Revista Statto

AMOR, SOLIDÃO E VIDA

02/09/2020 às 17h46

Peço desculpas primeiramente ao leitor, pois, pode ser que esteja, de alguma forma, começando a chover no molhado. A verdade é que não será possível falar de amor se não for por meio das relações humanas. Eu sei que também podemos ter amor por animais, por plantas e tantas outras coisas vivas, entretanto, não é necessariamente esta forma de amor que pretendo tratar aqui. A principal questão, já iniciando por colocar o problema na mesa, para que partamos de determinado ponto é: por que muitas pessoas, pelo menos nos últimos anos, têm tido tanta dificuldade para encontrar alguém que possa ser o parceiro “ideal” para a vida? Ou não sei se estou fazendo a pergunta adequada para a época em que estamos vivendo, mas, parece que existe um certo pavor no ar de encontrar a pessoa que certamente fará nosso coração palpitar freneticamente.

Alerto aquele que por eventualidade iniciar esta leitura o faça até o final para que possa entender o motivo de um movimento que talvez você esteja fazendo e levando-o a um desencontro afetivo – espiritual e caso não compreenda porque se encontra sozinho, provavelmente não vai entender todo o resto de sua própria caminhada.

Estar sozinho por longo tempo não pode ser uma condição normal a não ser que seja um desejo propriamente nosso e muito íntimo. Contudo, para aqueles que procuram uma parceria afetiva e duradoura ou quem sabe para a vida toda e se encontram sós no mundo não pode ser considerada uma condição natural de vida. É no mínimo aceitável o valor do necessário por um certo período da vida desfrutar de uma solitude escolhida autonomamente. Apesar disso a solidão teria algum valor próprio se pudéssemos pensá-la como uma condição benéfica ao homem? Esta é uma questão concreta e cada vez mais evidente se pararmos para observar um pouco mais o mundo e como nós vimos lhe conduzindo. A solidão existe, não é uma invenção da cabeça de um cientista qualquer, ela está entre os humanos e sabemos que pode nos maltratar a qualquer momento.

Porém, acredito que ela também pode ser relativa, além de temporária. Eu imagino que muitas pessoas devem estar agora pensando que sou maluco dizendo que tem pessoas que escolhem por ser solitárias a vida toda. Neste caso, posso dizer que isso é, em grande medida, uma opção de vida. Parece estranho pensar, e poucas pessoas irão admitir, mas, tem pessoas que, curiosamente, desfrutam de um prazer único e muito particular sobre a solidão.

O poder de escolher se iremos, ao longo de nossa existência, ter alguém para compartilhar momentos agradáveis, bem como enfrentar dificuldades que fazem parte do crescimento do homem e da mulher ou não, é muito sutil e por muitas vezes nem percebemos o caminho que tomamos. Este artigo não se trata objetivamente e exclusivamente de uma reflexão sobre solidão, mas sim, pensar um pouco e entender porque muitas pessoas sentem um vazio tão grande e apesar de parecer ter tantos “amigos” se encontram consigo mesmas demasiado sozinhas? E qual vem sendo a dificuldade de se encontrar um amor de verdade por esse mundo diverso, porém repleto de possibilidades? Não é minha intenção e acredito que nem possuo autoridade suficiente no assunto a tratar, para propor um caminho, ou uma solução definitiva sobre que direção você deve tomar para eventualmente ser mais feliz a partir de amanhã. Esta não é precisamente a oferta de uma possível receita para a felicidade, mas o que me conduz a esse caminho é convidá-lo a dialogar um pouco comigo sobre um valor tão mágico e se por alguns minutos nós conseguirmos estabelecer uma conexão pode ser que ocorra algum tipo de transformação inesperada, mas proveitosa a nós dois.

O amor não nos parece, em muitas circunstâncias, uma força, um sentimento muito fácil de entender. Até porque ele só produzirá a magia necessária para cumprir seu papel se soubermos lidar com ele de forma leve, audaz e respeitosa ao mesmo tempo. A magia só ocorrerá se tivermos a faculdade de ação apurada e o desejo de vivê-lo verdadeiramente e honestamente.

Para aqueles que desejam, de fato, encontrar alguém e mandar a solidão embora de vez não basta simplesmente dizer ao universo de sua necessidade existencial de compartilhar os seus sentimentos, mas a cima de tudo trata-se de uma disposição de almas. A grande chave para a questão é o que você está disposto a oferecer. As vezes parece existir um egoísmo intenso entre as pessoas, e a imaturidade afetiva conduz a gente a pensar que uma pessoa deve me amar, me respeitar, me aceitar da forma que sou com meus defeitos e manias. Porém, em algum momento tive o cuidado de parar para pensar o que eu vou oferecer num processo mútuo de troca. Faça a pergunta a si mesmo.

O que você propõe ao outro para que uma relação possa se consolidar? Talvez não somente se consolidar, mas frutificar também. De uma maneira ou de outra a união entre duas pessoas poderá trazer, além de certo benefício mútuo, frutos em termos de situações agradáveis e quem sabe uma família. Não, eu não acredito que a instituição família esteja ultrapassada para uma sociedade mais moderna. Entretanto, por mais que possam pensar que isso seja uma ilusão, essa condição vai depender de como cada pessoa vai querer conduzir a sua vida, pessoal e a dois.

Viver a dois não é uma situação em que teremos sempre uma estrada formando um corredor lindo de rosas belas e perfumadas. O conflito faz parte da convivência e das escolhas feitas, assim como de decisões tomadas. Tudo vai depender do como nós conduziremos as nossas relações afetivas e familiares de um modo geral. Neste caso, como em qualquer outro, a felicidade que todos nós buscamos não é um fato e sim uma circunstância completamente dependente de nossas escolhas ao conduzir as nossas relações do cotidiano, e de acontecimentos externos a nós que não temos o seu real controle.

Não é possível prever se seremos felizes amanhã, fatalmente porque a estrutura e as perspectivas para isso nós somos responsáveis por criá-las.

Tenho dito tudo isso até o presente momento, exatamente pelo fato de que desejo profundamente que você possa exercer o seu poder de dialogar consigo mesmo.

Pode parecer estranho e até estúpido propor tal movimento, mas se pararmos para observar por alguns minutos os acontecimentos os quais tivemos êxito e o que não tivemos em nossa vida poderemos perceber, depois de percorrer certo caminho, o quanto nos conhecemos em maior escala comparado ao que éramos no passado.

Para que possamos conhecer a nós mesmos é fundamental que tenhamos um entendimento íntimo com o movimento da vida. Heráclito grande pré-socrático da antiga Grécia estava certo e consciente de seu movimento de pensamento, considerado o mobilista que nos fez olhar para a física com mais atenção.

Certamente, você deve estar se perguntando: o que a física, propriamente, te haver com isso? Se isso te surpreende, devo lhe informar que, praticamente tudo. Como havia mencionado no parágrafo anterior a vida é um movimento no qual, à medida que se passa, nos modificamos de forma mais atualizada. A tendência é que sejamos seres humanos que passam por ciclos de transformação em vários contextos de nossas vidas, entretanto, numa versão melhorada em relação ao que fomos ontem. Pelo menos essa é a ideia.

Vivemos tempos diferentes tolhido de criações novas, objetos modernos e valores atualizados pelas novas gerações. Amar o diferente implica certo estranhamento porque somos uma humanidade construída com base em culturas e naturalmente, isso causa certo espanto em todos aqueles que ao nascer conheceram algo que na medida de seu crescimento adotou como verdade para si. O relativismo cultural nunca foi devidamente explorado, estudado ou refletido na intenção de entendermos um pouco mais das pessoas com quem convivemos e do mundo.

A todo o momento o ser humano, principalmente nesta nova era, é afetado por diversas informações que invadem nossas vidas promovendo mudanças que poderão ser percebidas somente depois de mais idade. A maturidade, a idade são aquisições impostas, inevitavelmente, pelo tempo e pelas circunstâncias que se apresentam a nós.

Aquele que foge, de alguma forma, do processo de maturação natural, deixa de evoluir e desfrutar do que a realidade tem de bom a oferecer: a vida. Não que a realidade não possua um lado ruim, duro de trilhar. Mas quando o ser humano esmorece em sua caminhada pelo que tem de enfrentar, ao mesmo tempo abdica do que pode conquistar.

Talvez o amor seja o movimento mais forte que existe no universo. Cremos em tantas coisas ao longo de nossas vidas que nem sempre temos a capacidade de parar para pensar no que podemos oferecer ao outro. E só nos preocupamos com o sentimento que queremos receber do outro. Não nos damos conta do egoísmo produzido por nós em relação às pessoas com as quais nos relacionamos. É compreensível que de certo modo, esse comportamento se deve a alguma relação em que alguém tenha nos decepcionado.

Esse rancor acaba nos bloqueando e nos impedindo de viver experiências incríveis e quem sabe até universais em nossa existência tão efêmera.

Talvez possamos pensar um pouco mais e quem sabe ter um pouco de paciência para desfrutar melhor do que a vida ainda pode nos oferecer. Procuremos olhar um pouco mais para o outro. Aquele nosso parceiro de afeto. Se não temos, tentemos alimentar mais o que temos de melhor em nós para podermos encontrar a pessoa que se alinha autenticamente e verdadeiramente à nossa existência. E talvez possamos caminhar juntos pela estrada e descobrirmo-nos mais amantes um do outro.