Revista Statto

COPAS DAS ÁRVORES

06/03/2020 às 12h07

Aprendemos desde a tenra idade, através de nossos pais, avós, educadores tudo o que é certo e o que não é, somos orientados a todo momento a usar as palavras mágicas, “obrigada”, “por favor”, “desculpa” e “com licença”. Um grande e difícil aprendizado é sobre nossos limites, um aprendizado importante, árduo e tão necessário para que a convivência social seja saudável. Mas mesmo com tanta informação, muitas vezes não aprendemos ou fingimos não entender os limites que devemos respeitar.

Quando eu era adolescente meu pai em uma de nossas discussões me disse “ você tem tudo, menos limites” confesso que na hora achei bonito, eu era uma adolescente rebelde e não ter limites era justamente o meu lema. Mas no decorrer do tempo percebi que não ter limites estava se transformando em um hábito antiético, a falta de limites nos faz pensar que podemos tudo, beber demais, correr demais, falar demais, espionar bolsos, mexer em celular, “stalkear’ as redes sociais, questionar, proibir … proibir? Como vamos proibir alguém maior de idade de ser quem é?

Quando conhecemos alguém e escolhemos nos relacionar devemos prestar atenção nos hábitos, nas amizades e gostos por que depois de estarmos envolvidos emocionalmente parece injusto querer que essa pessoa não tenha os mesmos hábitos, ou não se comunique com seus amigos ou não beba ou coma tal coisa por que nos desagrada, e não adianta se jogar no chão e gritar, a tática que funcionava tão bem com nossos pais não funciona mais na vida adulta.

Para mim foi árduo compreender o limítrofe, foi uma lição que não aprendi na infância e não por falta de vontade dos meus pais, mas por que eu não quis, eu era repreendida, eu ia de castigo, mas a lição nunca era aprendida e o que não se aprender por amor, a dor ensina e ensina de uma forma para nunca esquecermos. Aprendi com a vida e foi muito duro perder as pessoas que amava pela falta de limites, eu não entendia que a individualidade existe e que o amor também precisa ser individual algumas vezes.

Um dia, meu pai e eu, fomos ao zoológico, eu com 39 anos e ainda sem limites e ele com seus 62, sentamos em um banco, ele gentilmente me trouxe um guaraná como nos tempos da infância e querendo me dizer algo iniciou uma conversa, como era de seu temperamento, despretensiosa:

– Está tudo bem contigo? Ele disse enquanto olhava para o céu.

– Mais ou menos, soube que vamos nos separar, não soube?

– Não!

– Pois é, ele me pediu a separação. Estou amadurecendo a ideia ainda. Separada com um filho de 9 meses, não vai ser fácil.

– Bom, não vai desistir, não é?

-Não eu vou lutar por ele até o fim.

– Não foi isso que eu quis dizer. Não pode lutar por alguém que pede uma separação. Quis dizer para não desistir do “amor”.

Eu respirei, um longo e profundo suspiro e ele continuou:

– Case de novo, e case de novo se for preciso, mas não desista de ser feliz e de amar alguém.

– Isso é um conselho? Ele sabia que odiava os conselhos.

– Não, desde os cinco anos não te dou mais conselhos. Mas quero aproveitar esse nosso tempo para te dizer que quanto mais observo as árvores mais eu gosto delas. São silenciosas, fortes, dão frutos, abrigam os pássaros e o mais fascinante de tudo, já percebeu que quando estão lado a lado elas crescem, mas cada uma no seu espaço? Elas não invadem o espaço uma das outras e por que será, não é? Ah por que elas têm limites! Sabia que algumas param de crescer em respeito ao espaço e a individualidade das árvores vizinhas? Não deve ser fácil para elas eu imagino, mas elas fazem esse esforço por respeito.

– Isso é um conselho.

– Se ainda houver tempo de aprender, aprenda!

Depois disso ficamos em silêncio por um longo período, sabia que ele queria que eu fosse como a tal árvore, sabia que todas aquelas palavras eram para mim, talvez como forma de aprendizado já que para uma mulher de 39 anos não cabe palmadas, nem “cadeira da vergonha”, mas aquele diálogo me deu mais vergonha que a cadeira e doeu mais que a palmada.

Logo depois ele faleceu, e eu percebi que talvez essa fosse a sua maior preocupação em relação a mim, o que o mundo faria comigo já que eu ainda não tinha limites, o quanto mais eu iria sofrer até aprender que cada pessoa tem a sua individualidade, o seu mundo, os seus amigos e isso não as afasta de mim.

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