Revista Statto

TIPOS PSICOLÓGICOS

03/07/2020 às 21h17

Em 1921, Carl Jung escreveu a obra Tipos Psicológicos e trouxe para a humanidade termos usados até hoje.

É comum definirmos pessoas como extrovertidas e introvertidas, pois todos nós conhecemos pessoas fechadas, ariscas, difíceis de conhecer (introvertidos) e pessoas abertas, sociais, joviais e que sempre estão se relacionando (extrovertidos).

Conforme Carl Jung (1991), extroversão e introversão mostram tipos gerais de atitudes, e elas se distinguem pela direção de interesse e movimento da libido, ou seja, da energia psíquica.

Em outras palavras, a atitude da consciência será determinada pela direção de interesse em relação ao objeto.

Por objeto, entendemos tudo aquilo que não é o sujeito e que não se liga a pessoa e seu mundo interior, seus desejos e seus medos, incluindo pessoas e estímulos externos.

Os introvertidos são aqueles que hesitam, recuam e enxergam o contato com o objeto com receio e como se fosse algo pesado, massacrante. O mundo externo os desgasta e isso faz com que ajam de forma a atribuir ao objeto um superpoder.

Já os extrovertidos partem rápido e de forma confiante ao encontro do objeto. Aparentemente o objeto tem para ele uma importância enorme, mas no fundo o objeto não tem tanto valor assim e por isso é necessário aumentar a sua importância.

Resumindo, conforme Silveira (1981) na extroversão a libido fui sem embaraços ao encontro do objeto. Na introversão a libido recua diante do objeto, pois este parece ter sempre em si algo de ameaçador que afeta intensamente o indivíduo. Com isso, observamos como a consciência se mostra na prática e como atua de forma diferente nas pessoas.

Não é possível manter as duas atitudes, elas são excludentes. No entanto, é positivo e saudável fazer o uso das duas atitudes.

Jung também definiu as funções psíquicas da consciência: sensação, pensamento, sentimento e intuição. Por função psíquica, entende-se a atividade da psique que apresenta uma consistência interna e que estabelece habilidades, aptidões e tendências no relacionamento do indivíduo com o mundo e consigo mesmo.

Essas quatro funções são classificadas em dois grupos: Irracionais e Racionais.

As irracionais são: Sensação e Intuição. E as racionais: pensamento e sentimento.

A função Sensação privilegia os órgãos dos sentidos; é a função da percepção da realidade. Ela nos diz que algo existe.

Todos nós possuímos essa função, pois todos nós possuímos os 5 sentidos. No entanto, existem pessoas que são guiados de forma mais marcante pela sensação. Essas pessoas são voltadas para o aqui e agora. São práticas e realistas – “Pé no chão”. Mas não utilizam muito a imaginação.

A Intuição percebe as coisas ao redor mediante processos inconscientes e conteúdos subliminares. Pessoas intuitivas, vão além dos fatos, sentimentos e idéias para encontrar a essência da realidade.

Representa o palpite, pressentimento e inspiração. Com ela vemos o todo e não só as partes.

O Pensamento esclarece o que são as coisas. Ela auxilia a julgar, classificar e discriminar uma coisa da outra sem interesse pelo seu valor afetivo.

Pessoas fortemente guiadas pelo pensamento são lógicas, impessoais, intelectuais e objetivos. Lidam melhor com tarefas lógicas e formais. Chamados de reflexivos, são grandes planejadores.

O Sentimento esclarece o valor das coisas. Também há julgamento, mas com outra lógica: a do coração. É importante não confundir sentimento com emoção. Essa função nos dá a noção das experiências subjetivas: prazer, dor, raiva, medo, etc.

Pessoas sentimentais, utilizam seus valores pessoais e os dos outros, para tomarem decisões, mesmo não tendo lógica. Levam em conta o que sentem por alguém ou situação. Tem facilidade no contato social e preocupam-se com a harmonia do ambiente.

As quatro funções proporcionam a pessoa certa totalidade, dando condições ao ser humano de se posicionar no mundo de forma segura. Além de capacitar o ser humano a se orientar de todas as formas.

Todos nós possuímos as quatro funções, contudo elas não são desenvolvidas da mesma forma. Uma, ou duas, delas acabam se desenvolvendo de forma mais plena em detrimento das outras.

A meta do desenvolvimento humano, com o processo de individuação, seria então a integração de todas as funções, ou seja, um processo de reunir o que está dividido. Bem como do desenvolvimento da introversão e extroversão de forma a chegar a uma harmonia entre essas duas atitudes.

Conhecer o seu tipo psicológico, então, é importante, para que se conheça aquilo que não está desenvolvido e que termina por se tornar mal desenvolvido, atrapalhando a vida cotidiana e os relacionamentos.

Bibliografia:

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 7 ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1981.

ETAPAS DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO E OS DESAFIOS

13/04/2020 às 13h58

Carl Jung nos presenteou com conceitos importantes, entre eles o do inconsciente com sua estrutura pessoal e coletiva, assim como sua linguagem simbólica.

Compreender a linguagem do inconsciente não é tarefa fácil, uma das formas de compreender essas mensagens se faz por meio da interpretação dos sonhos.

Von Franz (2002) aponta então:

Observando um grande número de pessoas e estudando seus sonhos (calculava ter interpretado ao menos uns 80.000 sonhos), Jung descobriu não apenas que os sonhos dizem respeito, em grau variado, à vida de quem sonha, mas que também são parte de uma única e grande teia de fatores psicológicos. Descobriu também que, no conjunto, parecem obedecer a uma determinada configuração ou esquema. A este esquema Jung chamou “o processo de individuação”.

Ao estudar os sonhos e observar sua sequência ao longo de alguns anos, perceberemos que alguns temas emergem, desaparecem e depois retornam. Mas mesmo se repetindo, se observarmos atentamente, constataremos que o conteúdo sofre uma mudança, mesmo que pequena e lenta.

Observaremos também, que esse processo de mudança pode se acelerar se houver a colaboração da atitude consciente do sonhador, devido a uma interpretação correta e apropriada do sonho.

Carl Jung então percebeu, ao longo das análises dos sonhos de seus pacientes, que há uma ação reguladora direcional oculta, que gera um processo lento e imperceptível de crescimento psíquico, que denominou de processo de individuação.

Ao observar o quão efetivo é a participação consciente da pessoa nesse processo, nota-se então que, no processo de individuação a participação do ego é de fundamental importância.

A individuação exige a participação do ego consciente, uma vez que o ego auxilia na integração dos produtos do inconsciente com a consciência, formando uma síntese dinâmica, por meio de um símbolo unificador.

Sobre essa importância do ego no processo de individuação, Carl Jung (2008) diz:

Uma consideração importante sobre a consciência é que não pode haver elemento consciente que não tenha o ego como ponto de referência. Assim, o que não se relacionar com o ego não atingirá a consciência. A partir desse dado, podemos definir a consciência como a relação dos fatos psíquicos com o ego”.

A individuação então implica em um relacionamento ego – Self, onde nem um ou outro existem independentemente.

Carl Jung (2003) compara o ser humano e seu crescimento biológico e psíquico a uma árvore. Ela simboliza um desenvolvimento interior, independente da consciência e da vontade consciente. Ela representa a união dos opostos; suas raízes que estão embaixo (água, negrume, animal, serpente, etc.), se unem com o que está em cima (pássaros, luz, cabeça, etc.). A união dos opostos: consciente e inconsciente.

A árvore também representa esse desenvolvimento lento, pujante e involuntário e que cumpre um esquema bem definido.

Nosso crescimento biológico é assim, e também nosso processo de individuação. Ele acontece independente da nossa vontade e visa a união dos opostos.

O estágio inicial, anterior ao nascimento do ego, foi descrito por Neumann (xx), como a uroboros (serpente que engole a própria cauda). Essa imagem descreve o Self primordial, ou seja, o estado de mandala original de onde o ego individual emerge.

Esse é o estágio inicial do desenvolvimento psíquico, onde o ego se encontra ainda no estado urobórico, mergulhado no inconsciente coletivo. Aos poucos o ego vai se diferenciando dessa totalidade e tendendo a uma separação inicial, para posteriormente (re) relacionar com o Self novamente.

Jung (1973) sobre esse processo diz:

Poder-se-ia dizer que todo o mundo, com sua confusão e miséria, está num processo de individuação. No entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo“.

Mas o que significa processo de individuação? Carl Jung (1991), diz que:

A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual”.

Cada estágio então, do processo de individuação, é marcado por dificuldades. Essa não é uma tarefa fácil, nem agradável.

Cada um de nós tem uma forma peculiar e única de se desenvolver. Esse foi um ponto de crítica a Jung, pois a individuação não apresenta material sistematizado, nem um script a ser seguido. No entanto, é aí que reside a beleza do processo de individuação.

Então, na infância nos encontramos no estado urobórico citado acima.

Ao chegar à idade escolar a criança começa a fase de estruturação do seu ego e de adaptação ao mundo exterior. Esta fase em geral traz um bom número de choques e embates dolorosos. Ao mesmo tempo, algumas crianças nesta época começam a sentir-se muito diferentes das outras, e este sentimento de singularidade acarreta uma certa tristeza, que faz parte da solidão de muitos jovens (Von Franz, xx).

Von Franz (2002) diz ainda:

O verdadeiro processo de individuação — isto é, a harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior (o núcleo psíquico) ou self — em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada do consequente sofrimento. Este choque inicial é uma espécie de ”apelo”, apesar de nem sempre ser reconhecido como tal. Ao contrário, o ego sente-se tolhido nas suas vontades ou desejos e geralmente projeta esta frustração sobre qualquer objeto exterior. Isto é, o ego passa a acusar Deus, ou a situação econômica, ou o chefe, ou o cônjuge como responsáveis por esta frustração”.

Por essa razão, a dificuldade inicial no processo de individuação – que se trata de um empreendimento individual – pode levar a uma rejeição ou indiferença dos outros. Além de gerar um sentimento de impotência diante da força do inconsciente.

Esse estágio inicial do processo de individuação, vemos nos contos de fada representado simbolicamente pelo rei que ficou doente ou envelheceu e precisa ser substituído. Há ainda o casal real estéril; ou o monstro que rouba mulheres, crianças, cavalos e tesouros de um reino; ou o demônio que impede o exército ou a armada de algum rei de seguir sua rota; ou a escuridão que cobre todas as terras, e ainda histórias sobre secas, inundações, geadas etc.

Algo não está em harmonia na consciência, algo se desgastou e precisa de renovação. O ego já não tem forca para seguir sozinho.

Nesse momento inicial começamos a nos despir das personas. Corremos sério riso de nos identificar com a persona, ou seja, de passar uma imagem de perfeição e pureza. O ego costuma se identificar como a persona idealizada, quando somos jovens. Nos imaginamos mais fortes, mais inteligentes do que realmente somos.

Para a retirada dessa identificação necessitamos de outra instância psíquica, que é a sombra.

A sombra é nosso material psíquico inconsciente. Nela pode estar aquilo que consideramos errado em nós, mas também nossas potencialidades ainda não reconhecidas, como a nossa função inferior.

No processo de individuação todos nós precisamos olhar para nossos aspectos sombrios. Esses aspectos negativos em nós acabamos por projetar em outras pessoas.

O problema que podemos enfrentar nessa fase do processo de individuação é em parte enxergar e admitir a existência da sombra, o que já causa um sério incomodo em nossa identificação com a persona. Mas o grande problema ético surge quando se decide expressar a sombra conscientemente. Isso requer grande cuidado e reflexão, para que não se produza uma reação perturbadora (Von Franz, 1984). É nesse ponto do processo que nos perguntamos como podemos encaixar a sombra em nossa vida, sem nos identificarmos com ela e nos tornarmos destrutivos para nós mesmos e para os outros.

Também temos nesse processo o confronto com anima e animus e os problemas de relacionamentos. Podemos nesse processo sucumbir a eles.

Nos homens, a anima pode acarretar súbitas mudanças de humor e instabilidade emocional. Nas mulheres, o animus pode se manifestar em forma de opiniões rígidas e irracionais, prepotência e arrogância. Mas os conteúdos de anima e animus são o complemento de nossa percepção consciente de nós mesmos como masculinos e femininos, algo que é fortemente influenciado por valores culturais e papéis definidos pela sociedade. A dificuldade está em assimilar esses conteúdos sem sucumbir a eles em seu lado negativo.

Esse material todo: sombra, anima, animus, persona, são materiais coletivos, são arquétipos. Quando somos expostos a esses materiais do inconsciente, corremos alguns riscos, entre eles: a inflação do ego, onde o indivíduo reivindica para si as virtudes do inconsciente coletivo; ou a impotência do ego, a pessoa se sente sem controle e sucumbe a aspectos irracionais do inconsciente coletivo e impulsos negativos.

No processo de individuação também há o encontro com o Self, que Jung denomina como centro organizador da totalidade psíquica.

Nos contos de fadas o Self aparece como Velho Sábio e Velha Sábia, e assim também pode aparecer nos sonhos. Nos mitos são os deuses.

O perigo aqui é o da identificação com o Self, pois o indivíduo se torna aquele que sabe tudo, um verdadeiro guru, aquele que traz a verdade única. Essas pessoas tendem a acreditar que se tornaram divinos, santos e perfeitos, e assim perdem contato com sua humanidade, tendo neles também um lado bastante diabólico.

Ninguém é plenamente sábio, infalível. Mas essa identificação é um estágio quase que inevitável no processo de individuação. Para combater isso devemos sempre nos lembrar de nossa humanidade e permanecermos assentados na realidade.

Nos mitos essa identificação é denominada húbris, e é punida pelos deuses. Édipo, Orestes, Paris, Cassandra, Aracne, Prometeu, Tirésias, Heitor, Narciso, são exemplos na mitologia de punição pela húbris.

Devemos então nos lembrar de que a individuação não visa a perfeição, mas a totalidade. A realização do Self na vida humana e não a identificação com ele.

A alma humana são se conhece apenas no consultório, mas nas experiências de vida e, por isso, se faz necessário o outro nesse processo.

As exigências do Self vão nos mostrar nosso papel na sociedade, a nossa vocação, onde podemos exercer nossa individualidade para o bem-estar pessoal e da sociedade.

A IMPORTÂNCIA DOS CONTOS DE FADA

31/03/2020 às 18h36

Durante toda a história da humanidade, o homem, mesmo não tendo consciência disso, procurou manter um relacionamento com o inconsciente coletivo e seus arquétipos.

Entre os povos antigos isso se dava por meio da interpretação dos sonhos e das estórias contadas ao redor de fogueiras.

Os contos de fada, assim como os mitos, as lendas e as fabulas, falam a linguagem da alma. São similares aos nossos sonhos e as nossas fantasias.

Observe qualquer menina quando tem o contato com os contos pela primeira vez. Elas se encantam com as princesas, com as fadas, com as rainhas. Elas vivem aquilo em suas brincadeiras, em sua fantasia.

Marie Louise Von Franz, uma das maiores expoentes no estudo dos contos de fada, diz que os contos são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo, pois eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa (Von Franz, 2005).

Quando nos tornamos adultos perdemos esse contato, dando primazia à consciência, e parte desse mundo arquetípico vai para o inconsciente.

Mas retomar a leitura e a compreensão dos contos, pode se tornar um refrigério para a alma. Neles podemos resgatar impulsos, sonhos e instintos perdidos.

Em sua obra A interpretação dos contos de fada, ela distingue os contos dos mitos.

Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, consequentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique”.

Portanto, os contos estão em uma camada mais profunda da psique coletiva.

Ainda na mesma obra Von Franz (2005) diz:

Para mim os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada. Aqui novamente chegamos à mesma conclusão: os contos de fada espelham a estrutura mais simples, mas também a mais básica — o esqueleto — da psique”.

Mas as diferenças são ainda mais visíveis, pois nos contos o herói ou a heroína não agem em nome, ou sob a ação de algum Deus. Aliás, seu mundo não é governado por essas forças, mostrando que os contos estão destituídos do aspecto cultural.

Além disso, nos mitos o herói geralmente é punido por haver desrespeitado alguma lei divina, já nos contos não há essa espécie de moralidade. O herói é impelido à ação por outros motivos, que podem ser até inusitados.

Entretanto Eliade (1972) aponta nem sempre é verdade que o conto indica uma “dessacralização” do mundo mítico, mas está mais para uma camuflagem dos motivos e dos personagens míticos; mostrando que houve uma “degradação do sagrado”.

Os deuses podem ser discernidos nas imagens dos protetores, adversários e companheiros dos heróis. Mesmo camuflados continuam cumprindo sua função.

Os contos apesar de terem se tornado entretenimento para crianças atualmente apresentam um conteúdo que se refere a uma realidade séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da ignorância e da imaturidade infantil para a idade espiritual do adulto.

Neles encontramos temas como: provas iniciatórias, descida ao inferno e ascensão ao céu, morte e ressurreição, casamento com a princesa ou príncipe.

No trabalho psicoterápico, as imagens dos contos servem para ilustrar situações de vida, nas quais as pessoas passam. Muitos se identificam com determinada situação ou personagem levando a uma compreensão do que deve ser feito no momento.

Os contos possuem a mesma função dos sonhos. Eles podem confirmar, criticar, compensar e até mesmo curar uma atitude consciente, desde que o indivíduo se abra àquele ensinamento.

Nessas narrativas podemos observar que o inconsciente quer compartilhar conosco uma experiência original, ou seja, uma experiência arquetípica.

Segundo, Von Franz (2005), eles descrevem apenas um fator psíquico desconhecido chamado Self. Mas como ele é extremamente complexo são necessários milhares de versões para que esse fato se manifeste na consciência e mesmo assim, quando se manifesta ainda não se esgota.

Como o conteúdo dos contos trata de um material tão afastado da nossa consciência, tão primevo, tão comum a humanidade que sua linguagem é muito diferente da qual a consciência está habituada. O que deixa sua interpretação mais difícil.

Por isso, o conto de fada, e seus personagens, sempre mostram um pouco de com cada um de nós, mesmo que não queiramos reconhecer as bruxas, ogros, madrastas e vilões dentro de nós, eles estão ali, nos mostrando nossas sombras, medos e conflitos internos.

Essas estórias, portanto, trazem o mundo dos arquétipos para o nosso dia a dia, trazendo sentido à vida! Mostram-nos como viver o nosso destino, que passamos por momentos felizes, de conflitos, de perdas, mas que se nos abrirmos ao aprendizado desses momentos iremos encontrar o tesouro interno. Aquele que irá enriquecer as nossas vidas e nos encher de significado.

Cada conto de fadas com sua linguagem simbólica possibilita que a psique se manifeste. Fornecendo às energias instintivas uma direção simbólica e um conteúdo cheio de sentido. Sua leitura reaviva conteúdos inconscientes, possibilitando sua integração na consciência, e assim apontando o caminho para a resolução de conflitos.

Infelizmente hoje nossa sociedade está mais focada nas notícias do dia e nos problemas do momento, e nos esquecemos da literatura do espírito. Aquela que fala direto à alma. Perdemos com isso, algo de nossa infância que é a capacidade de nos encantar, de nos surpreender.

Se hoje os contos representam um divertimento ou uma evasão, é apenas para a consciência banalizada do homem moderno; pois na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem e a produzir mutações.

Portanto, os contos, assim como os mitos, oferecem um modelo para a vida, um modelo vivificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida. Por essa razão, conhecer os contos nos ajuda compreender as nossas razões de viver e isso muda toda a nossa disposição de vida, podendo muitas vezes mudar nossa própria condição psicológica (Von Franz, 2005).

Quando a pessoa se identifica com um conto passa a perceber que seu problema não é único e já foi resolvido de diversas formas ao longo da história da humanidade. Isso diminui a pretensão do ego, torna o indivíduo mais humilde e aberto as repostas do inconsciente e mesmo que o conto tenha muitos séculos de existência ele terá um efeito estimulante e novo na psique levando o indivíduo a uma compreensão e entendimento de seu conflito.

A DIFERENÇA ENTRE MITOS E CONTOS DE FADAS

17/03/2020 às 23h11

Na Psicologia Analítica o estudo dos mitos e dos contos de fadas possui uma importância capital no entendimento dos processos psíquicos que se desenvolvem no inconsciente coletivo.

Ambos apresentam uma realidade sobrenatural, fabulosa e mágica. Contudo, existem diferenças importantes entre eles.

Os mitos mostram como as coisas passaram a existir. Falam do gesto criador.

As forças da natureza – como a noite, a chuva, o sol – eram caracterizadas por um deus ou deusa, que teve sua criação descrita na Mitologia. O mesmo ocorre com coisas mais abstratas como o amor, a guerra, etc.

O mito trata então de uma ação criadora e de como o homem se relaciona com a criação, sendo ele mesmo também uma criação divina. No mito sobre a morte, por exemplo, vemos como nos tornamos mortais.

Eles, portanto, explicam a existência de algo no mundo, explicando fatos que eram desconhecidos da ciência.

Os contos de fadas mostram uma situação em que já há uma condição pré-existente. Neles há um problema que é coletivo, mas que não modifica – apenas afeta- a condição humana no mundo.

Os problemas narrados nos contos de fadas espelham ritos de iniciação e formas de como resolver os conflitos e os problemas. Tudo já existe e não há gesto criador.

Nos contos há um herói ou heroína que vive uma série de conflitos, onde seres mágicos o auxiliam ou o atrapalham.

No entanto, os mitos são frequentemente misturados aos contos ou, então, aquilo que se reveste do prestígio de mito em uma tribo será apenas um simples conto na tribo vizinha (Eliade, 1972).

Além disso, os grandes mitos decaem com a civilização a que pertencem, mas os temas básicos podem sobreviver como temas de contos de fada, migrando ou então permanecendo no mesmo país (Von Franz, 2005)

Para Von Franz (2005), os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada.

Isso ocorre, pois, dentro da Mitologia temos as narrativas heroicas, que espelham os ritos de passagem e de amadurecimento, assim como os contos de fadas.

As civilizações antigas possuíam seus ritos iniciatórios que tinham como base essas narrativas heroicas.

Por isso, pode-se supor que os mitos possuíam essas duas funções: a de explicar o surgimento de algo no mundo e mostrar ritos de iniciação.

O mito de Eros e Psique é uma prova dessa imagem de rito de passagem, assim como os 12 Trabalhos de Hércules.

O conto seria então uma espécie de “camuflagem” dos motivos e personagens míticos, sem deixar de perder suas características e sem ser menos importante.

Conforme Eliade (1972), se os Deuses não mais intervêm sob seus próprios nomes nos mitos, seus perfis ainda podem ser discernidos nas figuras dos protetores, dos adversários e companheiros do herói. Eles estão camuflados, mas continuam a cumprir sua função.

Outra informação importante é a diferença entre contos, lendas e fábulas.

As fábulas também possuem um aspecto mágico. Geralmente os protagonistas são animais, mas seu um caráter é didático e moralizante. A natureza – na forma de animais – possui características humanas, simbolizando comportamentos morais bons ou ruins.

Já as lendas tratam de uma história também fantástica, mas seu argumento é retirado da tradição do local. Os relatos das lendas misturam fantasia com realidade. Relatam de forma maravilhosa um acontecimento que suscitou estranhamento, surpresa ou até mesmo medo em uma determinada comunidade. Ou seja, um episódio real gerou um acontecimento imaginário.

Para concluir o assunto, vemos nesse vasto material maravilhoso e fantasioso dos mitos, contos de fadas, lendas e fábulas, que a despeito das diferenças entre eles, eles continuam nos encantando, assombrando, trabalhando nossos medos, nos trazendo lições morais e éticas e nos auxiliando em nossas jornadas iniciatórias.

Que nós nunca percamos nossa capacidade de nos encantar e que permaneçamos abertos ao imaginário e ao mítico, para compreendermos que nossas vidas diárias não são insignificantes e que existe um mundo além desse material.

A NEUROSE E O IMAGINÁRIO

03/03/2020 às 16h29

Estava lendo Mitos de Criação da Marie Louise Von Franz quando me deparo com um trecho que chamou a atenção. Algo já comentado por Carl Jung sobre a neurose e o processo psicoterapêutico.

Von Franz observa que nos mitos, quando um mundo novo vai ser criado, é sempre necessário um sacrifício. Alguém morre, ou um deus, ou gigante, ou uma criatura humanoide.

A vítima, nesse caso, sempre está ligada a uma condição anterior que deve morrer para que um novo mundo, ou uma nova condição consciente, se apresente.

Von Franz ainda salienta que cada passo adiante, visando à construção de mais consciência destrói o equilíbrio vivo em vigor até agora.

E é aí que entra uma questão muito delicada: o quão difícil e doloroso é para o ego se separar de uma situação neurótica.

Pois de certa forma a neurose gera uma espécie de equilíbrio, uma zona de conforto. O ego se apega a essa situação, pois em sua fantasia, ele enxerga o seu fim.

E o ego tem medo do novo, tem medo de perder o controle e não ser mais o centro.

Por essa razão há sempre certa resistência em se libertar da neurose. Ela ao mesmo tempo em que traz a cura traz um equilíbrio por compensação. Mas esse equilíbrio precisa ser rompido!

Esse é um momento delicado e crucial na psicoterapia. E até que ponto o psicoterapeuta tem a sensibilidade de perceber isso, que a pessoa não se “desgruda” de sua neurose?

É muito comum o analista cair na tentação de encaixar todos os sintomas em termos: “Resistência”, “Complexo de Édipo”, “Dominação pela anima”.

Nomear a neurose pode ser um grande perigo, porque ela ganha um significado tremendo. Não que o analista não deva conhecer a teoria, mas é como Jung mesmo disse devemos conhecer todas as teorias, dominar todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.

Pois a neurose pode ser apenas uma fantasia da neurose, um medo de se desconectar com o passado e com o que é conhecido. Devemos perder o medo de seguir em frente e deixar o fluxo da vida seguir.

Muitos analistas não conseguem ajudar seus clientes nessa tarefa de desapego, pois eles mesmos estão apegados as suas neuroses.

Mas é importante nos atentar que nenhuma vida nova pode surgir sem que ocorra um declínio e o sacrifício da que havia anteriormente.