Revista Statto

Não existem adversários fora nós

26/02/2019 às 11h51

Desde que nascemos o mundo se apresenta para nós como um ambiente extremamente competitivo. Sem que possamos ainda entender a complexidade de coisas que acontecem a nossa volta, somos inseridos na violenta cultura da competição.

Isso começa ainda com os nossos pais, quando conscientes ou não, iniciam uma série de comparações tendo como “objeto” o desenvolvimento dos próprios filhos. Compara-se qual das crianças é mais alta, mais esperta, mais forte, mais rápida ou que aprendeu a falar primeiro, conseguiu caminhar primeiro e por ai vai.

Muitas vezes, sem perceber, os pais estão colaborando para a manutenção de uma sociedade em que a premissa para existir é competir e se comparar com o outro. O grande perigo disso é o caos que estamos vivendo nos tempos atuais. Estamos passando justamente por uma crise fecundada pela cultura do “competir a todo momento”, onde, o nosso único objetivo é nos destacarmos diante dos demais, para que possamos nos sentir bem e felizes.

O que criamos, na verdade, foi uma verdadeira armadilha em que todos nós estamos caindo. A partir do momento em que eu preciso estar em constante competição para ser o melhor, acabo destruindo a possibilidade de ser uma pessoa com mais empatia ou mais aberta a ajudar os demais. A felicidade do outro só irá valer se for em detrimento da minha. O resultado disso é a sensação de que estamos cada vez mais sozinhos num mundo tão cruel e competitivo. O resultado disso é uma sociedade violenta e egoísta.

Foto: Germano Roratto

Outro aspecto negativo deste modelo é fato de que não estamos aprendendo a lidar com os nossos mecanismos internos. Estamos perdidos e sequer nos conhecemos por dentro. Isso ocorre por um motivo muito simples, ao estarmos em constante competição com o outro, passamos a acreditar que temos adversários externos. Ou seja, quando vamos participar de um concurso para uma vaga de emprego, por exemplo, passamos a enxergar a todos como nossos adversários. Isso acontece com muita facilidade no mundo esportivo também. No esporte nos vemos a todo instante rodeados de concorrentes a serem derrotados. Não por acaso que sabemos muitos mais das qualidades e ou fraquezas dos outros do que das nossas próprias.

Quando a nossa mente está programada a agir deste ponto de vista e não lograrmos o primeiro lugar no pódio ou a vaga daquele concurso, nos sentiremos derrotados. E mais do que isso, acreditamos que o “não êxito” se deu porque o outro nos venceu. Assim, o meu objetivo se torna, derrotar o outro para ter sucesso, para me sentir com sucesso.

Tudo isso é uma ilusão sem tamanho. Primeiro porque a vida é muito maior do que um concurso público ou uma competição, seja qual for. Segundo, achar que somos derrotados por não lograr o “ouro” em determinados momentos da vida, é diminuir o valor da própria existência e estar fadado a constantes frustrações. Sempre haverá alguém melhor do que nós em alguma atividade, profissão, esporte, etc.

Quando acreditamos que temos adversários externos a serem derrotados, deixamos de olhar para os adversários que realmente existem. Ou seja, o que nos impediu de chegar mais longe num determinado momento não foram os outros, mas sim, tudo aquilo que está dentro de nós. Foi isso que nos limitou a crescer e a alcançar determinado objetivo. A tão famosa “superação” ocorre, verdadeiramente, quando conseguimos olhar para dentro, e buscar, a cada dia, transcender tudo aquilo que limita o nosso desenvolvimento, seja ele físico, psíquico ou emocional.

Foto: Guilherme Rocha

O que eu quero dizer é que os nossos adversários verdadeiros são os nossos próprios medos, nossa ansiedade, nossa preguiça, nossa falta de disciplina, de empenho e de não ter a capacidade de enfrentarmos tudo isso.

Ao nos darmos conta disso, iremos buscar não mais o primeiro lugar no pódio e não mais derrotar este ou aquele, mas sim, vamos entrar num processo de busca pelo autoconhecimento.

Desta forma, o resultado de uma competição não será mais importante do que saber o quanto conseguimos crescer e aprender sobe nós, a partir daquele desafio que enfrentamos. Aliás, a palavra desafio será utilizada com mais frequência também. Iremos entender que todos estamos ali para nos desafiarmos, cada um na sua competição interna.  Assim, a vitória do outro não será a nossa derrota, mas apenas a vitória do outro. Iremos ter bem claro na nossa mente o que é a nossa vitória, pois apenas nós sabemos quais são os adversários que carregamos aqui dentro do peito – e da mente.

Esta nova visão vai colaborar para construirmos uma sociedade mais empática, mais colaborativa e menos violenta. Não acho que seja preciso acabar com a competição como a conhecemos. Eu mesmo passei quinze anos da minha vida competindo no esporte profissional. Apenas acredito que possamos mudar a forma como nos relacionamos com as competições, buscando a nossa própria superação e nos alegrando com as conquistas dos outros.

Foi assim que eu encerrei a minha carreira no esporte profissional tendo conquistado centenas de amigos e com a sensação de que, independentemente da cor da medalha ou da colocação, sempre pude aprender muito sobre mim e superar meus adversários internos. Enfim, me tornei maior e a única comparação que faço é com o “eu” do passado.

Eu utilizei o esporte como uma ferramenta de autoconhecimento e sigo fazendo isso a todo o momento, em outras áreas. Escrever este texto é um desafio sobre mim mesmo, por exemplo. Não precisa ser melhor ou pior do que o texto de alguém, apenas ser o melhor que eu posso fazer com o que eu sou hoje.

Sugiro que busquem isso. Identifiquem quais são os seus maiores adversários internos e acredite na sua capacidade de superá-los. Ao mesmo tempo, se alegre pelas conquistas das outras pessoas e busque ser uma pessoa justa nos desafios da vida.

 

Aproveite a sua jornada, meu amigo

17/12/2018 às 17h00

Certo dia eu estava na cidade de Welland, no Canadá, finalizando a preparação para o Pan Americano de Toronto que ocorreria dentro de uma semana. Após uma sessão de academia, o treinador sugeriu que saíssemos para correr na rua e relaxar um pouco a cabeça.

Eu optei por ir sozinho e escolhi um caminho bem arborizado, num daqueles lindos bairros canadenses. Logo na primeira esquina em que dobrei, eu avistei um senhor, que em frente a uma casa descansava sentado na sua cadeira de rodas. Na medida em que me aproximava dele, já intencionava cumprimenta-lo. Mas antes que eu fizesse, fui surpreendido com as suas palavras. Ele disse assim: ”enjoy your track, my friend” (aproveite a sua corrida/caminhada, meu amigo), seguido de um largo sorriso. Em resposta, desejei que ele tivesse um bom dia e continuei correndo.

 

A partir daquele momento eu me vi em profunda reflexão sobre o que havia escutado minutos antes. Um senhor, de aproximadamente 80 anos de idade, sentado em uma cadeira de rodas e notavelmente debilitado, me estende um sorriso e palavras tão gentis. No seu olhar, percebi sua imensa alegria em proferir aquilo.

Parece uma atitude tão simples, mas teve um significado muito importante para mim. O que ele disse, ecoou em meus pensamentos como ”aproveite a sua vida – aproveite a sua jornada, meu amigo”.

Imagino que se ele pudesse ainda desfrutar da sua mobilidade física e jovialidade, assim o faria sem hesitar. E pelo que pude perceber brevemente, a falta de algo que o tempo naturalmente lhe tirou, não o colocou numa situação de vítima. Pelo contrário, ele estava ali para, quem sabe, motivar outras pessoas a viverem.

De fato, mais certezas eu não tenho. Mas uma coisa eu posso garantir, o simples gesto daquele senhor me fez refletir sobre as minhas próprias motivações para viver.

E não precisei pensar muito para perceber o quanto é fácil cairmos nas armadilhas da nossa mente, ao ponto de não valorizamos os privilégios que a vida nos deu. E para mim, o principal desses ”privilégios” é possuir uma boa saúde.

Do Canadá para o Brasil e mais especificamente para Santa Maria, a cidade que eu moro hoje, percebo que pessoas iluminadas como este senhor estão por todas as partes. São pessoas que nos ensinam com atitudes e gestos, muito mais do que com palavras. São pessoas que entendem que o real significado da vida, é viver. São pessoas como o meu amigo Denilson Souza, que eu tive a alegria de conhecer há cerca de sete anos.

Quando ainda era jovem e militar do exército, Denilson se viu furtado da sua liberdade de caminhar, ao sofrer uma queda de um telhado. Mesmo perdendo algo tão precioso, ele teve coragem para colocar a sua felicidade em pé novamente, utilizando, para isso, o esporte.

Denilson conta que na véspera de sua alta hospitalar, o médico nem cogitou a ele a possibilidade de praticar esportes. Foi então que Denilson viajou para Brasília, no Distrito Federal e iniciou um tratamento de reabilitação no hospital Sarah Kubitschek. Sem deixar a cabeça se ocupar com pensamentos negativos, ele decidiu provar a si mesmo que apesar da queda, a sua liberdade ainda estava intacta. No Sara, Denilson passou a praticar basquete sobre cadeira de rodas, seguido de natação e tênis de mesa. Sua motivação foi ver a própria família orgulhosa pelo caminho que ele estava tomando ao deixar de ser ”inválido”, como ele mesmo diz.

Quando indagado sobre o que sentiu ao praticar esporte pela primeira vez após o acidente, Denilson resume em uma só palavra: liberdade!

Com os seus gestos de coragem e determinação, Denilson me inspira todos os dias, tal como o simpático senhor canadense. Ao tentar encontrar algo em comum entre ambos, as primeiras coisas que me vêm em mente é a energia e a vitalidade que ambos carregam no olhar e nas suas atitudes. Para mim, é uma imensa alegria tê-los encontrado no trem da vida, pois eles são passageiros iluminados.

Foto: Liz Lemes

Entre o corpo perfeito e a motivação certa: esporte é saúde!

30/10/2018 às 15h43

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, cerca de 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais são considerados sedentários.

O critério base deste estudo foi embasado na definição de sedentarismo indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade aponta que é necessário praticar ao menos 150 minutos de atividade física aeróbica moderada por semana, para você ser considerada uma pessoa ativa. Para os adolescentes, a recomendação é de 60 minutos de atividade moderada à intensa todos os dias.

Salvo a margem de variação que toda pesquisa carrega, diante destes dados, é seguro afirmar que mais da metade da nossa população é sedentária. Entre os vários fatores apontados, as questões socioeconômicas e culturais do país colaboram para que os brasileiros não desenvolvam o hábito de se exercitarem. Praticar atividade física não é algo cultural em nosso país.

Existem, também, outros aspectos que nos afastam de uma vida fisicamente ativa. O principal deles é o que eu chamo de ”fator motivação”. Nós ainda não aprendemos que esporte é sinônimo de saúde. Esta frase já é tão conhecida que pode ser tranquilamente classificada como clichê. Mas, então, o que estamos esperando para levantar do sofá?

Realmente a nossa vida anda muito corrida e parece que não conseguimos dar conta nem das tarefas essenciais, quem dirá praticar esporte. Trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, viajar, manter a vida social – coisas que parecem prioridade – e são. Mas é aí que mora a grande virada. Precisamos entender que praticar atividade física também deve ser prioridade, simplesmente porque está diretamente ligado à nossa saúde física e mental. Se não tivermos saúde, estaremos abreviando a nossa já curta passagem por este planetinha.

Gosto de uma frase do mestre budista Dalai Lama em que ele diz assim: ”os homens são engraçados, eles perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde”. De fato, é isso que estamos fazendo.

A boa notícia é que dá para ganhar dinheiro e manter a saúde. São pequenas mudanças na nossa rotina que irão fazer toda a diferença. Não importa o que você vai fazer efetivamente, que tipo de atividade física vai escolher praticar, qual a hora do dia ou em que local irá fazer isso. As possibilidades são inúmeras e até mesmo ir para o trabalho caminhando duas vezes por semana, já é um grande exercício físico.

O importante é começar aos poucos, respeitando o seu corpo e os seus limites, até que isso se torne um hábito. Eu sei que a nossa mente não é boba, e sempre que vamos começar algo que demande esforço, ela logo procura um fator de motivação para nos convencer que devemos fazer. O primeiro que nos ocorre é a motivação pela estética, o que não é tão errado assim. O problema é que isso se torna uma autossabotagem tremenda. Primeiro, porque sempre partimos de um ideal de corpo perfeito: com barriga tanquinho, braço forte para os homens e perna torneada para as mulheres, etc.

Que violência estamos fazendo com nós mesmos, gente! Na busca por esse ideal estético, muitos nem começam a praticar atividade física, pois acham que isso é coisa de gente atlética. Outros começam e param quando percebem que não vão atingir o ”corpão” perfeito. É aí que surge aquela frase clássica, ”ah, eu não estava vendo resultado e, por isso, parei”.

O resultado importante você realmente não está vendo, pois não enxerga o seu nível de colesterol baixar e as suas articulações se tornarem mais rígidas e resistentes, por exemplo. Mas há ainda os que persistem e até alcançam o tão sonhado padrão estético, mas acabam se tornando escravos de uma rotina maçante de treinos e a atividade física vira sinônimo de sofrimento.

Precisamos desmistificar o real sentido e praticar esporte. Esporte não é para você ficar com corpão, é para ganhar saúde. Se você buscar inserir as atividades físicas na sua vida por saúde, vai aprender a respeitar e amar o próprio corpo sem comparações injustas. Vai conseguir transformar o esporte em algo prazeroso para a vida toda, não somente para o verão. Afinal, ter uma boa saúde deveria ser viciante.