Revista Statto

EU JÁ ME CHAMEI TATIANE SPITZNER

25/11/2020 às 08h50

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. No começo, eu me sentia especial. Aquele ciúme me parecia proteção, aquela implicância com a roupa que eu vestia me parecia zelo, aquelas entrevistas perguntando quem era a pessoa que me cumprimentou na rua me pareciam preocupação. É, eu não percebia. A gente não percebe. A gente simplesmente começa a aceitar que esse é o “jeito da pessoa” e vai se adequando. Foi o que eu fiz.

Com o tempo, fui parando de usar certas roupas, certas maquiagens. Fui falando menos nas rodas de amigos, comecei a fingir que não via as pessoas na rua para evitar cumprimentá-las e cheguei até ao ponto de atender ao telefone e fingir que era engano, só para não ter que dar explicações eternas sobre o que eu estava falando, já que a desconfiança pairava até sobre meu comportamento com a minha própria mãe.

Parece absurdo. É absurdo.

A gente simplesmente não percebe que dia a dia vai falando menos, desviando olhares, trocando de canal, doando roupas que a gente gosta, perdendo o brilho, o apetite pela vida.

Até que um dia o inesperado acontece. A violência social e psicológica passa a ser física. De repente o “protetor” vira um demônio e vai com tudo para cima de quem ele diz amar. O sangue escorrendo nem é sentido. O que dói para valer é a dignidade esvaindo por dentro. Os hematomas, puxões de cabelo e arranhões se misturam à adrenalina paralisante da humilhação ora vivida.

Não, você não acredita. Você, mulher ainda em formação ou já empoderada, você que se deu, se doou, se submeteu, respeitou o outro atropelando a si mesma, você simplesmente não acredita.

No dia seguinte, o pedido de perdão, o choro de crocodilo e você, já tão enredada nessa trama psicopata, se comove. De fora a maioria diz que jamais se comoveria, mas você, só você que já viveu esse inferno é capaz de dizer que sim, a gente se comove. E perdoa. E tenta esquecer. E se cala de novo, mais um dia, mais um mês, ou até à próxima vez.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. Nossa diferença é que eu morava no térreo, estava grávida quase parindo quando conheci o inferno e sobrevivi. Ela não.

E se você hoje silenciosamente enfrenta esse demônio, de todo meu coração eu te imploro: aja, denuncie. Nem todas têm a chance que eu tive. Muitas, como Tatiane Spitzner, morrem esmagadas na calçada da vida, defenestradas por seus próprios parceiros, os mesmos que sorriem ao seu lado nos álbuns de família, nas fotos das redes sociais.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner, mas há muito tempo, não mais.

O MENDIGO DA BLUSA AMARELA

09/10/2020 às 08h42

 

Há alguns dias tenho visto uma cena que se repete, diariamente, na hora do almoço.

O mendigo chega, de blusa amarela, diz que veio buscar uma marmita. Seu odor é desagradabilíssimo. As pessoas que já se acostumaram com a sua vinda nesse horário, não lhe fitam os olhos, apenas dizem para que ele aguarde do outro lado da rua.

Para mim, isso é novidade. Não estou acostumada com sua chegada, com sua figura desfigurada. E nem posso me acostumar com isso, o costume nos torna indiferentes.

Ontem à noite, me lembrei dele e fiquei pensando em que momento ele se perdeu de si mesmo e se transformou nesse ser indesejado, rechaçado pela sociedade. Depois pensei em coisas aleatórias e apaguei.

Hoje, no mesmo horário de sempre, ele voltou. Ele chegou e uma pessoa logo se antecipou em lhe dizer para esperar do lado de fora, que o almoço já seria entregue.

Ele, subserviente, atravessou a rua, colocou no chão sua mochila suja, sentou-se na calçada, ao lado de uma lixeira. O Sol estava forte. Ele passava as mãos nos cabelos e na barba, frequentemente. Eu o observei de longe, do lado de dentro, por trás das grades. Entre nós havia crianças brincando na varanda, e a rua.

Os pensamentos da noite anterior voltaram com mais força. Não consegui almoçar mais vendo aquele homem com cheiro de decomposição, com trajes deploráveis, jogado como um lixo, na calçada. Não consegui almoçar não pela imagem em si, mas pelo o que ela representa.

Seus olhos estavam absortos. Em que será que ele pensava enquanto as crianças brincavam, animadamente, na varanda?

Esse homem já foi uma criança e somente nisso que eu pensava enquanto não continha mais o nó embolando minha garganta.

Em que esquina de sua vida ele largou de sua própria mão? Em que momento ele deixou de ter um nome e passou a ser coisa? Quando que a sujeira da vida cobriu sua dignidade? Quando foi seu último banho? Será essa a sua única refeição diária? Onde dorme?

Enquanto ele mesmo acarinhava seus cabelos e barba, eu me perguntava quanto tempo há que ele não recebe um carinho, um beijo de mãe, um abraço de filho.

Quando entregaram a ele a marmita, deram-lhe junto um copo d’água. Ele agradeceu. Bebeu a água num gole só e jogou o copo descartável na lixeira. Um trapo educado. Sabe agradecer. Sabe que lixo se joga no lixo.

Ele pegou sua mochila suja, a pôs nas costas e foi embora. Eu continuei com o olhar morrendo ali, do outro lado da rua enquanto as crianças gritavam, felizes, em suas brincadeiras.

Difícil acreditar que um dia, era o mendigo de blusa amarela que estava brincando em alguma varanda desse mundo.

 

DE TODAS AS BELEZAS, CORAGEM

13/09/2020 às 10h14

Frase do Allê Barbosa (@allebarbosza), por quem fui gentilmente autorizada a usá-la como título

É assustador olhar para trás e ver que engolimos abandono com casca e tudo. Que queimaram nossos sonhos mais bonitos no fogo da mentira. Que cortaram nosso ar sem um fio de remorso e derramaram gasolina sobre os cortes que nos fizeram sorrindo. Ainda estamos vivos.

Quanta coragem é preciso para ser assim, tão covarde? A decepção nos emudece, mas, incrivelmente, ainda estamos vivos.

A confiança evapora e agora todo mundo é um risco. O coração fecha suas portas e se encolhe no porão da alma. A máscara que caiu obstruiu o seu acesso. Quem sorria, mentia. Quem dava a mão, traía. Agora a estrada está vazia. Não há mais sonhos avançando os sinais da vida, não há ansiedade acelerando na curva, tampouco destino adiante. Não. Agora somos apenas nós e a bagunça. Sim, a coragem nos isola.

Passamos a chorar quando ninguém está presente, passamos a disfarçar nossas perplexidades e decepções diariamente. Assim vamos reforçando nos outros a imagem de fortes e bem resolvidos. No entanto, do lado de dentro somos escombros e coração destruído. Como isso ninguém vê, somos constantemente procurados para escutar histórias complicadas e selamos cada uma delas com um bom conselho. Inspiramos pessoas. Nos tornamos referência de equilíbrio. Sim, a coragem mente.

Intimamente conversamos sozinhos, tentamos nos habituar às porções individuais de pipoca e de carinho. Seguimos desabafando com o travesseiro, trocando os próprios curativos e tateando autos conselhos. Gradativamente vamos reaprendendo a enxergar no escuro desde quando explodiram nossas lâmpadas e envenenaram o Sol. Sim, a coragem ensina.

Aos poucos vamos nos equilibrando em liberdades forçadas, choros mudos, convivências rasas. Ninguém vê que, por dentro, estamos mudando conceitos, afiando a intuição, dissolvendo os medos, selecionando as companhias. Sim, a coragem transforma.

Nos remontamos. Sobram alguns pedaços, sempre sobram. De fato, algumas partes já não fazem mais falta. E incrivelmente nos sentimos mais inteiros do que nunca! Sim, a coragem nos prepara.

Embora ela fascine tantos à sua volta, ela não se encanta facilmente. A coragem é cara. Suas urgências são outras. Sua frequência, também. Coragem seduz coragem. Nos apaixonamos é pelas cicatrizes, pela coragem que o outro traz no coração. É raro, mas quando duas coragens se encontram…

Sim, a coragem nos reinicia.

COSTUME: A ANESTESIA MAIS PODEROSA

04/09/2020 às 11h25

Aos poucos é que você vai deixando de se chocar com as notícias sanguinolentas do telejornal. É aos poucos que você para de reparar no mendigo da esquina, no olhar triste do cachorro de rua.

Aos poucos você vai deixando de desviar do tapete de flores de ipê formado na calçada e aos poucos também você reclama do calor escaldante sem reparar nos tons de verde que o Sol revela quando incide nas folhas, nos dias mais quentes.

Aos poucos você vai se abandonando, empacotando sonhos, adiando urgências, anestesiando sentimentos.

Aos poucos você vai deixando de se arrumar para esperar o outro que vai chegar em casa cansado, vai fazendo pouco caso do beijo de boa noite, vai deixando de rir das brincadeiras, vai abandonando as flores que precisam da sua água, da sua atenção para viver…

É assim que matamos nossa humanidade, nossos sonhos, nossos parceiros, nosso olhar terno sobre tudo à nossa volta: nos a-cos-tu-man-do.

Que a maldade sempre te cause repúdio, que a injustiça sempre te entristeça. Que as flores deitadas no chão do teu caminho sempre te fascinem, que o outro seja teu desafio de viver a felicidade nas mínimas coisas do cotidiano. Por fim, que a anestesia do costume jamais encontre a tua veia e que sintas tudo quanto explode em cores, dores e amores ao seu redor, por pura humanidade e consciência do presente que é a vida!

EU NÃO ENTENDO

28/08/2020 às 16h47
Silhouette, group of happy children playing on meadow, sunset, summertime

Antes a gente tinha tantas limitações! Ter LP era ostentação. Conseguir uma versão acústica da banda preferida era um sacrifício, troféu digno para os Sherlock Holmes de plantão.

A gente ia à biblioteca e gastava horas selecionando livros para pesquisar um determinado assunto para o trabalho de Biologia ou de História.

A gente comia mais à vontade e era chique demais quem “fazia academia”.

No futebol, se a câmera não pegasse o lance em cima, a gente morria na dúvida se foi impedimento ou não. A gente morria sem saber se foi, se não foi, mas nunca admitia a dúvida.

A pessoa ia passar uma temporada no exterior e a gente ficava daqui seco, esperando por um cartão-postal.

E antes dessa geração, que tinha tantas limitações, tiveram outras com mais limitações ainda, geração de gente mais simples e tão mais feliz, quem sabe.

Os dias eram mais compridos, brincar na rua só depois de fazer os deveres de casa. Quando tinha pesquisa, nem pensar: era a tarde inteira procurando palavras ou figuras nas revistas mais antigas.

Quando a cigarra cantava, uma melancolia silenciosa inundava nosso coração: mais um dia estava se encerrando, hora de banho, janta e cama.

A gente escrevia cartinhas para as melhores amigas e respondia o caderno de perguntas com respostas confidenciais. A gente machucava o joelho de vez em quando e chorava mais pelo merthiolate do que pelo ralado em si.

A gente ansiava por dezembro, pelas férias da escola, pelo verão na praia e pelo reencontro com os amigos na próxima série, com o material novo e às vezes, a mochila também.

Perder uma ligação era uma possibilidade de nunca saber quem ligou, deixar de atender uma ligação era uma maneira infalível de não ser incomodado, não havia plano B.

Não havia forma de saber muito da vida do outro. Não havia muito jeito de ofender pessoas que pensavam diferente, isso era bem limitado, as opiniões eram expressadas nas rodinhas de amigos fosse na calçada de casa, fosse num boteco.

Eu sinto tanta saudade desses pequenos mistérios que existiam acerca do outro, eu sinto saudade dessa privacidade velada sob essas limitações cotidianas. Eu sinto saudade até do lamento da cigarra no fim da tarde, que as crianças de hoje nem sabem como é, e eu não entendo como podem ser tão ilhadas, com seu tablets na mão.

QUANDO NÃO ENXERGAR BEM É VER ALÉM

21/08/2020 às 15h24

Tenho um compromisso sagrado todas as noites: andar com a minha cachorrinha. Quando chego em casa do trabalho, no fim da tarde, ela não só me recebe com aquela felicidade de quem não me vê há meses (mesmo tendo me visto no almoço), como fica me seguindo pela casa, ansiosa por nosso passeio noturno.

Quando eu finalmente pego a guia, ela começa a pular, fica num desespero absurdo e eu sempre dou uma bronca nela, mas ela nunca sossega, e eu respiro fundo porque a amo.

Há pouco tempo comecei a levar o celular para nossas caminhadas, para ir ouvindo minhas músicas preferidas. Vai a Luma à minha frente, cheirando tudo quanto é canto da rua, e eu atrás, absorta em minha playlist.

Hoje, além de levar o celular, decidi deixar meus óculos em casa. Foi ousado, eu sei. Praticamente um perigo. Afinal, tenho quase três graus de miopia e só tiro meus óculos para tomar banho e dormir. Sou uma verdadeira refém deles. Pois hoje os larguei em casa e fui para a rua com a dog.

No início eu estranhei bastante, mas aos poucos fui habituando meus olhos e logo eu estava me sentindo num quadro vivo de Claude Monet.

As pessoas que passaram por mim eram vultos. Às vezes maiores, às vezes, menores. Se eram homens ou mulheres, jamais saberei.

As luzes dos postes, dos faróis, semáforos e alertas de garagens eram borrões tão grandes e tão bonitos, que enfeitaram o cenário cotidiano.

Passamos em frente a um prédio que tinha luzinhas padronizadas, do primeiro ao último andar em sua fachada. Elas pareciam luzinhas de Natal na imensa árvore distorcida de concreto.

Até o toque do vento nas folhas foi diferente. No desfoque de minha visão míope, o que vi foi um carinho em câmera lenta. Foi aquele grande borrão verde para lá, que lentamente voltou para cá, sob o tom amarelado das luzes da rua.

Quase chegando ao nosso quarteirão, o vento soprou mais forte e provocou uma chuva de folhas secas: cena que sempre me emociona muito. Entretanto, hoje eu não consegui enxergar as folhas, mas vi uma revoada de borboletas. Elas estavam tão vivas, que bailavam em todas as direções, livres e graciosas.

Já na nossa rua eu me senti completamente criada por Monet, integrante de uma de suas telas, onde a Arte reside exatamente na falta de exatidão. Me senti livre como as borboletas em sua revoada, sem conseguir delinear as pessoas como elas se apresentam, o concreto em sua forma rígida, as luzes com suas agressões pontuais.

A última coisa que olhei antes de entrar no prédio foi a Lua. A ausência de minhas lentes “corretivas” me fez vê-la como pude: cheia, em toda sua magnitude. Contudo, diz o calendário que hoje ela está crescente. Azar de quem acredita.

AINDA SABEMOS?

14/08/2020 às 11h56

Isolados, provamos nossa união enquanto o silêncio lá fora grita tensão. Seu eco chega aos nossos ouvidos com o peso imperceptível de um planeta adoecido.

Há quem duvide do perigo. Há quem morreu sem tempo de duvidar.

O silêncio continua a incomodar.

Estamos em casa com a rotina – e a alma – quebradas. Sem trânsito, sem depósito bancário ou fila na burocracia civil. E pela primeira vez isso não significa paz; e pela primeira vez isso é insuportavelmente pesado para carregar.

O medo do vírus letal pulverizado no ar que respiramos tão mecanicamente até agora, nos coloca dentro de casa, à força, e dormir até mais tarde ou não ter preocupações com relatórios e prazos não significa férias, tampouco tranquilidade.

Essa pane mundial veio, sobretudo, destacar nossas futilidades. Corpos perfeitos são tão suscetíveis ao terror invisível quanto aos sedentários e fora do padrão. Status não nos diferencia em absolutamente nada. Bens materiais, carreira, projeção… pega tudo e guarda bem guardado na quarentena, irmão!

Qual é o preceito da imunidade?

Que nível de inteligência exclui o risco?

Quanta beleza torna-te intocável?

Estar em casa forçosamente no intento de preservar a segurança tem nos atordoado. Quem diria que estaríamos em pleno século XXI trancados (desconfortavelmente) no conforto de nossos lares, exalando o mais primitivo dos instintos?

Do nada, o inadiável foi adiado.

O urgente tornou-se um plano vago e incerto.

O imparável parou.

O impossível é realidade.

De repente a possibilidade de adoecer nos mostra que já estamos doentes há décadas, que começamos a morrer quando excluímos os amores da lista, por falta de tempo. Não! Relatórios não são mais importantes que conexões de almas. Conferências não sobrepujam laços afetivos. Negócios não são mais rentáveis que emoções.

Há um fio entre o amor e a alma, e é por ele que corre a vida. Sem amor somos meros arquétipos, somos exemplares ocos, robotizados, frios.

Anelo que a faísca de amor que ainda resiste em nós não se apague. Só pelo amor temos a chance da convalescença.

E eu sei que sim, ainda sabemos amar.

Ah… ainda sabemos sim!

SER CONFIÁVEL: IMPOSSÍVEL OU NEGOCIÁVEL?

09/08/2020 às 21h47

A gente trai quando muda o comportamento na ausência do outro; quando diz que se importa, mas sempre que pode, diz por aí que não tem um alguém.

A gente trai quando maltrata sem filtro e se justifica depois dizendo que foi por conta do momento ruim da vida. A gente trai quando vê, mas não olha; quando presenteia para compensar uma grosseria; quando abraça, mas evita; quando ouve, mas não escuta.

A gente trai quando usa o passado para torturar o presente; quando só dá a mão quando o outro nos serve de troféu.

A gente trai quando anda insaciável à procura de novos “esquemas”; quando mantém os contatinhos no chip reserva; quando finge trabalhar durante a madrugada para se sentir com privacidade nas redes sociais.

A gente trai quando a sinceridade é pura teoria; quando apaga conversas e deixa o outro à vontade para “ler o que quiser”. A gente trai bem vestido, olhando nos olhos, mas fazendo planos onde só cabe a gente mesmo.

E a gente se trai insistindo nesse desprezo delicado, mimetizado em gestos sorridentes, mendigando pela vida que não transborda, mas goteja na esperteza de uma rotina sem brilho onde falta a verdade que a gente tanto defende, mas não vive porque tem medo de ser traído.

Confiar é difícil, mas ser de confiança valida o risco!

A ARTE É UMA DOR QUE BRILHA

31/07/2020 às 08h47

Clarice foi chamada de “hermética”. Era a arrogante antissocial. Conviver era algo mui difícil para ela. Van Gogh decepou a própria orelha para fazer um autorretrato. Florbela se matou aos 36 anos depois de 03 casamentos conturbados. Pessoa morreu de cirrose alcoólica [Shakespeare, em teoria, também]. Virginia Woolf se matou afogada porque não suportava mais os episódios de seu transtorno bipolar que afetavam seu casamento. […] A lista é infinita. O legado artístico deles, mais que infinito.

Eventualmente me pego imaginando como era difícil e conturbada a convivência com cada um deles e, em contrapartida, como era difícil para cada um deles a incompreensão parental, familiar e social. Pessoas atormentadas, de poucos ou nenhuns amigos, de explosões de ideias, oscilações entre o magnetismo e o silêncio sepulcral. Sempre intensas. Imprevisíveis. Efusivas. Melancólicas. Às vezes tudo isso num mesmo dia.

Para todo artista chega o dia em que a ficha finalmente cai: não adianta tentar explicar o que nem ele próprio compreende. Ser “normal” é um desejo irrealizável. Cabalmente a culpa evapora. Simplesmente não há culpados. Enfim é admitido que existe uma discrepância estratosférica de intensidade e percepções entre as pessoas e, o mais sensato – eu diria até, mais prático -, é parar de tentar justificar tanta “esquisitice”. Daí a solidão – inevitável, desejada e enlouquecedora solidão.

Fato é que “somos todos iguais” desde que não mostremos nossas diferenças. O problema é que elas brilham.