Revista Statto

Dois lados

06/03/2019 às 17h28

Ah, pois é! O momento tão esperado finalmente chegou: a alta temporada. O verão! E com ele, segundo os moradores antigos de todo e qualquer canto da Ilha, todos os transtornos que esse período acarreta nos seus cotidianos. Trânsito, aumento de preços, mas principalmente novos olhares.

A rotina floripana já é intensa como de qualquer outra “cidade grande”, leia-se capital de estado. Ao mesmo tempo, não há como negar o “vuco-vuco” de gente, carros, motos, bicicletas. Diariamente, são postos à prova a paciência, a resiliência, e a generosidade de todos com o tudo. Conforme o horário e o itinerário a ser percorrido, não seriam nem mesmo necessários controladores de velocidade. Lucro dessa situação? A sabedoria para se conhecer o novo a cada metro. Alguns pensam: “ficar ali parado, é perda de tempo…” Não vejo assim: estou inerte quanto ao movimento, não à vivência.

Com relação ao aumento de preços, é sentido “no bolso” desde meados de dezembro. E não apenas em utensílios de verão, mas em itens primordiais como alimentação e moradia, ficando de fora dessa lista os derivados de petróleo, com o litro da gasolina aditivada em torno de R$ 4,00.

Que o lugar é mágico, no sentido intrínseco da palavra, não há dúvidas. E esses novos rostos, o fazem ainda mais especial pela mistura de culturas. A prova está ao se chegar no quiosque do Crepe Francês, em que o cardápio está disponível em seis idiomas, incluindo hebraico. Sim, a Barra da Lagoa recebe, anualmente, milhares de jovens israelenses. Da mesma forma, argentinos, espanhóis, uruguaios, austríacos, suecos, franceses e alemães. Como expectadora ainda iniciante, torna-se encantadora uma tentativa de diálogo e descobertas entre dois ou três “gringos”, como os nativos os chamam. Comprovação do velho ditado: “quem tem boca vai a Roma”. E que eu completo: “quem tem sede de vida vai onde quiser”. Vem!!

Grazy Braga

Por

@grazibraga610Florianópolis/SC

Uma arte que tece vida

18/12/2018 às 02h00

Meio ponto, perna cheia e trança. Almofada, alfinete, risco, linha. Tramoia. Sete pares. Buchada. Maria Morena. 45 pares. Ritmo. Musicalidade. Destreza. Criatividade. Tradição. Cultura. Modo de vida. Renda. Renda de bilro.

Em metro ou em peças únicas e individuais. Esse é o fio da meada que tece o universo de Dona Gercina Maria Florindo. Porém chamada por muitos de Dona Gercida. “Botaram assim, e toca prá frente, viver toda a vida!”. Assim se apresenta a nativa da Barra da Lagoa, com 85 anos, que desde os 4 anos já trocava os “bilrinhos” na mão e que com 7 já percorria o morro da Praia Mole, fazendo aproximadamente 8 Km de caminhada, para chegar à Lagoa da Conceição e vender rendas a metro, golas, jogos de trilho e guardanapos produzidos por ela, sua mãe e sua vó.

Ela conta que quando aprendeu a arte não existia alfinetes. “Eu catava espinho no mato, na folha de Arumbeva. E a linha era a de costura mesmo, um só fio, bem singela”, relata Dona Gercida, que também tecia rede para a pesca de camarão. “As mulheres faziam isso, e os pais e filhos homens faziam os bilros e ficavam embarcados”, esclarece e completa: “enquanto eles estavam no mar, também fazíamos roupa, vestido, calcinha, cueca, calça, lençol, tudo com saco de farinha, e com o cordão que fechava ele, a gente pegava para aprender mais ainda”.

Nesse momento, a senhora de cabelos brancos, cortados por ela mesma no banho, que afirma querer morrer na Barra da Lagoa, extravasa sua humildade: “a gente usava corante de planta e tingia as roupas, porque a domingueira era toda prosa”. Domingueira era a missa rezada na então capela, em frente ao mar. Ela prossegue dando sua lição de vida: “Senti o primeiro gostinho de viver bem quando casei, porque meu marido tinha farinha para o ano todo. Criei meus sete filhos, (tive 11, mas 4 morreram), com o bilro. Mas sempre na dificuldade. Criei todos eles com mingau d’água, pirão de café ou de farinha. E olha aí estão todos aí bem fortes”, destaca, apontando para o rebento mais novo, com cerca de 45 anos. E segue: “carne era só no Natal, que depois de 15 dias o moço vinha em casa cobrar o tanto que pedíamos para aquele dia especial”. Para fins de melhor entendimento, mingau d’água é feito com água morna, farinha e um pouquinho de açúcar.

Numa mistura de orgulho e resiliência, ela ressalta que para a construção de sua primeira casa ela e o marido gastaram 2 mil réis. Gasto esse despendido para a mão de obra. “A casa foi feita de barro, que tiramos do morro; a madeira para os estuques (leia-se estacas) era do mato”, explica Dona Gercina.

Ao ser questionada sobre o porquê de ainda fazer bilro, é enfática: “não vou tirar a vida de ninguém indo para a casa dela.  Então fico aqui fazendo bilro e cuidando da minha vida e das minhas plantas. O bilro sei fazer, e quem vai dar emprego para uma pessoa como eu, né? Daí fico aqui no meu mundo, fazendo a minha vida, e sou feliz e muito agradecida assim”.
A arte do bilro, trazida pelos açorianos, é mais presente entre os nativos como Dona Gercida, e que ainda é passada para gerações mais novas dessas famílias, hoje como hobby, não mais como um fio que tece uma história.

Faço renda, sou rendeira
Faço renda de montão
Faço renda, sou rendeira
Prá manter a tradição.

Grazy Braga

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@grazibraga610Florianópolis/SC

Muito além do “Reto, reto, toda vida”

31/10/2018 às 10h59

Sobre tudo que Florianópolis oferece, proporciona, cada um tem seu conceito. Natureza deslumbrante, que acalma ao mesmo tempo que incita sentimentos. Sim, temos! Culinária peculiar, banhada a frutos do mar e que arrebanha os mais variados paladares. Sim, está aqui! Tradição e arte, como as rendas artesanalmente trançadas e musicadas por senhorinhas na calçada, com o bilro. Sim, estão nas localidades mais nativas!

E um dialeto próprio, termos, palavras, sotaque, e linguagem peculiar. “Ó-lhó-lhó” (surpresa) !!! Sim, em “abastança”(fartura)! Os manezinhos “dazumbanho” nesse quesito.

“Nego”, “nega”, não tô querendo ser “impiliquenta” (impliquenta) ou “achincachar” (rebaixar ou ridicularizar) todos que fazem essa língua ter vida própria. Vocês nem deveriam ter criado o termo “istepô” (não presta), pois não se encaixa à linguagem crua floripana e muito menos a vocês. Vou apenas socializar expressões, pois não quero mais “boca mole”(tanso) como em alguns momentos me sinto: – “Tash” tolo…. “ên-ên-ên”….!

“Moquirido”, não é “bobiça” (bobagem)! Apenas “tô com pensão” (preocupada) e não quero que “pintem o caneco” (aprontem) com vocês. Até mesmo “cadequê” (porque), uma “nisquinha” (pouquinho) de conhecimento não faz mal a ninguém.
Não vou de forma alguma “te rabeitar todo” (enganar).

Mas a língua, com minidicionários e vídeos na Rede Mundial de Computadores, para um melhor entendimento, não é o mais difícil. Tudo piora pela velocidade com que os termos são pronunciados em sequência.
Há segundo relatos, três velocidades de sotaque:

Tapera via túnel (linha de ônibus bem popular aqui), que é aquela com velocidade moderada, controlada pelo radar, mas carregada; velocidade ancião, que só os nativos entendem de primeira, ou seja, a conversa é entre A e B, C não entra; e a última é a do Mister M, de mascarado, e que é falseado pelo “sh” no meio e no final das palavras. Entendeshste? Não tô “às brincas” (brincadeira). Até agora apenas dei uma “abridêra” (aperitivo)! E com muito medo de “rabar” (errar).

Assim, espero que não tenha “atoxado” (encher muito), e nem “bifado” (roubado) seu tempo no “dijaoge” (dia de hoje ou agora há pouco).

Aos nativos, peço desculpa, caso venha a ser mal interpretada. Não estou de jeito nenhum querendo “cosca no lombo” (apanhar). Todas essas observações valem sim para ressaltar a belezura da autenticidade desse lugar. A vocês ainda peço que não deixem que nós, estrangeiros a sua cultura, minemos gírias e acabemos com essa riqueza toda.
Acredito que as linhas acima irão servir para muitos, já que estou “adivinhando chuva” (prevendo) que num tempo perto ou longe, de “zica” (bicicleta) ou não, obedecendo as cores do “sinaleiro” (sinaleira), mesmo pegando “fila” (engarrafamento), vindo “reto, reto, toda vida”, você chegará aqui! E “Ó-lhó-lhó”!!!!!

Grazy Braga

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@grazibraga610Florianópolis/SC

Uma extensão de vários lugares

13/09/2018 às 06h19

Como meta, Florianópolis está na pauta de muitos. Como opção de estilo de vida ainda mais, seja pelas belezas naturais, ou pela oferta das sensações de paz e de prosperidade. Aliada à opção de melhores condições e chances de trabalho, a capital de Santa Catarina torna-se um reduto de seres de todos os lugares.
Nesse sentido, acredita-se que o codinome Ilha da Magia não se limita às lendas de “Bruxas de Franklin Cascaes”, contadas pelos antigos moradores. Ao transitar o cotidiano da Cidade Criativa da Unesco, percebe-se que os nativos, ou estão em seus redutos, ou realmente, já são em menor número. Porém, ainda são eles os responsáveis por deixar a convivência com tudo que Florianópolis oferece ainda mais mágico, seja pelo linguajar, pelo sotaque, pelas trajetórias de vida, seja pelas estórias de pescador.

A economia da capital catarinense é fundamentalmente baseada na tecnologia da informação, no turismo e nos serviços. Tanto que a Newsweek – revista semanal norte-americana – considerou que o município é uma das “dez cidades mais dinâmicas do mundo”, enquanto que o Índice de Cidades Empreendedoras (ICE), elaborado pela filial brasileira da ONG norte-americana Endeavor, elegeu a cidade como o melhor ambiente para o empreendedorismo no país.

Assim, Florianópolis constitui-se como uma segunda casa para muitos gaúchos, paulistas, baianos, mineiros, paranaenses, argentinos, uruguaios, estadunidenses e europeus. Notoriamente, e de certa forma surpreendente, é raro um ambiente de trabalho ou atuação econômica em que não há participação de ex-turistas que ficaram ou de muitos que voltaram. Eles estão dirigindo Uber, lotados em ambientes públicos, a postos no comércio e serviços, ou atuando em inovações rentáveis.
Enfim, os quilômetros de areia e de água azul céu, a imensidão de matas verdes, o sobe e desce de morros, o vai e vem pelas orlas são mais intensos com toda a miscigenação de cultura, valores, cores, crenças e rituais.

Com certeza, bruxa alguma de Cascaes sequer imaginou tamanha magia que a Ilha se tornou.

 

Grazy Braga

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@grazibraga610Florianópolis/SC