Revista Statto

COISAS DE REZADEIRAS

19/06/2020 às 14h10

Era uma casinha escondida por entre flores e árvores frutíferas. Um cantinho perfumado ali, no fim da rua.

Dona Maria, ou Domaria como diziam os mais próximos, num diminutivo aquecedor do coração.

Era um pedacinho de céu em meio ao tumulto da vida, um silêncio que acolhia um abraço que se fazia lar.

Ali as velas acesas no altar iluminavam também os passantes, que se achegavam para receber um rezo uma benção. O cheiro de alecrim e arruda inundava o ar e as rosas que bailavam ao vento no portão, guiavam os irmãos que necessitavam de seus cuidados até sua porta.

Era uma casinha escondida das maldades e mazelas. Ela se abria apenas para os corações prontos para receber amor e para os que ainda estavam adormecidas a sombra do medo e da raiva, não encontravam… uma neblina era tecida pelos anjos guardiões que cegava a maldade e nenhuma chegava até ela

Seu coração era tão puro, tão bondoso que estar perto dela já era um rezo maravilhoso e quem a conhecia não queria mais sair de sua presença doce.

Ela dizia a todos que essa era sua missão nessa terra, levar o amor e servir a Deus, estendendo as mãos.

Assim era sua vida, um entender mãos e acolher dores, mas engana-se quem acredita que ela ficava com o peso das cicatrizes que rezava. “Qeimo tudo no fogo sagrado fia, faço fogueira, “ponho um cadim” de tabaco pro rezo e a fumaça leva tudo e das cinzas faço pó pra purificar mais dores, assim fia nada fica, tudo vai embora encontrar seu lugar nos livros da vida“!

Domaria, era uma indiazinha pequena, só por causa do tamanho franzino, mas uma rezadeira imensa. O perfume de sua alma era sentida longe.

Não tinha telefone, computadores nem campainha. Quando quer falar com alguém, manda um beija flor cantar na janela! “É a presença divina que aparece fia, e chama quem eu preciso encontrar“!

Domaria, com suas mãozinhas pequenas ensina que o amor não deve ter olhos de gente, precisa ter olhos de anjo, para ver todos como irmãos. Somente assim o rezo é verdadeiro e nasce do coração. “Olho de gente amarga“, ela diz…

As “Domaria”, as casinhas escondidas, os olhos de anjo…são tesouros que precisamos resgatar para salvar a nós mesmos, de nós mesmos!

A MULHER SELVAGEM

27/02/2020 às 11h15

Toda mulher que não se domesticou e mantém-se em harmonia com sua essência é uma mulher livre.

Livre das etiquetas que a sociedade lhe impõe.

Livre para correr pelas pradarias e florestas pisando descalça pelos terrenos que a ensina a conhecer sua jornada.

Percebe espinhos, perfumes e cores.

A mulher selvagem voa junto aos grandes gaviões aprendendo a observar a vida atentamente, rastreando como a onça os inimigos e os alimentos para que sua alma cumpra seus contratos. Vive a magia da sutileza ao felinamente se espreguiçar a beira rio, se encantando com sua própria figura delineada pelo sol e sombra, sabendo que são partes de si mesma.

A mulher selvagem tem nos olhos os ensinamentos da coruja, que aprende ao observar a noite escura sem medo e é senhora absoluta de si.

A mulher selvagem tem a força dos grandes mamíferos, que pisam firme sobre a terra.

Ela é também a dançarina da noite e uiva, qual loba espreitando a lua.

A mulher selvagem vibra com as ervas que encontra e se cobre de proteção e rezos.

A mulher selvagem não guerreia pois tem a certeza de que tudo acontece na colaboração de todos os seres.

A mulher selvagem rola feito felina que é no orvalho que repousa nas folhas, e faz disso sua medicina.

A mulher selvagem solta os cabelos e neles guarda as memórias dos dias já vividos mantendo assim sua força.

A mulher selvagem quando necessário, trança os mesmos cabelos prendendo a tristeza e no alto da colina os solta, pedindo ao vento que leve embora ao mais longínquo tempo, deixando apenas as lições aprendidas.

A mulher selvagem não é de todo brava nem de todo calma. É a exata medida do que pede sua alma desperta. Se precisar rugir, vai rugir. Uivar, vai fazê-lo, e saberá docemente cantar como os sabiás laranjeira nas primaveras floridas. A mulher selvagem se multiplica em muitos assim a jamais perder-se de quem é.

A mulher selvagem pinta a face e dança na fogueira…entrega ao sagrado fogo o que precisa transmutar, e não se sente vazia com isso. A plenitude a chama a cada respiração.

A mulher selvagem é a exata medida do desvario. Sem medo ou culpa por sua inconstância…feita de fases, sabe-se um ser não linear, e se honra por isso.

A mulher selvagem olha de frente, e quem sustenta seu olhar encontra constelações de amor dançando em sua íris. Ou se entrega, ou foge com medo de sua intensidade.

A mulher selvagem dança com lobos e caça com as onças, nada com os botos, voa com os gaviões e condores, hiberna com os ursos, brinca com os beija flores, serpenteia sua veste e se esconde por entre as folhagens…a mulher selvagem é tudo o que ela se permite ser.

A mulher selvagem aprende e compartilha o que sabe, fortalecendo as companheiras de jornada.

A mulher selvagem encontra seu lugar de poder e ali faz morada, mas não constrói muros, eleva pontes. Se faz elo.

A mulher selvagem apenas “É”, sem nada precisar provar.

A mulher selvagem tem um pouco de Isis, de Madalena, de Maria, de Iara, de Jurema….e nessa mistura encontra muito dela mesma!!