Revista Statto

12 TENDÊNCIAS PÓS-PANDEMIA (PARTE 2)

29/05/2020 às 08h33

Na parte 1 deste artigo abordei 6 tendências pós-pandemia, incluindo intensificação da migração, redução do consumo de combustíveis fósseis, mudanças no mercado imobiliário, especialmente corporativo, maior aceitação e uso da educação à distância, expansão sem precedentes dos serviços digitais e busca por saúde mental, além do aprofundamento da nossa percepção de interdependência. Nesta segunda parte, gostaria de apresentar meus pontos de vista a respeito de outras 6 possíveis tendências pós-pandemia em relação a atuação empresarial, hábitos de consumo e impactos ambientais e comportamentais. Vamos a elas?

Aprofundamento das desigualdades sociais – O prognóstico infelizmente não é positivo e também não é novo, já que a desigualdade social tem aumentado há mais de 5 anos consecutivos no país, de acordo com a “Escala da Desigualdade” da FGV. No entanto, pelo menos à médio prazo, especialmente no Brasil, a tendência é de aprofundamento das diferenças sociais. Enquanto as classes mais altas devem voltar a consumir com força total por conta da demanda reprimida por meses, (haja vista China e França com suas filas quilométricas em frente à Zara e Louis Vuitton), as classes mais baixas irão sofrer ainda mais com o agravamento da crise e quebra das micros e pequenas empresas. Também podem ficar ainda mais proeminentes as diferenças em termos políticos e visão de mundo pelo abismo absurdo entre uma e outra realidade. Por outro lado, este aprofundamento deve levar a um aumento da consciência de que as desigualdades sociais são um péssimo negócio para a sociedade como um todo. Em relação a este último ponto, confesso que não sei se é uma tendência, mas certamente é um desejo pessoal muito forte.

Maior exigência quanto a responsabilidade social empresarial – De maneira global, o consumidor será cada vez mais exigente em relação a postura das empresas, cobrando uma responsabilidade social real, e não apenas “de fachada”. Muitas tem demonstrado agora mesmo o poder de fogo que tem, não apenas financeiro, mas de mobilização, mostrando que elas podem fazer muita diferença quando o tema está sendo realmente levado a sério. Não apenas vimos um recorde histórico das doações empresariais chegando a R$ 2,2 bilhões (só o Itaú Unibanco doou mais de 1 bilhão de reais para o combate ao Covid-19), como testemunhamos mudanças nos processos para produção maciça de álcool gel e outros equipamentos hospitalares, além da construção de hospitais de campanha com expertise e recursos empresariais. A régua subiu e os consumidores estão mais atentos em relação à diferença que estas organizações podem realmente fazer quando têm vontade e agem para além dos próprios interesses.

Intensificação do movimento “Do it yourself” – Outra forte tendência é a intensificação do movimento “Do it yourself” (DIY – faça você mesmo), que já estava em franco crescimento antes da pandemia e agora ganha um fôlego impressionante, graças também ao aprofundamento da crise financeira. Desde fazer pão em casa, cortar cabelo, consertar eletrônicos, reparos caseiros, cada vez as pessoas tem se virado e aprendido (na marra que seja) a resolverem os problemas do seu dia-a-dia. Para alguns pode ser uma obrigação, para outros um novo prazer. Mas o fato é que, passada a necessidade de distanciamento físico, a questão financeira pesará muito no fortalecimento desses novos hábitos.

Novo olhar para os ambientes naturais – Presenciamos também no mundo todo uma regeneração impressionante dos ambientes naturais que tiveram uma folga mais do que merecida da interferência humana. Não tenho dúvidas de que isso terá um impacto na percepção das pessoas do que estamos fazendo realmente com o planeta. Arrisco mesmo a dizer que, assim como ver a Terra da Lua como um pequeno ponto azul flutuando no céu causou um impacto extremamente significativo na nossa percepção de mundo, ver como ela pode se regenerar sem nossa interferência também terá um impacto muito importante. Isso pode tanto ser algo positivo, no sentido de nos sentirmos mais responsáveis e cientes sobre o impacto da nossa presença no planeta, como em outro extremo debelar ações eco-terroristas onde a velha ladainha “somos o vírus deste planeta” ganha força. É preciso estarmos atentos e educar a geração atual e as seguintes a compreender que somos partes do sistema e que, assim como podemos ser parte do problema, podemos e somos parte da solução. Além disso, mais do que nunca temos valorizado os ambientes naturais até mesmo para a nossa saúde mental. Quem não gostaria de estar na praia agora, em uma montanha, em um lugar outdoor e, de preferência, natural? Daí a que realmente sejam tomadas providências para manutenção destes ambientes existe uma grande diferença. Acredito sim que os países desenvolvidos intensificarão seus esforços nesta direção. Mas para os em desenvolvimento, como o Brasil, sou menos otimista a respeito, pelo menos no médio prazo.

Maior valorização da educação, da ciência e das informações de fontes confiáveis – A necessidade é gritante justamente por se tratar de uma questão de sobrevivência. Nunca foi tão escancarada a urgência de priorizarmos a educação e a ciência para sairmos deste buraco que estamos nos enfiando cada dia mais. Fake News, dados distorcidos, falta de investimento em ciências, falta de educação e ignorância, literalmente matam no mundo todo. Já é difícil tomar decisões quando existe este arcabouço por trás, conforme bem viram os países mais desenvolvidos do mundo. No nosso então, isso está mais do que exposto. As pessoas estão cada vez compreendendo mais como estes temas afetam diretamente o seu dia-a-dia e que não se trata de luxo, mas de necessidade básica.

Ampliação do olhar para a coletividade – Estamos sendo forçados a termos um olhar mais amplo, saindo do “eu” para o “nós”. Redesenhamos nossas vidas e atividades cotidianas em prol do bem comum, acentuando o conceito de que ninguém é uma ilha e de que somos interdependentes. Assim, não apenas veremos um grande florescimento da valorização do contato com o outro pós-pandemia, mas o senso de comunidade ganhará um impulso significativo que deve se intensificar ainda mais nas novas gerações. O uso do “eu”, o pensamento individual, egoísta, tende a não apenas cair em desuso, mas ser rechaçado, fazendo com que a percepção do olhar para o coletivo ganhe cada vez mais espaço. Não se trata de uma visão que será incorporada de um dia para o outro, mas tudo o que temos vivido nos últimos meses e o que viveremos ainda, aponta para uma única saída: nos unir, olhar para o outro, ou perecer.

Estes dois artigos não têm a intenção de dar previsões infalíveis, mas sim palpites sobre o que considero serem tendências plausíveis a partir da minha experiência como especialista em Sustentabilidade e Comportamento Humano. São muito mais um exercício de reflexão e convite ao diálogo do que um ponto final. Assim, permaneço sempre à disposição para a troca que nos enrique muito. Convido você a entrar em contato comigo pelo meu Instagram @simplesmente.seja e continuarmos esta conversa. Um grande abraço e até lá!

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Juliana Feres

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