Revista Statto

A PRIMEIRA GERAÇÃO DE CRIANÇAS SUPER MIMADAS CRESCEU… E TEVE FILHOS!

02/03/2020 às 14h29

Antes de tudo, olá, me chamo Rafael Mansur.

Sou editor e criador do Radar Escola, escrevo para o site todas as segundas-feiras. Escreverei sobre tudo e sobre todos (desde que tenha educação no meio). Optei por escrever, em minha estreia, sobre um fato que eu tenho observado e cada vez me choca mais: adulto mimado.

Trabalho em uma escola particular com famílias classe A e B, idade entre 26 e 37 anos. Vejo de tudo lá, tudo mesmo… e a coisa que mais tenho visto ultimamente é criança mandando em pai e mãe e pai e mãe tentando mandar na escola.

Tudo começa quando essa geração adulta de hoje, quando criança, foi um pouco mimada. Pouco não, super mimada. Eles cresceram junto à ascensão financeira de boa parte das famílias brasileiras, eles cresceram vendo videogame se popularizar, TV a Cabo se tornar real, carrinho de controle remoto aos montes. Essa geração cresceu vendo Xou da Xuxa e desejando tudo que lá aparecia. Essa geração teve a adolescência marcada com a popularização do Windows 95, popularização do celular e aparecimento dos primeiros e-Commerces. A grande questão é que essa geração não só viu isso, ela desejou isso, e ganhou muito disso.

Eles foram os primeiros super mimados. Cresceram com a ideia de que tudo a eles poderia pertencer. Qualquer coisa basta bater o pé no chão, cruzar os braços e pronto… ganhou.

Certa vez na escola em que trabalho criamos um álbum de figurinhas no qual os alunos e alunas eram as figurinhas. Deu o maior trabalho fotografar todo mundo, conferir e mandar para a gráfica. Faltando 1 semana para lançar o álbum entrou um aluno novo. A mãe (dessas mimadas que estou falando) pediu para inserir o rapaz no álbum. Já tínhamos impresso mais de 14.000 figurinhas, 300 álbuns, empacotado tudo etc… Eu respondi: não!

A cena a seguir foi assustadora. A mãe falou: mas vai ter todo mundo menos ele? Se for assim eu não quero esse álbum.

Para visualizar melhor, eu descrevo como estava a postura corporal da pobrezinha: braços cruzados, cara fechada, um bico enorme e batendo o pé firme no chão.

(Parecia que eu me via com 9 anos quando minha mãe não me dava as coisas).

Assustado ainda, recuperei o fôlego e disse, realmente não vou poder ajudar. Já está tudo impresso, é impossível eu refazer este álbum.

Se você que está lendo o texto achou que a cena da pirraça era ridícula, veja o que aconteceu:

– Eu pago! Eu pago todos os álbuns, as figurinhas novas, pago tudo! Mas quero meu filho no álbum!

Eu disse novamente que era impossível, a mãe pegou as coisas dela para ir embora, pegou a mochila da criança e com os olhos cheios de lágrima (é sério) me disse que faria o próprio álbum para o filho dela não sentir.

Você deve estar achando que a criança tinha 7 ou 8 anos. Não! Ela tinha 2. Nem sabia direito o que era figurinha. A dor toda era da mamãe mimada.

O que me preocupa de fato é saber que este não é um caso isolado. Não sei se a mãe fez o tal álbum (provavelmente fez), mas ela é uma adulta que não sabe aceitar as dores que a vida nos oferece, prefere burlar. Quer ter tudo e acha que tudo a pertence. O problema maior é que uma criança está sendo criada com esse pensamento, está crescendo com a visão de mundo mimada.

Melhor (ou pior) … crianças estão sendo criadas com este pensamento.

Vivem dentro da cultura do descarte, do consumo, vivem em um mundo camuflado de presentes de compensação de faltas.

A primeira geração de crianças super mimadas cresceu e se reproduziu. As crianças fruto dessa reprodução estão sendo mimadas ao triplo. Nos resta agora esperar o dia em que veremos um adulto rolar no chão na fila do restaurante porque não liberaram ainda sua mesa.