Revista Statto

TUDO É QUESTÃO DE EDUCAÇÃO

31/07/2021 às 14h21

Minha tia Ruth – irmã mais velha de minha mãe – era mulher de causar impacto onde chegasse.

E da mesma maneira que chegava causando boa impressão em algum lugar, se a conversa ficasse desinteressante, dava logo um tchauzinho geral e chamava ainda mais atenção por sua força, personalidade e beleza.

Beleza não padronizada e a força também não, no sentido literal.

Usou preto depois de ficar viúva antes dos 50, por muito tempo, até acinzentar, e do azul marinho um dia alcançou o vermelho.

Mas se todos estivessem de vermelho, tia Ruth estava de preto, e se todas estavam de saia, tia Ruth estava de calça.

Fase que gravo bem da sua aparência física, lá pelos seus 50 e alguns anos, tinha o rosto fino ovalado com discretas rugas, linhas que imprimiam ainda mais personalidade à mulher original, com quem tanto aprendi sobre seres e saberes.

A cabeleira escura densa e curta – o suficiente para cobrir a nuca e orelhas – era mechada de branco, com fios lisos levemente ondulados que ela moldava naturalmente com uma escova grande e raramente com um tantinho de fixador, na franja longa.

Enquanto ela se arrumava, eu olhava e segurava o ar encantada. Mirava os seus olhos arredondados escuros penetrantes, o nariz fino mediano, lábios sempre pintados com batom, hoje, talvez, o discreto rosa retrô.

O corpo bem modelado, com cintura fina e quadril largo na medida, desenvolvia-se em um desfilar ondulante acompanhado por pernas com coxas grossas. E com a permissão dela e daquela época, causava galanteios que em nada se comparavam às atuais azarações e xavecadas do estilo desce mais um pouquinho.

E eu menina, ficava admirada com aquela mulher, minha tia. Com ela aprendi, que a idade mental não está na certidão de nascimento.

Blusas soltas, saias e calças compunham o visual entre o casual e sofisticado, dependendo do humor e dia.

Usava sapatos, hoje, ao estilo vintage, com tira vertical no peito do pé, sempre com um saltinho 5, que conferia ainda mais elegância ao seu caminhar.

Em dias frios, usava botinhas de cano baixo feitas por um sapateiro da Rua Augusta, em cores variadas, não usuais para a época.

Fui crescendo e a tia me ensinando que o legal era ser diferente, que o não convencional era o legal.

Quando entrou a moda do biquíni jeans, eu com 13 anos, tia Ruth foi comigo ao centro e lá compramos um modelo que era, digamos, maior do que eu esperava. Tanto enchi as orelhas dela com meus resmungos que ela sentou na máquina de costura e afinou as laterais da calcinha.

Ebaaa, vou ao clube amanhã mesmo estrear! “ Vai nada” – disse ela – “ Antes, vamos bordar umas florezinhas com miçangas coloridas no top e na calcinha porque você não é igual a todo mundo”.

E lá fui em outro dia, a contragosto, toda cheia de florezinhas, e na piscina, causei óóós e entendi o tal poder do diferente.

Desde a morte do meu tio Vlad, marido de tia Ruth, contam os mais próximos, deu de pintar a óleo em telas, tecidos, placas, porcelanas e qualquer pedaço de base onde as tintas se fixassem. Tenho em casa, muitos quadros. E de tanto vê-la arteira, hoje arrisco em algumas artes.

Tia Ruth nunca teve uma profissão formal, mas ganhava dinheiro o quanto necessitasse: costurava, bordava, tecia, pintava, inventava qualquer tipo de artesanato que ninguém tinha feito e ainda sobrava tempo para jogar um carteado com os amigos.

E se a noite do carteado era de frio, no móvel baixo da sala, ela pegava um cálice e vagarosamente entornava a garrafa de conhaque. Bebida, dizia-se, para gostos masculinos. E saboreava aos pequenos goles para esquentar. Com ela aprendi sobre liberdade de escolhas e limites. E também sobre igualdade. 

Cozinhava bem e moderadamente. Na mesa de tia Ruth tinha feijão, arroz, legumes, verduras, pouca carne e gelatina de abacaxi com maça boiando na superfície, para finalizar. Tudo em pequenas porções, e por respeito, porque afinal, desde aqueles tempos as pessoas morrem de fome.

Escrevia pensamentos e poemas, lia livros de filosofia e estudava tudo sobre a anatomia do corpo humano e as culturas de uma maneira geral. Com ela entendi, que saber um pouco de tudo facilita o caminhar.

Na casa da tia Ruth eu podia tudo. Mas também tinha regras. Eu assistia novela e dormia depois das 24h, coisa que minha mãe não deixava. Minha mãe também era moderna, mas em se tratando de filhos, nem tanto. A coisa ficava mais na teoria. Sobre novelas, aprendi que não me acrescentam nada. E que dormir tarde cansa o corpo no dia seguinte.

Tia Ruth morou por muito tempo no Centro, na Rua Amaral Gurgel, e eu me lembro da sua atitude cortês com os encarregados do prédio, pedintes, moradores em situação de rua, excluídos e discriminados. Naturalmente aprendi sobre gentileza e acolhimento.

Quando fiz 18 anos tia Ruth chorou. Eu morava em Santos, e na varanda do apartamento do 14 andar, eu, comendo um pedaço de bolo floresta negra, e ela, tragando um cigarro preso entre os seus dedos longos, olhou para mim com seus olhos grandes e soluçou: “ Ai que pena eu tenho de você, daqui em diante, tudo o que fizer de errado é por sua conta e risco, não tem mais essa de: “socorro mamãe”.  Nesse dia, achei que ela foi um pouco egoísta, me dizendo tudo aquilo no dia do meu aniversário, mas hoje, guardo o presente que ela me deu: o cigarro mata antes do tempo e cuidado…seus atos sempre tem um efeito.

Quando eu tive a primeira filha das três, tia Ruth, minha vizinha, veio visitar-nos logo que cheguei da maternidade.

Fez um cutcut na criança e disse: “ olha só, que bonitinha”, parabéns pela filhotinha. Me analisou com seus olhos úmidos sinceros e ordenou: “ Chupa essa barriga, encolhe o umbigo, nada de cinta para prender o abdome, deixe o músculo trabalhar e voltar ao normal”. Nesse dia fiquei com raiva, mas hoje, olho para minha barriga bem decente e penso: como era sábia essa minha tia Ruth!

Por isso quando o povo começa a falar muito sobre moda e inovação, rejuvenescimento e regimes malucos com pegada fitness, diversidade e inclusão, consciência mundial e respeito, eu penso logo na querida tia Ruth. A coisa é bem mais simples gente. É questão de menos falar e mais aplicar!

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