Revista Statto

O DEMÔNIO DAS HORAS INCERTAS

09/10/2020 às 10h10

Quando estão bem, alguns amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho e alguns amam Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito que é o oposto da depressão”. Andrew Solomon

A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição”. Andrew Solomon.

Assim se inicia o livro O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, que aborda de forma visceral a depressão, este demônio paralisante que adormece sonhos e desejos. Seu livro, de uma escrita profunda e sensível, repele o preconceito sobre essa doença que assombra tantas almas.

O demônio do meio-dia foi uma expressão utilizada na idade média e estava relacionada ao sentimento da acídia, tão bem relatada por São Tomas de Aquino: “Assim como os homens fazem muitas coisas por causa do prazer, assim fazem muitas coisas por causa da tristeza para evitá-las ou arrastados pelo peso da tristeza

A depressão é um amputar de asas; o corpo exala tristeza, uma tristeza quieta e solitária. O olhar abandona o céu e fixa-se no asfalto negro; concentra-se na distância e nada faz sentido razoável para que se queira tentar.

A depressão retira aos poucos as significâncias da vida. Não é fácil especificar a causa da depressão, aparentemente, algumas pessoas estariam mais vulneráveis, quimicamente, a sofrer desse mal.

Conviver com uma pessoa que sofre de depressão é, de certa forma, emprestar-lhe um pouco a vida; é fazer uma respiração boca a boca de amor; uma respiração constante, esperançosa e delicada. Neste empréstimo de dedicação e de amor saem todos mais plenos; não há nada nessa vida que não se torne inteiro depois de compartilhado.

NÃO FUME, NÃO BEBA E SORRIA COM MODERAÇÃO

06/09/2020 às 12h11

Sob o véu alvo e impecável do que é correto repousa, algumas vezes, uma opressão característica de algumas pessoas que, no fundo, desejam um mundo sem quaisquer particularidades e diferenças. Um mundo, portanto, sem questionamentos. Contudo questionar é preciso, surpreender-se também; a diferença do outro é o que me torna único; a singularidade do outro é o que me torna diferente.

O apego exagerado à beleza, assim como o absolutismo do politicamente correto, são sintomas de uma doença chamada medo. Vivemos a era do temor. Temos medo de engordar, medo de não sermos aceitos, bem-sucedidos e, por fim, temos medo do inevitável, envelhecer.

Vivemos a era do politicamente correto e esquecemos o humanamente correto. Somos politicamente esmerados e humanamente egoístas.

Vivemos um tempo de padrões de beleza quase inatingíveis e preconceitos escondidos. Não se pode ser gordo; fumantes são indesejáveis, celulites nem pensar. Não se pode nada que não esteja na cartilha do imaculável. Há um padrão de peitos, cabelos, barriga, coxas e frases perfeitas. Um cárcere psíquico assassinando o prazer. Não fume, não beba, sorria com moderação para evitar rugas de expressão.

O mundo politicamente correto é chato, amplo, não enfoca a reavaliação verdadeira de conceitos pré-estabelecidos e obtusos, assim como o mundo padronizado de belezas exatas também é chato, monótono, igual.

Invade-se armários, mentes e cama; educamos a língua, mas não educamos o coração e a mente. De que adianta educarmos a língua se ainda não aprendemos a aceitar as diferenças?

O lado mais bonito da liberdade é o poder da escolha sem culpas. Assim como o lado mais bonito do que deve ser correto e respeitoso é o entendimento, a aceitação do outro, seus limites e particularidades.

Nem tudo que está politicamente correto na linguagem está politicamente correto no coração e nos atos.

SOBRE ESSA ANGÚSTIA QUE TE CERCA…

24/08/2020 às 09h30

Essa angústia que te cerca,

Essa falta de tesão pela vida,

Esse desânimo, essas dores, essa ansiedade,

Será que não estão tentando mostrar que chegou a hora de uma mudança?

Uma mudança de maior envergadura, dessas que dá medo mesmo

Que dá frio na barriga

Que é um salto no escuro

Sem garantias de que dará certo?

Você está trabalhando com a sua vocação?

Está colocando os teus talentos a serviço dos outros?

Está fazendo o que faz o seu coração vibrar?

O que nem trabalho parece, de tão gostoso que é?

Você está convivendo com pessoas que te apoiam?

Que sonham os seus sonhos com você?

Que não acham tudo uma “viagem”, uma besteira, uma perda de tempo?

Que são práticas demais, simplistas demais, materialistas demais?

Pessoas que não tem afinidade com a sua energia, enfim?

A vida está passando, o tic-tac do relógio não para…

Você acha que algo vai mudar se não fizer nada?

O que você está esperando, afinal?

O corpo reclamar, a mente estressar, você, de fato sucumbir?

Faça o quanto antes, faça enquanto é tempo

Não leve a vida tão a sério!

E não fique só como espectador

Vendo as coisas acontecerem

Com vontade de fazer diferente

Mas acomodado demais para atitudes efetivas…

NÃO ME DELETE, POR FAVOR

21/08/2020 às 16h06

Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angustia. Filosoficamente a angustia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

A MENTIRA E O AMOR

30/07/2020 às 15h14

As verdades mais importantes só são ditas metade”. Baltasar Gracián

Certa vez, em um livro de Andre Comte-Sponville, li que a mentira é a palavra amedrontada. Sai totalmente do contexto e me apeguei a beleza da frase. Quantas palavras de amor foram suprimidas pelo medo? Quantas mentiras são ditas quando não queremos ir, ou ficar? Quantas desculpas criamos? “Des.culpa”. O prefixo des exprime negação, ação contrária. Desculpa, livrar-se da culpa. Culpa? Por que nos culpamos quando constatamos uma verdade não prevista? Variáveis intervenientes. A vida é repleta de variáveis intervenientes. Há no adeus um amor despido de ilusões; um sentimento sem sonhos é verdade, mas não necessariamente algo que se contraponha ao amor.

Muitas vezes quando nos afastamos de alguém, amigo ou amante, oferecemos o nosso mais sincero amor; despedir-se pode e deve ser o ato da mais profunda afeição. É preciso reconhecer quando não podemos mais acrescer, e assim enxergar nas despedidas o amor. Ir e deixar ir, sem alardes, sem mentiras.

Só nos afastamos do que esteve próximo, e se esteve próximo devemos reconhecer sua importância. É preciso aprender a despedir-se de amores e amigos, pessoas importantes e queridas que já não cabem mais em nossa estrada. Assim como é preciso aceitar a despedida quando já não cabemos na estrada do outro. A vida é repleta de bifurcações. A vida é repleta de novas estradas.

Que bonito seriam as despedidas sinceras, sem palavras amedrontadas, porque é também no tempo da despedida que podemos regar o amor fazendo brotar a mais bela flor de recordações. Despedir-se de amigos e amores sem aleivosia, sem difamar a verdade do começo. O fim e o começo são um único caminho, são partes da estrada. Todo começo é ignorado, todo fim é desconhecido.

Não deveria haver desespero nas separações. “Desespera, desespera”; deixar de esperar. Quem deixa de esperar torna-se livre para caminhar; e o caminhar é ilimitado.

2020 O ANO MARCO ZERO

14/07/2020 às 16h42

EU SOU EU E MINHA CIRCUNSTÂNCIA, E SE NÃO SALVO A ELA, NÃO ME SALVO A MIM.” – ORTEGA Y GASSET –

Frustração, medo, tristeza, ansiedade, gratidão. 2020, o ano da contradição; o ano marco zero.

Se somos parte dos privilegiados vivos ou sobreviventes, gratos por ter um lugar onde morar, água limpa e alimentos, ainda assim nós pegamos frustrados pelos planos que a pandemia não nos deixou realizar. Ainda que pareça frívolo, tendo em vista tanta devastação, tal sentimento é legitimo, afinal fomos acostumados a nos enganar planejando o dia seguinte como se tivéssemos algum controle sobre o calendário invisível, este sim dono do que aprendemos a chamar de tempo.

Mas o que fazer com tantos sentimentos? 2020 trouxe à tona anseios, trouxe a percepção da ausência de controle e mostrou a cara da fragilidade humana. Com a rotina roubada criamos uma cobrança secreta de que precisamos produzir e roteirizar nosso dia a dia, ainda que a segunda tenha se travestido de domingo. Mas a verdade é: não, não precisamos. Tudo bem não se exercitar em casa, tudo bem não meditar, não fazer cursos; somos frágeis e estamos com medo. Sentimos falta de escolher não sair, sentimos falta de ver um sorriso espontâneo na rua, de ir à feira, de não precisar higienizar o saco de café e deixar as compras desleixadamente em cima da mesa, sentimos falta do abraço com cheiro de roupa limpa e do abraço suado, sentimos falta dos que partiram, até as despedidas tornaram-se diferentes.

É tudo tão delicado, os dias parecem frágeis como um recém-nascido, estamos todos recém-nascidos, precisamos de um tempo de adaptação. Em 2020 adaptar-se também amedronta, porquanto concretiza que algo que não desejávamos não pode ser modificado.

Mas há de haver a hora de seguir, seguir com o que nos é possível, da forma como for possível e quando acontecer, cada um terá um momento diverso, espero que possamos compreender 2020.

20 e 20, ano reflexo, eu também sou o outro; sou o berro e o silêncio, o erro e o acerto, o tapa e a saliva, e então será imprescindível ter olhos de ver, enxergar os invisíveis, os esquecidos, os não privilegiados, os que não foram compulsoriamente proibidos de andar livremente pelas ruas porque lá estão há muito tempo, compulsoriamente. Sim, compulsoriamente e não há justificativa para tamanha tristeza, todas as justificativas nada mais são do que nosso egoísmo floreado por desculpas eruditas. A humanidade está dividida em becos, margens e cor; seremos um pouco vírus se continuarmos a negar essa realidade, se não fizermos nada para modificar a solidão dos invisíveis, dos marginados, dos excluídos.

Fazemos parte de um todo, somos medo e esperança, inteiro e metade. 2020 veio nos dizer: somos reflexo.

GENTE BEM RESOLVIDA

14/07/2020 às 09h13

Quanto mais gente melhor.

Veja se dá para entender: a gente, para a gente mesmo, é a gente. Raramente consegue ser o outro. A gente, para o outro, não é a gente, é o outro. Deve estar confuso. Tento de novo. Cada um de nós vive uma ambiguidade fundamental: ser a gente e ao mesmo tempo, ser o outro. Para gente, a gente é a gente. Para o outro, a gente é o outro”. (Artur da Távola )

Gente bem resolvida não precisa do outro. Quem inventou isto?

Eu penso que gente bem resolvida precisa de todo mundo. Outro dia ouvi a seguinte frase: “Estou com ele não porque eu precise, mas porque quero. Não sou carente”. Ora, todo mundo é um pouco carente e um pouco alforriado. Parece que precisar de alguém é fraqueza. Pura bobagem.

À medida que vamos amadurecendo, ficando autônomos, independentes no sentir, vamos percebendo que precisar é também uma forma de felicidade. Eu particularmente quanto mais livre fiquei mais precisei do outro. Precisei de amigos para rir das decisões equivocadas que tomei, precisei de amores para dividir a vida. Precisei e quis.

Precisar de alguém é ótimo, é troca no melhor dos sentidos. A autossuficiência exagerada é tediosa. Precisamos de amores e amigos, precisamos inclusive dos ex, são eles quem nos lembram dos caminhos percorridos, erros, acertos e evoluções. O tempo nos ensina a notar delicadezas; detalhes compartilhados.

Sem a percepção do outro nos perdemos em uma linha reta e dura. Saber ficar só não significa não precisar do outro. Coçar as costas com régua, escova ou mãozinha de madeira, resolve, mas não é tão prazeroso como dizer: Mais para esquerda, mais para o centro, aí, aí.

Na qualidade de seres incompletos que somos, brotamos na presença do outro, com o afeto do outro. Ter um amigo para dividir a preguiça ou a emergência é delicioso; um amor para dividir as implicâncias e o edredom é aconchegar a existência; um ex amor para lembrar a data esquecida ou a velha piada faz parte de saber-se existido.

A existência requer o outro. Há pessoas que ficam, há pessoas que partem, mas ninguém parte ou fica apenas, há sempre um pouco de nós espalhado em lembranças. Somos, portanto, muitos. Ter pessoas enchendo nossa vida e algumas vezes nossa paciência é muito bom.

Nossa vida é composta de imprescindibilidades que desprezamos sem nos dar conta: A ligação da mãe para perguntar se você já almoçou; o cafezinho que a secretária nos leva no meio do desespero de papeladas sem fim; a massagem nos pés depois de um dia terrível; o sorriso e a reclamação do filho; o abanar do rabo do seu cachorro ou o ronronar do seu gato; o amigo que você telefona depois de beber todas; o amor que você liga para esvaziar a raiva, aliviar o aperto no peito ou dizer que ama.

Todos os detalhes importantes e inesquecíveis da vida têm o outro; de alguma forma o outro está. Tem aquele que ficará para sempre, que ficará por uns instantes ou por um tempo, não importa, todos os detalhes importantes e inesquecíveis da vida, do café ao amor, têm o outro, porque a gente quer e precisa.

NÓS, OS IMPERFEITOS

30/06/2020 às 10h23

Metade do mundo ri da outra metade, e ambas são tolas (Baltasar Gracián)

Pequenas inconveniências diárias podem ser irritantes; o senão dos outros pode ser muito desagradável. Ninguém gosta da deselegância dos convictos de suas certezas. Ninguém tolera os egoístas e os ingratos, os que não retribuem o amor que lhes é dedicado, estes são inesquecíveis.

Difícil suportar os fúteis; os que falam, mas não agem; os que nos esquecem sem entendermos o porquê. Irritante os que perdem o humor no momento em que reina a graça, ainda que unilateralmente. Insuportável os que reclamam apenas pelo hábito de certificar-se de sua falta de controle.

Se o inferno são os outros, não se iludam, somos parte da flama.

Bendito o dia em que se percebe consumida a liberdade do autoritarismo de nossos desejos. Bendito o dia em que nos encontramos acompanhado de nós mesmos e espantados nos vemos cheios de pequenas inconveniências, egoísmos e ingratidões, e nos notamos coberto por certezas, atos e despropósitos. Neste dia percebemos o que somos, e somos o que o outro também é.

Somos feitos de pequenas imperfeições, seres cobertos por certezas equivocadas e desatinos. Quando a arrogância do outro nos alcança, não deveria haver espanto, porque também já estivemos na arrogância, no o dia em que irrompemos na impaciência da espera.

Quando a ingratidão do outro nos fere, há que se achar o anestésico, porque também já ficamos na condição de ingratos, nos dias em que perdemos a memória, a graça e a fé. Quando o mal humor do outro nos assusta há de haver sorrisos, porque também já negamos abraços por falta de disposição de espírito.

Não há nesta vida quem não tenha falado mais do que agido, quando golpeado de paixão jurou esquecer e recordou ou deslembrou daquilo que um dia jurou eterno.

Bendito o dia em que nós percebemos desapropriados de certezas e nos permitimos ser imperfeitamente livres, abarrotados de simplicidades.

Bendito o dia que traz aos nossos olhos nossas próprias imperfeições, porque são elas que nos ensinam a amar.

PEQUENAS DELICADEZAS DO AMOR

14/06/2020 às 11h54

Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós“. (Manoel de Barros)

As coisas incomensuráveis habitam as pequenas delicadezas do amor. Estão nas miudezas e nos gestos cotidianos dos quais nem nos damos conta; nos pequenos desejos, na mão pousada sobre ombros descansados, nas pontas dos dedos que deslizam na nuca amada, na pipoca dividida, nos abraços despretensiosos, na pia do banheiro ou nos beijos dados na cozinha vestida de louças de um almoço qualquer.

Estes pequenos gestos e abraços engolem o sexo mais indomado e o presente mais caro. Não que o sexo e o presente mais lindo não sejam bem-vindos, mas as pequenas delicadezas têm um poder incrível de sobreviver ao tempo. Sacanagens são deliciosamente prazerosas, mas a certeza da conversa a qualquer tempo é ainda mais reveladora e prazerosa, é ela quem nos afasta da solidão das multidões, que nos transmite certezas, se é que estas existem, de que as coisas seguem por um caminho quase perfeito.

O riso solto e sem protocolos conseguidos com o aumento da intimidade, sem os quais a gente murcha um pouco, está nestas pequenas delicadezas. São estas miudezas do amor que nos engrandecem e muitas vezes a gente sequer se dá conta disto. O amor é cheio de vocações desconhecidas e conexões profundas e delicadas. Pequenas delicadezas são na verdade a mais profunda forma de amor e que nos é revelada, também, em pequenas coisas.

Há momentos na vida em que ficamos por um triz, temos vontade de chorar, gritar, bater; do mesmo modo temos vontade de dividir alegrias, belezas, conquistas, mas quando vamos desmoronar queremos conosco ou do outro lado da linha, aquele que dividiu com a gente as pequenas delicadezas; é nesta pessoa que pensamos, é neste colo que queremos descansar. É naquela conexão profunda e delicada que mora o sossego dos nossos anseios.

Às vezes esta pessoa só precisa dizer um “alô” para o mundo ficar reconhecível outra vez. É que as coisas incomensuráveis da vida moram nas lembranças, gestos e amores gentis.

VÍNCULOS

20/04/2020 às 08h46

Grande parte das separações deixa cicatrizes, por mais elaboradas que sejam as partes envolvidas há sempre um sentimento de rejeição, de falha, ainda que não seja verdade. É preciso distinguir a verdade do real. Real é tudo o que acontece, e distingue-se da verdade. A verdade talvez não possa durar, mas pode permanecer. Por exemplo, o fato de ter recebido flores, de viver, de amar alguém, é real. Quando as flores murcharem, quando eu morrer, quando eu deixar de amar, já não será real. Mas continuará sendo verdade que tudo isto existiu. Portanto há que se compreender que uma separação não se aproxima de um sentimento menor, mas sim da constatação da real condição da vida e de sua impermanência, bem como da constatação da verdade de um amor vivido.

Quando o luto pelo fim do relacionamento não é vivenciado de forma adequada e respeitosa, tem início um processo amargo de descrédito do ex- companheiro e, infelizmente, muitas vezes o filho torna-se o projétil da arma. Tornam-se instrumentos de uma agressividade direcionada. O filho é levado a afastar-se de quem o ama, em uma destruição lenta e perniciosa do vínculo afetivo.

A dissolução dos vínculos afetivos e o rompimento da vida conjugal dos pais não deve comprometer a continuidade dos vínculos parentais. É imprescindível manter os laços de afetividade, diminuindo os efeitos que a separação acarreta nos filhos.

A guarda compartilhada, que não deve ser confundida com a convivência alternada, pode demonstrar aos filhos, na prática, a máxima: “seu pai/mãe separou-se de mim não de você”. A guarda compartilhada elimina a figura da visitação. Pai ou mãe não é e não pode ser visita. E mais, o direito de visita não encontra limites entre pais e filhos. A criança e ao adolescente merecem conviver com todos os que fazem parte de sua história. O menor precisa ser enriquecido de referências e experiências. Padrinhos, tios, irmãos avós não podem desaparecer quando um casamento acaba. Uma relação afetiva verdadeira não termina porque foi modificada. Laços afetivos não podem e não devem ser desatados apenas porque algumas coisas mudaram. Separação não é sinônimo de abandono afetivo; abandono afetivo é desprezo e desprezo é sempre injusto.

Nossa vida é tão vã, que não é senão um reflexo de nossa memória”, dizia Chateaubriand.

Que nossa vaidade seja menor que nosso amor. Que nosso julgamento seja menor que nossa compreensão. Que nosso amor seja maior que nossas mágoas. Que nossos filhos possam ter todas as memórias que lhes são de direito.

ENVELHECER. É PODER ANDAR NU

13/04/2020 às 09h26

“Viver é envelhecer, nada mais”. (Simone de Beauvoir)

Envelhecemos todos os dias, cada dia um pouco mais. Tudo o que foi composto será decomposto, basta começar a existir. A resistência em aceitar o envelhecimento, a busca pela mocidade eterna e a esperança de infinitas paixões lotam os consultórios de estética e espalham angústia por todos os cantos. Bobagem, envelhecer é inevitável. Esqueça o que passou e aproveite as rugas, esses sulcos de caminhadas feitas.

Sim, é uma delícia cuidar da aparência, ter saúde, passar cremes no rosto e no corpo, tudo isso é deliciosamente prazeroso, mas sem exageros, sem ilusões de parar o tempo. Coma todos os bombons que o colesterol permitir, brinde com todos os amigos do presente, tenha dias de preguiça sem culpa, e viva!

Se envelhecer nos assusta tirando de nós a rapidez e a pele lisa, envelhecer também nos traz presentes únicos: ficamos mais livres e perdemos menos tempo com o que não nos agrada. A paciência chega e o olhar menos crítico também. Conseguimos nos reconhecer nos erros dos mais jovens, mas se a paciência nos chega, uma dose de impaciência também se impõe, aprendemos a ser mais seletivos, e os que ficam são apenas os amigos leais, os abraços sinceros e os amores gentis.

Se já não se pode correr em desvario, em contrapartida, aprende-se a ter uma nova pressa, não se perde mais tempo com equívocos de críticas vazias. O tão danoso verbo “comparar” vai sumindo até já não ser conjugado, não há tempo para comparações, só há tempo para a vida.

RECEITA PARA DIAS TRISTES E IRRITANTES

04/04/2020 às 09h28

Sigo uma regra: se começar a dar tudo errado, volto. Volto para casa e deixo tudo para depois. Não importa se era importante, o dia seguinte também será, então eu paro, apenas paro, porque sei que se não conseguir mudar a frequência tudo continuará meio torto. A receita é simples: parar também faz parte do caminhar, lembrando que para cada clima há uma vestimenta.

Se o incômodo for tristeza, lave louças, arrume a casa, mas jamais as gavetas; tristeza e gavetas não combinam, pois, a quietude de uma se choca ao agito das calcinhas e camisas em ebulição gerando a preguiça. Preguiça é tristeza sem vocação.

Se a querela existencial for mau humor desligue telefones, arrume gavetas e leia um livro. Nunca, jamais, procure resolver qualquer pendência afetiva, aliás essa regra vale para todas os estados emocionais que não sejam de absoluta tranquilidade. Melhor fazer um bolo.

Se o peito apertar, banho longo, chocolates e filmes bobos; cozinhar é absolutamente proibido, peça algo no delivery mais próximo. Se der pânico, não preste atenção no corpo, porque se a mente está confusa o corpo se comunica em língua estrangeira, geralmente em língua morta.

Para todas as condições, reze. Rezar é antes de tudo silenciar. Reze para Deus, Nossa senhora, um santo, um amigo, uma árvore, Buda ou seu avô, não importa, silencie os cômodos e incômodos de seu corpo.

Foi a partir destas receitas que me ensinei uma grande lição: cuidar de cada dor separadamente. É preciso cuidar de cada dor separadamente de modo a embalá-la com cuidado. Verificar cada infiltração, cada amasso. Reconhecer suas desordens, insistências e excessos, e apenas após tamanho cuidado, deixá-la ir.

Sentimentos devem ser embalados em acalantos particulares, não se deve olhar as dores como quem soluciona equações nem tampouco apenas organizar os sentimentos em gavetas adequadas; cada dor deve ser observada, silenciosamente, sem grandes alardes. Tudo o que está em seu quintal de algum modo é seu, e sendo assim a resposta também será sua, ainda que surja lentamente.

É preciso cuidar de cada dor separadamente, de modo a embalá-la com cuidado. Verificar cada infiltração, cada amasso. Reconhecer suas desordens, insistências e excessos, e após tamanho cuidado, deixá-la ir, mas não sem antes guardar sua lição, e a maior lição que as dores nos deixam é a de que um dia fatalmente as deixaremos ir.

TEMPO, TEMPO, TEMPO

30/03/2020 às 15h36

“Por seres tão inventivo e pareceres contínuo – Tempo, tempo, tempo, tempo – És um dos deuses mais lindos”. (Caetano Veloso)

Confiar é acreditar; acreditar no que somos, desejamos, ouvimos. A insegurança é seu oposto. Nasce no medo, na dúvida e somos tomados por uma perplexidade complexa. A insegurança é o sentimento de não estar protegido, todas as nossas qualidades ou capacidades gradativamente vão desaparecendo nas amarras deste sentimento frígido.

Todos temos a aspiração de ser gostado, desejado. Geralmente a insegurança nos chega quando temos dúvidas sobre este gostar, quer seja no aspecto profissional ou amoroso. Tenho para mim que a insegurança está sempre com o pensamento no futuro, relacionada ao futuro e ao impalpável. Difícil seria dizer que estamos inseguros no agora, porque o agora, é. Difícil seria dizer que estamos inseguros com o que somos, porque nunca se é; antes, passa-se a vida sendo, e ser é alterável.

A insegurança nasce das projeções e oscila entre a apreensão e o medo. Talvez a confiança e segurança sempre tão procuradas morem justamente na aceitação de nossas falhas e impossibilidades. A segurança, a autoconfiança nasce da permissão que nos damos de errar e rir de nossos erros; de sermos rejeitados e aprender com estas rejeições, aprender principalmente que rejeições não existem, o que existe é a alteração de estados e condições.

Nossas inseguranças diminuem quando nós perdoamos, quando perdoamos os outros e quando finalmente compreendemos que a grande beleza da vida é poder recomeçar.

FUI ALI E VOLTEI DEMORADO

21/03/2020 às 11h55

As coisas que estão nas coisas das coisas que são

Em tempos de pressa e relógios insistentes, escutamos e assistimos um pouco de tudo. Viajamos, fotografamos e mandamos lembranças, mas estamos esquecidos dos desejos simples. Sonhar é simples.

No corre-corre do tempo, fica difícil lembrar que somos um pouco do que sempre fomos. Conseguir tempo para pausar e ouvir; ouvir sem sustos, desejos e cansaços. Ir ali e voltar demorado.

Lembrar de tudo o que me faz surgir um sorriso, mas também observar, sem medo, o que me remove o sorriso. Lembrar que o verbo faz a música, e que poder falar dos desejos e medos transforma, aos poucos, o deserto em plantação.

Ir ali e voltar demorado é comprar pão, observando o florista da rua e recordar da flor bem-amada da avó.

Ir ali e voltar demorado é passar na sorveteria depois de enfrentar a fila do banco e adoçar um pouco a impaciência das horas.

Ir ali e voltar demorado é ligar para mãe e deixar que ela fale o que você já sabe. Saber duas vezes é saber de duas formas.

Ir ali e voltar demorado é lembrar de dias tristes e perceber que, de alguma forma, eles te fizeram mais inteiro.

Ir ali e voltar demorado é ter tempo para as significâncias da vida: rir arrastado com um amigo; abraçar apertado filhos e pais; encher a banheira e sonhar sonhos impossíveis; reconhecer sem culpa erros e desatinos, seus e dos outros.

Ir ali e voltar demorado é fôlego para viver colorido.

DO AMOR

08/03/2020 às 18h58

Há muitos anos, muitos mesmo, quando era praticamente uma adolescente, li, “Do amor, Ensaio de Enigma”, sensível livro do saudoso Artur da Távola. Há algumas semanas, após a crônica “Quem Nunca Sentiu Saudade”? Que escrevi para a página Acidez crônica, recebi uma mensagem delicada que citava o trecho “Da perda” do livro, Do Amor’.

Fui, então, reler alguns trechos do exemplar do livro já amarelado pelo tempo, sublinhado pelas descobertas de uma adolescente. Hoje, revisitado por estas retinas vividas, achei engraçado alguns trechos sublinhados, quase premonitórios e, enfim, pude concluir: o amor é realmente um enigma.

Pus-me a pensar no amor, esquecendo-me completamente do purismo da língua, das observações analíticas: pensei no amor do dia a dia, o amor desabafado e desabado nos ombros amigos; pensei nos amores de bar e nos amores média, pão e manteiga com olhares perdidos e esperanças matinais.

Ponderei sobre amores que nem sempre são amores, mas que pelo tempo que estiverem trajados de amor serão intermináveis. Pensei nos amores absolutamente apaixonados que visitam camas e muros; nos amores complicados tal qual nó de aselha, cegos em sua existência. E por fim, pensei naquele amor que de tanto ser amor torna-se enigma, aquele amor fecundo em todos os tempos, que será sempre amor mesmo depois de findo.

Este amor é silencioso, sobrevive à própria morte, posto que renasce nas lembranças e em frases de carinho. É amor de travesseiro, não importa o novo amor, muito menos com quem você se deite, haverá de haver um “boa noite” ainda que distante.

Quando eu era jovem discordava da afirmativa de Nelson Rodrigues: “Todo amor é eterno. E se acaba, não era amor”. Entendia que o amor necessitava de presença, toque, sexo, beijos. Hoje minhas retinas refletidas e vividas, permitem-me compreender: Há o amor de querer bem, não importa o fim, segue-se, sim, amando.