Revista Statto

SEGUINDO VIAGEM

19/09/2020 às 19h56

Cometeu suicídio várias vezes.  Foram três vezes para ser mais exato.

Dessa vez não poderia mais fugir.

Estava desesperado. Considerou que a solução mais rápida era dar fim a vida. Resolveu pular da janela do apartamento no oitavo andar. Olhou ao redor, o apartamento estava silencioso. Foi à janela e afastou as cortinas.  Uma rajada de vento soprou o seu rosto.  Ao seu lado o amigo sorrindo disse: – Dessa vez você não vai interromper. Não poderá fugir eternamente do aprendizado.

Ele olhou para o lado, parecia ouvir o que seu amigo dizia, deu de ombros com desdém.

Não podia ver seu amigo. Estavam em dimensões diferentes.

O pensamento novamente o encorajou: Num instante vai estar tudo terminado. Acaba todo sofrimento, todos os problemas estarão encerrados. Vamos!

Obedecendo ao comando, subiu no parapeito e pulou. A última coisa que viu foi o amarelo do pôr do sol no horizonte. Quebrou várias vertebras.  Não morreu. Ficou tetraplégico.

Chorou. Desesperou-se. Sua família o amava e fazia de tudo para que ainda assim estivesse bem.

Anos passando e já conhecia cada manchinha do teto. As lágrimas secaram. Esvaziou-se. Novamente olhou para o teto. Observou um sorriso se formando. Não tinha mais medo de nada. Nem mesmo daquele sorriso que apareceu no teto. Várias vezes se pegou sorrindo de volta. Começou a conversar com aquele sorriso. Parecia um sorriso amigável.

O sorriso ganhou rosto. Pensou que conhecia aquele rosto de outro lugar. Acompanhava a cada dia que o sorriso ganhava corpo e um dia o corpo desceu para conversar. Falou que estava junto quando ele pulou. Contou porque ele estava tetraplégico. Para não poder mais fugir. Para não mais pular da janela da locomotiva da vida como havia feito por três encarnações anteriores, toda vez que se deparava com as dificuldades. Toda vez que teria que mudar.  Dessa vez teria que seguir a viagem até o fim. Estaria sempre acompanhado por pessoas abnegadas para ajudá-lo, mas ninguém poderia fazer por ele a tarefa de evoluir. De esperar para ver que ele vence os obstáculos. Que depois do problema resolvido ele estaria mais forte e mais apto para a próxima fase do processo.

Teria que adquirir tranquilidade para aprender a tarefa mais difícil do existir; conhecer-se, dominar-se.

Que acalmando a mente poderia viajar. . .. Para dentro. Que dentro aprenderia muito. Que dentro, no silêncio, encontraria as respostas, venceria as dificuldades, se tornaria mais forte e feliz.

Descobriu que era livre. Conversava mais com os amigos e com o sorriso.

Um dia o trem da vida parou na estação para ele descer. Reverenciou agradecido o corpo inerte que o abrigou impassível por tantas décadas de aprendizado.

AS ASSOMBRAÇÕES DA NOVA CASA

23/06/2020 às 13h31

Quando a mãe de Arthur disse que era para começar a arrumar tudo nas caixas para a mudança ele perguntou: – Vamos mudar para outro apartamento do condomínio?

– Não Arthur! Faz tempo que estamos falando que poderíamos mudar para outra cidade.

– Para outra cidade? – Repetiu o menino já com as lágrimas descendo pelo rosto e a voz chorosa.

A mãe, carinhosa, sentou-se na cadeira e estendeu os braços para que o menino se aproximasse e ele quase se jogou já chorando alto enquanto tentava falar.

– Calma, Arthur! Por que você está chorando?

– Não quero mudar de cidade. Não quero morar em outro lugar.

– Por que não? É uma cidade linda!

– Não! Quase gritava Arthur chorando.

– Ouça, meu amor. – Disse a mãe, tentando acalmar o filho. – Não estou entendendo por que você está chorando.

– Para outra cidade não vou! Vou ficar aqui com meus amigos. Na outra cidade não tenho nenhum amigo.

– Não precisa chorar! –Disse a mãe secando as lágrimas do menino com um guardanapo que pegou sobre a mesa. – Você já tem oito anos e sabe que vai continuar conversando com seus amigos pelo telefone e pela internet.

Arthur chorava mais ainda, desesperado. Pensar em ficar longe dos amigos o deixava muito triste.

– Não é a mesma coisa mamãe! – Falava entre os soluços. – Brincamos todos os dias. Jogamos futebol, assistimos filmes, vamos às festas juntos. Não quero mudar mamãe, por favor.

– Meu filho, lá você vai ter muitos amigos também.

– Não! Não quero novos amigos! Gosto dos meus amigos, mamãe.

– Vamos fazer assim, agora você vai lavar o rosto e eu vou fazer um delicioso lanche para você, depois a gente volta a conversar, está bem?  – Disse a mãe enquanto levava Arthur para lavar o rosto.

O choro do menino não mudaria os planos de mudança. Guilherme, o irmão mais velho de Arthur, ia estudar na faculdade da outra cidade e sua irmã também iria no próximo ano, então, seus pais decidiram se mudar para dar mais assistência aos filhos. A mãe, professora, pediu transferência para trabalhar na outra cidade e assim que a transferência saiu, o pai, Marcos, viajou para procurar uma casa para a família morar. Arthur e a mãe iam à frente com a mudança. O pai e os dois irmãos mais velhos ficariam na casa da avó até que pudessem ir.

O dia chegou. Na estrada, durante a viagem, Arthur quase não conversou e quando o carro parou, olhou para a mãe que sorrindo, disse: – Chegamos! Veja a casa linda onde vamos morar! – Ele olhou para fora e ficou por algum tempo observando a casa até a mãe chamá-lo.

– Vamos Arthur! Anime-se, vamos conhecer a nova casa.

Ainda demonstrando toda a sua contrariedade, Arthur saiu do carro e seguiu a mãe. Ela abriu o portão e, subindo os degraus para chegar à porta, olhou para trás para se certificar que o filho a seguia. Ao entrar na casa, exclamou alegre: – Nossa! Como é grande esta sala! Venha meu filho, vamos conhecer a casa.

Andaram pela casa e encontraram um quintal bem grande com várias árvores e algumas tinham frutas.

Arthur sorriu, sempre havia morado em apartamento e agora tinha um quintal com pés de frutas. Andava por entre as árvores e foi surpreendido por algo que mexeu o capim, olhou rápido e viu um gato que saia correndo. – Mamãe, mamãe! – Gritava Arthur correndo para a casa.  Encontrou com ela que veio saber o que se passava.

– Você precisa ver uma coisa. – Disse ele puxando a mãe pela mão a levando pelo quintal enquanto apontava para o lado que o gato havia ido. – Ele está daquele lado.

– Quem foi para aquele lado? Perguntou a mãe.

– O gato da casa.

– Não estou vendo. Deve ser de alguma casa vizinha.

– Posso ficar com ele?

– Quando ele voltar você pode conquistar a confiança dele, chegar perto, dar algo para ele comer, fazer carinho, mas ele deve ter dono, o que não impede que seja seu amigo.

Ele sorriu. Ficaria esperando que o gato voltasse para fazer amizade com ele.

A mudança chegou ao mesmo dia e os móveis foram colocados nos lugares. Arthur escolheu um quarto e, da janela, ficou olhando a rua, as casas e os poucos carros e pessoas que passavam.

Em sua primeira noite na casa, acordou quando ouviu gritos, puxou o cobertor e ficou alerta. Aqueles gritos pareciam que vinham do quintal da casa. Ficou por muito tempo ouvindo os gritos, às vezes alto e outras vezes baixo. Assim como começou, de repente acabou, mas ele demorou a dormir pensando naqueles estranhos gritos.

Na manhã seguinte, logo que se levantou, foi ao quintal e andou por todo lado, mas não havia nem sinal de que alguma coisa havia acontecido ali.  Perguntou a mãe se ela tinha ouvido o barulho estranho à noite. Ela respondeu que estava tão cansada que não ouviu nada.

Alguns dias depois outro barulho fez Arthur perder o sono. Estava começando a chover e de repente ouviu um som como se alguém estivesse arranhando e batendo na parede. Se enchendo de coragem saiu andando pela casa tentando descobrir de onde vinha o barulho e descobriu que era na parede do lado da casa que dava para o quintal.

Não voltou para o seu quarto, foi direto para a cama da mãe e mesmo assim só dormiu quando o barulho foi parando.

Tentando se acostumar com a nova casa, brincava no quintal e descobriu que no terraço dava para andar de bicicleta e brincar nos dias de chuva, por isso levou quase todos seus brinquedos para lá.

Quando ligou para seu melhor amigo, contou como a casa nova tinha bastante espaço para brincar e ficou triste de pensar que seus amigos não podiam vir brincar com ele. Assim que fosse instalada a internet ele ia filmar e mostrar a casa nova para seus amigos.

Arthur acompanhou a mãe quando ela foi conhecer a escola que ia trabalhar e conheceu Davi, menino mais velho, filho de uma funcionária, e os dois jogaram bola na quadra da escola até que sua mãe o chamou para irem embora. Ela perguntou se ele gostou de brincar com Davi e disse que todos os dias até que começassem as aulas ele podia brincar com Davi na escola e se quisesse poderia convidá-lo para ir brincar na casa nova. Ficou feliz de pensar que tinha um novo amigo.

À noite, quando ia dormir, ficava atento para ouvir os barulhos estranhos e um desses dias ouviu como se alguém estivesse andando no terraço e tropeçado em sua caixa de brinquedos. Desta vez não quis sair para descobrir onde era o barulho, cobriu a cabeça e ficou atento, pensando que deveria ser assombrações que moravam na casa. Esse pensamento fez com que ficasse com mais medo ainda, mas com o cansaço acabou dormindo.

No outro dia ele perguntou a mãe se ela achava que tinha assombrações na casa. Ela riu e disse que ouviu falar que as assombrações ficam é nas casas muito velhas e como a nova casa não é velha com certeza não tem assombrações. Arthur ficou calado, não adiantaria falar com a mãe que ele ouvia barulhos estranhos porque ela dormia e não ouvia nada.

Numa manhã, acordou cedo com a chegada do pai e dos irmãos, estava com saudades. Sua mãe estava muito feliz e fez o bolo de chocolate que ele mais gostava. Os dias passavam e numa noite, de novo ouviu o barulho no terraço, levantou e correu para o quarto dos pais.

– O que foi Arthur? – Perguntou o pai que acordou assustado com o filho subindo na cama.

– A assombração está no terraço. Ouvi mexer nos meus brinquedos.

Marcos sentou na cama e ficou em silêncio para ouvir. De repente um barulho de alguma coisa caindo. Arthur abraçou o pai e falou sussurrando: – A assombração está no terraço.

O pai levantou a mão e colocou o dedo sobre os lábios para que Arthur ficasse calado e falou baixinho: – Venha comigo, vamos ver quem é.

Os dois foram andando devagar sem fazer barulho e subiram as escadas. Arthur estava bem atrás do pai quando ele abriu a porta devagar e se deparou com o gato que brincava com a bolinha de tênis. O gato assustado correu para o muro, depois pulou na árvore e sumiu na escuridão. Arthur respirou aliviado, não era assombração, mas o gatinho que ele havia visto no quintal no dia que chegaram.

Os dias passavam e mais uma vez Arthur corre para chamar o pai por causa do barulho de alguém que arranhava a parede. Desta vez não ia ser o gato, pensou Arthur, era mesmo a assombração. Novamente os dois foram para o terraço para procurar de onde vinha o barulho. Estava escuro e ventando muito, então seu pai voltou para buscar blusa para os dois e uma lanterna.

Chegaram ao terraço, acenderam a luz e ficaram observando, ouvindo atentamente enquanto Arthur segurava a mão do pai com medo que a assombração aparecesse. Com a lanterna, o pai procurava localizar no quintal o que poderia estar arranhando a parede e percebeu que o vento estava balançando a árvore e seus galhos batiam na janela e na parede. Marcos olhou para o filho, sorriu e disse: – Viu o que está fazendo esse barulho? É o galho da árvore que está batendo por causa do vento. Não tem nenhuma assombração aqui. – Arthur sorriu aliviado e foi dormir tranquilo.

– Vem ver a lua. – Chamou o pai de Arthur. – A lua cheia parece um grande queijo. Dizem que em noites de lua cheia aparecem assombrações, será que essa noite vamos ver uma?

– Mamãe disse que tem assombrações em casas muito velhas e essa casa não é muito velha, então não tem assombração. É verdade?  – O pai riu e concordou.

Alguns dias depois, estava assistindo televisão quando ouviu uns gritos vindos do quintal. Olhou para o pai assustado. Ele riu, levantou e disse: – Vamos saber quem está gritando no quintal.

Abriram a porta e saíram devagar e logo viram dois gatos, que olhavam um para o outro e gritavam muito. Marcos disse: – Olhe!  São os gatos. Você não precisa ter medo.

Depois disso Arthur não teve mais medo dos barulhos que faziam na casa à noite, porque ele já conhecia as assombrações, que na verdade era os gatos e os galhos da árvore.

PRIMEIRO AMOR

13/04/2020 às 09h46

São Paulo, amanhecia branca por uma neblina baixa que mal dava para enxergar distintamente mais de 30 metros de distância. Não a São Paulo capital, mas uma de suas cidades alojamentos onde o povo se levanta ainda no escuro da madrugada para percorrer muitas horas de trem, metrô e algumas vezes ainda ônibus para chegar ao local de trabalho.

Naquele dia eu não estava indo ao trabalho como a maioria dos que seguiam para a estação de trem. Tinha que resolver algumas pendências na capital e como o dia fica pequeno para quem tem que fazer esse percurso de ida e volta e quer chegar à casa antes do anoitecer, é melhor seguir cedo rumo ao objetivo do dia.

Como era de se esperar o ônibus estava cheio, mas não lotado como fica no final da tarde trazendo trabalhadores e estudantes, quando até para entrar no ônibus é difícil porque no corredor entre os bancos se espremem um grande número de passageiros viajando de pé.

Entrei e ainda encontrei um lugar para sentar.

Por volta de vinte minutos de percurso e o ônibus parou em frente à estação de trem, subi as escadarias e já estava em frente a roleta de passagem para as plataformas e, por alguns minutos, pensei no trajeto que teria de fazer até a estação do Brás. Decidi rapidamente que iria de ônibus e fui logo saindo da estação e caminhei em direção ao ponto de ônibus intermunicipais.

Poucas pessoas iam de ônibus para São Paulo porque a passagem é mais cara e o vale transporte não cobre o preço de passagem de ônibus. Não era possível nem comparar a viagem de trem com seus vagões sempre abarrotado de trabalhadores com a viagem confortável num ônibus executivo, com poltronas macias e ar condicionado.

Entrei no ônibus que ainda estava bem vazio e escolhi sentar na fileira atrás do motorista, na segunda poltrona. Acomodei-me bem na poltrona junto à janela e fiquei olhando para o trânsito. Por várias vezes o ônibus parou nos pontos e pegava passageiros, mas eu sequer olhava para quem entrava. De fato, estava absorta em meus pensamentos que nem percebi que havia alguém sentado ao meu lado até que ouvi a voz de um homem bem próximo de mim dizendo que dentro do ônibus a temperatura estava agradável.

Olhei para a poltrona ao lado e vi um homem sorridente. Aparentava uns quarenta anos. Vestia um blusão de malha grossa marrom e tinha uma pequena bolsa sobre os joelhos.

Sorri para ele e concordei balançando a cabeça afirmativamente.

Assim que teve a minha atenção iniciou uma conversa sobre trabalho, dificuldade para ir de carro por causa do transtorno com estacionamento.

Eu escutava, mas ainda não havia falado nada quando ele perguntou se eu era casada.

Respondi que sim ao mesmo tempo que me ajeitava na poltrona para não esbarrar nele.

Olhou para mim fixamente e falou seu nome, perguntando em seguida o meu. Pensei: “essa viagem vai ser longa, lá vem cantada.”

O meu falante companheiro de viagem começou a contar sobre sua profissão e o quanto ele se sentia um profissional bem-sucedido.

Falou do quanto tempo havia vindo do Nordeste para São Paulo e como começou em sua profissão da qual gostava muito de trabalhar. Por alguns momentos ele deu uma parada na sua fala e novamente pensei: “agora deve estar esperando que eu fale algo sobre mim.”

Olhou para mim em silêncio por alguns minutos e perguntou se eu estava indo para o trabalho ao que respondi que não. Em seguida perguntou o bairro que eu morava. Ficamos em silêncio por alguns minutos e ele voltou a conversar. Dessa vez falando de como foi seu final semana e que havia dormido muito tarde porque tinha ido a uma festa na casa de um amigo. Foi logo em seguida perguntando se eu gostava de churrasco porque ele e alguns amigos iriam fazer no próximo final de semana e por coincidência o endereço era no mesmo bairro que eu morava e se eu quisesse ir, seria convidada dele.

Olhei para ele e perguntei se a esposa dele gostava de ir aos churrascos.

O homem se ajeitou na poltrona. Disse que ele e a esposa estavam numa situação difícil no casamento. Que ainda não haviam se separado por causa dos filhos. Que tinham três filhos. O filho mais velho estava com vinte e seis anos e não vivia com eles porque estava casado e tinha casa própria, que ele ajudou a construir. O segundo filho com dezenove anos estava prestando o serviço militar. Que o filho caçula estava completando dez anos naqueles dias. Que esse menino era muito apegado a ele.

Dessa vez o homem prolongou o tempo em silêncio.

Olhava para as mãos sobre a bolsa, ora olhava para o trânsito à frente do ônibus.

Depois de um certo tempo, olhou para mim com um semblante triste e recomeçou a contar a sua história.

“A minha esposa e eu nos conhecemos desde crianças. A gente começou a namorar na adolescência e ela engravidou quando estava com dezesseis anos e eu com dezenove. Com medo da reação do pai dela decidimos fugir para São Paulo e ficamos na casa do meu irmão que morava aqui com a família dele. Esse meu irmão arrumou emprego para mim na empresa que ele trabalhava e deixou a gente ficar na casa dele até arrumar uma casa para alugar. Pois bem, estou nessa empresa até hoje. Agora trabalho por empreitada e tenho meus funcionários.

Passei de empregado a prestador de serviço”.

A expressão do rosto dele se abriu com a satisfação de falar de seu trabalho. Começou novamente a falar de suas atividades e o assunto dispersou.

Novamente voltei a perguntar sobre a esposa dele. Perguntei onde ela trabalhava.

A expressão de seu rosto ficou apreensiva. O silêncio que se seguiu à minha pergunta me fez pensar em ficar calada. Parar de fazer perguntas sobre a família dele. Certamente esse assunto não era agradável para ele.

A verdade é que eu usava essas perguntas como uma estratégia para me livrar das cantadas, perguntando sobre a esposa dele como uma forma de fazer lembrar que é uma pessoa comprometida. Sempre funcionou. Eles começam a falar dos filhos e de outras coisas e deixam de lado o primeiro impulso de conquista.

Olhei pela janela e vi que a neblina se dissipava. O fluxo de veículos estava aumentando à medida que nos aproximávamos da Capital. Segurei a minha mochila contra o peito enquanto me ajeitava melhor na poltrona.

“Sabe o que é? – Falou subitamente – “A minha esposa e eu estamos ficando cada dia mais distantes. Pense bem! Estamos juntos quase que a vida toda e agora já andados na vida a gente está se tornando estranhos. Não consigo entender o que aconteceu. Ela não gosta mais de me acompanhar para lado nenhum. Sempre vem com desculpas de indisposição. Peço desculpas pelo que vou falar com você, mas nem dormir na mesma cama ela não quer mais.

Sempre com a desculpa que está sentindo muito calor e vai dormir afastada de mim na cama ou vai dormir em outro quarto. É sério que eu tento entender, mas isso está durando tempo demais. Parece que cada dia está piorando. Cada dia uma queixa nova. Nem mais reconheço nela a pessoa com quem convivo há tanto tempo. Sempre mal-humorada. Cheguei a pensar que ela arrumou foi outro homem e ela até chora dizendo que não faria isso comigo nunca.

Que me ama”.

“Não entendo! Porque ela está se comportando assim então, se afastando de mim desse jeito”?

Sentia que estava triste com a situação. Na verdade, estava analisando os seus sentimentos. Provavelmente não havia ainda comentado com ninguém sobre esse problema.

Olhei mais atentamente para o rosto daquele homem. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia o quê. Talvez estivesse ajudando só de estar ouvindo seu desabafo.

“Quero te falar que gosto demais da minha esposa. Tudo que construímos foi porque sempre fomos apoio um do outro. Criamos nossos filhos com carinho e sempre houve muita cumplicidade entre nós. Sabe que ela é o meu primeiro amor e os nossos planos sempre foi envelhecemos juntos, conhecer nossos netos e quando já tivermos aposentados, poder passear bastante nós dois juntos. Hoje nem sei mais se existirá um futuro nosso como planejamos.

Fazer o que”?

Ouvia o desabafo daquele homem quando me veio à mente o que poderia estar causando essa mudança de comportamento na esposa dele e perguntei a idade dela.

“Ela tem quarenta e três anos. É uma mulher muito bonita. Gosta de se cuidar.

Trabalha num salão de beleza. Quem olha para ela nem acredita que tem filhos adultos”.

Enquanto falava sorria lembrando com certa doçura da esposa.

Olhei para aquele homem por alguns minutos e comecei a falar que as mulheres quando chegam aproximadamente por volta dos quarenta anos passa por uma grande transformação no corpo.

Nessa fase a mulher sai do seu período fértil. Que daí para frente o corpo começa a sofrer mudanças cada vez mais rápido por causa da queda na produção hormonal o que afeta de diversas formas o funcionamento do corpo e inclusive o psicológico.

Falei que o excesso de calor que ela disse que sente é muito comum nas mulheres que estão na menopausa.

Ele olhava para mim prestando atenção e um pouco surpreso com o que ouvia.

Afastou-se um pouco do encosto da poltrona e virou mais para o meu lado mostrando um real interesse nas informações e pediu para que eu repetisse o nome dessa fase.

Dei continuidade ao assunto acrescentando que ela tinha que procurar um médico para fazer vários exames e assim saber como estavam as taxas hormonais e em muitos casos os médicos receitam reposição hormonal para que a mulher não sofra muito nessa fase.

“Como nunca ouvi falar disso? Nem mesmo ela disse nada disso para mim”?

As mulheres passam por essa fase de formas diferentes, mas algumas sofrem mais.

Pode estar certo, toda mulher tem sintomas inconvenientes. Provavelmente ela não conversou ainda com o médico para falar sobre isso e nem ela mesma deve estar entendendo o que está se passando com ela.

O homem se remexeu na poltrona. Agora estava ansioso. Olhou para as mãos, levantou a bolsa que estava sobre os joelhos e voltava a colocar.

Visivelmente um turbilhão de pensamentos vieram à sua mente e de repente levantou-se, colocou a bolsa na poltrona e ficando de pé no corredor virado para o meu lado.

Disse que ela tinha consulta marcada às nove horas e ele ia junto com ela.

Pegou a bolsa e caminhou até a porta que separa os passageiros do motorista. Abriu a porta e saiu.

Fiquei por algum tempo olhando para a porta e voltei o olhar para fora do ônibus.

Quando ouvi o barulho da porta sendo aberta, voltei o olhar e era ele com a bolsa pendurada no braço. Parou perto da poltrona onde eu estava e falou: “Quero agradecer pela conversa que tivemos. Você nem deve saber, mas você é o anjo que eu pedi a Deus para me dizer o que estava acontecendo com minha esposa. Muito obrigado e Deus a abençoe”.

O homem saiu novamente pela porta e pouco depois o ônibus parou. Certamente foi para ele descer e voltar para a casa. Teria tempo bastante para chegar a casa e acompanhar seu primeiro amor na consulta ao médico.

Segui a viagem. À noite, no conforto do meu lar, pensei: vou escrever essa história.

REALIZANDO SONHOS

21/03/2020 às 16h16

Guardamos muitos dos nossos sonhos e desejos no fundo do coração e, com o passar do tempo, aceitamos que não será possível realizá-los, porque ficamos presos nas engrenagens da rotina, na busca do necessário e os sonhos parecem supérfluos.

O tempo se encarrega de desbotá-los dentro de nós, tornando-os sem importância e, quanto mais tempo e dinheiro for necessário para torná-los reais, mais rápido o colocamos na prateleira do impossível.

Por vezes, pensamos como ficaríamos felizes se conseguíssemos realizar alguns de nossos sonhos.

Podemos pensar em estabelecer um dia para realizar nossos sonhos e desejos, começando por fazer uma lista das coisas que desejamos e, colocar uma data provável para a sua realização, começando pelos mais acessíveis.

Marcar no calendário esse dia de realizações. O dia para ser feliz vivendo os sonhos.

Pode ser um dia da semana ou do mês ou até mesmo do ano, para ser esse dia especial. Reserve o que vai ser necessário gastar, programe seu tempo e faça seu sonho se tornar realidade.

O que você poderia fazer de especial?  Realizar seu desejo de tomar aquele chocolate cremoso na cafeteria mais chic da cidade todo sábado; almoçar com a família uma vez por mês naquela churrascaria que você passa em frente todos os dias; ir ao salão de beleza para dar tratamento nos cabelos todos os meses; alugar aquele carro que você sonha dirigir e sair para dar umas voltas como presente de aniversário; curtir um dia no parque aquático no verão, ir à praia nas férias.

Faça uma lista e se dê o prazer de viver seus sonhos!

Tente realizar os desejos pequenos e se for possível realize os grandes sonhos também. Não permita que a rotina seja tudo o que você vai viver.

A felicidade é feita de momentos, realize seus sonhos e seja feliz.

CORPO E MOVIMENTO

07/03/2020 às 10h48

Todo mundo já sabe que fazer exercícios faz bem para a saúde, mas ter motivação para assumir compromisso em se exercitar pelo menos três vezes por semana é o obstáculo a ser vencido pela grande maioria das pessoas.

Podemos começar a prática de exercícios para atingir algum objetivo específico, como por indicação médica para controle da hipertensão ou para alcançar estereótipo de beleza de um corpo malhado.

A boa notícia é que a abrangência dos benefícios desse hábito saudável vai muito além do corpo físico, exercendo influências psicológicas e neurológicas.

Os exercícios físicos ajudam a diminuir e controlar o peso.

Diminui os riscos de doenças cardíaca com controle da hipertensão, redução do colesterol ruim e aumenta as taxas do bom colesterol.

No tratamento da osteoporose ou osteopenia, levando ao aumento da massa óssea.

Combate à atrofia muscular com ganho de volume de músculos através de exercícios com carga como musculação.

Aumento da resistência muscular e os tendões e ligamentos ficam mais flexíveis.

Alivia o estresse, a ansiedade e combate a insônia.

Muito importante no tratamento da depressão porque a atividade física ajuda a produzir a serotonina que é o hormônio do bem-estar se manifestando como sentimento de alegria.

O tempo dedicado ao cuidado do corpo com os exercícios físicos produz aumento da autoestima.

Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFJR) em pesquisa que envolveu pesquisadores de diversos países publicaram recentemente resultados de anos de pesquisas sobre a atuação benéfica do hormônio irisina para melhorar o desempenho da memória e evitar o agravamento da doença de Alzheimer.

O resultado dessa pesquisa aponta que hormônio irisina é liberada pelos músculos durante exercícios físicos.

A pratica de atividades físicas é recomendada para todas as idades como quesito necessário para viver com mais disposição, saúde emocional e neurológicas.

Escolher uma atividade física que goste mais de praticar. Seja caminhada, natação, ciclismo, academia ou tantas outras modalidades. Que seja praticada em grupo ou individual.

Corpo e movimento é a combinação perfeita para uma vida saudável e mais feliz.