Revista Statto

SEGUINDO VIAGEM

19/09/2020 às 19h56

Cometeu suicídio várias vezes.  Foram três vezes para ser mais exato.

Dessa vez não poderia mais fugir.

Estava desesperado. Considerou que a solução mais rápida era dar fim a vida. Resolveu pular da janela do apartamento no oitavo andar. Olhou ao redor, o apartamento estava silencioso. Foi à janela e afastou as cortinas.  Uma rajada de vento soprou o seu rosto.  Ao seu lado o amigo sorrindo disse: – Dessa vez você não vai interromper. Não poderá fugir eternamente do aprendizado.

Ele olhou para o lado, parecia ouvir o que seu amigo dizia, deu de ombros com desdém.

Não podia ver seu amigo. Estavam em dimensões diferentes.

O pensamento novamente o encorajou: Num instante vai estar tudo terminado. Acaba todo sofrimento, todos os problemas estarão encerrados. Vamos!

Obedecendo ao comando, subiu no parapeito e pulou. A última coisa que viu foi o amarelo do pôr do sol no horizonte. Quebrou várias vertebras.  Não morreu. Ficou tetraplégico.

Chorou. Desesperou-se. Sua família o amava e fazia de tudo para que ainda assim estivesse bem.

Anos passando e já conhecia cada manchinha do teto. As lágrimas secaram. Esvaziou-se. Novamente olhou para o teto. Observou um sorriso se formando. Não tinha mais medo de nada. Nem mesmo daquele sorriso que apareceu no teto. Várias vezes se pegou sorrindo de volta. Começou a conversar com aquele sorriso. Parecia um sorriso amigável.

O sorriso ganhou rosto. Pensou que conhecia aquele rosto de outro lugar. Acompanhava a cada dia que o sorriso ganhava corpo e um dia o corpo desceu para conversar. Falou que estava junto quando ele pulou. Contou porque ele estava tetraplégico. Para não poder mais fugir. Para não mais pular da janela da locomotiva da vida como havia feito por três encarnações anteriores, toda vez que se deparava com as dificuldades. Toda vez que teria que mudar.  Dessa vez teria que seguir a viagem até o fim. Estaria sempre acompanhado por pessoas abnegadas para ajudá-lo, mas ninguém poderia fazer por ele a tarefa de evoluir. De esperar para ver que ele vence os obstáculos. Que depois do problema resolvido ele estaria mais forte e mais apto para a próxima fase do processo.

Teria que adquirir tranquilidade para aprender a tarefa mais difícil do existir; conhecer-se, dominar-se.

Que acalmando a mente poderia viajar. . .. Para dentro. Que dentro aprenderia muito. Que dentro, no silêncio, encontraria as respostas, venceria as dificuldades, se tornaria mais forte e feliz.

Descobriu que era livre. Conversava mais com os amigos e com o sorriso.

Um dia o trem da vida parou na estação para ele descer. Reverenciou agradecido o corpo inerte que o abrigou impassível por tantas décadas de aprendizado.

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