Revista Statto

DIZER O QUE, NÉ?!

24/07/2019 às 21h43

Que feio dizer “né” no final de frase, “não é”? Mas a “ação” de dizer não é feia, e se o “né” não é bonito, tudo bem! Ah, claro… o “né” irrita; é um vício de linguagem. Como tal, e sem chance de se expressar em prol da sua própria defesa, é “julgado” e “condenado” a se arrastar pelas narrativas como se fosse uma falha; um defeito que pode distorcer uma realidade; desconstruir alguma coisa, e, o que é pior, pode mostrar uma falta-a-ser. Mas, contrariando a perfeição de um dizer, é essa falta que faz furo na estrutura “morfo-sintática” da língua e que permite ao sujeito de desejo dar o tom que quiser ao seu discurso, seja ele impregnado de vícios ou não.  O que torna forte, é o que irá produzir no outro e não a forma como será escrito.

Como bom “ad” (junto ao) “vérbio” (verbo) e nascido de uma “contração” alienada do “não é”, o “né” expressa a comunicação de uma sociedade que indaga; interroga, que tenta inter-relacionar-se com aquele que escuta. Direciona a atenção daqueles que o criticam para as inadequações lineares de uma narrativa sem vida, pronta, estancada nela mesma.  Ou, além disso, para as completadas e desenhadas falas que nada dizem. Mas que gozam, pois não há falta!  O “né” não considera um discurso perfeito ruim. Não, não é isso! Ele quer, sim, colocar a palavra em uso e este uso possui distorções, particularidades, significados na e para a sociedade. Atribui valor ao que tem valor: está claro, né? Você está entendendo? Esses questionamentos não denotam insegurança, mas reclamam atenção às palavras que vão surgindo, se colocando e se organizando como um novo corpo, uma nova forma de inscrição, uma nova vida, a qual é ofertada ao leitor.

Se a leitura possui fluidez, então há significado e se este produz “algo”, o curso deste texto cumpre sua função quando constrói um espaço que permite fazer laço, cuja articulação das palavras produz a amarração de um contexto de interlocução. Reproduz afeto quando circula, pois, se trata de uma construção organizada, especialmente, por meio da conexão verbal de um sujeito impregnado de desejo. Não haveria sentido se a palavra não circulasse e não ganhasse força. Como bem disse João Cabral de Melo Neto, em 1966, quando criou o poema “Rios sem Discurso”, a palavra estaria “em situação de poço, […] em situação dicionária:  isolada, estanque no poço dela mesma, e  […] porque assim estancada, muda, e muda porque com nenhuma comunica,  porque cortou-se a sintaxe desse rio”.

É no espaço promovido pela função da sintaxe da língua em uso que o “né” se presentifica nos discursos, fortalecendo e, ao mesmo tempo, fazendo laço, uma vez que quando as narrativas são escritas permitindo a entrada do leitor, estas simbolizam vida. É uma escrita de desejo que faz traço e deixa vestígios da subjetividade e do percurso do sujeito autor no mundo. Criando, de certa forma, uma barreira de contenção do gozo e fomentando novas possibilidades de laços sociais.

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