Revista Statto

FILHO NÃO É TROFÉU

26/03/2020 às 11h37

Quando dois jovens namoram, idealizam o relacionamento, trocam juras de amor eterno, mas, jamais chegam efetivamente a conversar sobre seus aspectos divergentes de personalidade, sobre aquelas características individuais que irão gerar conflito na vida a dois. Inconscientemente fazem do casamento um contrato secreto, no qual nenhum deles irá dizer ao outro as suas expectativas, mas onde cada um ficará extremamente irritado, caso não seja atendido.

Decorridos alguns anos de vida em comum, acumulando mágoas e decepções, um dos cônjuges, ou os dois chegam à conclusão de que “o outro é o culpado” pelo fracasso do casamento, buscando a separação. No meio desta crise, ocorre uma intensa fragilidade emocional, em decorrência das frustrações acumuladas, e do próprio desgaste gerado pelo convívio conflituoso. Esta fragilidade faz com que cada cônjuge busque apoio emocional, agregando do seu lado o maior número possível de opiniões favoráveis, entrando, inconscientemente, num jogo competitivo com o ex, cujo principal objetivo é penalizá-lo com o maior número possível de perdas, quer seja em relação aos bens materiais ou filhos. Como os filhos envolvem a maior parte da carga emocional, são preferencialmente escolhidos como troféu da disputa. Ganha o jogo, quem tiver a guarda e posse deles. As visitas estabelecidas judicialmente, e as datas antes comemoradas em família, tais como Natal e Ano Novo, aniversários e feriados transformam-se num campo de batalha. Cegos de raiva pelas frustrações de parte a parte, torna-se difícil para eles perceberem os terríveis danos emocionais que estão causando aos pequenos. Colocados na posição de mensageiros de recados malcriados entre os dois lutadores, os filhos vivem a agonia do entrave, tornando-se também confusos e inseguros, pela impossibilidade de escolher entre dois amores igualmente importantes. Sem que tenham consciência disso, os pais vão contribuindo para a neurotização de seus filhos, pelas quase irreparáveis sequelas emocionais do terrível combate, do qual todos, sem exceção, sairão como perdedores.

Hoje, com os recursos das modernas técnicas terapêuticas, o processo de separação conjugal pode se transformar num momento de identificação dos fatores inconscientes que contribuíram para a má escolha. Pode ser também um momento de reflexão e aprendizagem sobre os critérios de escolha utilizados, para que o mesmo não venha a ocorrer num segundo ou terceiro relacionamento. Sempre é possível identificar o que se aprendeu de útil com os erros cometidos.

O acompanhamento terapêutico do processo de separação conjugal visa, acima de tudo promover o esvaziamento da raiva gerada pelas frustrações de parte a parte, para que cada um dos cônjuges consiga perceber o limite de seu campo de ação, podendo, a partir daí, resgatar sua autoestima. Neste processo de conscientização, cada um começa a perceber que existe ex-marido e ex-esposa, mas não existe ex-pai ou ex-mãe. Também não existem ex-avós ou ex-tios, e a relações afetivas das crianças com seus parentes de ambos os lados devem ser preservadas, atendendo, inclusive aos quesitos da Lei de Alienação Parental e de Direitos dos Avós. Outro aspecto importante, que também será percebido, é o fato de que, quando eles fizeram um mau contrato de relacionamento, os filhos não foram consultados, até mesmo porque, na maioria dos casos, ainda nem haviam nascido, o que torna injusto envolve-los na contenda. A medida que cada um vai esvaziando suas mágoas, muitas delas com raízes em conflitos vivenciados na infância e projetados no casamento, pode começar a perceber, a partir das próprias memórias, a importância de se preservar a imagem positiva do pai e da mãe, como modelos que irão influenciar a escolha dos futuros parceiros afetivos.

Outro aspecto importante nesta delimitação é compreender que as relações entre os cônjuges e entre cada um deles e os filhos envolve papéis sociais diferentes, e que um mau marido ou uma má esposa pode ser, ao mesmo tempo, bom pai ou boa mãe. E que, quando um cônjuge tenta denegrir a imagem do outro para os filhos, está lhes causando um sofrimento inútil e que, como sinalizamos acima, infringe a legislação pertinente.

Como geralmente o casal em processo de separação, não procura ajuda profissional para identificar os fatores emocionais que emergem nesse momento difícil de suas vidas, os conflitos vão se acumulando através do tempo, às vezes passando de uma geração para a outra e perpetuando este triste modelo de solução (?) de conflitos.

O despertar da consciência de que os filhos não devem ser envolvidos na disputa conjugal; de que, em nenhuma hipótese eles devem ser transformados num troféu de vitória de um sobre o outro, caracteriza o mínimo de respeito que as crianças merecem e necessitam, para tornarem-se adultos emocionalmente saudáveis.

Site: www.suelimeirelles.com

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