicologia do Esporte. A Psico do Esporte é um campo de estudo relativamente novo, e assim como está configurada hoje, necessita ainda de muita ampliação teórica.

Acredito que a Psicologia tem tudo a ver com o Esporte, simplesmente porque a mente não pode ser dissociada do corpo. Eu tenho poucos recursos teóricos para arriscar-me a ponderar sobre os estudos já desenvolvidos na Psicologia do Esporte. Porém, o que já percebi como sendo uma necessidade, é que haja um processo de humanização neste campo, principalmente no esporte de alto rendimento.

Por experiência própria, pude constatar que a Psico é utilizada por treinadores e clubes esportivos, quase que restritamente para a manutenção de resultados em competições. Não que isso não seja importante, porém, antes de garantir que o atleta consiga lograr a vitória em campo, na quadra ou na água, este atleta precisa ser tratado como um ser humano, que tem uma história de vida, que tem sonhos, desejos e fragilidades. Antes de preparar o atleta para conquistar uma medalha, o profissional da Psicologia deve estar implicado a garantir que esta pessoa se importe com a sua própria saúde mental e assim, coloque-a como prioridade. São incontáveis os casos que pude presenciar, de amigos que saíram frustrados da experiência esportiva de alto rendimento. Para eles, o esporte foi apresentado apenas como a função de ganhar competições. Se os treinadores não estão preocupados em ampliar esse olhar, vejo como obrigação ética dos psicólogos esportivos oferecer este cuidado.

Esta é a Psicologia do Esporte que eu acredito e quero ajudar a construir tanto no âmbito teórico quanto prático.

Para além disso, eu defendo que as atividades físicas precisam fazer parte da nossa vida, antes de mais nada, com o objetivo de nos proporcionar saúde. Dessa forma, entendo que a Psicologia do Esporte deve expandir sua área de atuação e ingressar em outros ambientes, tais como Projetos Sociais e Escolas. Nestes espaços a Psicologia e o Esporte também podem (e devem) unir forças na busca por promover saúde mental e física.

NA BUSCA DE RECONHECIMENTO PROFISSIONAL

22/10/2019 às 15h24

Ser atleta de alto rendimento e viver do esporte no Brasil consiste em desafio considerável. O que muitas pessoas não percebem é que as dificuldades enfrentadas pelos esportistas são indissociáveis de questões culturais que precisam ser superadas. Neste sentido existe algo que sempre me deixou curioso, relacionado ao emprego dos termos ‘’amador’’ e ‘’profissional’’ quando utilizado para classificar a ligação de um atleta, com a sua prática esportiva.

Ao que tudo indica, isso não passa de uma questão simbólica, um problema a ser resolvido nas esferas da linguagem e que não tem relação direta com o desenvolvimento do esporte, mas se engana quem assim pensa.

Durante muitos anos eu me considerei um atleta profissional e tive que conviver com a classificação que a minha prática ‘’recebia’’, sendo eu chamado sempre de ‘’amador’’. Me tornei testemunha do quando que o uso equivocado dos termos pode influenciar a nossa vida esportiva. Ao chamar um atleta de ‘’amador’’, logo se coloca nele todas etiquetas correspondentes ao termo, algo absolutamente injusto com quem se dedica exclusivamente para tal atividade.

Mas afinal, que poder a linguagem pode exercer sobre nós? Vamos refletir: se o gato não se chamasse gato, certamente ele seguiria miando, da mesma forma que mesa é mesa apenas porque nunca chamaram-na de cadeira. O mesmo serve para mim, que segui me comportando como um atleta profissional, ainda que a cultura esportiva do meu país não consiga enxergar seus equívocos na utilização dos termos.

O fato é que podemos negar, há uma potência (um poder) nas palavras. Se elas não determinam diretamente o nosso comportamento, pelos menos podem influenciar o nosso comportamento. Vamos pensar assim, sendo chamado de amador eu segui me comportando como um profissional, ou seja, não fui determinado pelo símbolo. Porém, ao mesmo tempo, posso ser ‘’visto’’ e determinado como amador pela cultura, que por sua vez irá me tratar como amador. Em que isso implica? Dentre outras coisas surge mais uma barreira que os atletas precisam enfrentar, para galgar valorização e investimento em suas carreiras.

Basta pensar o que vem à nossa mente quando escutamos, ‘’aquele atleta ali é amador’’, diferente de ‘’aquele atleta ali é profissional’’. Traduzindo em questões mais práticas, por ser considerado amador eu nunca tive direito à carteira assinada, mesmo recebendo uma remuneração para atuar no esporte. Aliás, eu nunca tive sequer um contracheque e o recurso que eu recebia não era chamado de salário, mas sim, de bolsa. Para além de me deixar vulnerável e sem amparo referente à direitos trabalhistas, eu sentia que isso influenciava diretamente na minha dignidade. Recebendo bolsa e não um salário, eu sempre enfrentei dificuldade inclusive de adquirir crédito e bens no mercado, pois nunca fui reconhecido com um trabalhador de renda comprovada.

Como é possível mudar este quadro?

Primeiro precisamos entender o motivo pelo qual, o único esporte em que os atletas majoritariamente recebem a outorga de ‘’profissionais’’ no Brasil, é no futebol. Isso ocorre, ao que muitos devem imaginar, porque os jogadores de futebol ganham um salário para atuar nos gramados. Tendo salário, podem ser considerados profissionais.

Este argumento cai por terra quando eu afirmo que durante os meus 13 anos na seleção brasileira, fui pago para treinar e competir. É claro que as cifras não se comparam com as do futebol, porém, eu me considerava profissional porque gozava de um salário – que era chamado de bolsa. Mesmo assim a canoagem é considerada uma modalidade amadora e tantas outras cabem neste exemplo. Por que será?

Outro argumento utilizado para profissionalizar os futebolistas ancora-se em questões da legislação brasileira. Neste sentido, é comum afirmar que o futebol é o único esporte em que os atletas podem atuar com carteira de trabalho assinada.

É óbvio que isso só é possível porque existe uma lei que ampara os jogadores. Este ponto é mais difícil de ser contestado, afinal, se outras modalidades não são reconhecidas legalmente como uma profissão, não há o que fazer neste sentido. Podemos pressupor que só seria possível deslocar a estrutura cultural da linguagem a favor de outros esportes, mudando a legislação. Pode ser que sim. Porém, existe uma boa notícia que nos conduz a outras reflexões. Essa lei já existe e o mais curioso, é a mesma do futebol.

O dispositivo legal que ampara o futebol como uma modalidade profissional foi criado em 1998, catalogado como Lei N° 9.615 (a Lei Pelé). A grande sacada e que poucas pessoas – dentro ou fora do mundo esportivo – sabem, é que esta Lei institui normativas que podem abranger qualquer modalidade esportiva. Portanto, ela não dá exclusividade aos clubes de futebol para contratar, assinar a carteira de trabalho e profissionalizar atletas.

Já na sua apresentação fica bem claro que a Lei ‘’institui normas gerais sobre o desporto’’. Logo no 1° art. define-se que ‘’a prática desportiva formal é regulada por normas nacionais e internacionais e pelas regras de prática desportiva de cada modalidade, aceitas pelas respectivas entidades nacionais de administração do desporto’’.

A parte mais interessante para o que estamos aqui refletindo surge no art. 26, do capítulo. 5, que dispõe sobre ‘’a pratica desportiva profissional’’, no qual garante que ‘’atletas e entidades de prática desportiva são livres para organizar a atividade profissional, qualquer que seja sua modalidade, respeitados os termos desta Lei’’, e assim ‘’considera-se competição profissional para os efeitos desta Lei aquela promovida para obter renda e disputada por atletas profissionais cuja remuneração decorra de contrato de trabalho desportivo’’.

Nadadora Luiza Soares durante a disputa circuito de aguas abertas no Pontao do Lago Sul

 

É importante ressaltar que a Lei Pelé já completou 20 anos e é utilizada – para fins de contratação de atletas – quase que apenas pelo futebol. Nestas duas décadas a Lei sofreu alterações, introduzidas nas Leis n° 9.981/2000, n° 10.672/2003, e mais recentemente pelas Leis n° 12.395/2011 e 13.155/2015.

No texto de 2011 existem dois pontos que reforçam os argumentos aqui já expostos. No Art. 28 do capítulo 5 consta que ‘’a atividade do atleta profissional é caracterizada por remuneração pactuada em contrato especial de trabalho desportivo, firmado com entidade de prática desportiva’’, logo abaixo o mesmo artigo esclarece que ‘’ aplicam-se ao atleta profissional as normas gerais da legislação trabalhista e da Seguridade Social’’. Para finalizar, o texto expõe que ‘’o vínculo desportivo do atleta com a entidade de prática desportiva contratante constitui-se com o registro do contrato especial de trabalho desportivo na entidade de administração do desporto, tendo natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício’’.

Com estas cláusulas fica claro que a Lei Pelé abrange qualquer modalidade desportiva. Ainda assim, por que será que a sua utilização para fins de contratação profissional de atletas não é popular no Brasil?

Esta questão pode ter relação com a estrutura dos clubes e entidades que representam outras modalidades. Na canoagem, por exemplo, afirmo com toda certeza que atualmente nenhum clube do país tem condições de contratar um atleta garantindo uma remuneração mínima. Muito menos poderia arcar com gastos contratuais, previdenciários, dentre outros previstos na Lei aqui estudada. Isso sem dúvidas é algo compreensível.

Por outro lado, eu percebo que falta também boa vontade (e preocupação) dos clubes. Dentro da perspectiva que refletimos aqui, acredito que as modalidades consideradas ‘’amadoras’’ podem iniciar um processo de profissionalização dos atletas, mesmo que os recursos sejam incomparáveis aos do futebol. Basta pensarmos pela lógica empresarial. Enquanto uma multinacional contrata milhares de trabalhadores com grandes salários, a padaria do bairro assume vínculo com apenas três funcionários, pagando uma remuneração mínima e condizente com a capacidade desta empresa.

Ou seja, mesmo que os clubes pequenos de modalidades ‘’amadoras’’, tenham ainda pouco recurso, poderiam contratar alguns atletas e dar início a uma mudança cultural.

Entendo que esta seria uma remada importante na profissionalização e, principalmente, na valorização de atletas que hoje já atuam como profissionais, mas que ainda não são reconhecidos com tal, nem pela cultura e nem pelo seu próprio esporte. Vale lembrar, ainda, que as confederações das modalidades ‘’amadoras’’ recebem milhões todos os anos. Será que não seria possível contratar de forma profissional ao menos os atletas que representam as seleções nacionais?

Fica o meu questionamento, também a minha torcida, para que as novas gerações de atletas possam, quem sabe um dia, terem garantidos os seus direitos trabalhistas. Mais do que isso, que possam ter dignidade para praticar o esporte e representar o país.

 

AVENTURAS NA NORUEGA

01/10/2019 às 17h07

Na edição anterior de Statto eu tratei de um tema muito valioso, a Psicologia do Esporte na preparação de atletas de alto rendimento. Deixei a promessa de elaborar outro artigo buscando explorar e mesma temática em outras aplicações dentro do Esporte. O texto rendeu boas e extensas reflexões e por isso precisarei de mais tempo para apresentá-lo aos leitores.

Aproveito esta edição, então, para compartilhar uma história um tanto quanto curiosa, que me ocorreu no extremo norte da Europa. Para ser mais preciso, foi na cidade de Olslo, capital da Noruega, em agosto de 2013. Na passagem por lá, fui responsável por uma cena engraçada e perigosa, da qual eu me orgulho só um pouco.

Para contextualizar brevemente, eu havia viajado ao lindo país escandivano para treinar com a seleção norueguêsa. O pouco que eu sabia sobre eles, é que os norueguêses eram considerados pessoas frias, não muito abertos abrirem para novas amizades. Realmente, nos primeiros dias eu tive dificuldades para me enturmar, mesmo estando alojado na casa de nativos.

Os dias foram se passando e aos poucos eu fui ganhando confiança, me tornando amigo de todos na seleção e me sentindo cada vez mais em casa. Aquela história de pessoas frias foi caindo por terra e os amigos que eu acabara de fazer iriam, inclusive, me livrar de uma situação complicada que estava por vir.

Após um mês de treinamentos em Olslo, viajamos até uma cidade vizinha para participar do campeonato norueguês de canoagem. Bem na verdade, eu viajei apenas para acompanhar o grupo e assistir às provas, já que existia uma regra no estatudo da prova, de que nenhum estrangeiro poderia participar.

 

Quando eu descobri isso, fiquei muito cheteado, pois estava treinando com os melhores do país e queria, justamente, testar o meu rendimeno. Como poucas pessoas (ou nenhuma) costuma viajar até a Noruega para disputar o nacional deles, ninguém havia pensando em atualizar essa regra. Coisa que o próprio treinador da seleção tentou naquela ocasião, alegando que ter atletas de outros países cobalora para dar mais prestigio e nível ao próprio campeonato.

 

Sem sucesso na sua argumentação e na tentavida de me colocar na prova, o treinador e eu fomos votos vencidos. Na verdade, nem chegou a ter votação. Se tivesse, eu estaria liberado para competir, pois estava sendo apoiado pela maioria dos atletas e também por outros treinadores.

Porém, contrarianto o grande exemplo de um país considerado social-democrata, o presidente da confederação norueguêsa não quis fazer uma votação e decidiu por ele mesmo que a regra seguiria igual. Assim me restou apenas sentar comportadamente para assistir às disputas. Na verdade isso era o que eu deveria ter feito, se não fosse por uma ideia contraventora sugerida pelos meus amigos.

 

Chateados com a radical decisão do presidente, eles me deram a ideia de subir pela raia, alinhar pelo lado de fora e participar da prova de 1000m, que seria a primeira do dia. Até o árbitro de largada foi a favor disso, tanto que ele me viu alinhando e apenas piscou num sinal de positivo para que eu largasse.

Sem pensar muito e motivado pela vontade de competir, fiz exatamente como eles sugeriram e quando a largada foi data lá estava eu, na raia zero, disputando as primeiras colocações. A prova terminou e eu cheguei na quarta colocação, muito próximo da medalha de bronze. Isso me colocava entre os quatro melhores canoístas da Noruega, um feito grandioso tendo em vista a tradição que o país nórdico tem em olímpiadas e mundiais.

Eu tinha bons motivos para sair da água comemorando e fiz isso, mas logo me lembrei que teria ainda que prestar contas do meu ato revolucionário de ‘’invadir’’ a competição. Ao sair da água fui surpreendido pelo presidente da confederação que logo tratou de me dar um bom sermão, em norueguêses é claro. Ele sabia falar inglês e tinha conhecimento da minha condição para tal, pois no dia anterior havíamos conversado na língua universal. Mas eu acredito que ele preferiu me xingar em norueguês para ter a certeza de que não iria faltar nenhum verbo ou adjetivo. Foi melhor pra mim, só assim eu não entendia nada do ele falava, porém escutei com toda atenção e respeito.

 

O treinador e os meus amigos riam da situação e aquilo me deu tranquilidade em saber que nada de mais sério poderia acontecer. Por fim, nada de mais sério aconteceu mesmo, tirando o fato de eu ficar proíbido de chegar perto do meu caiaque até o final da competição, por óbvio.

Depois do ocorrido eu fiquei mais três semanas na Noruega treinando e fui surpreendido por um convite. No último final de semana em que eu estaria por lá, iria ocorrer campeonato da escandinávia, que une a Noruega, Dinamarca, Suécia e a Finlância na mesma competição.

Direfente da fatidica prova do nacional, nesta eu poderia participar porém teria que estar vinculado a algum clube da Noruega. Foi então que recebi o convite do clube de Oslo para representar a bandeira norueguesa na competição. Após o desempenho demonstrado no nacional, eles acharam que eu poderia somar forças nessa disputa.

Foi então que viajei com o time para a Suécia, onde ocorreria a prova. Resumo da ópera, acabei conquistando quatro medalhas nas quatro provas que participei, sendo duas de bronze, uma de prata e uma de ouro.

Para além do valor simbólico de conquistar as medalhas, prestar esse serviço à bandeira norueguesa teve outro significado pra mim. Se a minha ousadia de quebrar às regras e participar do nacional me deu créditos para disputar o outro campeonato, ter obtivo sucesso nas águas da Suécia serviu como um pedido de desculpas pelo meu ato ‘’ilegal’’ semanas antes.

Refletindo mais sobre tudo isso, me dei conta de que sempre existirá uma linha tênue entre o que queremos fazer, o que é certo e o que é democrático fazer.

O exemplo do que ocorreu comigo mostra, é claro, a facilidade que nós brasileiros temos para não seguir regras e leis. Eu aprendi muito com a cultura norueguese sobre como construir uma sociedade mais justa e civilizada. Mas este mesmo exemplo me mostrou também que tanta rigidez também não é caminho. Prova disso é a quase unânime alegria dos noruegueses quando puderam, por meio da minha atitude, reinvidicarem por regras mais flexiveis.

Depois dessa viagem, a Noruega se tornou o país que mais amigos eu tenho fora do Brasil. Para além disso, é uma das culturas que mais privilégio eu sinto por ter conhecido.

ENTREVISTA CHAYANE GODOY

16/08/2019 às 14h46

Como prometido, seguimos na entrevista feita com a Psicóloga Chayane Godoy (CRP 08-12575), que é natural de Curitiba no Paraná, onde formou-se pela Universidade Tuiuti.

 

Sua conexão com o esporte nasceu ainda na infância, quando se descobriu apaixonada por Balé, um dos gêneros da dança que mais exigem performance mental e física. Movida por isso que Chayane se pós graduou em Psicologia Esportiva pela Universidade Castelo Branco, no Rio de Janeiro e se tornou membro da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte e especialista pelo Conselho Federal de Psico. Em 2010 criou a Podium, primeira clínica do Paraná voltada ao atendimento psicológico de atletas profissionais e amadores.

 

Atualmente morando em Miami, nos Estados Unidos, Chayane desenvolve um trabalho de performance mental, com atletas do Levantamento de Peso, entre eles o atleta olímpico brasileiro Fernando Reis.

 

Vale registrar aqui, que o meu contato com Chayane aconteceu na preparação para as Olimpíadas do Rio, quanto trabalhamos juntos na Seleção Brasileira de Canoagem. Se até aquele momento a minha experiência com profissionais da Psicologia não tinha sido muito produtiva, minha percepção mudou após o trabalho que realizamos, que foi decisivo nas minhas conquistas durante aquele ciclo.

 

Quanto questionada sobre os desafios que se apresentam no desenvolvimento da Psicologia do Esporte, Chayane reafirma um ponto já visto nesta matéria, que parece ser realmente a maior barreira a ser quebrada. Segundo ela, existe uma grande dificuldade em conscientizar a comunidade esportiva – treinadores, dirigentes, atletas e até mesmo familiares – sobre a importância de sua atuação.

 

‘’É um trabalho meio que diário transformar o entendimento das pessoas e desmistificar os tabus relacionados ao acompanhamento psicológico. Muitas pessoas ainda acham que Psicólogo é só para os loucos’’, salienta.

 

Em paralelo com este ponto, Chayane revela que ainda existe uma cultura em que o Psicólogo é procurado só quando precisa ‘’apagar algum incêndio’’. Neste sentido, ela explica que não existe uma atenção voltada à prevenção de quadros que podem levar ao adoecimento mental e suas consequências. Com isso, surge novamente o desafio de inserir o profissional da Psico na rotina de preparação esportiva.

 

Para além da prevenção, Chayane elabora fatores que, segundo ela, estão ligados aos benefícios que são colhidos por quem insere a Psicologia no esporte.

 

‘’Desenvolver a sincronia perfeita entre o corpo e a mente é o grande desafio do atleta moderno. O atleta que reconhece a importância do preparo psicológico atinge resultados otimizados. A preparação psicológica é um complemento das demais preparações e auxilia no enfrentamento das mais variadas situações, mantendo o equilíbrio emocional necessário para um bom desempenho’.

 

Na sua última colaboração para a nossa entrevista, Chayane aborda um ponto que eu mesmo pude vivenciar durante os meus treinamentos e competições pela Seleção.

Ela explica que muitas vezes as capacidades físicas e técnicas dos atletas são semelhantes, o que pode diferenciá-los é justamente o preparo emocional.

‘’A gente costuma dizer que o sucesso ou fracasso resulta de uma combinação de fatores, se as habilidades psicológicas não estão treinadas adequadamente, o atleta pode ficar refém delas e isso acaba influenciando no resultado’’.

 

Antes de encerrar a nossa reportagem sobre Psicologia do Esporte, é importante dizer que tratamos aqui apenas de uma das vertentes possíveis de atuação desta especialização, a performance de atletas profissionais e amadores.

No entanto, vale ressaltar que existem outras possibilidades de se trabalhar a Psico unida às práticas esportivas como, por exemplo, em Projetos Sociais e Educacionais.

 

Convido os nossos leitores a ficarem ligados na nossa próxima edição de Statto, onde iremos abordar mais deste tema. Até logo!

 

PSICOLOGIA DO ESPORTE

13/08/2019 às 10h16

O surgimento da Psicologia do Esporte é um fato que se aproxima ou até mesmo coincide com a inauguração dos Jogos Olímpicos da era moderna. Em 1898, mesma década em que o barão francês Pierre de Couberin institucionalizou as Olimpíadas enquanto evento esportivo, o norte americano Norman Triplett publicava o que se considera o primeiro artigo científico voltado esta área.

Por meio de experimentos Norman constatou que, ao acompanhar o trabalho de alguns ciclistas, eles apresentavam um desempenho diferente quando pedalavam em grupo comparado a quando estavam praticando sozinhos.Isso pode indicar que a Psicologia do Esporte seja um movimento antigo, porém, a prática mostra que ainda existe alguns desafios para que esta especialização se consolide enquanto uma técnica respeitada.

O fato histórico registrado aqui é um fragmento retirado da edição número 9 da revista Ciência e Profissão, publicada em dezembro do última ano, pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Esta edição foi totalmente dedicada a refletir e investigar sobre a simbiose que une às práticas físicas à ciência da mente. No artigo de apresentação da revista, o presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp), Cristiano Roque Antunes afirma que existe uma demanda muito grande pelo conhecimento psicológico no campo do esporte. Apesar disso ou talvez este seja um dos motivos da grande demanda, o profissional da Psicologia ainda enfrenta resistência para se posicionar e atuar neste meio.

Aproveitando a deixa, eu complemento que não apenas no campo, mas também na água, nas quadras, tatames e assim por diante, a falta de cobertura dos conhecimentos relacionados à mente humana é algo recorrente.

O que o presidente da Abrapesp afirma cientificamente eu pude constatar por meio da minha vivência empírica, enquanto atleta olímpico. Durante os quinze anos em que treinei pela Seleção brasileira, praticamente não tive acesso acompanhamento psicológico.

E quando isso ocorreu, salvo exceções, a (o) profissional que atendia a equipe não apresentava um preparo especializado na área. Que fique claro que esta é uma opinião minha e aqui eu isento os meus colegas de concordar com ela. Porém, me sinto tranquilo em afirmar isso porque eu era um dos poucos da equipe que tinha abertura para receber as Psicólogas (os) quando este atendimento era disponibilizado. A resistência dos meus colegas se estendia também aos treinadores.

Alguns fatores que colaboram para que a Psicologia não seja ‘’autorizada’’ a entrar no esporte, se assemelham aos mesmos que, no geral, construíram um tabu acerca da Psico enquanto ciência necessária à vida cotidiana. Ainda vivemos sob o paradigma de que fazer uma terapia ou análise é coisa de louco. Louco, penso eu, é aquele que não se importa em cuidar da sua saúde mental e principalmente, não entende a importância disso.

Apesar do cenário ainda não ser o ideal, já existem muitos profissionais da Psicologia empenhados em pesquisar e a desenvolver uma atuação direcionada ao esporte.

Em Santa Maria, o mestre em Psicologia, Psicólogo clínico e Orientador Educacional Lucas Motta descobriu no final da graduação sua paixão pela área esportiva. Foi isso que o levou ao desafio de trabalhar com o time de futebol americano da cidade durante dois anos.

Com o time, Lucas conquistou o título de campeão gaúcho da modalidade e não só compartilhou, como também adquiriu muitos conhecimentos nesta área. Um pouco desta experiência você confere na entrevista exclusiva feita com ele. (link)

Mas antes, quero informar os leitores de que o nosso artigo sobre Psicologia do Esporte não termina por aqui. Ou seja, reservei uma entrevista especial com a Psicóloga Chayane Godoy, profissional que tive o privilégio de trabalhar durante a minha preparação para as Olimpíadas do Rio.

Atualmente Chayane mora nos Estados Unidos e desenvolve seu trabalho no Ferrino Sports Fitness Club, de Miami.  Para conferir a entrevista com Chayane e a parte final da nossa matéria, acesse o link:
Entrevista Chayane: https://revistastatto.com.br/bem-estar/esportes/entrevista-chayane-godoy/
Entrevista Lucas:https://revistastatto.com.br/bem-estar/esportes/entrevista-lucas-motta/

ENTREVISTA LUCAS MOTTA

13/08/2019 às 09h33

Agora sim, confira o bate papo com o único Psicólogo Bicampeão gaúcho de Futebol Americano masculino e campeão na categoria Flag com a equipe feminina.

Sttato – Quando e como iniciou  a sua aproximação com a Psicologia Esportiva?

Lucas – Foi em 2017 com o time Santa Maria Soldiers e durou dois anos. Foi uma experiência extremamente positiva, mas cheia de dificuldades, resistência por parte de alguns atletas e também da comissão técnica. Apesar disso, foi de muito aprendizado para todas as partes.

Sttato – Qual a importância de ter um profissional da Psicologia atuando no esporte?

Lucas – Essa presença é muito importante, pois se trata de uma ciência que estuda a mente e o comportamento humano, dentro das atividades físicas e práticas, coletivas e individuais. Sendo assim, baseado em anos de pesquisas e atuações, devemos também salientar que a psicologia do esporte não é uma área clínica. Usar o esporte para fazer este formato de atendimento, na minha opinião, pode aumentar ainda mais o preconceito que os atletas e demais profissionais da área tem sobre a profissão. É inegável que um profissional competente da área trará benefícios para um clube, time ou escola. Os estudos mostram dados muito positivos quando esses profissionais têm liberdade e acesso para executar as mais variadas técnicas do ramo.

 

Sttato – Na sua opinião, quais são os principais desafios que o profissional da Psicologia deve estar preparado para enfrentar no meio esportivo?

 

Lucas – Acredito que uma grande dificuldade que ainda enfrentamos é sobre a importância da mente no âmbito esportivo, na visão dos atores do esporte. A maioria deles não vê sentido em trabalhar e entender as questões mentais, acham cansativo, difícil. As comissões liberam pouco ou quase nada de tempo para as atividades voltadas às questões mentais e do comportamento. Mas isso vem de uma sociedade que ainda não sabe trabalhar as emoções e não formam pessoas para lidarem consigo mesmas. A resistência em que o profissional do esporte enfrentará é muito semelhante a que outros psicólogos sentem em outros cenários de atuação. As pessoas pensam que estaremos ali julgando-as e mostrando suas fraquezas pessoais. No caso do esporte, é como se tivéssemos o poder de tirá-las do time, por exemplo. Essas fantasias falam mais de nossa sociedade do que diretamente sobre um time em específico.

  1. Como você acha que deve ser aplicada a Psicologia nas atividades esportivas?

Lucas – A psicologia do esporte tem muitas facetas e aplicabilidades. Acredito que o mais importante é que o profissional goste do que faz, estude, faça cursos e mantenha uma comunicação com o resto da comissão técnica e ou supervisores do local de atuação. Para além disso, sugiro fazer testes e avaliações estatísticas para pensar nas ferramentas a serem utilizadas que podem variar entre trabalhar com respiração, educar sobre a importância da atividade física, exames de autoconsciência, meditação, biofeedback e boas relações interpessoais entre os colegas, por exemplo.

NOS CAMINHOS DA NATUREZA

17/06/2019 às 11h21

O fato de Santa Maria ser conhecida como a cidade cultura, das universidades e dos quartéis é algo indiscutível.

Mas existe uma característica do nosso município que eu considero ainda pouco explorada não apenas pelos visitantes, mas também pelas pessoas que aqui residem. O que me refiro está ligado à geografia da Boca do Monte, que esconde nas suas formações montanhosas e nas planícies, um enorme potencial para práticas de esportes da natureza.


São centenas de trilhas, cachoeiras e cascatas que possibilitam o desenvolvimento de modalidades como o trekking, canionismo, rappel, escalada, dentre outros. Um belo exemplo de lugar ainda pouco conhecido e que merece destaque por sua particular beleza é o Cânion Piruva.

 

Para aproveitar os últimos dias de calor, no dia 24 de março eu organizei uma expedição neste lugar incrível. Com um grupo de quinze pessoas, entre elas o amigo e guia Luciano Sarturi, encaramos um desafio de oito horas de caminhada para percorrer os doze quilômetros de extensão do Cânion.

 

Localizado a cerca de trinta quilômetros do centro da cidade, o seu acesso principal se dá pelos municípios de Val de Serra e Ivorá, na BR 158. Mesmo não estando dentro do território de Santa Maria, pela proximidade, carinhosamente o consideramos como sendo também nosso.

 

O início da nossa aventura se deu por uma trilha de terra, de nível leve. Mas isso foi apenas o começo, já que a maior parte do trajeto (8km) foi feita por dentro da água. Em alguns trechos é possível caminhar por sobre as pedras, já nos pontos de maior profundidade, só conseguimos prosseguir a nado.

Devido a esse contexto, todos os aventureiros utilizaram colete salva-vidas para transitar nesses pontos, até mesmo aqueles que estavam aptos a nadar. Aliás, aproveito para fazer um alerta muito importante. Se você deseja se aventurar em ambientes naturais, nunca faça isso sozinho, sempre esteja acompanhamento de um guia especializado. Para além disso, respeite as adversidades da natureza, fique atento para os critérios de segurança e conheça os seus próprios limites. A natureza é nossa amiga, se usufruirmos dela com respeito e responsabilidade, a diversão e a segurança sempre estarão garantidas.

Voltando ao Piruva, eu tenho uma coisa a confessar para vocês, são poucos os lugares que visitei pelo mundo, que podem se comparar ao que experimentei neste dia. Para dimensionar um pouco do que estou afirmando, a frase mais dita por mim e pelos meus amigos que fizeram a travessia foi a clássica ‘’nunca imaginei que tivesse algo tão belo por aqui’’. Claro que, nestas palavras, reconheço também algo que infelizmente ainda faz parte da cultura do brasileiro, que é a dificuldade que temos valorizar (e conhecer) as belezas que nos cercam.

Após um domingo inteiro de caminhada, nado, tombos e risadas, o fim da nossa jornada pelo Cânion Piruva foi acompanhado por um agradável pôr do sol. Todos no grupo estavam fisicamente exaustos mas compartilhavam, também, de uma sensação de renovação da mente. Este é o poder que a natureza tem de nos fazer bem, melhorar a nossa saúde e o nosso equilíbrio físico e mental.

E você, o que está esperando para se aventurar por aí?

REMADA NOTURNA

16/04/2019 às 08h46

Você já pensou em estar no meio de uma Lagoa de água tranquila, remando em um caiaque ou numa prancha de Stand Up Paddle e cercado pelas belezas da natureza?

Agora acrescente a este cenário um céu estrelado em uma noite de lua cheia, acompanhado de um agradável clima de verão. Pois é, tudo isso mais se parece com cena de filme francês, mas aconteceu mesmo em Santa Maria, na barragem do DNOS.

Este enredo encantador fez parte de um evento organizado pela Associação Santa-mariense de Esportes Náuticos (Asena), e que tive a alegria de ser um dos idealizadores.

Na Asena, desenvolvemos atividades diversas ligadas aos Esportes Náuticos, mais precisamente modalidades à remo: canoagem velocidade, stand up paddle (SUP) e canoa havaiana.

A ”Remada Noturna”, como batizamos, se tornou um evento especial em nosso calendário, justamente pela peculiaridade envolvida no ato de remar sob a luz do luar.

Em respeito a critérios de segurança, o único pré-requisito para participar é ter praticado, em outra ocasião, alguma das modalidades oferecidas. Pelo mesmo motivo, o uso do colete salva-vidas é obrigatório para todos os participantes.

Para escolhermos o dia, ou melhor, a noite da ”Remada Noturna”, sempre buscamos datas que contemplem a lua cheia, isso facilita a visibilidade dos remadores e claro, torna a experiência ainda mais encantadora.

Nesta última edição, ocorrida em fevereiro, tivemos o privilégio de acompanhar o fenômeno natural conhecido como ”Superlua”, que é quando a Lua Cheia coincide com o momento em que ela se encontra no ponto mais próximo da órbita Terra. Com isso, a sensação é de estarmos realmente mais perto deste astro tão misterioso e encantador.

Ao todo foram 40 remadores participantes. Entre os relatos registrados ficou uma certeza unânime, esta foi uma noite que estará guardada na caixinha dos momentos especiais da memória.

” Foi uma experiência incrível e uma ótima oportunidade de ver o luar em meio a natureza, o que é difícil atualmente para quem reside nas cidades. Acho, também, que é uma excelente oportunidade de vivenciar algo diferente e que nos liga a energia do local e do próprio luar”. (Aline Thomas, Advogada).

” Remar à noite sempre nos traz novas experiências e percepções distintas, mesmo estando no mesmo local. Escutamos melhor o som do remo na água, sentimos melhor os movimentos do caiaque, o ar da noite. A melhor visão que temos é a beleza do luar e silhuetas dos morros”. (Guilherme Rocha, Geógrafo). 

” O esporte por si só nos proporciona momentos de introspecção, porém, remar em uma noite de Lua Cheia é presenciar um espetáculo da natureza e ainda sair com corpo e mente beneficiados. “ (Fernanda Ramos, Fotojornalista).

 

NÃO EXISTEM ADVERSÁRIOS FORA NÓS

26/02/2019 às 11h51

Desde que nascemos o mundo se apresenta para nós como um ambiente extremamente competitivo. Sem que possamos ainda entender a complexidade de coisas que acontecem a nossa volta, somos inseridos na violenta cultura da competição.

Isso começa ainda com os nossos pais, quando conscientes ou não, iniciam uma série de comparações tendo como “objeto” o desenvolvimento dos próprios filhos. Compara-se qual das crianças é mais alta, mais esperta, mais forte, mais rápida ou que aprendeu a falar primeiro, conseguiu caminhar primeiro e por ai vai.

Muitas vezes, sem perceber, os pais estão colaborando para a manutenção de uma sociedade em que a premissa para existir é competir e se comparar com o outro. O grande perigo disso é o caos que estamos vivendo nos tempos atuais. Estamos passando justamente por uma crise fecundada pela cultura do “competir a todo momento”, onde, o nosso único objetivo é nos destacarmos diante dos demais, para que possamos nos sentir bem e felizes.

O que criamos, na verdade, foi uma verdadeira armadilha em que todos nós estamos caindo. A partir do momento em que eu preciso estar em constante competição para ser o melhor, acabo destruindo a possibilidade de ser uma pessoa com mais empatia ou mais aberta a ajudar os demais. A felicidade do outro só irá valer se for em detrimento da minha. O resultado disso é a sensação de que estamos cada vez mais sozinhos num mundo tão cruel e competitivo. O resultado disso é uma sociedade violenta e egoísta.

Foto: Germano Roratto

Outro aspecto negativo deste modelo é fato de que não estamos aprendendo a lidar com os nossos mecanismos internos. Estamos perdidos e sequer nos conhecemos por dentro. Isso ocorre por um motivo muito simples, ao estarmos em constante competição com o outro, passamos a acreditar que temos adversários externos. Ou seja, quando vamos participar de um concurso para uma vaga de emprego, por exemplo, passamos a enxergar a todos como nossos adversários. Isso acontece com muita facilidade no mundo esportivo também. No esporte nos vemos a todo instante rodeados de concorrentes a serem derrotados. Não por acaso que sabemos muitos mais das qualidades e ou fraquezas dos outros do que das nossas próprias.

Quando a nossa mente está programada a agir deste ponto de vista e não lograrmos o primeiro lugar no pódio ou a vaga daquele concurso, nos sentiremos derrotados. E mais do que isso, acreditamos que o “não êxito” se deu porque o outro nos venceu. Assim, o meu objetivo se torna, derrotar o outro para ter sucesso, para me sentir com sucesso.

Tudo isso é uma ilusão sem tamanho. Primeiro porque a vida é muito maior do que um concurso público ou uma competição, seja qual for. Segundo, achar que somos derrotados por não lograr o “ouro” em determinados momentos da vida, é diminuir o valor da própria existência e estar fadado a constantes frustrações. Sempre haverá alguém melhor do que nós em alguma atividade, profissão, esporte, etc.

Quando acreditamos que temos adversários externos a serem derrotados, deixamos de olhar para os adversários que realmente existem. Ou seja, o que nos impediu de chegar mais longe num determinado momento não foram os outros, mas sim, tudo aquilo que está dentro de nós. Foi isso que nos limitou a crescer e a alcançar determinado objetivo. A tão famosa “superação” ocorre, verdadeiramente, quando conseguimos olhar para dentro, e buscar, a cada dia, transcender tudo aquilo que limita o nosso desenvolvimento, seja ele físico, psíquico ou emocional.

Foto: Guilherme Rocha

O que eu quero dizer é que os nossos adversários verdadeiros são os nossos próprios medos, nossa ansiedade, nossa preguiça, nossa falta de disciplina, de empenho e de não ter a capacidade de enfrentarmos tudo isso.

Ao nos darmos conta disso, iremos buscar não mais o primeiro lugar no pódio e não mais derrotar este ou aquele, mas sim, vamos entrar num processo de busca pelo autoconhecimento.

Desta forma, o resultado de uma competição não será mais importante do que saber o quanto conseguimos crescer e aprender sobe nós, a partir daquele desafio que enfrentamos. Aliás, a palavra desafio será utilizada com mais frequência também. Iremos entender que todos estamos ali para nos desafiarmos, cada um na sua competição interna.  Assim, a vitória do outro não será a nossa derrota, mas apenas a vitória do outro. Iremos ter bem claro na nossa mente o que é a nossa vitória, pois apenas nós sabemos quais são os adversários que carregamos aqui dentro do peito – e da mente.

Esta nova visão vai colaborar para construirmos uma sociedade mais empática, mais colaborativa e menos violenta. Não acho que seja preciso acabar com a competição como a conhecemos. Eu mesmo passei quinze anos da minha vida competindo no esporte profissional. Apenas acredito que possamos mudar a forma como nos relacionamos com as competições, buscando a nossa própria superação e nos alegrando com as conquistas dos outros.

Foi assim que eu encerrei a minha carreira no esporte profissional tendo conquistado centenas de amigos e com a sensação de que, independentemente da cor da medalha ou da colocação, sempre pude aprender muito sobre mim e superar meus adversários internos. Enfim, me tornei maior e a única comparação que faço é com o “eu” do passado.

Eu utilizei o esporte como uma ferramenta de autoconhecimento e sigo fazendo isso a todo o momento, em outras áreas. Escrever este texto é um desafio sobre mim mesmo, por exemplo. Não precisa ser melhor ou pior do que o texto de alguém, apenas ser o melhor que eu posso fazer com o que eu sou hoje.

Sugiro que busquem isso. Identifiquem quais são os seus maiores adversários internos e acredite na sua capacidade de superá-los. Ao mesmo tempo, se alegre pelas conquistas das outras pessoas e busque ser uma pessoa justa nos desafios da vida.

 

APROVEITE A SUA JORNADA, MEU AMIGO

17/12/2018 às 17h00

Certo dia eu estava na cidade de Welland, no Canadá, finalizando a preparação para o Pan Americano de Toronto que ocorreria dentro de uma semana. Após uma sessão de academia, o treinador sugeriu que saíssemos para correr na rua e relaxar um pouco a cabeça.

Eu optei por ir sozinho e escolhi um caminho bem arborizado, num daqueles lindos bairros canadenses. Logo na primeira esquina em que dobrei, eu avistei um senhor, que em frente a uma casa descansava sentado na sua cadeira de rodas. Na medida em que me aproximava dele, já intencionava cumprimenta-lo. Mas antes que eu fizesse, fui surpreendido com as suas palavras. Ele disse assim: ”enjoy your track, my friend” (aproveite a sua corrida/caminhada, meu amigo), seguido de um largo sorriso. Em resposta, desejei que ele tivesse um bom dia e continuei correndo.

 

A partir daquele momento eu me vi em profunda reflexão sobre o que havia escutado minutos antes. Um senhor, de aproximadamente 80 anos de idade, sentado em uma cadeira de rodas e notavelmente debilitado, me estende um sorriso e palavras tão gentis. No seu olhar, percebi sua imensa alegria em proferir aquilo.

Parece uma atitude tão simples, mas teve um significado muito importante para mim. O que ele disse, ecoou em meus pensamentos como ”aproveite a sua vida – aproveite a sua jornada, meu amigo”.

Imagino que se ele pudesse ainda desfrutar da sua mobilidade física e jovialidade, assim o faria sem hesitar. E pelo que pude perceber brevemente, a falta de algo que o tempo naturalmente lhe tirou, não o colocou numa situação de vítima. Pelo contrário, ele estava ali para, quem sabe, motivar outras pessoas a viverem.

De fato, mais certezas eu não tenho. Mas uma coisa eu posso garantir, o simples gesto daquele senhor me fez refletir sobre as minhas próprias motivações para viver.

E não precisei pensar muito para perceber o quanto é fácil cairmos nas armadilhas da nossa mente, ao ponto de não valorizamos os privilégios que a vida nos deu. E para mim, o principal desses ”privilégios” é possuir uma boa saúde.

Do Canadá para o Brasil e mais especificamente para Santa Maria, a cidade que eu moro hoje, percebo que pessoas iluminadas como este senhor estão por todas as partes. São pessoas que nos ensinam com atitudes e gestos, muito mais do que com palavras. São pessoas que entendem que o real significado da vida, é viver. São pessoas como o meu amigo Denilson Souza, que eu tive a alegria de conhecer há cerca de sete anos.

Quando ainda era jovem e militar do exército, Denilson se viu furtado da sua liberdade de caminhar, ao sofrer uma queda de um telhado. Mesmo perdendo algo tão precioso, ele teve coragem para colocar a sua felicidade em pé novamente, utilizando, para isso, o esporte.

Denilson conta que na véspera de sua alta hospitalar, o médico nem cogitou a ele a possibilidade de praticar esportes. Foi então que Denilson viajou para Brasília, no Distrito Federal e iniciou um tratamento de reabilitação no hospital Sarah Kubitschek. Sem deixar a cabeça se ocupar com pensamentos negativos, ele decidiu provar a si mesmo que apesar da queda, a sua liberdade ainda estava intacta. No Sara, Denilson passou a praticar basquete sobre cadeira de rodas, seguido de natação e tênis de mesa. Sua motivação foi ver a própria família orgulhosa pelo caminho que ele estava tomando ao deixar de ser ”inválido”, como ele mesmo diz.

Quando indagado sobre o que sentiu ao praticar esporte pela primeira vez após o acidente, Denilson resume em uma só palavra: liberdade!

Com os seus gestos de coragem e determinação, Denilson me inspira todos os dias, tal como o simpático senhor canadense. Ao tentar encontrar algo em comum entre ambos, as primeiras coisas que me vêm em mente é a energia e a vitalidade que ambos carregam no olhar e nas suas atitudes. Para mim, é uma imensa alegria tê-los encontrado no trem da vida, pois eles são passageiros iluminados.

Foto: Liz Lemes

ENTRE O CORPO PERFEITO E A MOTIVAÇÃO CERTA: ESPORTE É SAÚDE!

30/10/2018 às 15h43

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, cerca de 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais são considerados sedentários.

O critério base deste estudo foi embasado na definição de sedentarismo indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade aponta que é necessário praticar ao menos 150 minutos de atividade física aeróbica moderada por semana, para você ser considerada uma pessoa ativa. Para os adolescentes, a recomendação é de 60 minutos de atividade moderada à intensa todos os dias.

Salvo a margem de variação que toda pesquisa carrega, diante destes dados, é seguro afirmar que mais da metade da nossa população é sedentária. Entre os vários fatores apontados, as questões socioeconômicas e culturais do país colaboram para que os brasileiros não desenvolvam o hábito de se exercitarem. Praticar atividade física não é algo cultural em nosso país.

Existem, também, outros aspectos que nos afastam de uma vida fisicamente ativa. O principal deles é o que eu chamo de ”fator motivação”. Nós ainda não aprendemos que esporte é sinônimo de saúde. Esta frase já é tão conhecida que pode ser tranquilamente classificada como clichê. Mas, então, o que estamos esperando para levantar do sofá?

Realmente a nossa vida anda muito corrida e parece que não conseguimos dar conta nem das tarefas essenciais, quem dirá praticar esporte. Trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, viajar, manter a vida social – coisas que parecem prioridade – e são. Mas é aí que mora a grande virada. Precisamos entender que praticar atividade física também deve ser prioridade, simplesmente porque está diretamente ligado à nossa saúde física e mental. Se não tivermos saúde, estaremos abreviando a nossa já curta passagem por este planetinha.

Gosto de uma frase do mestre budista Dalai Lama em que ele diz assim: ”os homens são engraçados, eles perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde”. De fato, é isso que estamos fazendo.

A boa notícia é que dá para ganhar dinheiro e manter a saúde. São pequenas mudanças na nossa rotina que irão fazer toda a diferença. Não importa o que você vai fazer efetivamente, que tipo de atividade física vai escolher praticar, qual a hora do dia ou em que local irá fazer isso. As possibilidades são inúmeras e até mesmo ir para o trabalho caminhando duas vezes por semana, já é um grande exercício físico.

O importante é começar aos poucos, respeitando o seu corpo e os seus limites, até que isso se torne um hábito. Eu sei que a nossa mente não é boba, e sempre que vamos começar algo que demande esforço, ela logo procura um fator de motivação para nos convencer que devemos fazer. O primeiro que nos ocorre é a motivação pela estética, o que não é tão errado assim. O problema é que isso se torna uma autossabotagem tremenda. Primeiro, porque sempre partimos de um ideal de corpo perfeito: com barriga tanquinho, braço forte para os homens e perna torneada para as mulheres, etc.

Que violência estamos fazendo com nós mesmos, gente! Na busca por esse ideal estético, muitos nem começam a praticar atividade física, pois acham que isso é coisa de gente atlética. Outros começam e param quando percebem que não vão atingir o ”corpão” perfeito. É aí que surge aquela frase clássica, ”ah, eu não estava vendo resultado e, por isso, parei”.

O resultado importante você realmente não está vendo, pois não enxerga o seu nível de colesterol baixar e as suas articulações se tornarem mais rígidas e resistentes, por exemplo. Mas há ainda os que persistem e até alcançam o tão sonhado padrão estético, mas acabam se tornando escravos de uma rotina maçante de treinos e a atividade física vira sinônimo de sofrimento.

Precisamos desmistificar o real sentido e praticar esporte. Esporte não é para você ficar com corpão, é para ganhar saúde. Se você buscar inserir as atividades físicas na sua vida por saúde, vai aprender a respeitar e amar o próprio corpo sem comparações injustas. Vai conseguir transformar o esporte em algo prazeroso para a vida toda, não somente para o verão. Afinal, ter uma boa saúde deveria ser viciante.