Revista Statto

AS PRÓPRIAS MIOPIAS

07/09/2020 às 09h40

Os meus pais são míopes e eu por consequência, também. Isso sempre foi um incômodo para mim. Quando criança, sentia-me diferente por ter que usar óculos, ao contrário dos meus colegas. Infelizmente a cultura da comparação atinge até a infância. Enquanto míope aprendi a me aproximar, já que o distante era turvo.

Comecei a enxergar o não visto. Mínimas flores, formigas, pedras pequenas, brilhantes e então, um novo mundo começava a se descortinar para mim, porque eu o presenciava.

Ao longo do tempo e com um pouco mais de autoconhecimento, percebi que a miopia foi e é um grande canal de aprendizado. Sem ela, não chegaria perto do essencial.

De tanto buscar a aproximação por não enxergar bem o que está distante, encontrei a maior proximidade que poderia: dentro mim. Talvez se eu enxergasse sem necessitar de lentes corretivas, acreditaria que a única realidade era a vista através dos olhos externos e não teria a chance de aprender que o real é o que vivencio com sensibilidade, independente da visão. Quando tiro os óculos, vejo tudo embaçado. Então, os fecho e adentro no mundo intrínseco. O interior.

Todos nós temos alguma espécie de miopia, algum tipo de distorção da visão, algo que nos incomoda, que não aceitamos com facilidade e é onde se encontra a oportunidade para o despertar, o encontro com o que é primordial na própria jornada.

Mas só é possível ouvir e compreender as nossas miopias através do acolhimento, da não busca pela perfeição, da vulnerabilidade e da não comparação com a ilusão chamada de “os outros”.

Em algum ponto da vida e de alguma maneira, não conseguimos enxergar com nitidez e clareza necessárias e isso acontece como um alerta da vida para que não nos tornemos cegos e indiferentes ao que verdadeiramente somos.

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