Revista Statto

PRIMAVERA

02/09/2020 às 08h47

Meu lugar de calma. Ou devo dizer “acalma a alma”

Não preciso nem especular. A brisa que tocou meu rosto por exatamente dez dias, causou minha inatividade.

E devo agradecer.

Primavera era meu lugar. Na verdade, um lugar que me colocar no lugar. Sem julgar meus desânimos, inseguranças e receios. Mesmo sabendo que voltei carregando as piores características possíveis da cidade grande.

Bem-vindo ao nosso Pontal, diz o portal.

Minha animação claramente estampada, viajando com estranhos, rindo de piadas que normalmente não daria risada.

O caminho parecia um infinito fim de tarde. O sol não se foi.

A cidade não tem recurso nenhum, e ainda assim, consegue reparar danos em seres humanos, como eu.

O vento que balançava os Ipês era colorido e vivo.

Carregava a alma de um povo que lutou no passado, lutará no futuro e luta no presente. Recarreguei-me de todas as forças possíveis todas as vezes que a visitei.

Nunca fechei meus olhos para sua beleza natural. Meu passado foi o mais lindo já vivido, contigo. Suas construções finalmente tomaram formas.

Vi também quem já me fez feliz, feliz com outros.

Esse tipo de felicidade custa chegar sem polemizar.

Coincidência ou não, estava frio e dentro de mim estava mais gelado ainda, mas a fogueira mal montada, aos meus olhos, me aqueceu.

Pouco álcool foi o suficiente, normalmente eu preciso de mais.

Agradecendo mentalmente quem me fez feliz no passado, afinal no presente, somos felizes separados.

Não consegui me contentar com sua simplicidade.

Minha Primavera.

Embora, suas ruas, seus rostos, seus costumes continuam iguais. Os meus mudaram.

Mais uma vez te deixo para trás.

Ficarei com a lembrança de que te visitei no inverno, mas para o todo sempre, lembrar-me-ei de sua primavera e sua Viela 969.

CLARICE

19/07/2020 às 09h47

O dia em que conheci Clarice não fazia sol, nem chuva. Eu não sentia tristeza, nem felicidade.

Ela não era amarga, nem doce.

O dia em que a conheci, a fumaça do seu cigarro não me incomodava, pelo contrário, a fumaça que inalava parecia despir suas angústias em palavras.

Aquela altura eu já não lembrava o que era direita ou esquerda, não pensava em certo ou errado.

Ela já com as sobrancelhas em dúvida e um paladar nada aguçado me fitava silenciosamente.

Nós não conversamos.

Não me senti desconfortável em sua presença. Seus olhos iam de cima a baixo e encontrava os meus em uma ida. Nunca na descida.

Por um momento achei que tínhamos algo em comum.

Ela provavelmente pensava…. Uma iniciante calculada que não sabia ainda usufruir corretamente as palavras.

O dia em que conheci Clarice quis amar e odiar a vida. Quis partir e sumir em uma rua sem saída. Quis celebrar o espírito e cancelar nosso encontro porque no dia em que conheci Clarice o sol parou de queimar.

A sua presença marcante dissolvida em uma personalidade desconcertante desola o mundo inteiro.

O dia em que a conheci, meu relógio parou de funcionar.

Eu questionei em que parte da vida eu estava, se realmente confiava, no meu atual bem-estar.

Clarice é um caminho a percorrer. Eu só entendi isso, tempo depois.

O dia em que a conheci me fez contar até os duzentos e um para logo após lembrar que os números são finitos e não adiantava contar.

O dia em que meus olhos e ouvidos se fixaram em uma de suas obras, eu já não sentia a mágica no ato de escrever.

Clarice me ensinou como voltar.

Não bastava escolher entre o quente ou frio. Inverno ou Verão. Eu queria ter algo concreto para falar.

No dia em que conheci Clarice, não precisei encolher minhas expectativas.

Em um dia qualquer eu parei para ler Clarice. Esse dia nunca mais foi um dia qualquer.

Eu li dores, medos e encantos e se eu fosse eu, nada mais me traria tanta graciosidade.

Do outro lado, Clarice ascendia mais um cigarro enquanto lamentava seu turbilhão de desencontros.

Já eu, miúda, no auge da minha felicidade celebrava nosso encontro.

TERRA

25/06/2020 às 09h48

Desprendi-me de suas poeiras e matérias e ainda assim, não me vi. Assisti estrelas obtendo suas formas e morrerem a anos luz de eu, você, nós. Não existimos lá. Só existimos aqui. Transbordamos dores pelo espaço e nos é devolvido um imenso show luzes. Luzes essas que não se apagam, contrariando qualquer previsão. Caminhamos para casa carregando todos os problemas como se fossem maiores que o universo em si. Arrastamos o medo a fora cortando seu verde. Excluindo a diversidade. Possuindo o que não é meu. O que não é seu. Não é nosso. O ego chega a relutar forçando inteligência enquanto a frieza não nos deixa aquecer pela estrela maior.

Deixo-me levar pela ilusão finita dos meus olhos, mas nunca reneguei o ar. Distribuo minhas forças sem apoiar minha própria Terra.

Preocupo-me com uma nova aferição, mas nunca aprecio o céu. Nasce um novo dia e a noite me embala novamente e exclamo não ter tempo para demonstrar preocupação.

Questiono o fim. Sem saber do seu início.

Em um de seus maiores esforços se deixa mostrar um pedacinho. Sua força questionável nos engole e assistimos tragédias. E só então, pensamos em buscar conhecimento.

As pesquisas permanecem enquanto consolamos nossas almas. Por todo mistério que se recusa a revelar e eu não te culpo.

Falta cuidado para tantos recursos e então, você nos afronta mesmo com medo de assustar.

Esconde sua força maior que a gravidade apenas porque são segredos e segredos não é para qualquer um que se pode revelar.

Amazonas, fauna e flora explorados. Por todos os cantos.

A vale? Continua amarga, já dizia o poeta.

Ainda não aprendemos a se desprender.

Quem sabe não seja tarde demais para buscar aprender.

Terra, sobre você.

A ESCRITA

16/04/2020 às 09h16

É estranho me preparar para escrever.  Antes eu vivia com um caderno e uma caneta e escrevia todas as bobagens que passavam pela minha cabeça. E era cada ideia vazia e mirabolante. Tudo indica que são as mesmas ideias que me confortam mentirosamente hoje. E eu me preparo perfeitamente. Copo d’água do lado, computador na escrivaninha, lua do lado de fora e alguns gritos dos apartamentos ao lado de brinde para inspirar. Tudo perfeito, então eu espero.  E espero que as palavras se criem e dancem na minha frente, como em filme infantil. Como quando eu tinha dezesseis e inventava histórias de amor sem ao menos vivê-las. Ou como quando ouvia que tinha talento. Eu nasci para isso, me disseram. E então continuo esperando.

Tomo meu primeiro gole de água e fico cantando as letras do alfabeto em voz alta. Questiono-me se eu deveria ter lido mais sobre a literatura brasileira. Se deveria ter me aprofundado mais na simplicidade de Mário Quintana. E decido que na verdade, não li o suficiente.

Então eu paro. E por aquele dia não escrevo.

No dia seguinte resolvo mudar meu horário. Provavelmente faltou a luz do sol. Então começo a me preparar. Copo de chá do lado, janela aberta para entrar um vento e buzinas dos carros para inspirar. E me pego pensando que o vizinho de cima sempre está martelando alguma coisa. O cheiro de vários almoços me desconcentra. A mulher segurando o bebê no corrimão da sacada me tira o fôlego.  Mas ainda assim, espero.

Espero porque confio nas palavras e nas frases e elas vão se juntar e se formar na minha cabeça.

Questão de tempo. Coisa boba. Sentimento tolo.

Penso em um escritor especifico que dizia que se as palavras não saíssem queimando suas estranhas então escrever não era seu caminho.

Paro e penso.

Melhor deixar para o fim de semana.

O fim de semana chegou mais rápido que o alerta de um meteoro passando próxima a terra de madrugada pela décima vez, só esse ano. E minhas mãos travam em frente às letras. O meu eu interno chora. Chora em silêncio por todas as frases que não pude juntar. Por todo tempo esperado e poemas intermináveis, sem fim, sem começo, sem meio. Sem ordem. Queria me preparar. Eu sempre quis.

Apresso-me.

Apresso-me porque a falta de esperança consome cada osso. Grande e pequeno. Largo ou fino. Falta-me. Controlo tudo ao meu redor para obter o melhor final. Sem saber que o melhor final eu não conseguirei ter controle. Eu escrevo achando que preciso de mais, sem saber que demais sempre transborda e ao transbordar as melhores partes são perdidas. E eu continuo me testando, porém, sabendo que nunca conseguirei atingir as melhores notas do meu próprio teste.

Rendo-me.

Escrevo.

Qualquer coisa que vem à mente. Qualquer palavra que passa rapidamente, eu seguro. Prendo-a. E me lembro de que se não escrevi hoje, o amanhã me aguarda. Se as frases não conseguiram o efeito que eu queria hoje, amanhã crio melhor. E talvez se no fim de semana eu não conseguir acender a chama. Eu mesmo apago-a.