Revista Statto

PERVERSÕES SEXUAIS – UM ENFOQUE PSICANALÍTICO

23/11/2020 às 10h59

A etimologia da palavra PERVERSÃO vem de “PER” = por e “VERTERE” = desviar, ou seja, é a atitude de modificar a ordem ou organização natural das coisas à sua volta. As perversões sexuais são, atualmente, chamadas de PARAFILIAS, ou seja, ações fora da rotina considerada normal de um ato sexual genital entre pênis e vagina.

Os impulsos sexuais humanos têm uma analogia com os impulsos de sobrevivência, onde o corpo humano sente fome para poder buscar seu alimento e sobreviver e sente libido para satisfazer o prazer sexual; ambas fortes pulsões à satisfação do ser humano.

A Psicanálise ensina como a gênese das várias organizações libidinais está na mais profunda relação com as fases iniciais da vida humana. No campo da sexualidade, a libido pode requerer diversas formas para atingir seu objetivo de satisfação, isso em função da maneira como o bebê, na fase inicial de vida, bem como a criança nos primeiros anos de contatos sociais, percebeu, emocionalmente falando, a relação de prazer com os pais, principalmente em relação à mãe. Isso explica porque quase todos os casos de pervertidos sexuais são homens, visto que a relação simbiótica com a mãe é maior com bebês do sexo masculino do que aqueles de sexo feminino.

Praticamente todas as parafilias são explicadas por uma perturbação psíquica com origem na infância, onde os Complexos Universais do ser humano como o “Édipo” e a “Castração”, não foram completamente resolvidos de forma satisfatória gerando um distúrbio inconsciente que se manifestará de várias formas na vida sexual adulta.

Com isso podemos afirmar, categoricamente, que todas as perversões sexuais são uma doença psíquica, curável ou não, mas passível de tratamento.

É fundamental salientar que uma perversão não significa, necessariamente, que se trate de um crime, visto que algumas perversões são socialmente aceitas entre parceiros, como é o caso dos fetiches; outras são execradas socialmente e criminalizadas como a pedofilia. Além disso, para atitudes sexuais não convencionais se tornarem perversão, é necessário que o indivíduo somente atinja prazer sexual se fizer uso dessa perversão, onde o prazer está associado a um objeto ou ação na mente do indivíduo.

Principais tipos de perversões:

Voyeurismo: É a observação de pessoas que não suspeitam estarem sendo observadas, no ato sexual ou simplesmente quando estão se despindo ou estão nuas. Essa perversão está associada aos momentos da infância onde o bebê observava o corpo da mãe.

Exibicionismo: É o ato de exibir os órgãos sexuais a estranhos, normalmente em locais públicos, para obter excitação e prazer na reação de susto da outra pessoa. Essa perversão é um ato de oposição a um inconsciente Complexo de Castração presente na mente doentia do perverso.

Fetichismo: É a necessidade ou preferência por uso de objetos juntamente com o ato sexual, tais como roupas íntimas, sapatos, vestimentas de todo o tipo, etc.., caso contrário, o indivíduo não consegue manter a excitação ou ato sexual. A gênese dessa perversão é bastante variável, podendo ir de um simples objeto de prazer na infância até observar os órgãos sexuais dos pais.

Frotteurismo: É o ato de esfregar ou masturbar o órgão sexual em outra pessoa vestida, geralmente estranha e sem seu consentimento, visando obter prazer, normalmente, em locais públicos de grandes concentrações de pessoas como ônibus, metrô, filas de shows, etc. Também se trata de uma compensação a um Complexo de Castração.

Masoquismo: É a necessidade de sofrimento físico ou psicológico para que um indivíduo obtenha prazer sexual.

Sadismo: É a necessidade em impor sofrimento físico ou psicológico a outra pessoa para obter prazer sexual.

Tanto o Masoquismo como o Sadismo estão associados a complexos de culpa e castração.

Pedofilia: É a necessidade de ter relações sexuais ou acariciar os órgãos sexuais, se masturbar ou mesmo praticar sexo oral com crianças menores de 15 anos, para obter prazer. A gênese da Pedofilia está na imaturidade sexual do indivíduo e no seu Complexo de Castração, onde poderá se sentir com poder sobre sua vítima.

É importante salientar que uma perversão sexual somente é considerada doença se ela for a única forma de prazer sexual do indivíduo, não obtendo prazer na forma genital normal.

O que ocorre na mente do perverso?

Os estudos psicanalíticos mostram que a mente doente do parafílico não considera sua postura perigosa à sociedade, muito pelo contrário, acredita ser algo normal. Em todos os casos há uma fraca presença de uma instância psíquica denominada de “Superego” que freia nossos impulsos, principalmente a sexualidade, provindas de outra instância psíquica denominada “Id”.

Um indivíduo parafílico, em geral, se sente deslocado e incompreendido pela sociedade, podendo, também, invejar as pessoas que acredita ele serem normais.

Tratamentos disponíveis:

O tratamento das parafilias é bastante complexo. Em geral, indivíduos acometidos de distúrbios psíquicos de perversão sexual não procuram tratamento espontaneamente, principalmente no caso de Pedofilia, pois a doença sofre tanta repugnância da sociedade que o indivíduo tem medo de contar a alguém que sofre desse mal. A procura por tratamento somente ocorre de forma forçada pela justiça ou quando surgem conflitos constantes com o parceiro sexual. Muitos doentes parafílicos nem sequer percebem que estão doentes, psicologicamente falando.

Levantamentos estatísticos nos EUA revelam que cerca de 15% das crianças são molestadas sexualmente, bem como cerca de 45% das pessoas que procuram ajuda profissional espontaneamente, se declaram pedófilos.

A literatura médica e psicanalítica sugere que o tratamento é multifacetado, ou seja, ocorre a combinação de ações psicoterápicas juntamente com tratamento medicamentoso. A Psicanálise é bastante útil para o paciente perceber a origem infantil do distúrbio, enquanto que o uso de fármacos visa o controle bioquímico das pulsões libidinais. Em casos mais graves, os fármacos promovem o que se chama de “castração química” onde o indivíduo não sente a pulsão sexual de forma incontrolável.

O maior problema do tratamento está nas eventuais recaídas que os pacientes possam ter, isso em função da forte fixação inconsciente do paciente na sua fase sexual infantil.

TPM – UM ENFOQUE PSICANALÍTICO

02/11/2020 às 17h42

A síndrome da tensão pré-menstrual (TPM) é, sabidamente, a principal queixa entre mulheres jovens. A TPM ocorre de forma severa em 2,5 a 5 % e de forma mais branda em cerca de 33 % das mulheres por volta dos 30 anos, em média.

A TPM é um problema multifatorial, ou seja, há vários pontos a serem atacados para a solução do problema, tanto fisiológicos como psicológicos. Uma coisa é certa, porém, não há solução mágica para o problema visto que há fortes fatores emocionais associados a ela. A existência de fatores psicológicos associados à TPM, como instabilidade de humor, forte ansiedade e irritabilidade, mostra a forte relação psicológica entre TPM e o inconsciente humano.

As terapias de base psicanalítica nos dão um enfoque dos fatores emocionais inconscientes associados à TPM, explicando as variações de humor e irritabilidade de forma a que uma paciente acometida desse mal, à medida em que compreende os fatores inconscientes que associam a sua TPM com seus complexos, também inconscientes, pode romper os fortes laços que os unem. A Psicanálise não trata os distúrbios fisiológicos que estão associados à TPM, mas a Psicoterapia pode auxiliar, em muito, o encontro do equilíbrio psíquico que pode aliviar ou eliminar os distúrbios a ela associados e que tanto incomodam às mulheres em boa parte de suas vidas.

Qual é o fator inconsciente universal associado à TPM?

Os estudos do mestre Sigmund Freud, complementados com os da proeminente psicanalista inglesa Melanie Klein, explicam bastante bem como a sexualidade já está presente, instintivamente, na mente do ser humano, mesmo quando ainda é bebê.

As meninas, em poucos anos de vida, já têm a intuição da diferença anatômica entre elas e os meninos. A falta de um pênis lhe causa a sensação de mutilação ou inferioridade, fato conhecido como “Complexo de Castração”; daí vem o desejo, na pré-adolescência, de destaque nos cadernos escolares e ordem em seus objetos, fato que revela o desejo de ser poderosa e não castrada, enquanto que na vida adulta vem o desejo de possuir um corpo atraente, ou ter um filho, fato que revela, também, o desejo de poder perante os demais, ou ainda o forte desejo de sucesso profissional, revelando o poder que, na fantasia da infância, lhe foi tirado pelo fato de não possuir um pênis que os meninos possuíam.

A primeira menstruação.

Ao ocorrer a menarca, a angústia inconsciente da castração se manifesta novamente na menina de forma intensa, principalmente pelo fato de ocorrer a perda de sangue, fator associado, inconscientemente, com a vida e o poder. O primeiro fluxo de sangue menstrual equivale, na fantasia inconsciente da menina, à castração ou à incapacidade de ter um filho, no futuro.

O período pré-menstrual.

A Psicanálise parte do princípio de que uma fantasia inconsciente, apesar de não ser real, tem o poder de uma situação real. Com isso, a partir do momento em que a jovem mulher sente mudanças fisiológicas em seu corpo, indicativas da breve chegada da menstruação, ocorre a inconsciente lembrança das fantasias provenientes do “Complexo de Castração”, lhe informando de que ela é incapaz e mutilada no poder em relação aos homens e à sociedade, como um todo.

À medida em que, nos dias de hoje, a mulher assume maiores responsabilidades sociais, também aumenta a própria auto cobrança pelo sucesso e pelo poder, fatores que, se não atingidos, alimentam ainda mais o “Complexo de Castração”, logo, aumentam ainda mais os fatores emocionais que dão sustentação à TPM, pois nesse momento a mulher sente, inconscientemente, que como todo ser humano, possui fortes limitações.

Qual é o tratamento emocional?

Como já dissemos, a Psicanálise não trata dos fatores fisiológicos, estes tratados pela ciência da medicina, mas trata, eficientemente e de forma, muitas vezes imprescindível, os elementos fantasiosos inconscientes que dão força aos sintomas da TPM. É bastante comum, após algumas semanas de Psicoterapia, as pacientes terem seus incômodos sintomas pré-menstruais bastante aliviados ou mesmo eliminados, à medida em que a mulher toma consciência e entende suas próprias fantasias emocionais.