Revista Statto

PRIMEIRO AMOR

13/04/2020 às 09h46

São Paulo, amanhecia branca por uma neblina baixa que mal dava para enxergar distintamente mais de 30 metros de distância. Não a São Paulo capital, mas uma de suas cidades alojamentos onde o povo se levanta ainda no escuro da madrugada para percorrer muitas horas de trem, metrô e algumas vezes ainda ônibus para chegar ao local de trabalho.

Naquele dia eu não estava indo ao trabalho como a maioria dos que seguiam para a estação de trem. Tinha que resolver algumas pendências na capital e como o dia fica pequeno para quem tem que fazer esse percurso de ida e volta e quer chegar à casa antes do anoitecer, é melhor seguir cedo rumo ao objetivo do dia.

Como era de se esperar o ônibus estava cheio, mas não lotado como fica no final da tarde trazendo trabalhadores e estudantes, quando até para entrar no ônibus é difícil porque no corredor entre os bancos se espremem um grande número de passageiros viajando de pé.

Entrei e ainda encontrei um lugar para sentar.

Por volta de vinte minutos de percurso e o ônibus parou em frente à estação de trem, subi as escadarias e já estava em frente a roleta de passagem para as plataformas e, por alguns minutos, pensei no trajeto que teria de fazer até a estação do Brás. Decidi rapidamente que iria de ônibus e fui logo saindo da estação e caminhei em direção ao ponto de ônibus intermunicipais.

Poucas pessoas iam de ônibus para São Paulo porque a passagem é mais cara e o vale transporte não cobre o preço de passagem de ônibus. Não era possível nem comparar a viagem de trem com seus vagões sempre abarrotado de trabalhadores com a viagem confortável num ônibus executivo, com poltronas macias e ar condicionado.

Entrei no ônibus que ainda estava bem vazio e escolhi sentar na fileira atrás do motorista, na segunda poltrona. Acomodei-me bem na poltrona junto à janela e fiquei olhando para o trânsito. Por várias vezes o ônibus parou nos pontos e pegava passageiros, mas eu sequer olhava para quem entrava. De fato, estava absorta em meus pensamentos que nem percebi que havia alguém sentado ao meu lado até que ouvi a voz de um homem bem próximo de mim dizendo que dentro do ônibus a temperatura estava agradável.

Olhei para a poltrona ao lado e vi um homem sorridente. Aparentava uns quarenta anos. Vestia um blusão de malha grossa marrom e tinha uma pequena bolsa sobre os joelhos.

Sorri para ele e concordei balançando a cabeça afirmativamente.

Assim que teve a minha atenção iniciou uma conversa sobre trabalho, dificuldade para ir de carro por causa do transtorno com estacionamento.

Eu escutava, mas ainda não havia falado nada quando ele perguntou se eu era casada.

Respondi que sim ao mesmo tempo que me ajeitava na poltrona para não esbarrar nele.

Olhou para mim fixamente e falou seu nome, perguntando em seguida o meu. Pensei: “essa viagem vai ser longa, lá vem cantada.”

O meu falante companheiro de viagem começou a contar sobre sua profissão e o quanto ele se sentia um profissional bem-sucedido.

Falou do quanto tempo havia vindo do Nordeste para São Paulo e como começou em sua profissão da qual gostava muito de trabalhar. Por alguns momentos ele deu uma parada na sua fala e novamente pensei: “agora deve estar esperando que eu fale algo sobre mim.”

Olhou para mim em silêncio por alguns minutos e perguntou se eu estava indo para o trabalho ao que respondi que não. Em seguida perguntou o bairro que eu morava. Ficamos em silêncio por alguns minutos e ele voltou a conversar. Dessa vez falando de como foi seu final semana e que havia dormido muito tarde porque tinha ido a uma festa na casa de um amigo. Foi logo em seguida perguntando se eu gostava de churrasco porque ele e alguns amigos iriam fazer no próximo final de semana e por coincidência o endereço era no mesmo bairro que eu morava e se eu quisesse ir, seria convidada dele.

Olhei para ele e perguntei se a esposa dele gostava de ir aos churrascos.

O homem se ajeitou na poltrona. Disse que ele e a esposa estavam numa situação difícil no casamento. Que ainda não haviam se separado por causa dos filhos. Que tinham três filhos. O filho mais velho estava com vinte e seis anos e não vivia com eles porque estava casado e tinha casa própria, que ele ajudou a construir. O segundo filho com dezenove anos estava prestando o serviço militar. Que o filho caçula estava completando dez anos naqueles dias. Que esse menino era muito apegado a ele.

Dessa vez o homem prolongou o tempo em silêncio.

Olhava para as mãos sobre a bolsa, ora olhava para o trânsito à frente do ônibus.

Depois de um certo tempo, olhou para mim com um semblante triste e recomeçou a contar a sua história.

“A minha esposa e eu nos conhecemos desde crianças. A gente começou a namorar na adolescência e ela engravidou quando estava com dezesseis anos e eu com dezenove. Com medo da reação do pai dela decidimos fugir para São Paulo e ficamos na casa do meu irmão que morava aqui com a família dele. Esse meu irmão arrumou emprego para mim na empresa que ele trabalhava e deixou a gente ficar na casa dele até arrumar uma casa para alugar. Pois bem, estou nessa empresa até hoje. Agora trabalho por empreitada e tenho meus funcionários.

Passei de empregado a prestador de serviço”.

A expressão do rosto dele se abriu com a satisfação de falar de seu trabalho. Começou novamente a falar de suas atividades e o assunto dispersou.

Novamente voltei a perguntar sobre a esposa dele. Perguntei onde ela trabalhava.

A expressão de seu rosto ficou apreensiva. O silêncio que se seguiu à minha pergunta me fez pensar em ficar calada. Parar de fazer perguntas sobre a família dele. Certamente esse assunto não era agradável para ele.

A verdade é que eu usava essas perguntas como uma estratégia para me livrar das cantadas, perguntando sobre a esposa dele como uma forma de fazer lembrar que é uma pessoa comprometida. Sempre funcionou. Eles começam a falar dos filhos e de outras coisas e deixam de lado o primeiro impulso de conquista.

Olhei pela janela e vi que a neblina se dissipava. O fluxo de veículos estava aumentando à medida que nos aproximávamos da Capital. Segurei a minha mochila contra o peito enquanto me ajeitava melhor na poltrona.

“Sabe o que é? – Falou subitamente – “A minha esposa e eu estamos ficando cada dia mais distantes. Pense bem! Estamos juntos quase que a vida toda e agora já andados na vida a gente está se tornando estranhos. Não consigo entender o que aconteceu. Ela não gosta mais de me acompanhar para lado nenhum. Sempre vem com desculpas de indisposição. Peço desculpas pelo que vou falar com você, mas nem dormir na mesma cama ela não quer mais.

Sempre com a desculpa que está sentindo muito calor e vai dormir afastada de mim na cama ou vai dormir em outro quarto. É sério que eu tento entender, mas isso está durando tempo demais. Parece que cada dia está piorando. Cada dia uma queixa nova. Nem mais reconheço nela a pessoa com quem convivo há tanto tempo. Sempre mal-humorada. Cheguei a pensar que ela arrumou foi outro homem e ela até chora dizendo que não faria isso comigo nunca.

Que me ama”.

“Não entendo! Porque ela está se comportando assim então, se afastando de mim desse jeito”?

Sentia que estava triste com a situação. Na verdade, estava analisando os seus sentimentos. Provavelmente não havia ainda comentado com ninguém sobre esse problema.

Olhei mais atentamente para o rosto daquele homem. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia o quê. Talvez estivesse ajudando só de estar ouvindo seu desabafo.

“Quero te falar que gosto demais da minha esposa. Tudo que construímos foi porque sempre fomos apoio um do outro. Criamos nossos filhos com carinho e sempre houve muita cumplicidade entre nós. Sabe que ela é o meu primeiro amor e os nossos planos sempre foi envelhecemos juntos, conhecer nossos netos e quando já tivermos aposentados, poder passear bastante nós dois juntos. Hoje nem sei mais se existirá um futuro nosso como planejamos.

Fazer o que”?

Ouvia o desabafo daquele homem quando me veio à mente o que poderia estar causando essa mudança de comportamento na esposa dele e perguntei a idade dela.

“Ela tem quarenta e três anos. É uma mulher muito bonita. Gosta de se cuidar.

Trabalha num salão de beleza. Quem olha para ela nem acredita que tem filhos adultos”.

Enquanto falava sorria lembrando com certa doçura da esposa.

Olhei para aquele homem por alguns minutos e comecei a falar que as mulheres quando chegam aproximadamente por volta dos quarenta anos passa por uma grande transformação no corpo.

Nessa fase a mulher sai do seu período fértil. Que daí para frente o corpo começa a sofrer mudanças cada vez mais rápido por causa da queda na produção hormonal o que afeta de diversas formas o funcionamento do corpo e inclusive o psicológico.

Falei que o excesso de calor que ela disse que sente é muito comum nas mulheres que estão na menopausa.

Ele olhava para mim prestando atenção e um pouco surpreso com o que ouvia.

Afastou-se um pouco do encosto da poltrona e virou mais para o meu lado mostrando um real interesse nas informações e pediu para que eu repetisse o nome dessa fase.

Dei continuidade ao assunto acrescentando que ela tinha que procurar um médico para fazer vários exames e assim saber como estavam as taxas hormonais e em muitos casos os médicos receitam reposição hormonal para que a mulher não sofra muito nessa fase.

“Como nunca ouvi falar disso? Nem mesmo ela disse nada disso para mim”?

As mulheres passam por essa fase de formas diferentes, mas algumas sofrem mais.

Pode estar certo, toda mulher tem sintomas inconvenientes. Provavelmente ela não conversou ainda com o médico para falar sobre isso e nem ela mesma deve estar entendendo o que está se passando com ela.

O homem se remexeu na poltrona. Agora estava ansioso. Olhou para as mãos, levantou a bolsa que estava sobre os joelhos e voltava a colocar.

Visivelmente um turbilhão de pensamentos vieram à sua mente e de repente levantou-se, colocou a bolsa na poltrona e ficando de pé no corredor virado para o meu lado.

Disse que ela tinha consulta marcada às nove horas e ele ia junto com ela.

Pegou a bolsa e caminhou até a porta que separa os passageiros do motorista. Abriu a porta e saiu.

Fiquei por algum tempo olhando para a porta e voltei o olhar para fora do ônibus.

Quando ouvi o barulho da porta sendo aberta, voltei o olhar e era ele com a bolsa pendurada no braço. Parou perto da poltrona onde eu estava e falou: “Quero agradecer pela conversa que tivemos. Você nem deve saber, mas você é o anjo que eu pedi a Deus para me dizer o que estava acontecendo com minha esposa. Muito obrigado e Deus a abençoe”.

O homem saiu novamente pela porta e pouco depois o ônibus parou. Certamente foi para ele descer e voltar para a casa. Teria tempo bastante para chegar a casa e acompanhar seu primeiro amor na consulta ao médico.

Segui a viagem. À noite, no conforto do meu lar, pensei: vou escrever essa história.

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