Revista Statto

A JANELA DO CORAÇÃO

12/07/2020 às 18h20

De acordo com o budismo, nossos olhos e coração determinam como enxergamos o mundo a nossa volta. O coração seria uma janela de onde vemos a vida, portanto, enxergamos aquilo que levamos nele. Teoricamente, se você tem um bom coração (se é uma boa pessoa), verá tudo o que a vida lhe apresentar com um olhar mais amistoso. Claro que a ideia é bem mais profunda do que essa simplificação. Mas podemos encarar isso como sendo a base dos preceitos budistas, que concorda com a máxima de que temos total liberdade de escolher o que fazer com aquilo que recebemos do mundo e das pessoas.

O fato é que, concordando ou não com esse princípio, parte da sua verdade é inegável. No convívio social é possível perceber que cada um de nós assimila o mundo de uma maneira distinta. Se prestarmos atenção às perspectivas de vida dos nossos amigos, familiares, colegas de trabalho e inclusive de nós mesmos, é evidente como uma mesma situação será compreendida de um jeito totalmente novo por cada um. Até mesmo uma história será contada diferentemente por mim, por você ou pela sua vizinha. A frase dita no ouvido da primeira pessoa no jogo do telefone sem fio difere daquela proferida pela última da fila. Todos já passamos por isso na escola ou em dinâmicas de emprego. A diversidade faz parte da nossa sociedade, deveríamos saber conviver melhor com ela.

Se somos seres diferentes, observando a vida de diferentes janelas, por que não respeitamos a paisagem vista pelo nosso semelhante? Alguns se dizem pessimistas, outros super otimistas, há aqueles realistas, tipo pé no chão, mas igualmente sensíveis a tudo. Contanto que uns não prejudiquem os outros, que todos vivam em prol de uma harmonia igualmente individual e comunitária, não deveria haver problema. Para que complicar a existência humana que por si só já é tão complexa?

Para cada janela, uma paisagem

A pandemia, o isolamento social, a longa quarentena e tudo o mais que estamos enfrentando nos faz pensar em algumas questões. Vivemos nossas vidas de certo modo até agora, instalados na nossa zona de conforto. Nunca poderíamos imaginar que experimentaríamos uma realidade como essa, algum dia. Outras gerações vivenciaram a gripe espanhola, a peste bubônica, a cólera, a tuberculose, a varíola, entre outras epidemias, mas na cabeça da geração atual parece existir o pensamento de que jamais vamos viver esse tipo de coisa. E aqui estamos nós, lidando da pior maneira possível com ela. Nas garras de um governo negligente, acompanhando o aumento diário de mortes — pelo menos aquelas registradas pelo Ministério da Saúde.

E como cada um está enfrentando a situação? Os profissionais da saúde que ora são ovacionados ora são repudiados pelos próprios vizinhos, pois podem estar portando o vírus. A população das enormes favelas, abandonada por quem deveria zelar pela sua segurança. A polícia nas ruas, que nem uma fiscalização decente é orientada a realizar, para que — aqueles que podem — fiquem em casa. Os moradores de rua, jogados a própria sorte desde o dia em que deixaram de ser dignos de alguma atenção pela sociedade.

Todos eles estão olhando para o que está acontecendo de um jeito único, de uma janela só sua. Alguns podem encarar aquilo que veem de forma positiva, outros têm somente a opção de lutar, sem esperanças concretas. É difícil exigir algo agora, dependendo de onde e como o indivíduo se encontra. Claro que um bom coração será ao menos empático, mesmo que não esteja em condições reais de fazer algo por si ou pelo outro, não prejudicará ninguém caso tenha a chance. Ainda é possível encontrar corações com janelas abertas para o sol; podemos compartilhar a mesma paisagem e colorir o restante do caminho difícil que temos pela frente.

Sem dúvida não é fácil, exigir algo nesse momento é delicado. Assim como é mais simples aceitar o conceito de livre arbítrio budista na teoria do que tentar praticá-lo honestamente. Precisamos tentar, no entanto, nos esforçando para evitar que a fatalidade sombria que estendeu em torno de nós um véu de nuvens opacas e ameaçadoras, tire as cores dos nossos olhos. Que eles consigam ainda enxergar um céu límpido ao nos debruçarmos nas janelas dos nossos corações.

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