Revista Statto

A POBREZA CONSISTENTE NAS DISCUSSÕES DE INTERNET

14/10/2020 às 21h35

Nas mídias sociais residem muitas discussões sobre os mais variados assuntos. O problema é que os debates gerados costumam ser pobres e estúpidos, independente da seriedade do tema.

Pessoas de todas as idades adoram afirmar o que não tem certeza. É extremamente comum de se ver pessoas achando que sabem quando, na verdade, não sabem sobre o assunto que está falando. Nem sempre realmente pesquisam sobre e, quando pesquisam, costumam pesquisar por 15 minutos e já consideram suficiente.

Para mim, a problemática surge pelo desejo vicioso de afirmar que ignora as razões básicas do ser humano evoluído. Somos viciados em afirmar, mas isso não é bom. Não é difícil de se pensar que você deve estudar bem sobre algo antes de falar sobre, assim como não é difícil de pensar que você deve estudar, principalmente, o lado que você vai criticar, mas parece que isso é o que as pessoas mais fazem.

Falo também por experiência própria, pois já fiz isso muitas vezes, mas hoje tenho uma noção bem maior da importância de conhecer sobre o que vou dizer. Por isso temos que sempre pesquisar bem o outro lado da moeda antes de criticá-lo. Como quer domar um leão se você não sabe como um leão age?

O puro deboche é outra coisa que os usuários de redes sociais adoram usar como se fosse um bom argumento. Já cansei de presenciar posts onde o autor mostra seu o ponto de vista de maneira argumentativa e, nos comentários, os usuários dizem coisas como “olha, tem que ter coragem porque noção passou longe.” Como se um deboche desses refutasse um argumento.

Com esse deboche, a pessoa demonstra imaturidade diante de um debate, abre portas para um debate de quinto ano onde o deboche e a ofensa é o principal e empobrece ainda mais a discussão.

E pelos deboches, surge, também, o esvaziamento de termos. Como o de fascista, que usam como se significasse apenas autoritarismo, quando, na verdade, se trata de algo bem mais complexo do que isso.

Além dos deboches, as falácias lógicas mais óbvias ainda são muito comuns na internet. Como a do Argumentum ad hominem, que é quando você ataca o adversário ao invés dos argumentos dele.

Argumentos anticientíficos ainda não deixaram de ser comuns. Acredito que um dos maiores problemas disso é pelo fato de que as pessoas, quando se informam, se informam por sites de notícias em que o foco não é a ciência e não por sites dedicados à ciência, que seria o mais seguro. Por isso, ainda existem pessoas que afirmam que a homossexualidade, por exemplo, é fruto de comportamento. Se você conhecer alguém que acredita nisso, desafie ela a encontrar um site de ciência defendendo isso.

E um dos motivos indiretos para essa pobreza argumentativa são os vieses cognitivos. Como o viés de confirmação, que é quando interpretamos uma informação de maneira tendenciosa para confirmar as nossas hipóteses e crenças. Ou o efeito adesão, que é quando fazemos ou tomamos decisões apenas porque um grande número de pessoas fazem. Ou seja, são atitudes irracionais, portanto, devemos diminuir a frequência com que caímos nesses vieses cognitivos.

Por isso, é importante se informar muito bem sobre os dois lados da moeda, se autocriticar, agir racionalmente ao invés de emocionalmente e só afirmar quando sentir que está realmente pronto para isso.

VOCÊ NÃO TEM MATURIDADE PARA MUDAR DE OPINIÃO

12/10/2020 às 09h32

Você acha que você tem maturidade para mudar de opinião? Bom, acredito que, provavelmente, você tem bem menos maturidade para isso do que imagina.

É óbvio que, assim como na maioria dos artigos, esse título é um exagero. Porém creio que não está muito longe da realidade e ele pode até ser 100% correto dependendo de quem está lendo. Mas vamos refletir sobre o que pode levar uma pessoa a não ter maturidade para mudar de opinião.

Afinal, o que leva alguém a não mudar de opinião por imaturidade? Muitas coisas podem levar a isso, mas irei começar do mais radical.: imagine um homem que teve uma ideia sociológica e fez um livro baseado nessa ideia e sobre essa ideia. O livro vende mais de 2 mil cópias e ele adquire bastante reputação e autoconfiança. Vamos supor que a ideia dele esteja errada e, certo dia, uma mulher fala com ele e contra argumenta em cima das ideias dele. E, partindo do pressuposto que a mulher argumentaria super bem, você acha que ele iria conseguir reconhecer que está errado?

Na minha concepção, ele, muito provavelmente, iria passar a vida inteira crendo na própria ideia. Pois imagina o caos psicológico que seria se ele notasse que todo o seu empenho para formar aquela ideia, que todos os prováveis anos escrevendo aquele livro, que todo o tempo gasto na burocracia do livro, que todas as prováveis palestras que ele deu sobre o livro, que todas as lidas de leitores em seu livro e que todos os argumentos que ele tinha para defender seu ponto foi jogado fora. Ele iria ter que abandonar muitas coisas para mudar de opinião.

Em uma atitude, na minha visão, correta, ele iria ter que parar a venda do livro e se pronunciar sobre sua visão atual sobre o livro. Então, tudo isso iria ferrar a reputação dele para os outros e para si mesmo. E, para ele, iria ser bem pior. Ele, provavelmente, iria conviver com aquela dor por um bom tempo. Creio que ele teria uma crise quando descobrisse que está errado.

E mesmo que ele não tivesse vendido muitas cópias, mesmo que ele só tivesse vendido 20 ou nenhuma, admitir que está errado seria quase impossível. Se já não é 100% fácil reconhecer que está errado em algumas discussões levemente bobas do dia-a-dia, imagina para quem escreve um livro?

Acredito que a pessoa entra em um processo de autoengano e se nega a raciocinar da maneira correta, quando se é exposta á uma opinião certa. E não importa o lado político, idade ou formação da pessoa, seria quase impossível ela conseguir notar que está errada. E quanto mais tempo ela passou tendo essa opinião do livro, mais seria difícil de mudar de opinião. Pois se ela tivesse essa opinião há dois dias, ela teria que jogar só uma opinião de dois dias para fora, o que também já não seria fácil. Se ela tivesse essa opinião há 2 anos, já seria muito difícil ela mudar de opinião. Se ela tivesse essa opinião há 20 anos, já seria praticamente impossível mudá-la.

Não acredito que a pessoa vá pensar, conscientemente, em todas as consequências de mudar de opinião, mas acredito que isso passe inconscientemente na cabeça dela.

Entretanto, acredito na possibilidade de ela mesma ou alguém conseguir mudar a opinião na cabeça de outro alguém nessas condições. Mas acho que necessitaria uma ótima qualidade na argumentação, muita paciência, pois exigiria, provavelmente, muitas discussões e, além disso, você teria que conversar com a pessoa sobre o quão ruim para ela seria se ela descobrisse que está errada, seria bom para ela ter essa conversa.

E o pior de tudo: o autor do livro pode começar a ter uma vida infeliz quando mudar de opinião. Os leitores, infelizmente, podem passar a pensar que o autor é burro, e isso é uma triste realidade. O autor pode até ser burro, mas o reconhecimento seria um grande passo e seria uma atitude bem inteligente.

Alguns leitores poderiam pensar e até pedir o dinheiro de volta por achar que gastou dinheiro à toa. A família do autor pode achar ele menos inteligente e, algumas pessoas da família, podem achar ele burro. Tirando o enorme peso que ele vai levar consigo pelo resto da vida, pois imagina passar anos vivendo sabendo que você foi alguém que enganou, mesmo que sem querer, muita gente, fazendo elas acreditarem em uma ideia errada.

Mas, apesar de tudo isso, ainda acho que o autor possa mudar de opinião. Mas acho bem mais provável ele notar que estava errado e não admitir ao público do que admitir. Por isso, penso que quase nunca veremos um autor admitindo que sua ideia geral de seu livro foi ruim.

Agora, esse exemplo é um pouco radical, as opiniões não se resumem neste nível de apego. Vamos para outro contexto: discussão sobre feminismo, por exemplo, entre duas mulheres com opiniões distintas. Duas mulheres começam a discutir, agitadamente, mas elas não são formadas em nada, não escreveram nenhum livro e nem construíram uma grande reputação com um público em cima de suas opiniões e ideias. Vamos supor que a mulher B está errada e a A está certa. Elas começam a discutir se provocando mais e mais e aumentam o deboche.

Até que a A desestrutura a B nos argumentos e a B percebe, mesmo que inconscientemente, que pode estar errada ao ver uma falta de lógica em seu argumento.

O que a B iria fazer seria, provavelmente, apelar para todo o tipo de argumento que fosse ao seu favor. E esses argumentos tenderiam a ser os que ela acharia menos ilógicos ou mais lógicos. Portanto, esses eram os argumentos que ela não costumava utilizar e/ou nunca tinha pensado. Sendo assim, ela está usando os argumentos mais para ter chances de não perder a discussão do que para estar correta.

E isso no melhor dos casos. Em muitos casos ela poderia apelar para mentiras e exageros que favoreceriam a sua opinião, simplesmente para não ter sua reputação, naquela conversa, manchada. Ela poderia também começar a atacar fortemente a A e até abandonar a discussão “você é muito mente fechada para discutir comigo”. Ela iria fazer isso enquanto sairia ainda acreditando que está certa. Seria um processo de autoengano que, ainda assim, não seria fácil de ser quebrado.

E mesmo que elas não se provocassem, a B ainda iria ter alguns motivos inconscientes para não mudar de opinião. Um deles dependeria do quanto de tempo ela passou discutindo com a A. Pois quanto mais tempo, mais difícil vai ser para ela enxergar que está errada. Pois ela irá pensar, inconscientemente, em coisas como: “fiz ela gastar tempo comigo“, “passei todo esse tempo acreditando nisso” e/ou “perdi todo esse tempo tentando convencer ela de uma ideia que está errada“.

E esses motivos estão no que denominei de teoria do apego à crença. Essa teoria consiste em alguns motivos principais que temos em mente, inconscientemente, que fazem com que tenhamos dificuldades para mudar de opinião. Esses motivos são:

Defesa da reputação. Não queremos manchar a nossa reputação, então, tenderemos a preferir arranjar maneiras, inconscientemente ou conscientemente, de continuar com a mesma opinião. A relevância desse motivo varia entre os múltiplos contextos. Se for em um debate sério para televisão, por exemplo, a reputação seria um quesito importante. Se a pessoa escreveu um livro dela, a reputação seria mais relevante ainda. Mas se ela está apenas discutindo com sua amiga, não seriamente, sobre um tema, esse quesito não teria tanta relevância quanto em outros contextos. Porém, se a pessoa está eufórica e está provocando o adversário, a reputação seria um quesito importante. Ela iria tender a, inconscientemente, pensar em coisas como: “nossa, passei esse tempo todo debochando dele e quem estava errado era eu“.

Tempo de crença. Quanto mais tempo acreditamos naquela opinião, menos teremos chances de mudar de opinião quando expostos à dúvida. Isso é por conta desse pensamento que fica no nosso inconsciente: “não é possível que eu passei esse tempo todo acreditando nisso, fui muito burro e inocente“.

Empenho na formação e/ou demonstração de opinião. Esse motivo é um pouco mais relacionado com o motivo dois. Quanto mais nos empenhamos para formar a nossa opinião, mais tenderemos a não querer admitir que estamos errados. Um dos pensamentos que ficaria na nossa cabeça seria o mesmo do dois e esse: “não acredito que perdi esse tempo todo pesquisando, refletindo e discutindo quando, na verdade, estava errado“. E tem o da demonstração de opinião que também se relaciona com a escrita de um livro, um diálogo e etc… Quanto maior for o empenho na formação e/ou a demonstração de opinião, mais tenderemos a não reconhecermos que estamos errados.

Apego a opinião. Esse nome é mais por conta do quão a gente gosta da nossa opinião. E podemos gostar da nossa opinião por vários fatores como o de a gente ter tido muitas ideias próprias sobre ela, a opinião ser diferenciada (pelo menos na nossa visão), a opinião ser revolucionária (pelo menos na nossa visão) e etc… E, como sempre, inconscientemente, pensaríamos algo como: “droga, eu gostava tanto dessa opinião. Não posso me desfazer dela.” Sendo assim, quanto mais somos apegados, nesse sentido, às nossas opiniões, mais tenderemos ao não reconhecer os nossos erros nela.

E todos esses motivos citados estão interrelacionados. O motivo do tempo de crença, por exemplo, existe porque pensamos que seríamos idiotas por acreditar naquilo por aquele tamanho tempo. Ou seja, estaríamos manchando a nossa reputação até com nós mesmos. Assim, o motivo dois estaria ligado com o motivo um.

Conclusão: tente ao máximo não se apegar a opiniões. Sempre tenha em mente que você pode estar errado, independente do seu nível de experiência no assunto. E se você tiver a impressão de que está errado, dedique seu tempo refletindo nisso e tente, ao máximo, inibir as emoções, assim deixando a razão te dominar. Precisamos pegar o hábito de admitir as nossas ignorâncias. Acredito que é mito que as pessoas reconhecem seus erros, acho isso bem raro.