Revista Statto

PARA AQUELES QUE VIVEM NA ESCURIDÃO

29/04/2020 às 08h48

O que mais me impressionou nessa edição do Big Brother Brasil foi o quanto as pessoas se engajaram nas votações. Em alguns paredões a quantidade de votos chegou a mais de 1 bilhão! E quando Thelma saiu como vencedora, em alguns bairros (inclusive no meu) pessoas gritaram de felicidade de suas janelas. É compreensível, afinal, estamos em quarentena, vivendo uma pandemia e uma crise econômica e o programa se tornou a válvula de escape de milhões de brasileiros.

Mas o que fiquei pensando mesmo foi: e se as pessoas usassem todo esse engajamento, toda essa força para lutar por uma reforma no sistema? E se as pessoas fizessem mutirões para exigir que o auxílio emergencial seja logo aprovado para quem ainda não recebeu e tanto precisa? E se toda vez que os políticos fazem alguma merda ou deixam de fazer o que é certo, o povo se juntasse em peso para gritar e exigir seus direitos? Claro, pode-se falar que as pessoas fazem isso: batendo panelas, indo às ruas quando podem, fazendo carreatas, subindo hashtags nas redes…, mas não é com o mesmo empenho, com a mesma dedicação, não é na força do ódio, essa força tão poderosa, como foi no caso do BBB. Mas tem um motivo para isso, um motivo bem simples: é muito fácil torcer para um ou uma participante que está longe, na televisão, que você nem conhece pessoalmente e que não te conhece. É muito fácil projetar seus ideais em alguém que, aliás, está disposto a representá-los. É muito mais fácil simplesmente sonhar do que transformar esses ideais em realidade, começando de você e das pessoas a sua volta.

Quando eu tinha 21 anos e cursava Letras, precisei fazer estágio em alguma escola. Era só escolher uma linha análise e fazer o trabalho. Nunca gostei de fazer o mesmo que todo mundo, por isso, enquanto todos estavam procurando escolas perto de suas casas ou perto de seus trabalhos, eu fui procurar uma FEBEM (já era Fundação Casa, mas na minha cabeça continua sendo Febem). Desde criança que tinha uma certa atração pelo mundo crime, tanto por ter crescido em periferia e ter testemunhado a atuação de criminosos, quanto pelo fato da minha mãe, várias vezes, tentar me botar medo dizendo que eu ia acabar parando na Febem que nem outras crianças, se eu não fosse uma menina boazinha e obediente, principalmente na escola. Isso ficou na minha cabeça de uma forma que chegou um momento que se tornou quase que uma OBRIGAÇÃO eu conhecer essa realidade mais a fundo.

Pois bem, o momento chegou quando tive que fazer o estágio. Passei semanas tentando uma autorização para entrar numa Fundação Casa mais próxima de onde morava e não conseguia. Diziam-me que devido às torturas que rolam lá dentro, por serem crianças e adolescentes, as autoridades responsáveis não gostam que estudantes universitários entrem lá para fazer trabalhos acadêmicos. Se é isso mesmo não sei dizer, porque acabei não conseguindo entrar. Mas nessa busca indo em palestras sobre o assunto, visitando o Centro de Direitos Humanos, dentre outros locais do tipo, acabei conhecendo uma missionária da Pastoral Carcerária que me disse que, se eu quisesse visitar presídios, ela poderia me dizer como fazer. Aceitei. Ela me deu o telefone da Pastoral e eu marquei um treinamento, que era tanto jurídico quanto religioso. Menti dizendo que era católica, quando nem em Deus acreditava em direito, mas a vontade de conhecer por dentro essa realidade era tanta que eu estava disposta a muita coisa. Fui treinada, andava com Bíblia e com terço que peguei da minha tia, decorei o Pai Nosso e a Ave Maria, aprendi a fazer o sinal da cruz e fui. Assim que minha carteirinha ficou pronta já fui logo na penitenciária masculina e que fica rodeada por quilômetros de mato, onde antes ficava um manicômio. Devido à dificuldade de acesso, pouquíssimas igrejas faziam visita lá e pouquíssimos membros iam e as visitas eram uma vez por semana das 9h às 16h. Sim, era para passar um dia com os presos.

Quando fui, fui com mais duas mulheres, ambas realmente missionárias católicas, e éramos as 3 no meio de quase 900 homens, dentre presos e funcionários. Almoçamos com eles, tomamos banho de sol com eles, conversamos, passamos pela enfermaria, pelo castigo, pela detenção provisória, por celas e mais celas. Vi homens com o rosto tão desfigurado que olhar nos olhos deles – um dos ensinamentos do padre responsável pelo treinamento – era quase impossível. Vi homens super gentis, que me ajudaram a entender porque algumas mulheres se apaixonam por criminosos (mas aí entra o domínio próprio, um dos dons do espírito santo e outro ensinamento aprendido no treinamento). Vi homens superinteligentes, que dava vontade de ficar ouvindo falar eternamente (um deles ganhou a liberdade no dia da minha primeira visita e acabei acompanhando-o no trem até a estação da Luz, onde a família dele morava. O trajeto todo, de Franco da Rocha até lá, eu só ia ouvindo como se ele estivesse pregando). Mas também vi homens manipuladores, medonhos; homens que mataram e me confessaram, indiretamente, que não pensariam duas vezes em fazer nós três de reféns e até mesmo matar se o PCC, desse ordens para uma rebelião.

Enfim, eu adorava fazer as visitas, até acordava cedo, coisa que odeio, só para ir até lá. Adorava o frio na barriga de entrar e não saber se de repente iria estourar uma rebelião. Adorava os desafios que me davam, como o de entrar sozinha num pavilhão com o portão trancando atrás de mim. Adorava me arriscar escondendo no sutiã ou dentro da meia bilhetes com nomes e números de telefones de parentes com os quais eles queriam ter contato. Adorava o fato de que, por ter cara, voz e jeito de menina fofinha, nem os carcereiros desconfiavam de mim e algumas vezes consegui sair carregando os bilhetes sem nem precisar passar pelo scanner. Adorava ter que ligar para as famílias com número desconhecido. Adorava visitar as famílias e entender mais a fundo a história do preso ou da presa. Me emocionava com as missas e com os cultos, com as histórias dos presos, com a transformação de muitos. Passava mal de chorar com as torturas dos presos nos castigos (“solitária”) Adorava me sentir importante por saber falar inglês e conseguir fazer a ponte entre os missionários e os presos estrangeiros. Adorava tudo! Mas acima de tudo eu adorava o orgulho que sentia de mim, por fazer algo tão arriscado, por realizar um trabalho com pessoas que a maioria sente desprezo. Me achava A REVOLUCIONÁRIA.

Até o dia em que senti a presença de Deus. Eu, que não acreditava, SENTI. Senti e vi. Vi através dos missionários e dos presos, vi no céu que cobria o pavilhão e no sol que aquecia a todos nós, igualmente. Vi e entendi que eu também estava presa, que minha alma se prendia a ideias grandiosas, a um orgulho e a um reconhecimento que eu não merecia, mas tinha porque eu gostava de contar as minhas aventuras nas redes sociais. Quem realmente merecia o reconhecimento e os aplausos nem fazia questão disso e eram os missionários e os presos. Aqueles por dedicaram um momento do dia a ajudarem pessoas que a sociedade considerava como quem não vale nada e esses pelo esforço em mudar de conduta. Eles iam lá gratuitamente para ouvir, para consolar, para ensinar, para cantar, para dançar, para divertir e dar um alívio a quem não pode sair dali. Eles iam até as casas dos familiares, providenciavam alimentos, roupas, advogados, médicos. Sempre que a administração penitenciária falhava, lá estava a igreja. Engana-se quem pensa que os missionários, sejam os católicos ou os evangélicos, só vão lá para doutrinar. Eles, na verdade, muitas vezes fazem o trabalho que o governo ou as famílias deveriam fazer, mas não fazem. E quando entendi tudo isso, eu saí, parei com as visitas.

Trabalho humanitário é trabalho de abnegação de si, não é para ganhar curtidas e seguidores. É para você se sacrificar em prol do outro e poucas são as pessoas que REALMENTE têm condições de fazer isso. Eu entendi que naquele momento não tinha condições, não estava preparada ainda. Foi um ano e meio para poder entender, mas entendi. E, enquanto não volto para o trabalho na cadeia, acabei voltando para minha casa e para as lutas diárias. Aceitei encarar minha raiva dos meus pais, aceitei enfrentar o trânsito e os ônibus lotados sem reclamar. Aceitei enfrentar os desafios de uma sala de aula normal. Aceitei tudo o que a vida colocou no meu caminho e que sempre esteve ali, mas me recusava olhar. Inclusive, aceitei o mais difícil: olhar para dentro de mim mesma e reconhecer toda a merda que existe aqui e que eu projetava – e, às vezes, ainda projeto – nos outros. Continuo em processo. Por tempo indeterminado, mas sofrendo bem menos para lidar comigo mesma.

É mais fácil fugir, é muito mais fácil colocar a culpa sempre no outro e se achar um perfeito injustiçado. É muito mais fácil criar máscaras até para dormir. É muito mais fácil falar com seus parentes, que moram debaixo do mesmo teto que você, só por WhatsApp. É muito mais fácil se preocupar com questões maiores e supostamente mais importantes do que olhar nos olhos de quem faz parte da sua família e reconhecer seu erro ou simplesmente perdoar a pessoa. Tudo isso dói. Quebrar com o orgulho e se reconhecer apenas um simples humano dói demais. Dói mentalmente, emocionalmente e até fisicamente.

Mas é isso o que estamos sendo chamados a fazer: reconhecer a nossa humanidade como ela é, nada mais nem menos. E ela não é muito agradável a princípio. O mal existe dentro de TODOS nós, sem exceção. O bem também. Contudo, é impossível manifestar o bem em toda a sua glória sem antes reconhecer o mal que há você. Não adianta imaginar figuras de luz, não adianta desejar o paraíso, não adianta ligar a televisão ou a internet e ficar o dia todo, não adianta se encher de bebida, de drogas, de remédio ou de sexo: na primeira brecha, sua sombra virá te atormentar, como um “bicho papão” ou como o “demônio”, o que você preferir, até que você aprenda a se sentir confortável com sua própria escuridão.