Revista Statto

ELEIÇÕES E MEIO AMBIENTE: O QUE UMA COISA TEM A VER COM A OUTRA?

13/11/2020 às 09h50

Qual é a primeira imagem que se forma em sua mente quando a palavra meio ambiente surge? Talvez a floresta amazônica? Ou a Mata Atlântica? Um mico leão-dourado? Se for uma dessas opções, você bem provavelmente faz parte daquele grupo de pessoas que costuma associar meio ambiente a paisagens naturais e aos animais que nelas habitam, em um lugar distante daquele em que vive, ou seja, não faz relação direta do conceito com a sua própria vida.

No entanto, é cada vez maior o número de pessoas que entende esse conceito como ele realmente deve se apresentar: o conjunto de condições e influências que afetam a existência de todos os seres vivos, bem como seu desenvolvimento e bem-estar. Ou seja, não se trata de um lugar no espaço, mas sim da infraestrutura da nossa vida em nosso ambiente urbano, inclusive.

Por que falar sobre isso, afinal? Porque estamos em época de eleições e, assim, gostaria muito de sugerir a vocês que avaliem as propostas de seus candidatos usando como um dos critérios de escolha aquele que identifica a posição do seu eleito nessa área. De que forma ele situa a importância do saneamento básico e do tratamento da água, por exemplo? Esses recursos são fundamentais para o desenvolvimento do bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos de uma cidade, como bem sabem.

Todos nós temos a responsabilidade de zelar pelo meio ambiente, entendendo que esse cuidado é conosco, com nossos familiares, amigos e demais seres vivos, além do ambiente onde todos vivem. Compreendendo essa relação, vemos que se alguma das suas partes é prejudicada, nós também somos. Um exemplo triste é morte de milhares de pessoas em razão da falta de água tratada e poluição do ar. Aliás, não foi à toa que a Organização das Nações Unidas, a ONU, lançou uma campanha para alertar sobre os malefícios da poluição do ar no ano passado.

Talvez a grande reflexão dos tempos que vivemos, diante inclusive de uma pandemia, seja justamente discutir aquilo que é comum entre nós. O ambiente em que estamos e do qual dependemos, sem dúvida, se encaixa aí. Portanto, estamos diante de uma oportunidade incrível de mudança, em que podemos considerar uma nova postura e uma nova atitude para o que queremos para nós e para o lugar em que vivemos. O seu voto tem esse poder.

Portanto, pense em você, nas pessoas que estão ao seu redor e no seu ambiente em que vive quando escolher seu candidato.

FUTURO QUEIMADO

11/10/2020 às 16h51

Neste momento, é impossível falar de meio ambiente sem fazer menção às queimadas que estão deixando o céu do centro-oeste e do norte do País colorido por um amarelo apavorante, contrastado pelas tristes imagens de árvores retorcidas sendo reduzidas a cinzas. É um cenário muito triste e desolador, esse de dor e agonia para animais que morrem dessa forma tão sofrida, para aqueles que ainda conseguem sobreviver com feridas terríveis e também de pessoas que, de alguma forma, em menor ou maior grau, são vítimas desse crime ambiental.

A grande maioria dos incêndios do Pantanal e da Amazônia é de origem humana, como explica o cientista Carlos Nobre, pesquisador de longa carreira e reconhecido internacionalmente pela seriedade e dedicação profissional ao meio ambiente. Ele é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Em entrevista à BBC Brasil, ele explica que “mapeamentos bastante rigorosos, feitos em 2020, tanto pelo Inpe quanto pela Nasa, mostram que acima de 50% da área queimada na Amazônia é mata derrubada. É o famoso e tradicional processo de expansão da área de agropecuária. E quase tudo, acima de 80% dessa expansão, é feita por grandes propriedades, não é o pequeno agricultor ou o caboclo ou a roça indígena. O pequeno agricultor e o caboclo usam fogo, todos usam, mas o número de área queimada pela pequena agricultura é relativamente pequeno. A grande maioria é área queimada pela expansão de grandes propriedades”.

Ou seja, há um grande prejuízo para muitos em nome do benefício de poucos. Mesmo porque, como explica o cientista nessa entrevista, não há nenhuma relação entre produção e desmatamento. De acordo com ele, entre 2005 e 2014, “o desmatamento caiu de mais de 20 mil km² para menos de 5 mil km² por ano, e a produção agropecuária na Amazônia dobrou”. Portanto, não faz sentido imaginar que o desmatamento seja necessário para que algum tipo de produtividade aumente ou dele dependa.

A floresta de pé é uma grande fornecedora de serviços ambientais. É nesse sentido que gostaria de convidá-los/as para refletir sobre essa questão. Afinal, muitos podem pensar: “mas o que essas queimadas, esse desmatamento, tem a ver com a minha vida”?

Pois então, tem a ver com a manutenção da nossa vida como a conhecemos hoje. Por exemplo, a água que consumimos está armazenada em bacias hidrográficas, reservatórios e aquíferos inseridos nesse ecossistema. Além disso, as florestas regulam os níveis de gases atmosféricos poluentes e também aqueles que afetam o clima, além de controlar erosão, enchentes e poluição. Dependemos de tudo isso para sobreviver.

Por outro lado, já está comprovado o mal que o desmatamento causa à nossa saúde. Pesquisadores mostraram alguns dos efeitos de queimadas nas Ilhas Bornéo, na Indonésia, são doenças asma, bronquite, conjuntivite, entre outras.

A fumaça das queimadas no Pantanal leva às cidades os malefícios do crime que está sendo cometido. No Hospital Infantil Cosme e Damião, que atende todo o estado de Rondônia, foram realizados 120 atendimentos de crianças com problemas respiratórios de 1 a 10 de agosto, e 380, de 11 a 20 daquele mesmo mês. Não é só na área de saúde que há prejuízos, mas também na econômica, com muitas empresas deixando de investir no Brasil por conta da forma que descuida de seus biomas.

O que podemos fazer para ajudar? Bem, podemos começar ao escolher governantes que entendam que conservação ambiental não é conversa de ecochato, mas sim tema sério que merece toda a atenção por conta da influência que exerce na saúde, na economia e em outras esferas. Seria ótimo se também entendêssemos nosso papel de cidadãos e cobrássemos das autoridades ações para extinguir esses crimes ambientais. O que não podemos fazer é silenciar, acreditando que não adianta fazer essa cobrança. Temos que fazer a nossa parte para que nosso futuro, o futuro das próximas gerações, não seja queimado.

BARIFOUSE, Rafael. Amazônia: agricultores causam maioria das queimadas, e não índios e caboclos, diz cientista Carlos Nobre. BBC News Brasil, São Paulo, 23 de set. de 2020. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54259838. Acesso em: 25 de set de 2020.

RIBEIRO, Helena; ASSUNÇÃO, João Vicente de. Efeitos das queimadas na saúde humana. Scielo, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142002000100008#:~:text=Dentre%20os%20sintomas%20de%20doen%C3%A7as,cardiovasculares%20(Radojevic%2C%201998). Acesso em: 25 de set de 2020.

TURBIANI, Renata. Fumaça de queimadas é ameaça à saúde pública, alertam médicos. BBC News Brasil, São Paulo, 22 de ago. de 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49430367. Acesso em: 25 de set de 2020.

DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DE PRAIAS É CELEBRADO EM SETEMBRO

12/09/2020 às 14h18

Algumas das minhas primeiras lembranças são do mar. Perto e dentro dele eu cresci. Foi meu primeiro amor e, por ele, sou apaixonada até hoje.  Fico fascinada por essa massa de água que ondeia e muda de cor e de humor, dependendo da lua e da maré. Já adulta, tive o privilégio de mergulhar em diferentes pontos desse oceano Atlântico e conhecer um outro universo, que abriga e esconde seres tão bonitos, como peixes coloridos e tartarugas, como outros que causam espanto e estranheza pela forma e comportamento tão diferentes, fazendo com que pensemos que, de fato, pertencem a outro planeta, profundo, tão belo.

Belo e constantemente ameaçado pelos plásticos que dominam, por motivos diversos, suas águas e enfeiam as praias quando encalham ou são desprezados nas areias por aqueles que não se importam ou não se interessam pela ameaça e perigo que representam. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), pelo menos 51 trilhões de partículas de microplásticos já estão em nossos oceanos, 500 vezes mais que o número de estrelas em nossa galáxia. Como já divulgado, estimativas apontam que, se nada for feito para mudar o ritmo atual de produção, consumo e descarte de plásticos, até 2050, os oceanos terão mais plásticos do que peixes.

Esse perigo também está na nossa mesa e invadindo o nosso organismo. Estudos revelam que microplásticos são encontrados em 90% do sal de cozinha. Portanto, esse grave problema prejudica os seres marinhos – que ingerem ou ficam presos no material – e também os humanos.

Anualmente, o terceiro sábado de setembro está estabelecido pela ONU como o Dia Mundial de Limpeza de Praias, iniciativa louvável que convida para a ação, mas também para que possamos refletir sobre nossa forma de consumo e a origem desse plástico todo. Já conhecemos os motivos diversos que levam esses plásticos para o mar – desde a falta de educação até a ausência de políticas públicas que incluem moradias dignas (muitos desses plásticos são descartados por populações que vivem em palafitas, em áreas de mangue, o berçário marinho). Portanto, gostaria de deixar aqui uma pergunta: o que nós, como cidadãos que pensam no bem-comum, podemos fazer? O que, de fato, está ao nosso alcance? Sugiro a reflexão sobre a nossa forma de consumo, que exige plásticos nos seus mais variados formatos. É indiscutível a utilidade desse material, mas temos que pensar mesmo no exagero do seu uso.

Afinal, os mares estão nos alertando e chamando nossa atenção para que possamos corrigir um rumo que, se não for mudado, transformará nosso planeta azul em um planeta de plástico. Será que é isso que queremos deixar de legado para as próximas gerações?

A foto mostra uma toninha (Pontoporia blainvillei), uma espécie pequena e tímida de golfinho que vive em águas costeiras e está ameaçada de desaparecer da natureza nos próximos 35 anos. Entre as ameaças, estão o lixo plástico e a captura acidental pela pesca (elas ficam presas na rede, não conseguem ir à superfície para respirar e morrem). A toninha da foto foi levada ao Instituto Biopesca, organização não-governamental que atua no litoral centro-sul de São Paulo em favor da conservação marinha. O lacre – desses encontrados em garrafas plásticas – ficou preso em seu rosto (onde fica a boca), impedindo-a de se alimentar.