Revista Statto

O CISNE NEGRO E O CORONAVÍRUS

21/03/2020 às 10h09

Amigos leitores…

O filósofo Karl Popper certa vez descreveu a relação de realidade com a percepção humana, usando a metáfora dos cisnes brancos e dos cisnes negros para elucidar a patética limitação do nosso quadro mental, face à complexidade do mundo. Existia uma crença ocidental muito simples, a de que os cisnes eram brancos! E toda essa certeza caiu por terra quando os primeiros navegadores britânicos chegaram à Austrália e se depararam com cisnes negros. O mais perfeito exemplo de como a percepção humana “era” limitada.

Hoje o conceito dos cisnes negros é usado para designar um acontecimento de impacto desproporcionado ou um evento raro aparentemente inverossímil, para lá das expectativas normais históricas, científicas, financeiras ou tecnológicas.

Acredito humildemente se tratar do famigerado coronavírus, face a ele as nossas certezas se esvaem, até então vivíamos com o quadro mental de ter o controle de tudo, a economia, os recursos naturais, o próprio planeta  e de repente, o mundo vira de pernas para o ar.

O COVID-19 veio nos mostrar que o mundo é feito de incertezas e mudanças, que a nossa civilização é frágil, que a vida é precária, que o nosso sonho de tudo dominar acaba sempre dominado pela dura realidade.

O coronavírus é trágico porque mata, e cada morte é uma perda que nada pode reparar. É claro que podemos mencionar um valor imensurável de mortes por outros vírus, acidentes, bala perdida e etc., porém essas mortes já fazem parte do nosso quadro mental e por isso já não assusta, são tidas como “normais”. O que assusta é um vírus novo, desconhecido, e muito contagioso. E por isso o coronavírus é um acelerador do medo.

Mas o que de bom pode-se tirar de tudo isso?

Penso que esse tal vírus com potencial apocalíptico também tem o papel de questionar o nosso modo de vida.

Vivemos hoje com nosso quadro mental na civilização da pressa, do movimento contínuo, das viagens constantes, do consumo frenético e exploração ininterrupta dos recursos e com a eterna pachorra procrastinada de mudança de comportamentos.

Por décadas acompanhamos os parcos resultados das sucessivas conferências climáticas, das proclamações dos líderes, dos gritos inaudíveis de ativistas e pouco ou quase nada mudou. E de repente o cisne negro do coronavírus obriga a pisar no freio, a moderar a pressa, a consumir menos, a reduzir as reuniões, as conferências, reduzir as visitas aos centros comerciais e aos polos de consumo, obrigou-nos a ficar em casa, a refletir, a reinventar o trabalho à distância, a mudar hábitos, e porque não; questionar os fundamentos do nosso modelo de desenvolvimento econômico e social?

Por outro lado, não seria o COVID-19 o responsável por reduzir as emissões de CO² e contribuir para a estabilização do clima do mundo?

Vamos tirar férias do planeta e o planeta de nós… E isso não poderia ser considerado o início de um novo caminho?

Foi preciso um vírus letal para nos obrigar a repensar?!

Tal qual a peste negra do século XIX que desintegrou o modelo de produção feudal, o coronavírus pode levar à desintegração do modelo de capitalismo selvagem, sem regras, sem regulação, sem controle que periodicamente abala o planeta?

Quem sabe essa parada abrupta da economia global não nos leva a uma introspecção profunda e à geração de novos ideais?

O poeta alemão Hölderlin escreveu: “Quem atravessa o perigo toca a salvação.” Será que depois de atravessarmos o perigo do coronavírus e de lamentarmos cada uma das mortes que ele vai provocar, conseguiremos sair do perigo com novos hábitos de vida, mais cientes das nossas limitações e da nossa fragilidade.

Como disse o escritor inglês Gilbert Chesterton: “O despropósito do mundo advém do fato de nós nunca perguntarmos qual é o propósito”.

Essa é uma excelente oportunidade para deixarmos de viver numa civilização em que a pressa é tudo, e o objetivo…. Não é nada.

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