Revista Statto

A NEUROSE E O IMAGINÁRIO

03/03/2020 às 16h29

Estava lendo Mitos de Criação da Marie Louise Von Franz quando me deparo com um trecho que chamou a atenção. Algo já comentado por Carl Jung sobre a neurose e o processo psicoterapêutico.

Von Franz observa que nos mitos, quando um mundo novo vai ser criado, é sempre necessário um sacrifício. Alguém morre, ou um deus, ou gigante, ou uma criatura humanoide.

A vítima, nesse caso, sempre está ligada a uma condição anterior que deve morrer para que um novo mundo, ou uma nova condição consciente, se apresente.

Von Franz ainda salienta que cada passo adiante, visando à construção de mais consciência destrói o equilíbrio vivo em vigor até agora.

E é aí que entra uma questão muito delicada: o quão difícil e doloroso é para o ego se separar de uma situação neurótica.

Pois de certa forma a neurose gera uma espécie de equilíbrio, uma zona de conforto. O ego se apega a essa situação, pois em sua fantasia, ele enxerga o seu fim.

E o ego tem medo do novo, tem medo de perder o controle e não ser mais o centro.

Por essa razão há sempre certa resistência em se libertar da neurose. Ela ao mesmo tempo em que traz a cura traz um equilíbrio por compensação. Mas esse equilíbrio precisa ser rompido!

Esse é um momento delicado e crucial na psicoterapia. E até que ponto o psicoterapeuta tem a sensibilidade de perceber isso, que a pessoa não se “desgruda” de sua neurose?

É muito comum o analista cair na tentação de encaixar todos os sintomas em termos: “Resistência”, “Complexo de Édipo”, “Dominação pela anima”.

Nomear a neurose pode ser um grande perigo, porque ela ganha um significado tremendo. Não que o analista não deva conhecer a teoria, mas é como Jung mesmo disse devemos conhecer todas as teorias, dominar todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.

Pois a neurose pode ser apenas uma fantasia da neurose, um medo de se desconectar com o passado e com o que é conhecido. Devemos perder o medo de seguir em frente e deixar o fluxo da vida seguir.

Muitos analistas não conseguem ajudar seus clientes nessa tarefa de desapego, pois eles mesmos estão apegados as suas neuroses.

Mas é importante nos atentar que nenhuma vida nova pode surgir sem que ocorra um declínio e o sacrifício da que havia anteriormente.

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