Revista Statto

SILÊNCIOS…

24/03/2020 às 08h57

Na solidão é quando eu mais preciso de barulho, e inquieta, invento ruídos.

Não em todas. Só naquela, que me pega desprevenida e me oferece o silêncio.

Estou falando da solidão sem presença.

Tento afugentá-la ouvindo música, falando com meu cãozinho, e falando com as paredes. Abro as janelas – inúmeras vezes – prescruto a rua vazia, esperando encontrar não-sei-o-quê. Abro gavetas sem estar procurando nada, ligo a televisão que não vou assistir, invento faxina sem precisão, invento de bater um bolo, fazer um pudim…

Nada substitui a voz humana, quando precisamos dela

Me afundo no cansaço, até perceber que estou feito um motor propulsor. Quero me desligar e não encontro o botão.

Preciso dessa exaustão para sintonizar com a solidão. Sem energia, as vozes me cansam, o barulho me incomoda, e, se, alguém me pedir algo naquele momento, sou capaz de sofrer uma histeria muda, fervente como uma panela de pressão de pino emperrado.

O cansaço vem como cura. Totalmente esgotada, me estiro em algum canto, e aguardo a normalidade de minha engrenagem física e mental.

Já meu silêncio vem por vários motivos, e a qualquer hora do dia: uma ofensa, um momento triste ainda não superado, ou qualquer outro problema ainda sem solução. Preciso desse silêncio para tentar colocar as coisas no lugar, amarrar as pontas que se soltaram bagunçando meu interior.

Rumino, rumino, até que o problema perca o sentido, perca o amargo, encontre resposta, conforto, e esmaecido, enfraquecido, parte de mim, assim como chegou.

Dureza! Se estou em silêncio é por pura necessidade. Não fui aparelhada para dividir dores, e lançar meus problemas na face de quem não poderá resolvê-los.

Ninguém tem nada com isso!

Se veem nisso conforto, ou válvula de escape ao desabafarem com alguém, ou em redes sociais, tudo bem! Respeito, e sei, que cada um tem uma forma diferente de agir, e reagir. Quem sou eu para dizer que isso é errado, quando somos apenas humanos buscando aquilo que nos convém, e nos deixa melhor?

Preciso da concentração quieta, que acalme meu burburinho interior, e me faça enxergar com clareza a resposta ou a solução que preciso.

Trabalho perdido o esforço de disfarçar. Não aprendi a fazer isso.

Se para alguns, a dor necessita de plateia, em mim ela causa a necessidade pungente de me ocultar, ficar invisível, completamente despercebida.

Nesses instantes, caminho pelos labirintos de minha alma, buscando uma saída. Isso pode levar alguns minutos, algumas horas, ou noite afora.

Questão resolvida, não grito Eureka, não grito VIVA!

Não grito nada.

Apenas me levanto ciente de mais uma experiência aprendida.

Depois dos cacos colados, me ligo na tomada, e elétrico abraço a vida.

Podemos dar a volta por cima, ou por baixo, encurtar caminhos buscando atalhos.

Podemos evitar de atrapalhar o transito esbarrando e exigindo a atenção das pessoas. Incomodando. Atropelando, e correndo o risco de sermos atropelados.

A fila anda! E nessa grande estrada chamada VIDA, é preciso prestar atenção, para não entrar na contramão.