Revista Statto

A IMAGO DEI (IMAGEM PROJETADA DE DEUS)

07/10/2020 às 13h47

Todos nós temos que construir alguma imagem de algum objeto ou experiência para podermos relacionar com a realidade.  É uma necessidade de nossa percepção e de nosso plano mental, que é representacional…  Deste modo nossas palavras, no mais das vezes, se referem a objetos ou coisas, a vivências práticas e cotidianas, como se pode ver nas conversas normais entre as pessoas. Evita-se propositalmente o uso de palavras que se refiram a experiências não cotidianas. Naturalmente, há todo um reino de experiências igualmente possíveis a nós humanos, que exigem outros tipos de interpretação, analogias, metáforas e uma compreensão que vá além das palavras.  Uma delas é a experiência da religiosidade.

Psiquicamente nós construímos uma imagem de Deus com a qual possamos interagir e relacionar.  Não que Deus possa ser considerado apenas como um objeto, mas sim que necessitamos de um OUTRO com quem nos relacionarmos, imaginamos um OUTRO plano, mas como esse plano não se objetifica para nós, então a alternativa é imaginarmos ALGUÉM com quem dialoguemos. É neste sentido que se pode falar da construção, para cada um de nós (e também para toda uma coletividade ou civilização em seu tempo histórico) uma Imagem de Deus é construída.

Já que nós nos conectamos à imagem que do Deus nutrimos. Vou procurar descrever as principais características das “Imagens de Deus” comumente experimentadas.  Psiquicamente a Imagem é para nós o OUTRO da relação, com quem mantemos algo como um diálogo.

Quantos projetam fora de si um Deus punitivo, que persegue, que vigia, que castiga os “pecadores” com terríveis sofrimentos? Pois bem, esta é uma construção muito comum da Imago Dei.  Como exemplo lembro aqui que o povo judaico desde tempos ancestrais nutriu esta Imago: a de um Deus vingativo, nervoso, punitivo, sempre sujeito a repentes de castigar, punir e destruir tudo o que divergisse dos seus desejos e intenções. Esta construção da Imagem Divina permanece ainda muito forte entre nós, pois ela carrega muito do que é a nossa experiência com o Pai, as autoridades do mundo (professores, padres, pastores, polícia, governo).  Imagina-se então uma imagem de Deus punitivo, persecutório, que nos vigia e que nos castigará se divergirmos de suas concepções morais a respeito, p.ex., do certo e do errado.

Esta é, em verdade, uma projeção patriarcal de nossa ego-pensada realidade. Ele representa em nós as autoridades do mundo, os juízes, os diretores, o julgamento moral coletivo e ele nos faz teme-lo, pois se não seguirmos as regras e regulamentos dele emanados seremos castigados com o fogo do inferno.  Em cada ser humano civilizado existe internalizada uma dimensão de moralidade que julga e que condena cada um dos nossos comportamentos, exatamente como nos condenaria a comunidade ou a família, pois estes valores são comungados e tornados funcionais através do medo internalizado da punição e castigo.

Para nós, nesta reflexão, nos ocupa a possibilidade do castigo divino que está incrustrada na imagem do Divino assim nutrida.  Neste sentido, comungamos uma noção em que todo o Bem é projetado no Deus e todo o Mal sobra para algum outro lugar: o mundo, a vida material, nós pecadores, que já nascemos em dívida com ele. Somos pecadores e desagradamos a Deus em todos os sentidos, a menos que demonstremos nossa submissão e devoção a tudo que “ELE” de nós queira…

Em verdade a Imago de um Deus é, primeiro instalada pela cultura e família, então depois repetida e por nós projetada na realidade vivida.  Sua dimensão psicológica precisa ser reconhecida antes que possamos pensar nas consequências disto para o nosso existir concreto.  Quando eventualmente nos sentimos dialogando com Deus, em verdade estamos dialogando com a Imago que dele nutrimos.

No mundo cristão (que depois construiu uma concepção do Divino) primordialmente refletiu uma Imago Dei com componentes que Jesus ensinava, como um Ser de Amor, de plena compaixão e um Pai que a tudo acolhe com compreensão e perdão. Nisto Jesus diferia totalmente da Imago Dei que o povo judaico e suas autoridades religiosas nutria. Posteriormente, poucos séculos depois, mediante a codificação do cristianismo pelas autoridades competentes censurou-se evangelhos considerados discrepantes, estabeleceu-se que Cristo nada tivesse mais de humano e muitas outras decisões que passaram a compor o regulamento do cristianismo, seus rituais, justificativas e valores. Não cabe, nesta reflexão, mergulhar nos meandros desta construção histórica da Imago Dei atual.

Em verdade a Imago de um Deus é, primeiro instalada pela cultura e família, então depois repetida e por nós projetada na realidade vivida.  Sua dimensão psicológica precisa ser reconhecida antes que possamos pensar nas consequências disto para o nosso existir concreto.  Quando eventualmente nos sentimos dialogando com Deus, em verdade estamos dialogando com a Imago que dele nutrimos.

De modo bem oposto pode-se construir uma Imagem de um Deus que é Amor e que é bonzinho e tem para conosco infinita misericórdia, pois apesar de sermos pecadores imundos ele nos perdoa de tudo.  Claramente isto constitui uma compensação para a outra Imagem de Deus. Ambas convivem no imaginário de todos.

As autoridades do mundo, dentre elas os padres e pastores (e outros tipos de “arautos divinos”) são, nesta Imago Dei, os que se arvoram representantes do divino na terra, elas ditam o que este Deus espera de nós.  Somos então tratados de modo trágico e pessimista, não como crianças dignas da confiança das autoridades, indivíduos que um dia compreenderão o sentido das leis e dos regulamentos, mas como seres imaturos que jamais poderão comungar em consciência do sentido e do valor da lei.  Estas autoridades punitivas se alicerçam nos medos coletivos da punição divina e imperam sobre a comunidade com a ameaça de terríveis castigos.  Tudo que é divergente da concepção geral é pecaminoso e deve ser evitado. Polariza-se então entre o que é o Bom, o Certo e o que é o Mal, o Errado. Nenhuma destas autoridades confia que a consciência individual possa escolher o Certo em face do Errado por seus próprios meios e recursos. Todo homem tem que ser disciplinado e vigiado de fora. Toda consciência tem que imaginar que está sendo vigiada e que a punição pelos desvios é certa e inexorável.

Cada ser humano perde-se da noção de ser filho do Divino, ter seu lugar na Mãe Natureza e a de ser um processo inacabado e em desenvolvimento.

Deste modo a Imago Dei tornou-se castradora da experiência, da divergência, da aventura, da invenção, da criatividade, da sexualidade, da espiritualidade e da intuição humanas.  Cada pessoa nesta coletividade age com medo dos olhos dos outros, mas principalmente dos olhos divinos que a vigiam em toda parte.  Parece piada, mas neste sentido a imagem de Deus tornou-se especializada e civilizada já que representa os valores embutidos nas instituições humanas e na civilização desta época histórica.  Quase se pode tropeçar nele enquanto nos movemos, tamanha a materialização que esta imagem sofreu. Esta imagem se afasta diametralmente do Divino como univérsico, como feminino representado na Natureza, como criador da Vida e da Inteligência. Perdeu sua dimensão de ser “Além Humano”, Fonte Primordial de Tudo, Divino e Espiritual.

Não precisa pensar muito para compreender a razão disto tudo: neste processo o ser humano é uniformizado, limpado de seus instintos divergentes, impedido de questionar e de pensar por si mesmo. Resultado: este homem assim robotizado e programado pelas autoridades de plantão é mantido em uma condição de autonegação e de repressão ao seu Ser. Sua consciência individual, nestes termos, não tem oportunidade de se projetar em sua existência. Esta Imago Dei é a de um ser autoritário, impessoal, punitivo, de cujo castigo devamos fugir sempre. Esta Imago reside no interior de cada indivíduo, no seu íntimo e lá foi instalada pelas autoridades de plantão, de modo a obter controle e poder sobre as escolhas pessoais, que passam a refletir unicamente o que se pensa, o que se faz, o que se explica e o que se é.

No mais das vezes esta Imago Dei costuma ser uma projeção psicológica totalmente antropomórfica (cá ente nós, genericamente branco, de barba branca e vestindo branco…), a quem devemos apenas a submissão e a devoção ao poder maior, que se apresenta masculino. Esta Imago Dei reflete o genérico comungado em detrimento do individual.  Ela se personaliza de inúmeras maneiras, no padre, no pastor, no professor (a), no pai, na mãe, no sargento, no bedel, no capitão, no gerente, no patrão.  Ela é uma Imago Dei geralmente patriarcal e castradora (com um olhar severo).

Não importa o tipo de instituição social, esta crença em uma Imago Dei dotada de valores morais indiscutíveis é impingida, desde cedo, em todos os submissos a ela, não se restringindo a seitas deste ou daquele tipo (grupos, famílias, educação, governo, religião).  Ela constitui, ´psicologicamente, algo como uma consciência moral comungada.

Neste contexto, nos faltando uma Imago Dei mais democrática, que pudesse nos inserir nela mesma, nos deparamos com um estado de abandono e de exclusão, pois não nos sentimos como uma parte integrante do Reino Divino. Acabamos todos apartados da criação divina e fica difícil alguém nutrir uma relação com algo assim que se mostre muito frio e seco.

Em verdade a Imago de nós mesmos é a de pecadores, traidores do Divino, castigados por nossa indiscutível podridão.  Interiormente a projeção que sobre nós recai é diametralmente oposta. Se projetados nele unicamente o Bem, para onde irá o Mal? Nossa mentalidade concreta exige uma construção de algo oposto, então o Mal, desligado da Imagem de Deus reinante, recai sobre o mundo, sobre todos os aspectos dos seres vivos, desejos, ambições, interesses e ações.  Como consequência natural somos induzidos a assimilar o Mal.  Cria-se uma dívida impagável com o Divino e por aí vai…

Acabamos, por um lado dependentes e por outro lado ressentidos com um deus que não nos dá a esperada acolhida (lhe faltam os componentes femininos). Só recebemos aprovação das autoridades quando nos comportamos dentro do rebanho uniformizado. Somos seduzidos pela máxima: “Se reprimirmos eficientemente nossa individualidade poderemos ter paz e alcançar o sucesso”.

Neste contexto repressor, divergir ou ser diferente é sempre perigoso.  Agir por uma consciência individual (e presente em seu livre arbítrio) é sempre tratado como uma possível ameaça ao social e ao coletivo. Portanto, nos sentimos sempre em dívida com as autoridades (o Pai, a Mãe, o professor (a), o padre, o pastor, o Divino) sendo vistos por elas, na nossa imaginação, como indignos de sua aprovação e aceitação.  Claro que, naturalmente, as pessoas podem, a grosso modo, dividirem-se entre os conformados com esta situação e os rebeldes a tudo e a todos.  O radicalismo toma conta de tudo.

Solucionar os erros na criação do Mundo? Deixemos isto para as autoridades do Mundo, para os Dominantes do Mundo, para os que amam a certeza e o controle sobre “Tudo e sobre Todos”. Estes são seres egoficados, submissos a um plano de consciência inferior e incapazes de compreender o sentido ou finalidade possível da Vida, da Consciência em desenvolvimento continuo neste mundo, são incapazes de ver a orquestra por trás dos sons que ela emana. Se a vissem construiriam outro tipo de Imago Dei.

Desde tempos imemoriais a humanidade conscientizou que tudo tem dois lados e os indivíduos sujeitos a esta Imago Dei sentem-se indignos da acolhida e do perdão divinos, conformam-se com sua situação desfavorecida e procuram compensar a desvantagem “vendendo suas consciências” aos interesses das instituições em busca de suas benesses e favores.

O que seria então esta Alma que pode ser vendida? A “Ela” podemos dar o nome de Consciência.

Mesmo sem professar nenhuma espécie de religião nem se alinhar às fileiras de alguma seita é naturalmente possível ser religioso. A religiosidade pode ser vivida nutrindo-se uma Imagem de Deus impessoal, não antropomorfizado, um poder Supremo. Pode-se sentir que um poder Unívoco rege os destinos e caminhos do Universo. Esta experiência do Infinito que se manifesta em todas as suas partes, do TODO que está em Tudo, nos coloca numa posição de liberdade e de paz, quando nossa consciência desperta para descobrir que pode se cosmificar, sentir-se em comum sintonia com o Todo, como se fosse um Filho ou Filha dele.  Mas isto não significa antropomorfizar Deus como um Pai bonzinho e que lá está para atender os nossos desejos, não tem nada a ver… Não se faz necessário.

Há uma consciência ego-pensante extremamente dependente e sintonizada com a realidade física, já que, neste sentido, o ego é nossa ferramenta de realização (de algo) no mundo físico (não por acaso ele pode executar ações voluntariosas na direção de interesses pessoais, ele domina a musculatura voluntária). Ganhamos um ego ao cair do Paraíso e necessitar recuperar nossa participação no TODO, na Criação Divina.  A interpretação de que este acontecimento foi um castigo e punição não se obriga, ainda que a nós tenha sido impingida desde sempre.

Sentindo-nos apartados de Deus estamos todos em estado de abandono e ressentidos com ele. Em verdade, é com a nossa Imago Dei que estamos encrencados.  Se nutríssemos outra Imago Dei o resultado seria outro.

Esta é a experiência natural de uma consciência mais desenvolvida. A consciência cosmo-pensante abarca compreensões, abarca o pensar por analogias, a ação com base intuitiva, os impulsos artísticos, a inteligência emocional, a submissão às leis maiores do plano vivido e da maturidade (conhecida como Sabedoria). É muito fácil não perceber uma fronteira delimitadora entre estas duas dimensões básicas da consciência humana.

Sentir-se Uno com algo como a Alma do Universo, comungar e compreender o jogo das mutações (como no I Ching chinês) e aventurar-se na meditação de algo como o Tao Chinês (Caminho do Meio), entender o sentido mais profundo e quase perdido da mensagem de Cristo, comungar com as leis que nos despertam para uma realidade mais ampla e mais univérsica, são apenas expressões menores do que significa sentir-se Uno com Deus. Há muito mais consequências em uma experiência como esta.

Religiosidade é aceitar que o Todo é Luz e é Sombra, é Dia e é Noite, é masculino e Feminino, Bem e Mal, Certo e Errado, Virtude e Defeito, tudo ao mesmo tempo, pois assim se mostra para nós a realidade existencial do Homem. Vencer as idiossincrasias e os maniqueísmos da vida Ego pensante é parte do desafio.  Este tipo de compreensão dá um nó nos ego-pensantes e torna-se uma espécie de charada insolúvel ou o desespero da desorientação no labirinto.

Atingir algum grau de integração entre suas partes constitui um item importante na construção de um caminho para o desenvolvimento da consciência cosmo-pensante. Integrar opostos, notar que a realidade é construída de paradoxos e que estamos todos, indistintamente, expostos aos mesmos e reiterados desafios: despertar do sono ego pensante e sofrermos uma transformação em nossa experiência de nós mesmos e do mundo. Ao final, não terá sido o mundo ou o divino que se transformou, foi algo ocorrido em nós mesmos.

E este é o tipo de experiência humana que jamais poderá ser implantada e nem condicionada de fora. O meio exterior, o social, o comunitário só pode fazer três coisas: ajudar, ser neutro ou atrapalhar. Esta experiência redentora só pode realizada pela consciência individual.

O QUE ESTE MOMENTO PODE NOS ENSINAR?

14/09/2020 às 22h03

Indo direto ao ponto que este momento de pandemia nos traz, temos que nos render à realidade que nos é impingida psicologicamente.

A quebra das rotinas de pensar, de ser, de fazer está consumada. Não estamos conseguindo manter nossas rotinas, nosso robô habitual, nosso piloto automático está desorientado e o temor, a insegurança, o medo de ser sermos “atingidos pelo minimicroorganismo“ reduz o nosso horizonte e faz foco no coletivo, na mídia e no social como se as soluções, como sempre, devessem vir de cima, de fora e assim tudo voltaria ao normal. Esta queixa é a do seu robô internalizado, seus condicionamentos, que não estão conseguindo se perpetuar.

No entanto, este é um momento em sua vida que pode lhe trazer um horizonte muito amplo de possibilidades e alternativas, porém fora das fronteiras confortáveis do conhecido e do rotineiro. Mas nada vai lhe ser dado de graça e nada de muito especial lhe despertará do seu transe se você não quiser.

O que poderia lhe fazer acordar do transe e das programações instaladas soará interiormente como uma revelação.  Qual?!

Você pode morrer!  Seus entes queridos podem morrer! O “sistema” pode morrer! A economia pode morrer! Algo de muito poder poderá desestruturar todo o processo civilizatório num piscar de olhos! Um meteorito, a vontade de um Deus punitivo, o fim do equilíbrio ecológico e.…, a possibilidade da sua morte, da sua, não as dos outros.

Esta pandemia está trazendo à luz está pseudo-novidade, como se fosse algo novo, mas isto se deve ao fato de que a Morte está, em nossa cultura como “aquela coisa que nem devia existir, muito chata, mas que felizmente só atinge aos outros”! Seria engraçado pensar assim, se não fosse triste…. Ao sair da censura, da negação cotidiana, ela encara cada um de frente e mostra a sua face neutra. Ela é democrática e atinge a todos igualmente, ricos e pobres, pois todos estamos vivos neste momento e a vida que está em nós é um fenômeno transitório, impermanente.

Nossa cultura ególatra (adoradores do ego) sempre tratou a Impermanência de tudo e de todos como uma coisa abstrata. Todo ególatra, aparentemente, se sente imortal.

Você sempre adiou o dia e a hora de pensar ou sequer lembrar que pode e que deve morrer.  Se continuar nesta atitude de negação e defesa provavelmente vai se entupir de notícias a respeito das mortes ou do perigo de morte dos outros. E continuará ainda mais adormecido…

Ficar entretido diante das más notícias e do possível crescimento do processo chamado pandemia parecerá lhe trazer algum conforto, pois está lá fora, longe de você e dos seus.  Claro que aqueles muitos desafortunados (pecadores, talvez?!), que estão, ainda que sem a sua escolha, mais perto da própria morte ou da realidade da existência dela, não poderão desfrutar desta distância, mas você, enquanto pode, dela desfrutará. Pura ilusão.

Mais fácil e saudável seria deixar que uma oportunidade de transformação verdadeira e evolução de sua consciência de si mesmo se aproximasse do foco da sua atenção.  Melhor seria parar de adiar esta experiência e deixar-se tocar pela possibilidade de morrer.  Pare de sentir a nostalgia dos tempos em que tudo era rotina e você podia viver adormecido e inconsciente de si mesmo. Nossa própria morte pode, se assim o desejarmos, ser uma grande professora e grande instrutora. Ela nos ensina sobre a dimensão psicológica do Tempo e sobre alcances e limites de nosso existir.

Para dar alguma realidade à sua própria morte, você ou alguém próximo precisa estar infectado, só assim você acreditará?  Só o risco de vida despertará a atenção para a sua morte?

O medo, o pavor, o sofrimento, a insegurança e a ansiedade não despertam ninguém do transe ególatra, só servem para piora-lo. Serão estes, talvez, o próprio transe! O medo não vai afasta-lo do transe.

E tudo isto por não conseguir abdicar de estar no controle de tudo, de sua existência e sobrevivência?! Tudo vale para não ter de aceitar qualquer dose de impotência e passividade diante do inevitável???  Pois é…  O transe ególatra precisa muito disto, precisa estar no controle, precisa sentir estabilidade mesmo diante da instabilidade e impermanência da vida em si mesma.

E agora que o controle aparente sobre a própria morte está sofrendo torpedeamentos severos de todos os lados?

O que se oferece agora, sem muita escolha da sua parte, é a oportunidade de você parar de se comportar como um imortal.   O que está batendo à sua porta agora (e que depende de você deixar entrar em sua casa psicológica) é a possibilidade sempre concreta do fim do seu tempo de vida. Nossa espécie, como uma maravilhosa expressão da Vida, sobrevive ao Tempo, mas nós, seus integrantes não sobreviveremos. A impermanência de todos que hoje estão vivos é algo do qual não vale a pena fugir, negar, evitar, reprimir, censurar ou condenar.

Este momento agora vivido está nos dando uma oportunidade de nos curarmos da egolatria, de nos transformarmos, de evoluirmos em consciência e despertarmos durante e após esta crise.  O momento vivido nos pede que mergulhemos em nossos íntimos, que usemos o tempo para nos perguntarmos o que estamos fazendo de nossas existências. Que nos sintamos unidos e ligados uns aos outros, todos “no mesmo barco”, todos diante dos mesmos desafios.  O sofrimento, a dor e o medo não libertam ninguém, mas o Amor une e liberta, a compreensão une e liberta. Nos impactua hoje o sentimento de estarmos todos igualmente expostos diante da possibilidade da morte e que não nos propicia qualquer oportunidade de escolha.

O ego tem o seu lugar, ele é o nosso meio de realizarmos algo, de marcarmos nossa presença na realidade, mas não cabe a ele encontrar respostas para algo como o seu possível fim. Nossa consciência humana pode/precisa/deve ir além dele e além das fronteiras confortáveis do conhecido e do familiar. Quando isto se oferece, barreiras rígidas e duras de defesa caem por terra e podemos despertar de uma ilusão.

Então, diante do fato aceito e palpável de que o seu tempo de existência é finito, assuma a responsabilidade de dar maior sentido à sua vida. Medite um tanto, “converse com os seus botões”, preencha seus momentos com algum silêncio, com relaxamento dos seus músculos, deixe um pouco de lado preocupações quanto à sua vida corrida e suada. Deixe de lado por algum tempo, todos os dias e noites, a submissão passiva aos processos coletivos, sociais e gerais.  Ocupe-se de si mesmo, do “Si-mesmo” e mergulhe em seu íntimo na procura de respostas que sempre procurou fora de si.  Recolha-se à sua pequenez aparente e descubra-se do tamanho do universo, pois os desafios que estão postos são iguais para todos e é diante deste tipo de desafio que alguém pode despertar e ser iluminado de uma consciência atemporal, extensa, profunda e além-Ego.

Somos treinados desde criancinhas a procurar respostas no coletivo e no meio social para desafios.  Em um primeiro momento parecerá existir um vazio no seu íntimo, mas insista e descobrirá um reino pleno de alternativas e possibilidades diante de si.  Nestas horas não nos importa o que o mundo quis fazer de nós e, sim, o que queremos fazer a respeito do que o mundo quis fazer de nós. Deixe de ser apenas vítima dos seus pais, das autoridades, do governo.  Experimente-se assumindo suas possibilidades de ação, descobrindo seus limites e alcances.

Afaste-se psicologicamente das catástrofes apocalípticas e do medo coletivo. Conquiste algum espaço de liberdade individual neste momento de certo pânico coletivo. Compreenda o que isto é. Busque seu lugar e pertencimento a tudo que você vive e viveu até agora. Encontre-se na experiência do seu tempo pessoal e vivido. Coloque-se como um elemento integrante da sua agenda.  Você tem que estar na sua agenda, tem que dar tempo a si mesmo. Isto lhe chegou agora, pela pandemia, mas você poderá ficar distraído e não saber usar este tempo disponível para iluminar os caminhos pessoais, individuais e intransferíveis. Seu compromisso e responsabilidade consigo mesmo precisa ser cumprido e ele se revelará se você se mostrar disponível e se soltar, deixar-se tocar pelo que em você é atemporal, eterno, transcendente e imanente. Não há explicação completa para o como isto é possível em nós ou, vice-versa, muitas explicações e justificativas foram e são tentadas, mas mais importante é nos expormos à experiência propriamente dita.

Em você tem que existir o fora e o dentro, o que é seu e o que pertence aos outros, o pessoal e o coletivo. São naturalmente opostos, aceite isso. Temos que ter uma fronteira delimitadora do que é individual para que possamos nos situar perante o que é coletivo ou impessoal.  Muita coisa nos une aos outros, mas muita coisa nos cabe individualmente resolver e viver.

No que se refere à morte, a única morte real que existe é a sua própria. Comparado à realidade e ao impacto de sua própria morte, a morte dos outros parece não passar de um fantasma, ameaçador, porém nem tanto… Só a consciência da própria morte pode nos acordar do transe.

Você está se envolvendo mais humanamente com seus próximos? Reduzindo e/ou resolvendo conflitos e confrontos com os outros? Se ocupando do que sempre desejou fazer, mas nunca teve tempo livre? Refletindo sobre que caminho dar à sua profissão ou trabalho?

Caindo em si ou perdendo-se na paranoia coletiva?  Às vezes, temos que fazer escolhas e tomar decisões individuais e intransferíveis.

Você se sente mais encarnado em seu próprio corpo? Está libertando-se dos regulamentos comungados em grupo, na igreja, no templo, na empresa, na família, no partido? Revendo-se e colocando-se em perspectiva diante deste momento de sua vida?

Se isto que estou obviamente sugerindo está acontecendo, no todo ou em parte, demonstra que o seu vazio existencial de pessoa sempre ocupada, correndo, ansiosa e insegura poderá ter uma cura, uma solução, um desenlace, uma libertação…

Parabéns, neste caso, você está tirando algo de útil para si nesta pandemia.

Aproveite a oportunidade e aceite sua impermanência. Só poderá lhe trazer um grande bem.