Revista Statto

ACUMULAR DORES

01/10/2019 às 17h17

Não jogue isso fora! Isso não é lixo. Você não entende que um dia eu posso precisar? Esta simples frase denuncia o drama frequente dos pacientes com diagnóstico de colecionadores patológicos ou Síndrome de Diógenes, quadro que despertou o interesse da psiquiatria em 1975, recebendo tal denominação por ser Diógenes de Sinope, um filósofo grego do séc. IV a.C., mencionado pela literatura como pessoa que vivia como mendigo e dormia em um barril, assemelhando-se à descrição dos pacientes portadores desta síndrome.

A incidência maior é entre pessoas acima de 60 anos que residem sozinhos ou com familiares, e possivelmente seja portadora de demência ou algum outro transtorno psiquiátrico. A síndrome acomete indivíduos pertencentes a todas as classes sociais em tanto entre homens e mulheres. Apesar de ser conhecida como uma doença da terceira idade, pode ocorrer em adultos jovens.

A Síndrome de Diógenes se caracteriza pelo comportamento descontrolado de colecionar objetos sem utilidade ou valor material, desde os mais simples e pequenos como: frascos de desodorantes, papéis ou embalagens já utilizadas, revistas e periódicos ultrapassados, como os objetos atípicos: móveis, carros, cédulas de dinheiro ou moedas sem valor, etc.

Quando questionados sobre tais comportamentos, estes pacientes tentam manter segredo, sentindo-se constrangidos, alegando não conseguirem controlar tal situação, amedrontando-se diante da proximidade de alguém que possa mexer em sua coleção, jogando fora ou mudando a ordem de seus objetos, ou mesmo sugerindo tratamento, agravando assim os prejuízos.

Alguns pacientes revelam que os objetos retratam sua vida, referindo-se a situações importantes do passado: um guardanapo de 1939, ano em que conheci fulano, a garrafa de vinho do restaurante tal, e isso não tem fim; é como se, sem os objetos, o paciente ficasse sem memória, sem vida e sem identidade.

Outro relato é que preferem viver assim: cercados de coisas, sem precisar se relacionar com ninguém, alegando que o mundo está difícil e que as pessoas são más, insensíveis e egoístas.

Entre os fatores que levam um paciente com Síndrome de Diógenes a procurar tratamento, destacam-se: perda da qualidade de vida devido à insalubridade e perda da funcionalidade do espaço físico; divórcio e perda da custódia dos filhos; problemas com a inspeção sanitária; dificuldade de relacionamento com vizinhos e demais membros da família; sensação de impotência diante da compulsão; problemas financeiros (aquisição de lugares para acomodação de mais objetos); sintomas depressivos e ansiosos.

Considera-se as alternativas de tratamento, como verdadeiros desafios, já que se trata da mudança de comportamento e desapego desses objetos de grande valor emocional. No que se refere ao tratamento medicamentoso, não existe, ainda, um específico para esta finalidade. Geralmente os fármacos indicados para o tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo — TOC e outros antidepressivos, anti-psicóticos, ansiolíticos…, conforme orientação do profissional da psiquiatria e concomitantemente com a psicoterapia individual ou em grupos com acompanhamento de um psicólogo.

Finalizando, cabe ressaltar que o ato de colecionar faz parte do desenvolvimento normal, quando não nos é custoso. Exemplos de crianças que colecionam figurinhas, adultos que colecionam chaveiros, selos etc.

Temas coerentes com a faixa etária, com a finalidade de entretenimento e socialização, causando orgulho e melhoria na qualidade de vida, situação bem diferente do paciente descrito acima.

OUTROS SINTOMAS

Caracteriza-se por descuido extremo com a higiene pessoal, negligência com o asseio da própria moradia;

Isolamento social, sendo frequente a ocorrência de colecionismo;

Isolamento social, suspeição e comportamento paranoico mantido pela percepção de que as pessoas não concordam com o seu colecionismo, incomodando-se com o desleixo e o prejuízo em sua qualidade de vida e de seus familiares;

Dificuldade para valorizar aspectos relevantes do ambiente, sugerindo perda de contato com a realidade (aspecto psicótico);

Dependência emocional dos objetos, caracterizado principalmente pelo medo de descarta-los,

Indecisão e ansiedade diante de escolhas, sendo, para estes, um ato de excessiva responsabilidade, principalmente no que se refere à possibilidade de descartar os objetos, podendo gerar culpa e arrependimento;

Incapacidade para priorizar, com inabilidade para organização e categorização;

Falta de flexibilidade e inabilidade em lidar com mudanças;

Significativas alterações de humor (quadro depressivo).

Vale ressaltar que é importante ter empatia. E se colocar no lugar do acumulador e entender que se trata de uma doença. Conversar com respeito e atenção, com a intenção de aos poucos ir conscientizando e oferecendo ajuda e apoio.

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