Revista Statto

COMPLEXO DE CULPA – UM ENFOQUE PSICANALÍTICO

14/12/2020 às 15h56

Porque sempre nos autopunimos?

Quantas vezes já não tivemos atitudes que nos trouxeram forte arrependimento depois? Quantas coisas já não fizemos no auge da raiva que magoaram pessoas queridas e nos trouxeram arrependimento, tristeza ou até mesmo mudança no rumo de nossas vidas? Ou ainda, porque muitas pessoas não se tratam de um mal ou doença, sabendo que haverá piora no quadro de saúde, posteriormente? E finalmente, porque existem pessoas que dirigem um automóvel a 120 Km/hora sabendo do risco de morte?

Essas atitudes, aparentemente isoladas, são o reflexo de um estado mental que afeta todos os seres humanos, em maior ou menor intensidade, que é o “inconsciente desejo de punição”. Então, por que muitas vezes, sem percebermos, nos autopunimos? A resposta é simples: se nos punimos é porque há uma condenação a ser cumprida. Se há uma condenação a ser cumprida, é por que somos culpados por alguma coisa que fizemos ou deixamos de fazer. Se somos culpados é por que alguém nos condenou. Finalmente, quem nos condena de forma tão severa a ponto de nós próprios desejarmos, inconscientemente, nosso mal? A resposta também é simples: Nós mesmos nos condenamos a pagar pela culpa que sentimos.

O sentimento de culpa se origina de nossos impulsos violentos, agressivos ou taxados de pecaminosos. Passada a irritação, sente-se a irracionalidade desses impulsos e segue-se esse sentimento de ilógica, de estupidez e de culpabilidade. Quando o sentimento de culpa se torna quase permanente, obsessivo e irracional, estamos diante do verdadeiro Complexo de Culpa no sentido patológico ou psicanalítico.

Porque sentimos culpa?

Basicamente por duas razões, uma consciente e outra inconsciente.

No caso das razões conscientes, ao se cometer uma falta, pequena ou grave, passível de ser descoberta e sofrermos a punição pela nossa atitude, surge o sentimento de culpa social; é o arrependimento devido ao medo de sermos descobertos ou presos; na verdade o sentimento de culpa só ocorre devido ao medo da punição, pois se houvesse a certeza absoluta da impunidade o sentimento de culpa não ocorreria.

No caso das razões inconscientes, as atitudes do ser humano que geram culpa e desejo de autopunição surgem, inicialmente, na infância. O bebê deseja a atenção total e ininterrupta dos pais, mas como isso é impossível, ocorre a revolta contra eles; como o bebê também sente a necessidade de segurança dada pelos pais, ocorre a dualidade de emoções e o medo de ser punido pelos pais. À medida que a criança cresce e comete “travessuras” que prejudicam os pais, ocorre a racionalização e compreensão da atitude errada e, juntamente com ela, o arrependimento. Caso a manifestação dos pais foi claramente de sofrimento e perda, a culpa surge na mente da criança por ter prejudicado a quem ama e os protege. Essa forte lembrança jamais se apagará da mente da criança e a acompanhará pelo resto de sua vida em outras vivências sociais que reportam ao trauma infantil.

A psicanálise nos mostra que a culpa, muitas vezes, estabelece limites e possibilita o convívio em sociedade, refreando nossos impulsos violentos. O sentimento que acompanha uma atitude irrefletida é a forma com que a maioria das pessoas acata a ética moral e cultural imposta pela sociedade em que vivemos. No desenvolvimento normal do ser humano, esse conflito permite que controlemos nossos impulsos agressivos ou totalmente egóicos.

Quais são as principais ações que geram sentimento de culpa?

À medida que o ser humano cresce e se relaciona com outras pessoas, surgem as ações erradas, tanto voluntárias como involuntárias. Nesse caso, muitas ações são um reflexo de nossos traumas de infância onde havia o constante conflito entre a criança e os pais e/ou irmãos. No momento que um inconsciente desejo de mal ocorre contra outras pessoas e os mesmos sofrem algum revés em sua vida, isso nós dá o desejado prazer da vitória, mas também o sentimento de responsabilidade sobre o fato ocorrido.

Um exemplo bastante característico é o sentimento de culpa que surge com a morte de entes queridos que pouco antes de partir foram mal atendidos ou negligenciados por nós ou mesmo atitudes inconfessáveis que prejudicaram a outrem e causaram prejuízo material ou psicológico. A sensação de culpa, nesses casos, é uma das sensações mais tristes e dolorosas que acompanhará a alma humana pelo resto da vida.

Outra forte geradora de sentimento de culpa é a sexualidade humana. Nossos desejos sexuais, em geral, reprimidos pela cultura e legislação vigentes, mesmo que não sejam materializados, mas apenas desejados, já são suficientes para criarem o sentimento de culpa e consequentes ações de autopunição como isolamento, falta de realização pessoal, forte angústia ou mesmo depressão. A maioria das religiões, principalmente a cristã, muito contribui para disseminar a sensação de culpa na mente humana.

Quando o Complexo de Culpa se torna uma doença emocional?

A partir do momento em que as emoções e os relacionamentos sociais são afetados pelas lembranças do que fizemos erradamente, ou não fizemos corretamente, surge a tortura mental crônica. O indivíduo passa a ser melancólico e isolado; sua vida sexual se torna insatisfatória dando a falsa idéia de que há algum problema fisiológico com seu organismo, quando na verdade o distúrbio e psicológico e afeta a plenitude da satisfação sexual. Em casos extremos, o indivíduo pode tentar o suicídio.

Quando o complexo de culpa atinge esses limites, a tormenta mental é avassaladora, mantendo o indivíduo sempre preso a seu passado, desperdiçando oportunidades de progresso e felicidades presentes.

Como tratar o Complexo de Culpa?

Nos casos patológicos descritos acima, a melhor atitude é procurar um bom profissional, preferencialmente no campo da psicanálise, onde este fará com que o atendido consiga perceber as causas inconscientes que acarretam sua infelicidade atual e compreender que não é por causa de erros do passado que devemos destruir nossa vida no presente.

A terapia psicanalítica buscará a causa do problema a ser tratada, posicionando o indivíduo de forma diferente perante a vida. Uma vez compreendidas e aceitas, nossas falhas não mais bloquearão nossos passos e, com isso nossa alma encontrará o progresso e a alegria tão desejados.

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Jose Bosco

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