Revista Statto

DESACATO ÀS COISAS GRANDES

01/10/2020 às 10h53

Vez que outra, eu fico brava com o não pequeno. Amaldiçoo a imensidão de pedra e digo que o meu despertar para a natureza está mais perto do que nunca. Sinto meu corpo mergulhar nas profundezas dos rios que só ouvimos reclamar se não mergulhamos fundo o suficiente. Fundo para não escutar. Fundo para ser rio também.

Queria, por vezes, chantagear os relógios para que deixassem o tempo fazer o trabalho dele sem pressa. Que não despertassem o seu sono silencioso a cada vez que, por algum motivo, achamos que já se passou tempo demais. Que já se passou tempo de menos. Eu, sinceramente, estou um pouco cansada de marchar no mesmo tilintar, que me limita algumas decisões importantes sobre o que não se vê. Me sinto arrasada quando perco a hora, mas às vezes penso que é sacanagem da hora esse costume travesso de fazer com que eu me perca de mim. E, então, descompassada com os ponteiros, encontrar, num tempo paralelo, o ritmo certeiro para um encontro mais demorado e profundo.

Sempre fui afeita ao amparo dos pássaros e ao pouso de suas asas. Gosto da sensação de descanso que sua imagem me passa ao sentar em uma árvore, descobrindo o suor de cada pelo consumido pela adrenalina de percorrer o céu. Me abre o apetite olhar o modo como comem devagar, pegando pequenas porções singelas em seus pequenos bicos, que dão a oportunidade a cada pedaço do que comem de serem apreciados de forma intensa.

Me sinto pássaro quando sento à janela para olhar seus movimentos. Observando na altura das árvores que são suas casas, coloco-me no papel de guardiã de sua rotina, trocando com cada um deles alguns olhares e cumprimentos ao longo do dia. Sentir-me pássaro é assumir o descompromisso com o tempo, adicionando brechas de liberdade às exigências engessadas das coisas grandes do dia. Prefiro demorar-me no que é pequeno e singelo.

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