Revista Statto

GRAMÁTICA: REMÉDIO OU VENENO?

16/12/2020 às 10h36

Dia desses, ao ler “A farmácia de Platão” (estava às voltas com textos de Jacques Derrida), vi em sua metáfora algo perigosamente próximo ao que se vivencia entre nossos jovens estudantes e pressupostos futuros escritores: se professores são Sócrates, eu não sei – mas os estudantes são os nossos Fedros, piscando atônitos ante as loucuras instituídas naquilo que querem os mestres versus aquilo que está escrito que é para ser – sejam as gramáticas, as leis que regem a educação brasileira ou mesmo os rabiscos a caneta vermelha nas redações.

Ora, o texto de Derrida é mais profundo que o abismo das Marianas, e talvez eu esteja sendo superficial em minha análise – o mar de palavras gregas e metáforas engenhosas me intimida, me afoga e me faz dar à costa; permanece apenas o meu espírito perturbado pela possibilidade de ainda estarmos enredados por questões que datam de mais de trezentos anos antes de Cristo, quando Platão achou por bem plantar sobre as inquietações de Sócrates e Fedro, já naquela época um gesto simbólico de cutucar e jogar sal em feridas que até hoje não cicatrizaram: afinal, nossos jovens são despreparados e imaturos para a escrita, como eram considerados Fedro e o próprio Platão na época? Aquilo que chamamos de gramática é profícua ou castradora, é remédio ou veneno?

A última questão é decisiva para que se responda a outra. Gramática é algo definido, dado, datado, e que não pressupõe a diánoia da reflexão: quem é professor, a tem elegantemente respondida e orientada nos livros, e quem é aluno precisa esforçar-se por decorá-la, mas não para entender o porquê daquilo – assim como Fedro, sentem-se intimidados no processo de escrita porque, de certa forma, são “podados” por algo que corta sua linha de raciocínio –  afinal, gramática é importante dentro de um contexto metodológico, pedagógico, mas certamente ocupa menos linhas em nossos PCNs do que aqueles trechos que afirmam ser importante estimular a criatividade, a eloquência,  a fluidez da escrita.

Todavia, ao analisarmos textos escritos por alunos, a primeira coisa que salta aos nossos supostamente preparados olhos é um “acentozinho” fora do lugar, um z no lugar do s, um x trocado por ch, uma palavra escrita mais por proximidade do que por exatidão (algo tão comum também em nossos idosos, eles que em sua maioria dizem/escrevem “peneumonia”, “tiriça”, em vez de pneumonia e icterícia), ao invés de focar naquilo que, por suposto, é preconizado em nossos parâmetros; afinal, não importa muito se o correto é “peneumonia”, mas se o recado foi dado de forma lúcida e eficiente. Como diz a minha mãe, “Cê entendeu, não entendeu?”.

A gramática teria, lógico, que vir depois de tudo disso, mas não antes; ela teria que vir depois da leitura, depois da conversa, depois da compreensão, depois da reflexão – mas o que vemos é que ela ocupa a parte central das avaliações, dos julgamentos, das preocupações. Viramos escravos dela a tal ponto de o sistema educacional criar amarras cheias de nós cegos que nos prendem a ela (professores e alunos), de forma que professores precisam criar provas mais “dinâmicas” do que reflexivas (é mais fácil corrigir trocentas provas de marcar x do que ler uma por uma das respostas objetivas), e alunos precisam se curvar ao decoreba… No próprio ensaio de Platão, há um trecho em que Fedro se propõe a escrever um texto reflexivo por conta própria e sem consulta, e no entanto ele “esconde” sob sua roupa, à revelia de seu mestre, um livro com escritos já prontos. É uma antiga, mas eficiente concepção do que fizemos se tornar a gramática: um remedinho básico, uma “dipironazinha” cotidiana para sanar dores de cabeça eventuais, e que acabou se tornando uma cicuta das brabas – e tudo isso, pela dosagem errada no tempo errado.

Não se trata de desqualificar aqueles que acreditam merecer a gramática o centro das atenções; afinal, nós somos sempre atravessados pelos outros, sejam eles os nossos  professores, nossos alunos, nossos pais, a sociedade de modo geral ou os “lógoi” em “biblíois”, e  a tendência que temos é perpetuarmos aquilo que, para nós, tem valor de verdade… Eu me instituo como sujeito no ato de “assujeitar-me” a outro, e assim por diante, e isso vale tanto para os tradicionalistas quanto para os vanguardistas. Afinal, é mais confortável buscar a segurança daquilo que Derrida chama de “imediatez transparente” do que confrontar todo o sistema que preconiza o automatismo de nossas ações como professores e como alunos, aquele sistema que procura desenvolver mais os quantitativos do que o nível crítico e reflexivo.

Portanto, não se trata de basear o insucesso das abordagens do processo de escrita na suposta imaturidade ou competência do aluno, mas sim de refletir acerca da gramática que nos cerca, no que ela realmente é remédio e no que seria nociva, algo não tão simples quanto parece – uma vez que há de se lutar contra todo o sistema educacional, que foi moldado em cima dessas convenções da “pronta entrega”, e, o mais difícil, lutar contra o nosso próprio vício, a nossa própria convicção, de que essa é a forma correta de julgar o escrito do outro.