Revista Statto

O QUE O DESLUMBRANTE (E DESCONCERTANTE) TEATRO DOS SONHOS NOS REVELA?

27/08/2020 às 08h49

Fechar os olhos e dormir pode nos conduzir a mundo mágico, misterioso, mas, às vezes, desconcertante.  Às vezes tão desconcertante que algumas pessoas relutam em pensar que é seu.

Ao estar nos braços de Morfeu frequentemente ingressamos em um universo de imagens que, na vigília, seriam vistas como delírios, porque somos levados a outros tempos e épocas, senão a outros mundos. As imagens oníricas podem nos colocar em situações cotidianas, numa estação de metrô esperando o próximo vagão, mas também a viajar em um balão ou em um carro desgovernado, galopar montados sobre um corcel negro ou ver (e sentir) uma serpente nos envolver lentamente; podemos estar à beira mar contemplando as estrelas ou vendo um tsunami se aproximar no horizonte e, não raro, vamos escalando uma íngreme montanha.

Ora vamos sozinhos, ora acompanhados; ora figuras de nosso passado nos saúdam e conversarmos com personagens de outros tempos – Mozart, Napoleão, Cleópatra- ora estamos no meio da novela; se não fosse sonho, seria loucura, pensamos. Certas pessoas se perguntam: serão reminiscências de vidas passadas, projeções astrais? Não sabemos. Alinho-me à escola que acredita que o conteúdo onírico faz parte daquilo que a nossa psique precisa tomar contato. Um conteúdo que ficou coberto por inúmeras camadas, longe da consciência, na parte inconsciente, mas agora dela se aproxima, porque é importante para o sujeito. Uma conversa com estas imagens pode revelar ouro.

Alguns sonhos causam desconfortos e, pior, alguns insistem em se repetir; não raro, as pessoas acordam no meio de tão assustadas. Li num livro uma psicóloga relatar que sonhara que havia chegado com a cabeça de seu pai em uma travessa. É desconcertante quando sonhamos com mortes de pessoas próximas. E se for uma premonição? Tem gente que liga para o irmão, o pai de madrugada. Outros sonham com amigos como protagonistas de cenas perturbadoras e começam a perturbar o fulano, esquecidos que o sonho pertence ao sonhador, não ao amigo, ou seja, o material pertence a quem sonha. Trata-se de uma cena com personagens de seu próprio panteão.

Certamente, nos sonhos aparecem imagens fortes, mas é como se a parte mais interna de nossa psique quisesse que a gente prestasse atenção e entendesse a mensagem:

– Olha aí, não bobeia!

Para a psicologia analítica, o sonho apresenta um teatro com as nossas personagens internas, nossas múltiplas partes, porque temos múltiplos lados, que se expressam em nossas ambiguidades como naquele dilema “caso ou compro uma bicicleta”? Quanto mais inconscientes e desconhecidos, mais assustadores e quanto mais próximos viram nossos amigos.

Uma pessoa conhecida sonhou que estava se escondendo com medo de um ladrão, outra sonhou com uma traição, esta última podia haver entendido literalmente, porque o sujeito estava casado, mas o sonhador vislumbrou que ele estava traindo a si mesmo ao permanecer em uma situação que lhe causava profunda insatisfação. Na terapia, aquele que sonhava com o gatuno percebeu que seu emprego, ao qual se dedicava 12 horas por dia, lhe roubava momentos preciosos em casa, como namorar a sua mulher e ver o crescimento dos filhos.

O conteúdo do sonho nunca é literal, quanto mais treino com esse universo e sua linguagem, mais prazeroso se torna o sonhar.

MITOS PARA A QUARENTENA: A JORNADA DE HÉRCULES

27/07/2020 às 11h03

Nestes dias de quarentena, sujeitos a turbulentas marés e perigosas calmarias, confrontados a uma situação que longe está de terminar, mas com a qual estamos arriscadamente nos acostumando, o momento nos coloca de frente a desconhecidos desafios e, para encará-lo, nada melhor do que a companhia dos heróis.

Aqui apresentarei uma enxuta leitura de Hércules, o memorável filho de Zeus, o senhor do Olimpo, e da mortal Alcmena, da linhagem de Perseu; nascido como mortal sob no nome de Alcides, cuja etimologia alké alude ao termo valor, à coragem do guerreiro.

Trata-se de um herói mega cultuado na antiguidade, mas deveras intrigante, afinal de contas entra na jornada que o torna um herói depois de matar toda a família. O leitor pode se perguntar, como assim? É fato, só que o mito apresenta uma verdade de uma perspectiva muito diferente do entendimento lógico-racional. O mito se expressa através de uma linguagem simbólica, trazendo um saber sobre uma realidade atemporal, por isso os mitos gregos conversam conosco, mesmo passados três mil anos de seu surgimento.

Mas vamos ao nosso personagem, porque o tempo é curto e Hércules, Héracles em grego, aprendeu que não se pode dormir no ponto. O sono é irmão da morte.

Zeus planejava uma grande glória para seu rebento, sabendo que por ser o primogênito da casa de Perseu, aquele que matara a Medusa, receberia o trono de Micenas, contudo Hera, a esposa de Zeus, que odiava os casos do marido, tanto como os filhos que nasciam deles, atrasa seu parto e apressa o nascimento de seu primo Eristeu, quem herda o trono.

Muitas são as histórias da força, da coragem e também da destemperança do jovem Hércules, quem ainda bebê estrangula com as próprias mãos duas serpentes enviadas por Hera para matá-lo; depois, jovem irascível, num rompante de ira, com um soco mata Lino, seu professor. De lá até cá, quanto alunos já não quiseram fazer o mesmo? O que leva a pensar como é hercúleo domar as próprias feras e não voar no pescoço do outro, tem muito adulto que não consegue.

Conta-se que depois, já casado com Megara, filha de Creonte, rei de Tebas, num ato de insanidade, enviada pela deusa Hera (de novo ela!), Alcides joga seus oito filhos e, ao que parece, até a esposa ao fogo; só não mata o pai porque a deusa Atena intercede e o adormece. Os heróis sempre contam com aliados. No dia seguinte, sem lembrar de nada, fica consternado com o sucedido e vai até o Oráculo de Delfos para buscar uma redenção, contudo, o ensandecimento não se restringia ao episódio da morte da própria família, havia muita desmedida em sua violência, em suas ações e paixões.

Ao matar os filhos com as próprias mãos, Alcides cometeu um crime contra as leis de sangue e precisava se submeter ao desígnio dos deuses, em Delfos, no Oráculo consagrado à Apolo, recebe a instrução da sacerdotisa de servir o primo Eristeu e assim inicia a jornada que o conduz aos 12 grandes trabalhos e outros tantos pelo caminho.

Cada tarefa realizada será levada aos pés de Eristeu, um rei tirano e covarde, que se escondia quando Hércules aparecia e rapidamente o enviava para outra missão mais perigosa, terminado por enviá-lo ao Hades, o reino dos mortos, de onde ninguém voltava.

Ele tem muitos superlativos, mas também é muito humano, Alcides briga, trapaceia, fere ou mata, inclusive amigos, sem intenção ou sob efeito da embriagues, se distrai, negligencia, certa feita pede a um amigo para entregar a tarefa, as éguas de Diomedes, em Micenas em seu lugar e o pior ocorre, o amigo é morto pelos animais carnívoros. Assim vai aprendendo muito da vida, no caso das éguas, a lição foi, a tarefa é sua do começo ao fim. Tem hora que até a Pitonisa do Oráculo se irrita com nosso herói e se recusa a orientá-lo acerca de como purgar seus atos, mas os deuses intervêm e ele consegue se redimir, mas nunca ganha moleza.

Nosso Alcides realiza tarefas tão díspares como dispersar pássaros mortais, como as Aves do lago de Estínfalo, limpar em um único dia o estábulo do rei Augias, com esterco acumulado em décadas, ou trazer o cinturão de ouro e pedras preciosas da rainha das Amazonas, entre tantas outras. Ele vai aos quatro cantos do mundo para domar feras, mas começa por casa, pela Hélade. Os dois primeiros trabalhos lhe forneceram suas célebres armas: da pele do Leão de Némea fez uma capa invulnerável e da Hidra de Lerna retirou o veneno letal para suas flechas. No percurso, vai desbravando pântanos, desertos e oceanos, pelo mundo e pelo submundo, enfrentando gigantes, dragões e ladrões até ficar despojado de suas armas, mas nunca sem Deus, pois sabe-se filho do grande pai, Zeus.

Em sua trilha, se depara com tudo o que há no mundo, camponeses que lhe oferecem pousada ou mesmo o único animal que dispõem, traidores e embusteiros; defronta-se com a corrupção, a podridão, a devastação e a doença, mas também conhece o amor. As últimas tarefas exigem-lhe sentir o peso do mundo ao segurá-lo nas costas, enquanto Atlas vai em busca das maçãs de ouro no Jardim das Hespérides, e conversar com a morte ao visitar o Hades, o reino dos mortos.

Os trabalhos lhe demandam força e coragem, seus atributos, mas o levam a grandes conquistas, ao dominar seus próprios impulsos, ter consciência da própria força, agir com sabedoria, integrar suas polaridades. Na mítica, atrás do dragão, sempre há um precioso tesouro, nosso herói conquista o valioso domínio de si mesmo, mas também vislumbra o conhecimento do sagrado e de sua composição em cada ser.

A labiríntica saga é uma jornada de resistência e determinação para vencer todas as adversidades e cumprir as sobre-humanas missões, manifestando uma vontade inquebrantável de vencer, independentemente das condições, do tempo ou do espaço. Tudo isso o torna um herói. Ao longo da jornada ao superar o comezinho e confortável lugar comum da humanidade, descobriu o fogo que tempera os heróis, ao ultrapassar os limites do humano, pode transmutar o próprio ser.

Na versão tradicional, após a realização dos 12 trabalhos, o herói encontra a morte. O número 12 corresponde simbolicamente a fechar um ciclo. Ao vestir um manto envenenado que lhe corrói a pele, desesperado de dor, percebe que sua morte se aproxima e prepara seu próprio funeral. Para alguns, ao arder na pira, o herói se torna imortal, noutra versão, queima a parte mortal, libertando a parte imortal que ruma para o Olimpo, onde recebe a jovem Hebe, filha de Hera, como esposa.

Conta-se que enquanto ardia na pira, o herói gritava que seu nome era Hércules, ou seja, a glória de Hera, talvez porque, não a despeito, mas sob os auspícios da deusa, nosso Alcides se percebe divino.

Todo simbolismo reporta à vida da alma, não será talvez a saga da própria humanidade, que cada qual reconheça o próprio o valor e o apresente ao longo da jornada? Estudar o mito dos heróis permite perceber o quanto de heroico tem a nossa vida, desde o nascimento até a morte, mas também quanto precisamos transcender.

A VERDADE EM NIETZSCHE E NO BRINCAR DE UMA CRIANÇA

17/07/2020 às 10h07

Acompanhar uma criança em seus primeiros anos pode ser uma experiência surpreendente para o adulto. Um ser frágil, despreparado e despreocupado, inconsciente e irreverente, para o qual nada impede o pum na sala, a risada no meio da missa, a meia na mão, o livro de chapéu…  Tudo para ela é novo, vale pela experiência; sair correndo pelada pela casa, espalhar todo o feijão, fazer nuvem de sabão, misturar todas as cores da massinha, derrubar água no chão, enfim mil coisas. Certamente algumas experiências podem ser perigosas, mas hoje me detenho em um debate filosófico: a questão da verdade.

Observar os pequenos possibilita vislumbrar o mundo ainda sem as classificações, sem esquemas e sem fronteiras; sem o lado certo, nem o lugar correto, sem o ordenamento já estabelecido. Este pensamento me conduziu a Nietzsche, um dos mais geniais filósofos do século XIX, mais precisamente a seu texto Verdade e Mentira em sentido extra-moral, no qual ele se ocupa do “impulso a verdade” entre os humanos. Como filólogo de formação, detinha-se na investigação da genealogia das ideias e conceitos, no caso, sobre a verdade, “acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores e, no entanto, não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem”, escreve o autor.

Mais do que a verdade, o homem não quer as consequências negativas do engano, aponta Nietzsche, por isso odiamos a mentira e criamos conceitos que igualam não iguais, a verdade ocorre quando estipulamos “uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas”. Se uma criança diz sou um milionário, fica no registro do faz-de-conta, contudo se um adulto faz esta afirmação, espera-se que o sujeito esteja fazendo o uso correto da linguagem e dizendo a verdade.

Na criança, vemos uma combinação de elementos, esquemas e hierarquias de acordo com a sua vontade, despreocupada da lógica e das convenções milenares, estrelas com pijamas, dentes com cabelos, cenouras com sorrisos, enfim, de preferência, sem um adulto chato a lhe corrigir:

– A fita não é colar do sapo, é para o seu cabelo!

– Lama não é comida!

– Cisne não voa!

– Esse é o teto de sua casa, não o chão do navio!

A criança desconhece a normatização do mundo, totalmente arbitrária segundo Nietzsche, como o já famoso: “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”, mas há inúmeras outras, como a direção da escrita e a mão nas ruas. Um arbitrário vinculado ao poder, pois trata-se de um poder ditar os padrões e as regras na vida social, estabelecer o uso correto da linguagem, seja na gramática, nas cores ou nas vestimentas, entre outros, como o gênero e o casamento.

Classificações e normatizações são úteis para organizar o caos, Nietzsche diria, para a própria sobrevivência, porque o homem, “ao mesmo tempo por necessidade e por tédio, quer existir socialmente e em rebanho, ele precisa de um acordo de paz”, acordo que fixa a verdade. A vida cotidiana precisa de acordos para o seu funcionamento, para que possamos caminhar pelas ruas sem sermos atropelados, ligar um aparelho na tomada e ele não queimar, só que esquecemos que são pactos para se viver em grupo, não dizem respeito a uma verdade intrínseca às próprias coisas.

O convívio com as crianças com sua salutar desordem, nos permite voltar ao tempo em que este acordo ainda não fora estabelecido, em que o mundo se apresenta como um universo de possibilidades e todas muito interessantes.

O adulto já esquecido de sua meninice, cego pelas verdades construídas, não percebe que sua fala tão firme e indefectível ao dizer coisas como “é vermelho”, “é folha”, “é montanha”, “é pássaro”, “é música”, “é capim” manifesta “um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias”.

O adulto que conserva um pouco de sua intuição ou uma certa desconfiança de tanta regra, esquema e certeza no mundo pode resgatar esta valiosa filosofia ao espiar uma criança.

Nietzsche. Verdade e Mentira em sentido extra-moral, Obras incompletas. São Paulo: abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).

Além do bem e do mal. São Paulo, Cia das Letras, 1998

PÉROLAS DA SABEDORIA POPULAR SOBRE O AMOR PARA OS SOLTEIROS

18/06/2020 às 16h53

Esta é para que você está triste, tristinho, mais solitário que um paulistano.

  • Pode ser triste viver na solidão, agora pior seria viver numa roubada.
  • À noite todos os gatos são pardos e o barato sai caro.
  • Toda forma de amor vale a pena, se a alma não é pequena, só que não.
  • O que os olhos não veem, coração sente sim e pancada também!
  • Para baixo todo santo ajuda, para cima é que a coisa muda.
  • O que é teu pode estar guardado, mas camarão que dorme a onda leva.
  • É dando que se recebe, mas não conte os centavos, nem aceite trocados, não é olho por olho, nem dente por dente.
  • Quem desdenha quer comprar, agora, amar e rezar, a ninguém se pode obrigar.
  • Acredite, antes tarde do que nunca e antes só do que mal acompanhado.
  • Gato escaldado tem medo de água fria, mas quem não arrisca, não petisca.
  • Conhece-te a ti mesmo e aprende da vida, porque quem procura acha e, quando achar, é bom estar preparado.

SÉRIE MITOLOGIA PARA A PANDEMIA

10/06/2020 às 12h55

No reino de Hera, casar é coisa para heróis. Um post sobre o amor e o casamento

Na antiguidade, Junho era o mês dos casamentos, porque estava dedicado à Juno, nome romano da deusa grega Hera. Hoje, no que tange às questões do amor e casamento, as pessoas preferem recorrer a Santo Antônio, o santo casamenteiro, dizem, contudo não deve ser mera coincidência que no mês de Hera/Juno encontremos o padroeiro dos matrimônios do mundo cristão, mudou o regente, mas o milagre pedido continua o mesmo.

Neste texto voltaremos ao mundo helênico para pensar as uniões, questão eterna dos humanos. Hera, a esposa legítima de Zeus, o senhor do Olimpo, sagrou-se a protetora do amor legítimo e das esposas. Sob o olhar crítico do século XXI, parece muito conservador, mas na mítica, Hera apresenta-se como a única deusa que não apenas se casa com um igual, como também escolhe seu marido.

A raiz da palavra Hera tem uma etimologia controvertida, uma das interpretações a aproxima da palavra herói, significando protetora e guardiã, uma vez que, na antiguidade, os heróis (humanos divinizados) se tornavam os protetores das cidades. Acredita-se que o culto à grande Senhora teria se originado em Creta, onde haveria reinado como poderosa deusa da fertilidade.

Há diversas versões sobre as núpcias do casal, uma delas apresenta Zeus se transformado num cuco e, quando Hera toma o pássaro em seus braços, o deus retorna à sua própria forma para consumar o ato, contudo Hera luta contra ele até conseguir uma promessa de casamento; conta-se que consumaram as núpcias em segredo, permanecendo escondidos num mar de amor ao longo de 300 anos. Há um ponto que vale contar, para se orientar nas artes da sedução, Hera procura Afrodite, quem lhe empresta um cinto mágico que a própria deusa do amor usava em seu peito.

Embora Hera fique conhecida como a esposa enfurecida e vingativa pelas escapadas do marido, que possuiu amantes às dezenas, indubitavelmente, esta poderosa Senhora difere de todas as mulheres conquistadas pelo senhor do Olimpo.

O mito mostra uma deusa que escolhe o seu marido, algo muito raro na mítica e mais ainda na vida, mas não só, pois Hera se casa com um igual e o par consuma um hiero gamos, uma sagrada união, uma expressão desconhecida em nossa linguagem, produto de um tempo desligado da dimensão sagrada das coisas. Na antiguidade, em mundo eminentemente agrário, a união sagrada desempenhava um papel fundamental para a vida da coletividade, ao propiciar a fecundidade da terra sendo que uma boa colheita assegurava a sobrevivência e até mesmo a prosperidade do grupo.

Este fragmento do mito apresenta alguns pontos para refletir sobre os relacionamentos amorosos, um tema importante na vida de homens e mulheres ontem e hoje e, provavelmente, por muitos milênios que ainda virão.

Não considero coincidência que a palavra Hera compartilhe da mesma raiz da palavra herói, talvez indicando que casar contemple um bocado de heroísmo. Retirar os escudos protetores, baixar as armas e permitir que outro indivíduo ingresse em nossa intimidade certamente exigem coragem. Muitos indivíduos entram facilmente em uma guerra, mas não se aventuram na partilha da intimidade.

O casamento envolve muito mais do que o desejo, significa estabelecer uma aliança para uma nova vida. A chama do desejo une as pessoas, mas para se iniciar a construção de um reino é preciso mais do que a chama, requer vontade e determinação para assegurar a própria transformação e assim aprender a viver na união em condições de igualdade. Não poucos querem sair da solidão, contudo se recusam a pagar o preço. E tudo na vida tem preço, inclusive esta recusa.

A dimensão sagrada do casamento nos coloca a necessidade de “elevação”, pois se trata de um encontro numinoso que puxa para o alto, para além de nós mesmos. Para escalarmos até os píncaros, nossa mochila precisa estar mais leve. Na clínica, acompanhei muitas pessoas que, próximas ao casamento sonharam com morte; o casamento exige uma morte, algo no sujeito precisa morrer para ele renascer num outro patamar, é preciso deixar para atrás aquelas partes que agora não nos servem mais. Precisa morrer o individualismo, o egoísmo, a mesquinharia, os baixos instintos, entre outros, se eles permanecem, perde o amor, a união e nós perdemos também.

Por fim, o casamento é a expressão de uma aliança sagrada entre duas almas, portanto, precisa gerar frutos, quando não fecunda, o reino se torna estéril; nós temos esta potência criadora, aqui não precisamos ser literais, a criação pode ser material ou imaterial, valem ideias, projetos e, certamente, bebês rechonchudos.

Casar não significa um Happy End, pelo contrário, é o começo de um ciclo. E casar comporta desafios, inclusive fogo amigo daqueles que nos querem bem e que reclamam, “você mudou”, não raro, tomados por aquela inveja, sequer reconhecida, de quem quer chegar lá, mas não quer pagar o preço. O amor e o casamento mudam mesmo. Viva o casamento, viva a transformação e quem tem coragem para vivê-los!

QUARENTENA, MOMENTO DE APRENDEREMOS ALGUMA COISA SOBRE NÓS MESMOS?

30/04/2020 às 17h56

Em plena pandemia, observar pessoas passeando nas ruas, outras dando festas e postando a façanha nas redes sociais, por todas as cidades país, estampa um grande desafio para cada ser humano: a aceitação de nossos limites. Para não falar dos empresários que obrigam seus trabalhadores a se ajoelhar para pedir a reabertura do comércio, um capítulo de barbárie particular de agentes privilegiados no sistema, para quem, longe da responsabilidade social, da empatia ou mesmo da ética, a morte do outro lhe é indiferente.

Como é difícil aceitar certos eventos da vida…

… que o relacionamento acabou.

… que meu filho/minha filha não faz o que lhe digo.

… que não sou o dono da verdade, que eu também me engano.

… que, hoje, é preciso ficar em casa.

Agora, mesmo com o número de mortes crescendo exponencialmente e as duras imagens de cidades como Manaus, ainda há pessoas que continuam não aceitando, recusando inclusive os dados oficiais, que segundo se sabe estão subnotificados. A reclusão certamente comporta dificuldades, mas uma parte da população não está nem aí com as consequências, “eu não sou da população de risco”, disse um sujeito televisivo quando flagrado por transeuntes fazendo Cooper na praia, faltou a parte implícita da frase “se o vizinho é, não é problema meu”; “Eu quero sair!  Ninguém pode me prender”! Pensa o rebelde cheio de si.

Este desatino apresenta-se como um desafio à razão, à lógica e ao bom senso. Leva a refletir sobre o quanto é difícil para o indivíduo aceitar a interdição. Até parar no farol vermelho custa. Entre as crianças, o imperativo do desejo fica ruidosamente visível, porque as birras testam a paciência, mas, nos adultos, poucas vezes este comportamento narcisista egocentrado ficou tão perigosamente ostensivo.

Nosso desejo de poder e de controle briga até com a natureza da vida que é a impermanência como já dizia a sabedoria antiga. Como é difícil aceitar que nada está garantido, nem é para sempre e que minhas ações trazem consequências.

O sujeito tem dificuldades para aceitar tudo aquilo que conflita com seus desejos. É uma prova de maturidade aquietar e aceitar que se não pode tudo o que se deseja e trabalhar com o que temos para hoje sem morrer de raiva ou ansiedade. Exige muita reflexão e a construção da empatia, o entendimento de que o meu bem deve estar em consonância com o bem da coletividade.

Desejos sem os freios, não apenas da razão, mas também da ética tornam-se muito perigosos. Quando abandonamos a civilidade com seus imperativos éticos, voltamos para o reino das pulsões desenfreadas e da barbárie. Crescer dá trabalho e muita gente anda preferindo ficar no reino infantil.

NA INTERMITÊNCIA DA VIDA

06/04/2020 às 08h47

O momento é de excepcionalidade. A peste, tal como a guerra, coloca-nos num tempo fora do tempo. Experiência ímpar na existência, sempre tão recheada das urgências do cotidiano. Neste contexto de isolamento social, muitos já o perceberam, os dias se repetem, reproduzimos as mesmas ações, sem sair do lugar, acompanhados de um profundo mal-estar.

Eis que, de repente, começamos a perceber a dimensão da vida que é o tempo.

Nada do que fazíamos, pensávamos, planejávamos 20 dias atrás, hoje faz sentido. Casamentos, formaturas, cirurgias, contratos, viagens foram canceladas ou adiadas, só as chegadas e as partidas deste cruzeiro não esperam.

Uma parte de nós está isolada, em casa, outra, sai para trabalhar, correndo o risco de contágio no caminho, uns sofrendo pela clausura, outros pela exposição, uns assoberbados de trabalho outros sufocados sem tarefas. Todos, na iminência de que alguma coisa pode acontecer. A situação é tensa. Existe risco envolvido, um caldo para ansiedade, em uma sociedade já ansiosa, frente a inevitabilidade da existência de eventos que o sujeito não controla. E, muito embora, nós achássemos de tudo senhor, como estamos vendo, nosso poder é vão frente à peste.

Muitos, já incomodados com a clausura, gostariam que tudo voltasse ao “normal”, que tudo voltasse ao que era antes. Mas que normalidade era essa? Que tipo de sociedade é esta na qual as pessoas estão mais com medo da morte do que com vontade de viver?

As pessoas não são felizes em casa, na escola, nem no trabalho. Querem que uma mágica as tire do mal-estar, um remédio, um narcótico, um sapato, um amor, um doce, um guru, enfim, cada um escolhe o seu entorpecente.

Basta observar os índices de transtornos psíquicos para enxergar uma sociedade doente; numa gradação que vai da ansiedade, com as manias e fobias, à depressão, passando pelos expressivos índices de suicídio, sem esquecer das psicoses ou das doenças do corpo, muitas claramente somáticas como o câncer.

Nos últimos dias, muitas pessoas esvaziaram as prateleiras dos supermercados comprando caixas de álcool gel e o estoque de máscaras; agora, já em casa, quando cansam das redes (porque elas cansam), se descobrem a sós com a própria respiração e passam a ouvir os seus próprios batimentos cardíacos.

Momento propício para um grande encontro!

Um encontro para mostrar o que se fez com os minutos, dias e horas recebidos ao nascer. Escolhemos o amor ou o poder? A união ou a discórdia? Construímos amizades ou inimizades? Temos um lugar gostoso em nossa família? Construímos um jardim ou nossas plantas morreram? Posso fazer a comida predileta do meu filho? Ele/a quer jogar videogame comigo (ou truco) ou nem há comunicação? Nossos amores ainda podem se lembrar de nós com carinho? Tenho paz para contemplar o céu?

Intenso, aproveitem, podemos não ter nunca mais esse momento, podemos não ter mais tempo.

Na obra de Saramago, Intermitências da morte, a morte dá um tempo, penso que, hoje, entre nós, é a vida que nos pede pensar em nosso tempo”.

A LIÇÃO DE CRONOS, O APRENDIZADO DO TEMPO

03/03/2020 às 20h36

Na mitologia, Urano (o Céu) uniu-se a Gaia (a Terra) e geraram a raça dos Titãs, entre os quais Cronos era o mais jovem. Urano temendo ser destronado pelos seus filhos à medida que nasciam os trancava no ventre da mãe. Cada vez mais inchada, Gaia planejou sua vingança.  Modelou uma foice, entregando-a a Cronos, este, certa noite ao ver seu pai em sono profundo, castrou-o, jogando seus genitais ao mar. Cronos libertou seus irmãos e tornou-se senhor da Terra. Sob seu reinado, a terra tornou-se fértil, deu muitos frutos, instituiu as estações, dando ritmo à vida: nascimento, crescimento e morte. O período ficou conhecido como a Era de Outro.

No entanto, o próprio Cronos se recusava a aceitar suas próprias regras e seguir o ritmo da vida. Quando foi profetizado que um filho o destronaria, repetindo sua história com seu pai, passou a engolir sua prole, fez isto com vários. Demeter, Hera, Poseidon, Reia, sua consorte, grávida do caçula, fugiu para a ilha de Creta, onde deu à luz a Zeus, mas cuidou de embrulhar uma pedra num manto, entregando-a a Cronos para que fosse engolida no lugar do filho. Anos mais tarde Zeus o destronará, inaugurando uma nova ordem e tornar-se-á o Senhor do Olimpo.

Cronos nos convoca a pensar a experiência da finitude. A vida tem uma regra evidente, para nós seres humanos, por mais que desejemos obviá-la: tudo chega a um fim. Nada é para sempre, nem o bom, nem o ruim, nem o alegre, nem o triste. Ninguém pode viver além do seu tempo e nada permanece imutável. A juventude, a força, a destreza entra na lista, quando nos damos conta, elas já se foram. E lutar como Cronos, contra a passagem do tempo, recusando-nos a caminhar para a nova fase, é derrota certa, perde de tempo, dinheiro ou até de dignidade. Há muito velho querendo bancar o garotão. Fica ridículo! Luta frequente nas relações familiares, pois muitos pais se recusam a passar o comando aos filhos, mesmo dando bolas fora, não querem sair do controle. Quantos transtornos eles causam!

Dizem que ao ser destronado, Cronos foi levado para as Ilhas Abençoadas, onde se dorme, esperando o início de uma nova Era de Ouro. A lição de Cronos é aceitar que há coisas que não podemos mudar. O nosso filho querido fazendo diferente do que desejaríamos, ou mesmo a doença e a morte… o que fazer? Há momentos que nada há a fazer, só ter paciência (e força para suportar). Por isso parte da sabedoria conquistada na maturidade, atende pelo nome de paciência.

Para muitos os mitos são histórias de outras eras engraçadinhas, mas obsoletas, ledo engano, as histórias e principalmente a mitologia são de grande valor, pois fornecem aquilo que homens e mulheres mais carecem, sentido.  Os mitos, essas narrativas cuja origem se perde no tempo, ajudam a entender a vida e seu movimento.