Revista Statto

RETORNO A APROPRIAÇÃO DO MEU ORIGINAL

09/08/2019 às 16h51

Em recente viagem ao sul da Bahia pude ter o privilégio de retornar à Coroa vermelha, local onde foi realizada a primeira missa no Brasil, o desdobramento da expansão marítima-comercial europeia e dizem que foi onde a história do Brasil começou, será? Ali encontra-se parte da cultura do índios Pataxós. Muito artesanato, mas não senti toda a apropriação e orgulho deste povo em estar vivendo como nossos ancestrais. Estudei um pouco sobre a história, nossa história, e vi que eram uma aldeia chamada de hostil porquê não aceitavam a mistura com os colonizadores, como muitas outras aldeias o faziam. Se bem li, a esta violência, e não tem como ser dito de forma diferente, de 1500 até os nossos dias o homem colonizador e seus seguidores tiraram as terras, tiraram seus costumes, os direitos de viver como querem, e assim também tiraram o respeito próprio e a sua força, antes brutal agora “pacífica”, em nome da civilização estampada de progresso.

Com os olhos renovados de uma visão mais ligada à medicina natural e também a apropriação do meu corpo feminino tive alguns questionamentos internos que pulsavam sobre como seria meu encontro com os índios, já que muito dos meus estudos se baseia também nos ditos populares e ancestrais.

O que me comoveu em escrever este pedaço de pensamentos e indagações foram as conversas em torno das minhas inquietudes sobre os preconceitos que tenho, vivencio, tive e já descartei sobre a cultura indígena e o que me choquei foi ouvir e identificar que ainda somos muito desconectados com nossos povos originários e não os respeitamos inteiramente e integralmente ainda, nem de alma e muito menos de corpo. Não os conhecemos, não os respeitamos, não os olhamos…. Após perguntar aos locais e até aos turistas sobre como são os ensinamentos e cultura deste povo, o qual somo extensão.

Vendo que muitas vezes o próprio índio não uiva seu poder ancestral e original e não se porta de maneira mais posicionada quanto a importância de ser indígena e de ser dono de uma parte da história do Brasil e do mundo como um dos primeiros a entender e satisfazer a troca com a Grande mãe, com a terra, com a natureza, com o universo. Está aí a nossa essência. Entristeço ao ver que não há esta visão por parte deles, talvez porque tiveram tantas batalhas para travar que se perderam dentro delas.

Pouco nos curvamos a fragilidade de um povo que em primeira instância sofreu um grande roubo de si mesmo e continuam a serem ignorados, algumas vezes rechaçados.

Continuam a ignorar a maneira deles viverem, usurpam da suposta ingenuidade deste povo e acham que devem ensinar-lhes algo sobre o mundo quando exatamente é ao contrário. Viver em harmonia com o corpo, mente e espírito (que é como os índios viviam) é viver em equilíbrio com o que é mais natural. O clima, as estações do ano, as fases da lua, o sol, a água, o fogo, o ar, a terra e tudo que está em torno de tais funcionalidades no nosso planeta, ditam o que é e o que devemos ou não devemos ser ou estar.

Me indago quando todos estes povos originários e originais poderão gritar alto e alardearem seus feitos e nós quando iremos ouvir e seguir esta sabedoria que nos faz bem quando aprendida e honrada em nosso mais profundo centro de poder. Não é do nosso racional que ativamos nossa energia e saberes, mas do coração, do peito e do útero do ser mulher. Nossa força está no nosso espírito e este está ligado à nossa ancestralidade que está na terra, na Natureza.

Está na hora de olharmos para o povo indígena com outros olhos e também ajudá-los a entenderem a sua história, a sua força e assim por consequências nossa força vingara, da terra, do que perdemos, tudo isso faz parte das soluções dos problemas que criamos por não reverenciarmos nosso passado. Todas as nossas existências estão ligadas e conectadas. Acredito que este meu rezo não é sem sentido ou em vão, porque se eu fui tocada por estes sons de flautas, maracás e catacá quase inaudíveis, tantos outros também o serão.

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