Revista Statto

SOBRE O QUE PRECISAMOS NOS DIAS DE DOR

14/06/2020 às 11h36

E nos dias de dor “tamanha” ficarei ao seu lado em silêncio, qualquer palavra soaria ridícula. Deitaremos, ouvindo aquela música do Chico ou lendo uma página da Clarice, pedindo tradução para o que não achamos legenda. Em nossas brigas com o tempo, acomodadas nas lágrimas, duvidaremos do relógio, acreditando que ele se aliou aos dias nublados e, nessa parceria, fizeram a terra parar.

Não dormiremos, as noites serão insones, longas, sem início ou fim, daquele jeito que a gente pensa que dormiu, mas está acordado. Faremos perguntas pra Deus, simples e difíceis, sobre os homens, nascimento e morte, chegadas e partidas. Depois faremos uma garrafa de café e conversaremos sobre os ciclos da vida, tentando entender o porquê de as coisas acontecerem como acontecem, escapando das nossas mãos para céus inalcançáveis.

Os dias passarão lentamente porque é da dor essa preguiça da vida. Quando o cansaço fizer uma trilha, dessas que levam a gente para um jardim, quando duvidávamos da existência deles, falaremos do amor. Nesse lugar permaneceremos por dia, meses e anos. Diremos sobre o que ficou e o que não teve tempo de acontecer, sobre os dias de sol, os sonhos do amanhã e o sofrimento de hoje.

Juntas, arrumaremos as prateleiras da alma, respeitando o lugar das coisas do coração, não escondendo ou dispensando os amores que tivemos. Sem pressa, levantaremos, com um sorriso pequeno, porque é do despertar pequenos grandes sorrisos, iremos até o nosso quintal e acreditaremos nas flores, que nascem dentro e fora de nós.

QUANDO O AMOR SE DESPEDE

03/06/2020 às 10h53

O amor se despede, lentamente, sem pressa, nas esquinas da nossa casa. Devagar, arrumamos as malas. Vamos ficando esquecidos nos cantos do quarto, ou como aquelas gavetas, cheias de roupas sem uso, guardadas por anos a fio, blusas amareladas pelo tempo. O amor dissolve, como gelo, sem frescor, solitário, esquecido. Ocupados demais com a vida, não percebemos os adeuses. Faltam cuidados necessários e o amor padece na UTI, esperando nossa visita, esperando por dia, meses e anos, longas esperas.

O amor se despede, emudece, silencia. Primeiro dá sinais de cansaço, depois manifesta exaustão. A boca fica seca, a garganta arranha, desiste de falar tantas coisas que aguardavam para serem ditas. Desiste porque não encontra ouvidos, cadeiras para o descanso, colo para o aconchego. Desiste quando vasculha o dicionário e não encontra maneiras de traduzir a dor, a solidão a dois, desiste quando a voz vira guerra, o coração, inimigo.

O amor se despede. Nas lágrimas que caem, abundantemente, depois, nas lágrimas escondidas, engolidas, camufladas. Lágrimas desejosas de vida, mas sem espaço, como aquelas bagagens preparadas para viagens longas.

O amor se despede quando vira refém. Mãos e pés amarrados, dias de medo, noites de insônia, fome de liberdade, fome de ser quem se é. Territórios demarcados, espaços limitados, cercas elétricas nos olhos, grades na alma, prisões emocionais.

O amor abre a porta e vai embora. Triste, encabulado, muitas vezes desesperado porque estava acostumado. Na despedida, sangra. Sente falta do barulho do chuveiro aberto por outras mãos, dos passos pela casa, dos sinais do outro nos armários. Sente falta das histórias comuns, de quem foram. Sente falta de todos os sonhos que ficaram submersos, afogados, enterrados, perdidos nos oceanos da vida. Sangra porque sente falta de si mesmo, não sabe mais seu nome. O amor de despede porque precisa existir.

DÓI? RECOMEÇAR AJUDA

23/05/2020 às 19h35

A dor pede, sim, silêncio, não desses que deprimem, mas daqueles que pausamos para continuar, estações de parada antes de seguirmos viagem, pede, também, companhia, esclarecimentos sobre o que perdemos e o que fica quando alguém sai de nossas vidas. A dor pede para fazermos as pazes com o futuro combinado e não acontecido.

Histórias vividas, que nos dizem quem somos, falam das nossas construções. Lugares onde aprendemos a amar, onde descobrimos as rejeições, raivas e alegrias. Amores que, primariamente, nos ensinam que a vida é esse movimento de sim e não, quero e recuso, amo e odeio, chego e me despeço.  Amores que relatam nossa força quando somos frágeis e nossa fragilidade quando precisamos, continuamente, ser fortes.

Adoecemos, quando alguém sai de nossas vidas e nos despedimos de nós mesmos, levando o direito de amanhecermos. Adoecemos, quando as janelas do quarto não se abrem, os lençóis não são esticados, a louça se acumula na pia, dias em que as miudezas da vida gritam sobre nossa ausência, sim, é preciso retirar os escombros, apesar dos arranhões e cicatrizes, brigar com as demolições, retirar os tijolos possíveis e recomeçar de onde não deu mais, recomeçar das despedidas, do amor que não deu certo, do desemprego. Recomeçar de onde doeu.

Nós, brigando com os combinados da vida, amores que se rompem ou não acontecem, a pele que enruga, o corpo que engorda, a promoção que não veio, a aposentadoria que sussurra sobre a vida que passou. Nós, esperando grandes acontecimentos para enxergar os ipês que florescem, nós desacreditando que a vida é, sim, feita de miudezas, pequenas grandes miudezas e que nosso mesmo, só o instante presente.

A DOR VIROU ESQUISITICE

09/03/2020 às 09h01

Meu amor, a dor virou esquisitice. Não sei mais o que é fechar um ciclo, antes dependia de um calendário que a gente revirava as folhas no coração, da janela da alma espiávamos os dias e meses e o que foi arrastado até conseguirmos dizer adeus, agora não, por aqui fico sentindo uma estranheza porque parece que a tristeza não pode ter pouso, precisa andar por aí sem bagagem, não pode se demorar na casa de ninguém.

Está todo mundo feliz? A esquisitice de nem sempre saber o que fazer com as horas foi somente minha, o relógio andou devagar só na minha parede?

Esquisitice por toda parte, meu amor. Aquela senhora, sua amiga, tem tido coração acelerado e tremores, dão remédios e não sara, sofre de solidão, não encontra vidas para sua vida. A casa está sempre cheia, mas, hoje, as pessoas têm longas conversas com um aparelho que carregam nas mãos, não querem ouvir histórias da vida que ela tem saudades.

Você ia estranhar, nas passagens estreitas, a gente tem que acelerar o crescimento, feito fruta bonita e sem sabor, estão colocando agrotóxicos na dor! Meu amor, as pessoas não têm paciência para esperar as estações do plantio e se irritam com as estações do amor, o tempo das despedidas ficou curto e mal visto.

A dor virou esquisitice, adoecemos de solidão. Vó, quando alguém está sofrendo e quer falar não tem espaço, a fala do outro é sempre mais importante e urgente que a nossa. A vida está acelerada e a gente promete se ver, mas, sabendo que talvez isso nunca aconteça.

Por favor, me manda luz, não deixe que eu me perca nesse jeito esquisito de tratar a dor, me fala das estações da terra, do tempo de plantar, semear e desabrochar, me presenteia com olhos para o entardecer, me dá ouvidos para os sons do mundo, me mantenha sensível andando nesses caminhos onde temos olhos para a vida que reside na vida.

Vó, me faz humana para lembrar que a dor não é esquisita, ela precisa de colo, sopa e cobertor, pede cafuné, ouvidos e abraços, implora que os relógios sejam quebrados para que a paz se entrelace aos dias que passam, assim, entenderei que o fechamento de ciclos se demora porque está ligado ao tempo do amor, dar adeus é um exercício que pede memória, coração e compreensão do quanto somos incertos nas nossas certezas.

Meu amor, que eu me debruce sobre as minhas despedidas num exercício delicado e despretensioso, feito suas mãos lidando com as flores, tecendo tapetes de retalhos ou peneirando sementes e, assim, tenha alma para saber que algo sempre fica quando alguém vai embora, que as despedidas mudam o tamanho da nossa alma e que esquisito é um mundo onde a dor é esquisitice e as passagens não são estreitas e demoradas.