Revista Statto

DIA SIM, DIA NÃO

15/08/2019 às 08h43

Olá, estive sumida esses dias pois eu estava de mudança. A minha vida nessas últimas semanas foram desencaixotar tralhas, botar roupa para lavar por causa da poeira e descobrir que você tinha mais louça do que pensava e se arrepende severamente por ter guardado tanto bagulho.

Por conta disso, nossa série de filmes brasileiros ficou meio parada. Eu nesse tempo estava pensando em qual filme nacional poderia trazer aqui que não ofendesse tanto assim o presidente e que numa próxima Live ele possa falar sem ofender ou escandalizar a família tradicional brasileira. Pensei em trazer para vocês a animação “Lino”, quem traz Selton Mello na voz do protagonista.

Entretanto dada as declarações recentes do excelentíssimo governante, resolvi seguir o tema.  Vamos falar de cocô por que um filme relacionado ao Johnny Bravo eu ainda não encontrei (acharei um dia).

Saneamento Básico. Segundo um artigo do jornal online “Aos Fatos” feito no dia 30 de maio de 2019, “57 milhões de residências sem acesso à rede de esgoto, 24 milhões sem água encanada e 15 milhões sem coleta de lixo, de acordo com os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2018, do IBGE. ” Esse é o problema que a comunidade de Linha Cristal vem enfrentando ao longo dos anos. Os moradores resolveram se juntar e ir até a subprefeitura reivindicar verba para a construção de uma fossa, entretanto, a única verba que existe é para fazer um filme.

Para conseguir esse dinheiro, a comunidade terá que produzir um vídeo de 10 minutos. E qual seria o melhor tema? Sobre um monstro geneticamente modificado por causa das impurezas do esgoto. A Odisseia para fazer o filme começa aí. É necessário fazer o roteiro, o figurino, os atores. Todos amadores, mas, fazem uma obra-prima que deixa a cidade famosa.

“Saneamento Básico, O Filme”, é um longa de 2007 com Fernando Torres, Wagner Moura e Lázaro Ramos no elenco.  O enredo principal é a produção do vídeo, onde no entorno mostra o cotidiano dos moradores, mas, também, mostra que a falta de saneamento não leva apenas mau cheiro, vem junto doenças e uma poluição da natureza.

Também nos mostra como um filme é importante para expor os problemas que a sociedade vive, por isso muitas vezes atacados por pessoas que tem uma opinião política autoritária e vê o artista como um inútil vagabundo.

Resumindo, se os moradores de Linha Cristal tivessem seguido os conselhos do Capitão, talvez não precisariam construir uma fossa…

AS BOAS MANEIRAS

04/08/2019 às 19h21

Parece que os céus estão querendo que eu faça esse especial de filmes brasileiros. No dia que decidi isso, passava na rede Telecine o filme de suspense “As Boas Maneiras”. Mostrando que o Brasil não faz apenas comédia-pastelão ou genérico de “Tropa de Elite”. Um dos filmes que o nosso presidente não podia falar em sua Live, é um suspense criativo com Marjorie Estiano.

Clara fez curso de enfermagem e agora está tentando arranjar como babá para pagar o aluguel atrasado e não ser expulsa da casa. Ana está grávida de um homem desconhecido e agora tem que se virar sozinha com as tarefas, agora, procura uma babá para ajudá-la com o bebê que está para chegar. E é a partir desse encontro das duas protagonistas que a história começa.

Ficarem unidas parece ser a melhor opção para essas duas mulheres solitárias que não tem mais ninguém. As duas formam um relacionamento bem estreito (Sem spoiler, vá assistir ao filme) e tudo parece estar bem com o bebê.

Mas nem tudo são flores… Apesar de parecer uma gravidez normal, as vontades da grávida não são tão normais. Ana sofre de sonambulismo e tem um desejo insaciável por carne. Com o pai desconhecido, começa-se a levantar dúvidas de que o que Ana espera, seja um ser humano.

Durante a primeira metade do filme, coloca-se todo um suspense sobre a identidade do bebê e das estranhas manias que a mãe adquire ao longo da história. Clara, a babá tem que lidar com todas essas esquisitices.

Ana tem sonambulismo em certas noites, um desejo anormal por carne que a faz machucar outras pessoas e animais. Clara tem que estar atenta o tempo todo para que patroa não saia de casa ou faça coisas que possa se arrepender depois.

Após um parto difícil, Ana morre e deixa com Clara a responsabilidade de criar seu filho, que não se parece nem um pouco um humano.

Na segunda metade do filme, com a criança já crescida e Clara com um emprego estável, aparentam ser uma família normal. Clara para proteger o filho, esconde de todos inclusive dele seu passado sombrio, porém, não existe nenhuma mentira que possa ser descoberta.

Um filme mostra um pouco das superstições e com uma história superoriginal. Há muitos elogios a se fazer ao filme desde a trilha sonora impecável que misturam canções populares com músicas de sucesso até o cuidado com os efeitos especiais que não faz o monstro parecer tão artificial,

As Boas Maneiras” abre esse especial de filmes brasileiros.

O CINEMA É LIVRE

02/08/2019 às 09h15

Neste espaço da revista uso para falar sobre uma das minhas paixões que é a sétima arte. Levando a você, leitor, análises, observações, uma visão diferente da obra. E quando o cinema é ofendido sinto-me na obrigação de defendê-lo.

Na quinta-feira, 25 de julho, em uma Live no Facebook o Presidente Jair Messias Bolsonaro, claramente ataca a Agência Nacional de Cinema (Ancine). Durante todo o vídeo, ele fala muitas atrocidades, como que, para ele é absurdo ter um representante da UNE (União Nacional dos Estudantes) em um projeto de políticas antidrogas, ou a quantidade de tiros que o cidadão dá em alguém em legitima defesa não é relevante.

Já como esta coluna é sobre Cinema, irei me ater em comentar a parte sobre o que ele fala sobre a Ancine. No vídeo ele remete a sua crítica sobre o filme “Bruna Surfistinha” feito com dinheiro público depois tenta abrandar dizendo que não iria ter censura para tal tipo de filme, mas, logo depois diz que esses filmes sejam feitos com dinheiro público.

Ele continua dizendo que transferiu a sede da Agência do Rio de Janeiro, cidade a qual tem um grande número de artistas que trabalham com Cinema, para Brasília para ele “ficar de olho nesse pessoal” e continua com algo mais absurdo. O nosso presidente, está tentando extinguir com a Ancine.

O pobre Presidente, não pode falar nomes de filmes patrocinados pela Ancine no ano passado, pois há crianças assistindo. Lembrando que a Agência patrocinou o filme da Turma da Mônica. Dei uma pesquisa rápida no Google e encontrei o site huffpostBrasil, que fez uma lista dos dez melhores filmes brasileiro de 2018. Nessa lista há três documentários, um sobre o Impeachment de Dilma Rousseff, outro sobre o avanço de igrejas neopentecostais nas aldeias indígenas e por último um que mostra batalhas de poesias.

Na lista há também filmes de terror, outros que relatam temas que dizem respeito a natureza humana, e outros que discutem temas recentes ou denunciam problemas que permeiam a nossa sociedade. Nenhum, dessa lista, é voltado para o público infantil, no entanto, não há nada absurdo que uma criança não possa ouvir nos títulos como “Benzinho”, “Arábia”, “Nossa Canção de Amor” (Lembrando que esse mesmo Presidente tuitou no começo do ano “o que é golden shower” levando a pátria a uma humilhação internacional).

Essa fala de Jair Bolsonaro é preocupante em muitos níveis. O presidente, que parte de um pressuposto de que artista é vagabundo e não serve para nada, ele perde uma grande chance de investimento e geração de empregos. A indústria do cinema gera empregos direta e indiretamente além de aquecer a economia já que é um produto que milhões consomem todos os dias. Se o Presidente for esperto, ele usará isso a favor dele, pois, um dos maiores desafios do seu governo e diminuir a taxa de desemprego.

Especificamente, o filme nacional, expõe o Brasil para o mundo. Pegando a exemplo dos filmes estadunidenses, reparem no seu cotidiano, como você conhece o Halloween, ou histórias como Slenderman ou Jason? Como você conhece lendas e costumes estadunidenses se não pelos filmes e séries que consumimos? A indústria cinematográfica pode ser uma porta de entrada para estrangeiros conhecer com mais clareza o nosso país. E como você bem sabe, isso gera um consumo maior de nossos produtos.

Vale chamar a atenção que o dinheiro que direcionado para os filmes não é retirado de nenhum outro lugar como o da área da educação ou da saúde. Os discursos do Presidente têm muito essa justificativa, que, ao invés, de investir em entretenimento investir em saúde e educação, mas isso não faz sentido, por que a verba direcionada para essas áreas é diferente das direcionadas para a Ancine. E olhando suas atitudes, vê-se uma hipocrisia pois foi em sua gestão houve um contingenciamento de verbas que prejudica bolsas de pós-graduação e uma série de remédios foram retirados do SUS.

Outro ponto preocupante da fala de Bolsonaro é querer “filtrar” os filmes produzidos. No vídeo ele diz que não terá censura, porém ao afirmar que mudou a sede pra Brasília para “ficar de olho” e querer escolher o que se pode produzir e que não se pode produzir é visivelmente uma censura.

Não se pode chamar as pessoas de fascistas assim tão aleatoriamente, entretanto, as ações do presidente vão de encontro com um autoritarismo onde só quem tem razão é quem concorda com ele.

Defender a arte, não é defender vagabundos ou indecentes, e sim defender a liberdade de expressão e a democracia. É da arte, junto com a educação, que vem a reflexão, a crítica, opinião e a cultura identitária de um povo. Atacá-la, é atacar o povo diretamente.

Para que não restem dúvidas de como o nosso Cinema Nacional é ótimo (Acabamos de ganhar o Festival de Cannes), farei um especial de resenhas com os filmes nacionais. (e não precisam tirar as crianças da sala.)

SESSÃO DORAMA

05/07/2019 às 18h02

BELDADE DE GANGNAM

Caso você estiver na Coreia do Sul e ouvir que uma mulher é uma “Beldade de Gangnam” pode apostar que ela passou pelo bisturi muitas vezes. Gangnam-Gu é o nome que se dá ao centro de Seul, onde há roupas de marcas, arranha-céus modernos, restaurantes sofisticados, um alto padrão de vida e, claro, pessoas preocupadas com a beleza, e por essa fama, o centro encontra-se nessa expressão coreana.

Kang Mi Rae está pronta para uma nova fase da vida dela. Acabou o Ensino Médio e entrará para a Universidade da Coreia e…. Fez uma cirurgia plástica.

Sofrendo duramente pela vida inteira por não se encaixar nos padrões estéticos, Mi Rae decide passar por uma plástica e mudar essa situação. Vida nova, amizades novas, começo novo! Para Mi Rae sua nova vida despontaria na faculdade, mas, o que ela não esperava era reencontrar-se com um antigo colega de escola que sabe de todo o seu “passado sombrio”.

Do Kyung Seok, era considerado o garoto mais bonito da escola, agora está cursando a mesma faculdade que Mi Rae, e para o desespero dela, ele a reconhece mesmo com a cirurgia plástica. Será que Kyung Seok é igual a todos os outros que implicavam com a aparência dela, ou será que tem um sentimento a mais por ali?

A série tem um estilo bem marcante das comédias românticas coreanas. Com um casal de protagonistas que você “shippa” desde o primeiro episódio e também envolvendo na história, temas polêmicos e quebras de paradigmas.

Doramas assim constroem junto com o romance, uma discussão social interessante que nos leva a refletir sobre os padrões que seguimos. A história de amor de Mi Rae e Kyung Seok em “MY ID IS GANGNAM BEAUTY” rodará em uma reflexão sobre padrões de beleza impostos, bulying, o machismo inerente na sociedade e as consequências desastrosas que trazem para a nossa convivência.

Sim, enquanto você se distrai com o lindo Do Kyung Seok tentando conquistar Kang Mi Rae, a série te leva quase que inconscientemente a refletir sobre os atos dos personagens. Através de diálogos e cenas sutis percebe-se todo um comportamento diferenciado que se dá as pessoas por serem bonitas ou feias ou nas relações entre gêneros.

Separei três fatores que se pode perceber nitidamente na série e caso você assista um dia perceberá e se você, mulher, já passou por algo parecido, com certeza, irá se identificar:

MACHISMO

Durante toda a série falas e atitudes machistas são mostradas. Há dois grandes exemplos mostrados durante a série. O primeiro, que você vai descobrindo detalhes no desenrolar da história, é a relação dos pais de Kyung Seok: Sua mãe, uma mulher independente, sai de casa por não aguentar a pressão das exigências do marido que, na sua mentalidade patriarcal, acha que as obrigações para com a casa e os filhos é exclusivamente da mulher. Mostra também um grande exemplo sobre como o machismo é ruim para todos, sejam homens sejam mulheres, na cena que mostra a mentalidade que o pai tem da forma de criar um menino: deve ser criado com firmeza para que não se torne um homem fraco despido de emoções naturais de qualquer ser humano.

O segundo exemplo mostrando com mais detalhes os preconceitos diários, acontece em uma parte do Dorama que mostra a Universidade preparando-se para um Festival. Os alunos do setor de Química fariam uma barraca de comidas e bebidas e, durante todo esse processo nota-se essa visão machista dos organizadores. A primeira atitude foi chamar com prioridade as meninas bonitas para servirem a mesa, porém, fica pior.

Na reunião em que se discute o uniforme, quem ficaria na barraca e outras questões técnicas que sempre tem nessas festas, mostra o tipo ambiente que regerá durante toda a preparação da festa. Meninos sobrepondo-se nas opiniões das meninas, fazendo piadas com suas aparências físicas, uma é gorda demais, outra por ter um cabelo curto e usar roupas mais largas não é vista como mulher, outra, por se caloura é mandada a se calar toda vez que fala sem poder opinar o que pensa, além dos uniformes serem saias super curtas.

Essa tensão só acaba quando as garotas se revoltam e decidem abandonar a barraca (Bela cena afinal) e deixa toda a atividade nas mãos dos meninos, (essa história até termina em final feliz. Assista o Dorama e verá).

VIVER PELAS APARÊNCIAS

Esse fator também está muito presente durante o enredo. Começando pela protagonista que, pelo sofrimento passado na infância e na adolescência, preocupa-se muito em como todos ao seu redor pensarão dela. Isso rege todos os atos de Kang Mi Rae, ela recusa a namorar o garoto que ela gosta (que a gente já sabe quem é, né?), para evitar os boatos e quando aceita namora as escondidas dos colegas da faculdade.

Além de Mi Rae, outra personagem que mostra essa obsessão pela aparência é a Hyun So Ah. Considerada a aluna mais bonita do setor de Química, a impressão que dá é que seu objetivo é virar toda a atenção para ela e não dá chance para ninguém, nem que para isso ela tenha que estragar o namoro de alguém. Obcecada por manter seu corpo em forma, a personagem desenvolve bulimia além de tomar vários remédios dietéticos.

ASSÉDIO

Durante toda a série, em muitas situações mostra-se a tensão das mulheres nos ambientes, sejam nas festas ou voltando para casa, elas sempre ficam preocupadas. Logo, no primeiro episódio assistimos a uma tentativa de assédio de um veterano da faculdade contra Mi Rae. A protagonista em certo momento preocupa-se com alguém a seguindo para casa no meio da noite, mostrando nitidamente a preocupação de toda mulher ao andar na rua de noite.

No clímax da série a personagem Hyun So Ah também sofre um grave assédio que por pouco não termina em tragédia (tentando não dar spoiler, vão assistir a série).

É interessante ver como a série retrata todos esses casos não como se fossem excepcionais e isolados e sim, como fatos naturais e corriqueiros, que de fato eles são. Colocar assim, faz com que o espectador se identifique e reflita sobre esses fatos tão presentes na nossa vida.

Não é tão pesado de assistir como geralmente séries que mostram essas problemáticas são. O romance dos protagonistas é envolvente (mana, você vai querer aquele homem só para você, te garanto) assim como as histórias dos coadjuvantes.

Então, não esqueçam de assistir “My ID is Gangnam Beauty” com aquela sua mana que só pensa na aparência física, miga.

EM QUEDA

26/06/2019 às 18h48

DOCUMENTÁRIO “DEMOCRACIA EM VERTIGEM”

Quando Flávio Bolsonaro escreveu em um twitter que a Netflix estava fazendo uma série sobre o pai dele ninguém, nem mesmo a empresa de streaming, entendeu sobre o que o então deputado estava falando. Agora, Jair Bolsonaro aparece mostrando seu gabinete com fotos de presidentes da época do Regime Militar e se autodeclarando como herói da nação no documentário “Democracia em Vertigem”.

Em uma época política tão difícil em que extremismo nas duas pontas ganha força, mostrar os fatos como eles são é um ato de coragem. A cineasta Petra Costa, resolveu expor sua opinião política assim como a sua história de vida nesse filme documental relatando desde a primeira candidatura de Dilma Rousseff até a de Jair Bolsonaro. Mostrando o processo de Impeachment, a Operação Lava Jato e a prisão de Lula.

A diretora entrelaça sua história com a história do Brasil. Com uma voz melancólica e com um certo tom de tristeza, Petra começa sua a história a partir do passado militante de seus pais na época da Ditadura Militar mostrando a luta dos estudantes pela liberdade, e acabando com o resultado das eleições presidenciais de 2018, destacando os protestos dos paneleiros e as manifestações verde e amarela. Tendo um destaque também para a trama que mostra ascensão de Lula como líder sindical e a importância da chegada do político no cargo presidencial, a euforia dos eleitores naquele momento

Por mais que seja visível o lado da cineasta, ela não deixa de criticar o governo o qual elegeu. Ela não se abstém de falar sobre o esquema do mensalão que baixou a popularidade do PT, explicar o fato do partido dos trabalhadores distanciar-se mais e mais do povo que era o seu principal alicerce dividindo as opiniões e perdendo força na sua base eleitoral. Ela mostra todo esse processo de ascensão do Partido dos Trabalhadores até a decadência que ele se encontra agora.

Filmado praticamente nos corredores do Congresso e da Câmara, o documentário recolhe depoimentos importantes de parlamentares de vários partidos e suas visões quanto aos fatos que ocorrem. Petra mostra os já conhecidos áudios vazados da conversa de Dilma e Lula, de Romero Jucá, e de Joesley com Aécio relacionando-os com os acontecimentos na Câmara e no Congresso.

Petra também faz uma importante relação com as empreiteiras que cresceram durante o Regime com os esquemas de corrupção recentes e durante todo o documentário mostra a mórbida realidade que é o sistema político brasileiro. Mostrando assim, que não é um caso recente que empresários ricos influenciam na política brasileira e que quase não há caminhos para se escapar disso.

A cineasta mostra os bastidores de estratégias que mudaram o rumo da nossa história e como cada vez mais nossa política é complicada e principalmente retaliadora, onde interesses de uma minoria prevalecem aos direitos do povo.

Considerado de viés esquerdista, o documentário foi muito criticado pelos que apoiam o atual governo, no entanto, Petra não mostra apenas a sua visão política nem apenas suas memórias de família. E contra fatos, não há argumentos. Seria ingenuidade total tachar o documentário de comunista apenas por que relata fatos com o qual não batem com suas ideias ou por achar que de alguma forma, aquilo foi alterado ou é mentiroso. Além de ideias, mostra-se uma realidade inalterável, que independente de opinião continuará assim.

Petra constrói uma narrativa muito boa ligando passado e presente, sua história pessoal com a do Brasil. Ela não mostra nada de inédito, muita coisa já é conhecida por nós, outras desconfiamos. A coisa é que, ela nos mostra tudo isso um pouco mais de perto, podemos perceber um pouco mais dessa engrenagem e as causas que nos fizeram chegar até aqui.

A MENTIRA

04/06/2019 às 10h21

Olive leva a vida de uma adolescente normal, vai à escola, conversa com os amigos, tem o menino mais bonito da escola como crush. Quando sua melhor amiga Rhiannon a convida para ir a um acampamento ao qual ela não quer ir (e ela teve boas razões para isso), resolve contar uma mentira sobre encontrar-se com alguém no final de semana.

Ao ser questionada como foi o encontro, Olive começa a inventar uma história de como perdeu a virgindade com o tal namorado imaginário. O que ela não contava era que Marianne Bryant, a crente maluca da escola, ouvisse toda a conversa e espalhasse por todos os alunos.

Então, a aluna que era invisível nos corredores da escola torna-se o assunto principal entre os intervalos da aula.

A fama de Prostituta aumenta ao ajudar meninos não considerados populares, espalhando encontros falsos com eles.

O filme protagonizado por Emma Stone, não é um filme Teen comum que tem a velha história da garota nerd que é apaixonada pelo bonitão da escola e no final descobre que quem ela gosta mesmo era do melhor amigo dela.

Will Gluck vai muito além dos romances adolescentes e põe em xeque assuntos que devem ser discutidos. Fazendo uma decupagem nos fatos que ocorridos na história que acontece como um efeito dominó, há várias atitudes dos personagens que nos fazem refletir sobre sociedade em que vivemos:

A MENTIRA DE OLIVE

Toda a confusão acontece justamente porque Olive mentiu. Inventou uma história para a sua amiga em vez de ser sincera. Claro, a intenção dela não era enganar por prazer e sim omitir algo para que alguém que ela gostava não ficasse magoada.

O fato é: Mentira não é bom em nenhuma situação. Se Olive tivesse sido sincera naquele momento, a vida dela seguiria normal e ela não teria que fazer um vídeo online para explicar toda a confusão e não teria sua amizade de anos balançada.

Por mais que Olive não tivesse tido a intenção, o que ela fez foi errado e não prejudicou apenas a vida dela e sim de várias outras ao redor.

O INSTRUMENTO DO DIABO

Sim, como eu acabei de dizer, Olive errou ao mentir para a amiga, entretanto, todavia, mas, porém, um elemento pequeno chamado língua foi o que levou aquela conversa íntima no banheiro para os corredores da escola com um instrumento maligno inventado pelo Diabo: Fofoca

Esse instrumento maligno é tão perigoso que nem quem o usa tem controle sobre ele. Uma vez usado não tem como parar, apenas vai aumentando como uma bola de neve. É incontrolável E por conta disso deve ser guardado a sete chaves e enterrado para que não dê chances de escapar.

A grande necessidade de falar sobre a vida alheia existe desde o começo das civilizações. Com o advento dos meios de comunicação e agora, das redes sociais, saber da vida de todos virou algo comum, porém não menos perigoso do que antes. Julgar as pessoas a partir do que ouviu de terceiros não é bom.

Como dito no final do filme, o fato de Olive perder a virgindade ou não, o problema era dela não é da conta dos outros. Se ela transa com quem quiser ou se guarda para depois do casamento é escolha dela e ninguém tem direito de dar opinião sobre isso.

Marianne Bryant ouviu uma conversa alheia, tirou suas próprias conclusões e espalhou para os amigos. E como quem conta um conto aumenta um ponto, rumores inverossímeis sobre Olive começaram a se espalhar e ficar fora do controle. Começou a rolar algo que hoje nós chamamos de Fake News.

Sim, Olive foi vítima de Fake News e o que é mostrado no filme é o que nos preocupa na realidade de hoje. Algo falso é compartilhado, comentado, várias vezes, que acaba sendo verdade e ninguém mais consegue desmentir. Não é muito diferente do áudio ou de textos gigantescos que chegam até você no WhatsApp e que te impressionam e é obrigado a compartilhar com outras pessoas sem se preocupar se aquilo era verdade ou não.

A protagonista já havia sido marcada como “A VAGABUNDA” da escola e ninguém conseguiria tirar esse título dela, não queriam saber se todas aquelas histórias eram verdadeiras ou não, elas queriam apenas comentar.

Esse tipo de atitude é muito perigoso, muitas dessas fofocas, que são chamadas de Fake News podem controlar a opinião da massa ou acabar literalmente com vida de uma pessoa. É necessário ter cuidado ao compartilhar qualquer informação seja pela internet, seja por boca a boca para não soltarmos sem querer o instrumento maligno.

OS PRECONCEITOS

Vida na escola nem sempre é fácil. Ainda mais se o indivíduo não está de acordo com os padrões impostos. Analisando as pessoas que iam procurar a ajuda de Olive percebe-se que são pessoas excluídas que não vão de acordo com o que admitem.

A primeira pessoa que ela ajuda é um gay que quer manter sua orientação sexual escondida, por isso ele finge transar com Olive em uma festa. Depois disso, ela recebe muitos clientes: Gordinhos, imigrantes indianos, nerds…

Todos eles desesperados para ter uma chance de serem notados e uma chance com ela era o passe para a aceitação na sociedade escolar.

O MACHISMO

Se você assistiu “A Mentira” em algum lugar diga-me se percebeu algo de estranho no comportamento das pessoas (sem ser os pais da Olive, cara aqueles pais não existem nem em Marte…) não? Vou lhes dar um exemplo:

Na cena da festa em que Olive e Brandon saem do quarto após “transarem” na festa, são recebidos de maneiras diferentes: Ele, é recebido como um herói de guerra já ela encontra olhares de julgamento em todo canto.

Olive tem fama de Prostituta por supostamente dormir com vários homens, é apontada, comentada e excluída em razão disso.

Você já parou para pensar se Olive fosse um homem receberia um tratamento diferente? Se ela fosse um menino transar com várias pessoas seria um máximo, ela seria uma das pessoas mais populares da escola e mesmo que fossem só rumores iriam vê-la de uma forma positiva e não negativa.

Não iriam excluí-la, muito pelo contrário, iriam querer almoçar na mesma mesa que ela. Sim, pode parecer seguir uma cartilha, mas, tudo que Olive sofreu pode vir do fato da imagem que se tem da mulher na sociedade.

O fato que a visão patriarcal ainda reina e dita o nosso modo de pensar. Ao descobrirem que Olive perde a virgindade, ela é vista como uma mulher fácil, os meninos começam a paquerá-la querendo algo mais (o único que salva é o fofo do Todd que não acreditou em nenhum boato desde o início…) em razão do ponto de vista de que a mulher tem o dever de se guardar, enquanto que, em muitos lugares os próprios pais levam os filhos homens em prostíbulos para a sua primeira vez.

Enfim, este filme tem muito o que se discutir. Tendo como base a Letra Escarlate, escrito por Nathaniel Hawthorne, que disserta sobre essa mesma discussão. A mulher que vive em uma sociedade puritana é acusada de adultério e é obrigada ter uma marca na roupa o “A” de Adúltera em vermelho para que todos vejam, a mulher também é exilada da comunidade por causa do crime.

Há muitas referências sobre o livro no filme, além de que, a própria personagem comenta e usa a letra “A” vermelha tal qual a personagem do romance. As duas sofrem acusações sobre o seu suposto comportamento e são excluídas do convívio.

Mas eu vou deixar aqui um pensamento se essas duas personagens fossem homens será que elas sofreriam tanto?

O filme pode ser encontrado online, confira umas das melhores atuações de Emma Stone em um romance adolescente nada superficial.