Revista Statto

PSICOLOGIA CLÍNICA E PSICANÁLISE: DOIS CAMINHOS PARA ESCUTAR O SOFRIMENTO HUMANO

03/06/2020 às 13h39

Qual é a diferença entre fazer terapia com um psicólogo clínico e análise com um psicanalista? Ambos os profissionais se dedicam a escutar o sofrimento humano, sem julgamento.

Porém, existe uma diferença grande entre os dois. O objeto de estudo da Psicologia é o ego ou o eu. O objeto de estudo da Psicanálise é o inconsciente.

Freud disse que o eu não era senhor na sua própria casa. O que isso quer dizer? Que o inconsciente interfere em nossas escolhas sem nos darmos conta disso.  Muitas vezes o que atribuímos ao destino nada mais é que a influência do inconsciente. Vamos a um exemplo objetivo?

Alguém afirma desejar uma vaga na empresa X, mas na véspera da entrevista sai para beber com os amigos e acorda de ressaca no dia seguinte e sem ânimo para fazer o processo seletivo.

Beber muito na véspera de uma entrevista importante ou cometer uma infidelidade sexual quando o relacionamento amoroso vai bem podem ser manifestações do inconsciente, tentando dizer que na verdade ele não quer aquele emprego ou não está preparado para viver um relacionamento mais sério.

Muitas vezes não conseguimos conquistar o que afirmamos querer.  Mas será que queremos mesmo? Será que não pensamos querer porque aceitamos como nosso, o desejo de outro ou de outros?

Quantas pessoas não imaginam desejar a maternidade/paternidade para agradar aos pais ou ao parceiro afetivo ou simplesmente para atender à uma expectativa de sucesso proposta pela sociedade?  Quantas pessoas não imaginam querer um trabalho numa determinada área profissional por uma questão de status social ou por se espelharem em alguém a quem muito amam e/ou admiram?

O inconsciente se manifesta de quatro formas: por meio dos sintomas, dos sonhos, dos chistes e dos atos falhos. Deixar de levar o passaporte para uma viagem importante e esperada ou perder um livro fundamental para o estudo de uma prova na véspera da mesma, muitas vezes, não são simples esquecimentos.  Podem ser atos falhos que, se forem repetidos, se configurarão como um sintoma.

Por meio da fala livre, o analisando dá voz ao seu inconsciente. Traz à tona desejos recalcados, conquistando a oportunidade de escolher se deseja atender às demandas do ego e do superego ou às demandas do inconsciente, fazendo uma espécie de negociação ou conciliação entre as três partes da estrutura psíquica.

Já o psicólogo clínico foca no consciente ou no ego. Orienta o paciente a encontrar as melhores soluções para os seus conflitos tomando como base os padrões e valores considerados mais adequados pela vida social e pelo consciente do paciente.  Por esta razão, existem testes psicológicos, mas não existem testes psicanalíticos.  Enquanto a Psicologia busca por padrões de normalidade, a Psicanálise visa a singularidade.

CORONAVÍRUS: AS REINVENÇÕES NASCEM DO CAOS

21/03/2020 às 10h21

Estamos vivendo um momento de profunda crise. Diante de um novo vírus, o qual ainda não conhecemos e, portanto, não sabemos exatamente como lidar com ele, o medo é uma reação inevitável e natural.

Há quem trate o Coronavírus como uma mera gripe. Ingenuidade? Não sei.  As pessoas idosas, cardíacas, diabéticas e com problemas respiratórios são as mais frágeis e que precisam tomar mais cuidado.  Quem convive com membros dos grupos de risco também precisarão ficar muito atentos.

Os hábitos de higiene devem ser dobrados, aglomerações evitadas sempre que possível.  Enfim, deve-se investir na prevenção, mas sem pânico. O mesmo medo que nos ajuda a sobreviver, que nos protege de situações de alto risco, quando se torna exagerado, nos paralisa, embota a capacidade de pensar e decidir com clareza.

Sabemos que o Coronavírus já está causando vários danos à economia, que daqui para frente nada será fácil. Imprevistos e mudanças de planos serão as palavras de ordem. A população mais pobre será como sempre a mais afetada.

Me preocupa também os danos emocionais proporcionados pelo novo vírus: a dificuldade para sobreviver, o isolamento social, o medo constante de uma possível contaminação agravará quadros de ansiedade, depressão e fobia. Pessoas propensas à conversão terão os sintomas da doença sem estarem realmente contaminadas.

Mas deixo aqui uma colocação que me parece importante: crises podem se transformar em oportunidades.

Chegou a hora de criarmos soluções que viabilizem a sobrevivência de todos, chegou a hora de usufruirmos das potencialidades que a tecnologia nos proporciona, de investirmos em produtos e modos de oferecer serviços que se adequem melhor ao momento atual, de aprendermos a simplificar a vida, de entendermos mais sobre a importância dos hábitos de higiene e acima de tudo, compreendermos que a mesma crise que leva ao desespero, pode levar também a aprendizados e reinvenções.

Como afirmou uma analisanda: “talvez, o novo vírus seja uma oportunidade para nos humanizarmos, para aprendermos a cuidar mais e melhor dos nossos idosos, para aprendermos a consumir com mais responsabilidade e a compartilhar”.

A INVEJA É APENAS MAIS UM SENTIMENTO: A PSICANÁLISE PRECISA FALAR SOBRE ISSO

03/03/2020 às 08h52

A inveja, sentimento de cobiça ou injustiça em relação àquilo que o outro tem ou é, talvez seja um dos maiores promotores da angústia humana. Ela normalmente é associada à vilania e quase ninguém admite experimentar este sentimento, mas a maioria acusa as outras pessoas de sentirem. Diante de uma crítica, é muito confortável pensar que o outro está com inveja. Às vezes, realmente está. Em outros casos, pode ser que a crítica seja autêntica.

A inveja como qualquer outro sentimento é normal.  O preocupante é quando ela ganha proporções descomunais e começa a travar a vida de quem a sente ou até mesmo impelir a pessoa a prejudicar o seu ou os seus alvos.

Invejosos num nível patológico ocupando posições de poder na sociedade podem fazer estragos homéricos, pois, muitas vezes, para se preservarem, podem delegar uma função para alguém menos competente por medo da concorrência e negar a outro mais preparado uma boa oportunidade.  Em resumo: por causa de um problema interno, a pessoa pode colocar em risco o sucesso de um projeto ou até mesmo de uma empresa.  Ou na melhor das hipóteses, impedir um maior desenvolvimento.

Muitos podem estar se perguntando: quem ocupa lugares de poder na sociedade sente inveja?

Ninguém está fora do grupo de risco quando o tema é inveja porque por mais bem-sucedido que alguém seja, sempre existirão pessoas mais competentes, mais inteligentes, mais carismáticas, mais atraentes, com relações mais felizes e saudáveis.

É um mito acreditar que apenas ricos e famosos sejam alvos deste sentimento. Qualquer pessoa pode sentir ou ser alvo da inveja. Vou mais longe: ela não ocorre apenas entre colegas de trabalho, amigos, irmãos e primos, pessoas com idade parecida, com o mesmo gênero e profissão. Obviamente, que ela tende a ser mais frequente entre os semelhantes que pleiteiam as mesmas oportunidades. Mas é relativamente comum encontrá-la entre casais.  Com as mulheres conquistando um espaço cada vez maior na sociedade, muitos homens se sentem inseguros diante das realizações das parceiras. A grande questão é como lidar com este sentimento doloroso sem que ele prejudique as pessoas.

Pela crença popular, a inveja seca até planta e muitos temem a convivência com invejosos porque acreditam que o sentimento negativo alheio pode atrapalhar os projetos e relacionamentos. Conviver com invejosos crônicos realmente não é prazeroso, da mesma forma que não é agradável conviver com pessoas autoritárias, arrogantes e egoístas.

Por outro lado, ninguém se machuca mais com este sentimento do que o próprio invejoso. Quem sente inveja de forma crônica, provavelmente, gostaria de ter outra vida ou de ser outra pessoa. É uma espécie de exilado de si mesmo. É alguém que precisa ser escutado sem julgamento.  Muitas vezes, é simplesmente alguém que pouco se conhece, que não consegue se amar o bastante por dificuldade de visualizar o seu desejo ou de como obtê-lo.

RELAÇÕES ABUSIVAS: UMA MOEDA COM MUITAS FACES

25/02/2020 às 16h13

De alguns anos para cá, é comum ouvir falar sobre relacionamentos abusivos, principalmente por parte de mulheres que são subjugadas por seus parceiros, que se aproveitam da maior força física para fazerem valer a sua vontade na relação.

Porém, o abuso não precisa necessariamente ser físico. Podemos agredir uma pessoa com palavras e atitudes. Excesso de críticas, de cobranças e ciúmes são modalidades de abuso.  Tentar manipular o outro por meio de chantagens emocionais e impedir que o parceiro viva a sua individualidade também são formas de abusar do outro.

Embora seja bem mais comum o abuso partir dos homens que tem mais voz na sociedade e naturalmente possuem mais poder na relação, é possível encontrar mulheres abusivas também. Vou além:  as relações abusivas não ocorrem apenas no âmbito erótico, entre casais. Elas acontecem também entre pais e filhos, irmãos, colegas de trabalho, amigos. Toda relação afetiva ou profissional é uma relação de poder. As melhores relações, as mais saudáveis e felizes, são aquelas em que as forças estão equilibradas, em que ambas as partes falam e escutam, em que as individualidades não são eclipsadas e as decisões são negociadas. Mais do que isso: as decisões e acordos estabelecidos são realmente cumpridos.

Muitas vezes, o abusador não aparece como alguém forte e violento, que impõe as suas vontades por meio de gritos e xingamentos.  Podemos agredir por meio de uma atitude fria e negligente. Em muitos casos, o abusador parece o lado mais frágil da relação. Por exemplo, pessoas que ameaçam suicidar-se caso o parceiro decida ir embora promovem uma poderosa modalidade de abuso pois a parte frágil coloca o outro como o responsável por sua vida. Tudo o que o outro fizer e contrariar a parte frágil se tornará um argumento para acusar a suposta parte forte.

Pessoas que criticam demais também exercem um tipo desgastante de tirania pois acabam podando a outra parte.  O mesmo vale para quem demonstra ciúmes exagerados.  É muito comum o abusador ser alguém extremamente ciumento, que tolhe o parceiro, com um aspecto moralista, mas que pelas costas vive a sua liberdade de forma irrestrita.

O abuso também pode surgir por meio de uma carência e dependência excessivas. Como assim? Algumas pessoas sempre estão mal, sempre estão com problemas e acabam transformando o parceiro afetivo, amigo ou parente em uma espécie de tábua de salvação.  O parceiro, o amigo ou o parente viram o salvador da pessoa que está sempre triste, mas em raras situações o carente dá apoio ao outro pois se acomodou na posição de vítima.

Outro exemplo interessante de relação abusiva pode ser encontrada entre irmãos. Filhos mais queridos pelos pais podem se tornar abusadores, caso transformem a preferência dos genitores numa forma de obter privilégios.

Não pensamos muito a respeito, mas amigos também podem ser abusadores. Pessoas que se aproveitam da confiança que conquistaram para fazer brincadeiras maldosas, desmerecer as opiniões e realizações do outro.

Enfim, os exemplos são muitos. O mais importante é aprender a identificar quando uma relação está nos atrapalhando ou nos impedindo de sermos nós mesmos e de nos desenvolvermos nos mais variados âmbitos da vida.