Revista Statto

FAMÍLIAS VIRTUAIS

30/03/2020 às 14h52

Em constante processo de mutação, nossa sociedade literalmente entrou no mundo virtual, trazendo-nos novos e mais complexos problemas de comportamento. Sem que nos déssemos conta das consequências imediatas, mergulhamos nas Redes Sociais, mantendo contatos em tempo real, mesmo estando em diferentes pontos do planeta. Fenômeno de globalização!… Maravilhados com as novas tecnologias ao nosso dispor, não paramos para avaliar os prós e contras dessa nova ferramenta de comunicação.

Quando nos tornamos conscientes dos processos decorrentes da Transição Planetária em tempos de desconstrução civilizatória, percebemos a dissolução da maioria das famílias nucleares, o encarecimento do custo de vida, a ampliação induzida da necessidade de consumo, o surgimento de novas configurações familiares e a aceleração do tempo, criando um novo sistema de Redes Familiares, constituída por padrastos, madrastas, enteados, enteadas, ex-maridos, ex-esposa, avós afetivos, sem vínculo consanguíneo, avós, pais e mães consanguíneos, fisicamente distantes, agora conectados, em tempo real, que tentam gerenciar a vida de seus entes queridos e inacessíveis ao toque físico, como Drones monitorados à distância. Por outro lado, mães provedoras, que criam seus filhos sem a presença paterna, também monitoram seus filhos em casa ou na creche, a partir de seus ambientes de trabalho.

Tal configuração provoca a emergência de questões objetivas e legais, em termos de cuidados com os idosos e crianças. Neste novo contexto, emergem os conflitos parentais, os sentimentos de culpa gerados pela ausência real, muitas vezes compensado pelo acúmulo de presentes que passam a ocupar o espaço do melhor presente: A presença física e o convívio diário.; os sentimentos de insegurança, baixa-estima e inferioridade, que motivaram as situações de negligência parental, no passado e deixaram sequelas nas relações familiares; as mágoas e ressentimentos decorrentes desses históricos de vida, que somente podem ser perdoados e dissolvidos, através das técnicas terapêuticas de autoconhecimento, para que o passado não interfira no presente e possa realmente ser deixado para trás.

Além disso, os aspectos legais decorrentes dessa nova configuração exigem atenção e discernimento em relação aos papéis sociais da paternidade e paternagem, bem como da maternidade e maternagem: Enquanto paternidade e maternidade são relações consanguíneas, a paternagem (figura parental de apoio, lei e limite, no mundo externo) e a maternagem (figura parental de cuidado e acolhimento) somente poderão ser exercidas por aqueles que estejam fisicamente presentes e próximos, em termos de tempo-espaço.

Como socorrer a criança ou o idoso que se machucou num tombo, estando a quilômetros de distância? Como preencher o sentimento de solidão e abandono do idoso? Como acolher e acalmar a criança que acorda durante a noite, por conta de um pesadelo, muitas vezes também ocasionado pelos muitos jogos virtuais aterrorizantes? Como tirar fotos juntinhos, no dia do aniversário? Como abraças e beijar? Como construir as memórias dos bons momentos compartilhados?

Para tornar a questão ainda mais complexa, legalmente, é responsável pela criança ou pelo idoso, o adulto que esteja cuidando deles, física e presencialmente. Em muitas situações, isto coloca as crianças e os idosos sob o comando de diferentes adultos, com diferentes visões de mundo, cada um querendo gerenciar a situação segundo sua visão de mundo, tornando as relações familiares confusas. Em especial para as crianças, significa receber diferentes mapas, com diferentes informações sobre a mesma realidade. Qual seguir!?…

Mais uma vez, em tempos de Transformações, esses são temas sobre os quais precisaremos refletir e construir, com muito diálogo, novas regras de comportamento, que irão fundamentar a nova sociedade que está nascendo!… Vamos tecendo o Novo Tempo!

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